Camilo Castelo Branco (n. Lisboa, 16 de Março de 1825 - f. São Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890) foi um escritor português, de origem judaica pela via materna.
Teve uma vida atribulada que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários. Apesar de ter de escrever para um público, sujeitando-se assim aos ditames da moda conseguiu ter uma escrita muito original.
Camilo Castelo Branco teve uma vida atribulada, passional e impulsiva. Uma vida tipicamente romântica.
Foi órfão de mãe quando tinha um ano de idade e órfão de pai quando tinha dez anos. O que lhe criou um carácter de eterno insatisfeito com a vida. Estando órfão foi recebido por uma tia de Vila Real, e depois sendo recebido por uma irmã mais velha em Vilarinho de Samardã, em 1839. Recebendo uma educação irregular através de dois padres de província.
Na sua adolescência formou-se lendo os clássicos portugueses e latinos, lendo literatura eclesiástica e em contacto com a vida ao ar livre transmontana.
Aos dezasseis anos contrái matrimónio com Joaquina Pereira que cedo abandona. O seu carácter instável e irrequieto leva-o a amores tumultuosos (Patrícia Emília, a freira Isabel Cândida).
Camilo tenta cursar medicina no Porto. A partir de 1848 faz uma vida de boémia, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses, dedicando-se no entanto ao jornalismo.
Apaixona-se por Ana Plácido, e quando esta se casa, tem, de 1850 a 1852, uma crise de misticismo quando chegou a cursar o seminário que abandona. Ana Plácido é esposa de um negociante chamado Pinheiro Alves, um brasileiro (daí aparecer a personagem tipo do brasileiro tantas vezes nas suas novelas, quase sempre de maneira depreciativa). Ele seduz e rapta Ana Plácido e, depois de algum tempo a monte, são capturados pelas autoridades e julgados. Este caso emocionou a opinião pública pelo seu conteúdo tipicamente romântico do amor contrariado que se ergue à revelia das convenções sociais. Ficam presos na cadeia da relação do Porto, onde escreveu Memórias do Cárcere, tendo conhecido o famoso delinquente Zé do Telhado. Depois de absolvidos do crime de adultério, Camilo e Ana Plácido passam a viver juntos.
Entretanto Ana Plácido tem um filho, de origem incerta, teoricamente de seu antigo marido Pinheiro Alves, ao que se somam mais dois de Camilo. Com uma família para sustentar Camilo vai escrever a um ritmo alucinante.
Quando o ex-marido de Ana Plácido, Pinheiro Alves, falece em 1863, o casal vai viver para a sua casa, em São Miguel de Seide. Em 1885 obtém o título de visconde. Em 1888 contrái oficialmente matrimónio com Ana.
Ao lado de Ana Plácido decorre o final da sua vida. No entanto não encontra a estabilidade emocional acrescida dos problemas que a sua prole lhe dão. O filho Nuno é um vadio (de alguma maneira sai ao pai) o seu filho Jorge é deficiente mental. A progressiva cegueira deste autor leva-o ao desespero que culmina em tragédia com o seu suicídio por arma de fogo em 1890.
Terá sido Camilo Castelo Branco, Realista ou Romântico? A sua Obra é predominantemente romântica isso parece incontestável no entanto não é totalmente Romântica.
Camilo gostaria de se situar acima das escolas literárias. No entanto os modelos clássicos vão ter sempre peso na sua produção literária. Mas também se deixa impressionar pela literatura misteriosa e macabra de Ann Radcliffe. Foi imensamente influenciado por Almeida Garrett. No enquanto a fidelidade à linguagem e aos costumes populares ao cheiro do torrão (como aponta Jacinto do Prado Coelho) vão permanecer uma das suas maiores qualidades. A Crítica tem apontado que se por um lado Camilo nos enredos das suas novelas, com as suas peripécias mais ou menos rocambolescas, está claramente numa filiação romântica por outro lado nas explicações psicológicas, na maneira como analisa os sentimentos e acções das personagens, pelas justificações e explicações dos acontecimentos, pela crítica a determinado tipo de educação, não pode ser considerado simplesmente como romântico. Jacinto do Prado Coelho considera-o “ideologicamente flutuante, Camilo mantém-se um narrador de histórias românticas ou romanescas com lances empolgantes e situações humanas comoventes” e também diz que “O romantismo de Camilo é um romantismo em boa parte dominado, contido, classicizado”, e que há ao “lado do seu alto idealismo romântico a viril contenção da prosa, um bom-senso ligado às tradições e a certo cânones clássicos, um realismo sui generis, de vocação pessoal que parece na razão directa da autenticidade do seu romantismo.
Eça de Queiroz publica a primeira versão de O Crime de o Padre Amaro, já depois da sua exposição nas Conferências do Casino acerca do Realismo como nova expressão da arte. Isso faz com que Camilo, de certa maneira sentindo-se a perder terreno para o único prosador que lhe podia ser rival, envereda em duas novelas Eusébio Macário e A Brasileira de Prazins por tentar ser mais Realista. E o que é que é mais extremado que o Realismo? O Naturalismo. O resultado é de um certo efeito cómico porque Camilo, com a sua maneira de escrever particular, não se contém e acaba por fazer uma paródia do Naturalismo.
No prefácio do Eusébio Macário Camilo afirma que não tentou ridicularizar a escola Realista. E alega que “tenho sido realista sem o saber. Nada me impede de continuar”. e ainda que “Eu não conhecia Zola foi uma pessoa da minha família que me fez compreender a escola com duas palavras: “É a tua velha escola com uma adjectivação de casta estrangeira, e uma profusão de ciência (...) Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade” compreendi e achei eu, há vinte e cinco anos, já assim pensava, quando Balzac tinha em mim o mais inábil dos discípulos.”
Portanto: Camilo tenta apanhar o combóio da nova escola Realista, e fá-lo de uma maneira que não é isenta de chacota.
Fonte: pt.wikipedia.org
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, num prédio da Rua da Rosa, actualmente com os nºos 5 a 13. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, foi baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825. Os seus padrinhos foram o dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.
Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, pelo que se diz, porque o seu pai e a sua avó não queriam que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com alguém de tão humilde condição. A morte do pai obrigou-o a ir viver para Trás-os-Montes. Como era uma criança sensível e muito inteligente, vai sofrer grandes perturbações com todos os acontecimentos da sua infância. Ao longo da sua existência revelou-se um falhado nos estudos e nos amores. As vicissitudes da vida fazem-lhe despoletar a ideia de que a fatalidade e a desgraça são destinos a que não pode escapar. Foi um profissional das letras multifacetado, cuja obra o posicionou com uma das figuras mais eminentes da literatura portuguesa. Suicidou-se a 1 de Junho de 1890, na freguesia de Ceide, Vila Nova de Famalicão.
Fonte: CITI
Camilo Castelo Branco teve uma vida que pode ser confundida com uma de suas próprias novelas, ou seja, uma vida dramática e tão cheia de atribulações que chega a espelhar as histórias que escreveu.
Nascido em Lisboa em 1825, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843, matricula-se na Faculdade de Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a freqüentar a boêmia.
Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto. Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade, Camilo tem alguns amores passageiros até encontrar, por volta de 1824, Ana Plácido, a "mulher de sua vida". Essa nova relação amorosa, no entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.
Na impossibilidade de concretizar o seu amor, Camilo busca refúgio na religião e ingressa no Seminário do Porto, porém passa a ter um caso amoroso com a freira Isabel Cândida. Camilo permanece nesse seminário por dois anos e, depois de tentar o suicídio, consegue viver junto à sua amada, que abandona o marido para viver com o escritor. Logo depois o casal é preso pelo crime de adultério. Os dois são julgados, absolvidos e vão morar em Lisboa.
Camilo e Ana têm dois filhos com problemas de saúde e, por isso, enfrentam sérios problemas financeiros. Para garantir a sobrevivência da família, Camilo passa a escrever por encomenda, tornando-se o primeiro escritor português a viver exclusivamente da literatura. Em 1888 Ana e Camilo finalmente se casam. Ainda nesse ano o escritor começa a sentir os primeiros sintomas de cegueira, causada por uma sífilis crônica. Em 1890, a novela da vida de Camilo chega ao fim. Ele suicida-se com um tiro de pistola em 1º de junho.
O fato de ter de sobreviver da literatura fez com que Camilo Castelo Branco concentrasse seus esforços na produção de novelas (narração, usualmente curta, ordenada e completa, de fatos humanos fictícios, mas, por via de regra, verossímeis). Isso se deu porque esse gênero literário agradava ao novo público consumidor, tornando-se assim de fácil consumo.
Dentre a vasta obra composta por Camilo Castelo Branco podemos encontrar novelas de terror, satíricas, históricas e as passionais. Essas últimas compõem o gênero que mais caracteriza o ultra-romantismo português. Nelas são apresentadas personagens que, devido os obstáculos encontrados para a realização do amor, tornam-se verdadeiros mártires desse sentimento. As obras que merecem maior destaque são:
"Amor de Perdição" (1862); "O Irônico Coração" (1862); "Cabeça e Estômago" (1862); e "Amor de Salvação" (1864)
Fonte: www.mundocultural.com.br
Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e de Jacinta Rosa do Espírito Santo, uma sua criada. Antes dele, tinha já nascido uma outra filha do casal, Carolina. No ano seguinte, a família mudou-se para a Rua da Oliveira.
A mãe morreu em 1827 e o pai perfilha Camilo e a irmã dois anos depois, em 1829. Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa (1830), na escola de mestre Inácio Minas, situada na Rua dos Calafates, e depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.
No ano seguinte (1830) a família desloca-se para Vila Real, onde Manuel Joaquim tinha sido colocado como responsável pelos correios. Acusado de fraude, o pai é demitido em 1831 e regressa a Lisboa, onde acaba por falecer em 1835.
Os parentes decidem confiar a educação dos dois órfãos a uma tia paterna, Rita Emília — uma das personagens de Amor de Perdição —, e os dois regressam, por isso, a Vila Real (1836). Quando a irmã se casa (1839), instala-se com o marido em casa de um cunhado, o P. António de Azevedo, em Vilarinho de Samardã, nas proximidades de Vila Real. Camilo acompanha-a e recebe do P. António uma educação literária e religiosa tendente ao estado clerical; terá então sido iniciado nos clássicos portugueses e adquiriu os conhecimentos básicos de latim e francês. Simultaneamente contactou de perto com a vida rural, que depois iria descrever em algumas das suas novelas.
Com apenas dezasseis anos (1841), Camilo casa com Joaquina Pereira de França e instala-se em Friúme (Ribeira de Pena). O casamento precoce parece ter sido resultado de uma mera paixão juvenil, não tendo resistido muito tempo. No ano seguinte prepara-se para ingressar na Universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.
Em 1843 nasce a sua filha Rosa e decide inscrever-se na Escola Médica do Porto. Nos anos seguintes frequenta irregularmente as aulas e chega mesmo a perder o ano por faltas, em 1845. Pensou ainda em matricular-se no curso de Direito, em Coimbra, mas o projecto não teve continuidade. Nesse mesmo ano faz a sua estreia literária com o poema herói-cómico Pundonores Desagravados
Em 1846 encontra em Vila Real a jovem Patrícia Emília de Barros — sua prima — e foge com ela para o Porto, sendo perseguido pela justiça, em resultado da queixa dos parentes da moça. Passa a colaborar nos jornais O Nacional e o Periódico dos Pobres. Escreve a peça Agostinho de Ceuta, que é representada pela primeira vez num teatro de Vila Real.
Depois da morte da esposa (1847), Joaquina Pereira, muda-se para o Porto e entrega-se a uma vida de boémia, entremeada com escândalos de carácter amoroso, ao mesmo tempo que se dedica mais profissionalmente à actividade jornalística, prestando colaboração ao Jornal do Povo. Rosa, a sua filha legítima, morre e nasce uma outra filha, Bernardina Amélia, fruto da relação com Patrícia Emília.
Em 1850 instala-se durante algum tempo em Lisboa e passa a viver exclusivamente da sua actividade literária. É por esta altura que conhece Ana Plácida, noiva de Manuel Pinheiro Alves, o que não o impede de se envolver amorosamente com uma freira do Porto, Isabel Cândida Vaz Mourão. Decide então inscrever-se no seminário do Porto, decisão a que não será estranho o casamento de Ana Plácido, mas rapidamente abandona o curso de Teologia. Nos anos seguintes funda dois jornais de carácter religioso, O Cristianismo (1852) e A Cruz (1853) e continua a colaborar com vários outros, em ocasiões distintas.
Em 1857, transfere-se para Viana do Castelo, como redactor do jornal A Aurora do Lima. Ana Plácido vai também para lá, a pretexto de apoiar uma irmã doente, e a ligação entre os dois torna-se pública. O escândalo cria-lhe dificuldades com vários jornais em que colaborava. Talvez por isso decide publicar o jornal O Mundo Elegante, em 1858. Ainda nesse ano, sob proposta de Alexandre Herculano, é eleito sócio da Academia Real das Ciências. Por essa altura, Camilo e Ana Plácido passam a viver juntos e deslocam-se de terra em terra para fugir à justiça. Em 1859 nasce o filho Manuel Plácido.
Após queixa de Manuel Pinheiro Alves contra a mulher e o amante, Ana Plácida é presa em Junho de 1860 e Camilo foge à justiça durante algum tempo, mas acaba por entregar-se em Outubro, ficando detido na cadeia da Relação do Porto, onde é visitado pelo próprio rei D. Pedro V. Finalmente, em Outubro de 1861 os dois são absolvidos pelo juiz, curiosamente, pai de outra grande figura das letras, Eça de Queirós.
Em 1863, nasce em Lisboa o segundo filho do casal, Jorge, que viria a criar-lhe sérios problemas, com o seu alcoolismo crónico. Com a morte de Manuel Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, Manuel Plácido, legalmente seu filho, herda a casa de São Miguel de Ceide, em Famalicão. No ano seguinte, já instalados em São Miguel de Ceide, nasce o terceiro filho, Nuno, que viria, também ele, a manifestar comportamentos desregrados durante a juventude. Ao longo destes anos, Camilo desenvolve uma intensa actividade literária, ganhando notoriedade pública como escritor.
Em 1868 volta ao Porto para dirigir a Gazeta Literária. No ano seguinte passa longas temporadas em Lisboa, embora o domicílio familiar permaneça em São Miguel de Ceide. Anos depois, em 1875, pensando na educação dos filhos, transfere a residência para Coimbra. Dois anos depois, o filho mais velho, Manuel Plácido, morre. Por esta altura Camilo tem já alguns problemas de visão, que se irão agravar com a idade.
Mais tarde, em 1881, participa activamente no rapto de uma jovem para a casar com o filho Nuno. As relações com o filho degradam-se e Camilo acaba por o expulsar de casa em 1882. Em 1883, atormentado por dificuldades financeiras, leiloa a sua biblioteca. Em 1885 é-lhe finalmente concedido o título que ele solicitara em vão, quinze anos antes — visconde. Em 1888 casa com Ana Plácido.
Definitivamente cego, suicidou-se na sua casa em S. Miguel de Ceide, em 1 de Junho de1890.
Camilo foi seguramente o primeiro escritor profissional português. Durante quase toda a sua vida activa assegurou a sua subsistência e a da família, depois de assumida a relação com Ana Plácido, com os seus trabalhos jornalísticos e as novelas que publicava em ritmo frenético: a sua bibliografia ultrapassa muito a centena de títulos, descontada a profusa colaboração espalhada pelos jornais da época.
Essa actividade literária tão intensa — "forçado das letras", chamou-lhe alguém — bem como a leitura frequente e atenta dos escritores portugueses, sobretudo os clássicos, são os principais responsáveis pelo domínio da língua, que revela em numerosas passagens das suas obras. É verdade que o ritmo vertiginoso com que escrevia (o Amor de Perdição, por exemplo, terá sido escrito em cerca de quinze dias) não lhe permitia trabalhar como gostaria a escrita. Essa urgência da escrita é certamente a grande responsável pela irregularidade qualitativa da sua obra, onde encontramos textos de inegável qualidade a par de outros que não conseguiram resistir ao tempo.
Embora seja um escritor da segunda metade do século XIX, a verdade é que muitas das suas novelas reflectem o clima social, político e mental da primeira metade — época extremamente conturbada, a nível político, e marcada por profundas transformações de natureza social.
As invasões francesas, iniciadas em 1807, obrigaram ao exílio da família real no Brasil. Esse facto mostrou a fragilidade do poder estabelecido (a monarquia absoluta) e terá certamente dado força aos grupos sociais mais favoráveis aos ideais proclamados pela Revolução Francesa — liberdade, igualdade, fraternidade — ou simplesmente interessados em substituir o poder das classes tradicionais (nobreza e clero) pelo seu próprio poder.
Essas duas forças estavam muito equilibradas e o conflito entre absolutistas e liberais prolongou-se só vindo a resolver-se, a favor dos segundos, em meados da década de 30. O facto de as ideias liberais, de origem francesa, poderem ser associadas ao invasor do país (os sucessivos exércitos de Napoleão) terá fortalecido a adesão de muita gente ao grupo absolutista, adiando a implantação da monarquia constitucional. O anticlericalismo da facção liberal também não contribuía para a expansão das suas ideias, já que a população rural, religiosa, analfabeta e controlada pelo clero, rejeitava com vigor as ideias defendidas pelos "herejes".
Quando finalmente em 1834 os absolutistas são vencidos, o conflito transfere-se para o campo liberal, opondo conservadores e progressistas. A estabilidade só chegará em 1851, com a Regeneração.
Ora, Camilo formou-se, como homem e como escritor, nesta sociedade em efervescência. E é nesse clima de agitação, de instabilidade, que decorre a acção de muitas das suas novelas.
As suas novelas constituem um painel descritivo, em tom frequentemente sarcástico, da sociedade portuguesa do século dezanove. A sua atenção debruça-se sobretudo sobre uma aristocracia em clara decadência — material e moral — e uma burguesia em ascensão, que, aos seus olhos, se destaca pela boçalidade.
A obra de Camilo é, em grande parte, um reflexo do seu próprio percurso biográfico. A agitação, a instabilidade, os raptos, o conflito entre a paixão e a razão que encontramos nas novelas de Camilo, encontramo-los igualmente na vida de Camilo. Por outro lado, como profissional das letras que era, Camilo não pôde ignorar os apelos do seu público, que os editores traduziam sob a forma de pressões incontornáveis. Camilo vivia da escrta, e para isso precisava vender, o que implicava obedecer de alguma maneira às solicitações do público leitor. É essa sujeição aos gostos dominantes que explica também a "conversão" naturalista, detectável nas últimas obras de Camilo.
Independentemente dessas cedências, há na sua obra passagens antológicas, onde transparecem os costumes, os comportamentos, os geitos de falar do norte de Portugal.
A exuberância, o imprevisto, o excesso passional das suas intrigas cativaram igualmente a geração literária dita ultra-romântica, que o homenageou quase no fim da vida.
A intriga é quase sempre de teor passional, como se esperaria de um escritor romântico. Os impulsos do coração determinam a acção das personagens principais, que, normalmente, se defrontam com outras, movidas por outros impulsos menos ideais: o estatuto social, as rivalidades familiares, os interesses económicos...
As suas intrigas são frequentemente demasiado lineares, mas não se pode negar a Camilo uma capacidade de efabulação notável.
As condicionantes estéticas da sua época, os circuitos editoriais, a sociologia e psicologia do seu público e a sua própria personalidade impuseram à sua obra novelística características fortemente românticas. No entanto, a sua longa permanência de quase meio século na vida literária, e a sua dependência financeira da escrita, levaram-no, talvez a contragosto, a tentar acompanhar a evolução ideológica do seu tempo. Daí que o mais romântico dos nossos escritores nos apareça, quase no fim da vida, a ensaiar uma escrita realista e até naturalista.
É autor de uma obra multifacetada. Nela se destaca, como sabemos, a componente novelística, mas estende-se também pelo teatro, jornalismo, ensaios biográficos e históricos, poesia, polémica, crítica literária, além de dezenas de traduções e uma extensa epistolografia.
Fonte: pwp.netcabo.pt
Camilo Castelo Branco
(1825-1890)
Modelo da língua literária de sua época, Camilo Castelo Branco é fundamental na história da prosa de ficção do português, principalmente como romancista. Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa em 16 de março de 1825.
Cedo perdeu os pais, e teve muitas dificuldades na infância e adolescência. Casou-se aos 16 anos, deixou a mulher, tentou fazer medicina no Porto (1844) e direito em Coimbra (1845), viveu com outras mulheres.
Para prover o sustento fez jornalismo no Porto e, tomado durante meses pelo fervor da religião, em 1850 entrou para um seminário, que logo trocou pela boêmia portuense e a leitura de escritores franceses. A louca paixão por Ana Plácido, casada com um comerciante, levou à prisão dos dois por adultério (1861), na cadeia da Relação.
A união, porém, se consolidou: o casal jamais se separaria, indo viver em Lisboa, mais tarde em São Miguel de Seide, sempre com muitos problemas financeiros. Camilo Castelo Branco fez tudo para viver da literatura.
A concessão em 1885 do título de visconde de Correia Botelho não lhe melhorou as condições de vida, agravadas pela doença e pela ameaça de cegueira, além da melancolia crescente e autodestrutiva.
Camilo Castelo Branco representou em seu país diversas tendências da literatura européia do século XIX, mas tanto por convicções estéticas como por temperamento foi sobretudo um autor romântico. Versátil, de produção copiosa e que contemplou o romance, o teatro e a crítica literária, realizou-se como romancista de feição gótica, às vezes irrefreavelmente sentimental. Reconstituiu em suas obras o panorama dos costumes e dos caracteres do Portugal de seu tempo, quase sempre com uma profunda sintonia com as maneiras de ser e sentir do povo português. Daí a celebridade quase exclusivamente nacional, que deve à pureza da cepa de sua linguagem, capaz de abarcar todas as situações de seu universo cultural.
Obras. Na primeira fase Camilo Castelo Branco deu a suas novelas caráter folhetinesco, entre o patético e o macabro. Marcadas pela leitura de Eugène Sue são Anátema (1851), Mistérios de Lisboa (1854), Duas épocas na vida (1854), O livro negro do padre Dinis (1855). Outra etapa, de influência balzaquiana, valoriza a realidade social em Vingança (1858), Carlota Ângela (1858), A morta (1860).
Seus livros mais conhecidos refletem a experiência do cárcere, tratando em estilo conciso, mas brilhante, do amor reprimido e exacerbado: O romance de um homem rico (1861), o famoso Amor de perdição (1862), o Amor de salvação (1864), O olho de vidro (1866), A doida do Candal (1867), O retrato de Ricardina (1868), A mulher fatal (1870). De outra linha, Doze casamentos felizes (1861), Estrelas funestas (1861), Estrelas propícias (1863) veiculam intento moralizador.
Em Coração, cabeça e estômago (1862), A queda dum anjo e outros, prevalecem toques de humorismo discreto. Camilo também fez romances históricos, como O judeu (1866), e satirizou o realismo com Eusébio Macário (1879) e A corja (1880), tornando-se ele próprio um realista convincente em Novelas do Minho (1875-1877) e A brasileira de Prazins (1882).
Menos significativo como poeta, dramaturgo ou historiador literário, em seus últimos romances atingiu mestria extraordinária como observador e retratista dos tipos humanos e da sociedade de sua terra. Depois de saber que ficaria definitivamente cego, Camilo suicidou-se em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, em 1o de junho de 1890.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br