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DINOSSAUROS DO BRASIL

Novas espécies de ovos e de dinossauros descritos no Brasil podem ser exclusivos

Conífera
Conífera com 100 milhões de anos encontrada em Crato (CE).
É a espécie de vegetal mais comum no tempo dos dinossauros

A bióloga Claudia Maria Magalhães Ribeiro descreveu, pela primeira vez, um ovo de dinossauro encontrado no Brasil, em nível de gênero, e descobriu que o espécime pertence a um gênero diferente dos achados já relatados dentro da família pesquisada e relacionados a descobertas feitas na Argentina, Espanha, França, Índia e Romênia. Além disso, o ovo é também diferente de outros relatados na literatura específica para ovos fossilizados, o que implica, necessariamente, em outra espécie. Em pesquisa distinta, o paleontólogo Rodrigo Santucci descreveu quatro espécies brasileiras, igualmente diferentes das já conhecidas de titanossauros, dinossauros gigantes e herbívoros que viveram não só aqui, mas também na Argentina, França, Espanha, Inglaterra, Romênia, Índia, África, Madagascar e na América do Norte.

O trabalho de Claudia resultou na defesa de sua tese de doutorado, pelo departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há pouco mais de vinte dias. Mas não acabou aí. Há parte do material, analisado por ela, ainda não classificado. Mesmo o que foi coletado e já identificado, um ovo encontrado em Peirópolis (Uberaba/MG), em 99, já tem nome científico e que será publicado em breve, entretanto, nomear uma nova espécie não é algo simples, como leigos poderiam presumir. É um trabalho que requer anos de estudo detalhado.

Encontrado quase inteiro, o ovo que Claudia analisou estava também muito bem preservado, o que colaborou para a classificação, segundo ela. "Os processos envolvidos na preservação do material foram muito favoráveis. O material deve ter sido recoberto rapidamente", explica. Menos da metade de outro ovo, esse achado em 93, e diversos fragmentos de casca de ovos foram estudados e classificados juntamente com o espécime de Peirópolis, trabalho que ela publicará também este ano.

Rodrigo Santucci está igualmente com seu trabalho por concluir. Depois de identificar três outras espécies de titanossauros, cujo material fóssil foi encontrado também em Peirópolis, ele ainda precisa terminar a descrição dos bichos e batizá-los. "O normal é que o nome evoque alguma particularidade do local onde o animal foi encontrado, ou que tenha a ver com a unidade geológica, ou alguma característica do próprio fóssil, mas não é tão fácil quanto parece", explica. É tarefa, segundo ele, que consumirá praticamente o primeiro semestre deste ano. Ele mostrou as conclusões sobre as três novas espécies ao defender sua tese de mestrado em janeiro último, pelo departamento de Geologia Aplicada da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O material estudado refere-se a vértebras de cauda e vértebras dorsais e de fragmentos do íleo, osso da bacia.

Ovos e esqueletos fossilizados, como é o caso do estudo de Claudia e Rodrigo, respectivamente, obrigam ao desenvolvimento de metodologias de estudo diferenciadas. Mas ambas as pesquisas apresentam algo em comum entre si e entre praticamente tudo o que é objeto da paleontologia, pois retratam parte dos animais e dos vestígios fósseis que pertenceram a uma época remota, e que ficaram preservados nas rochas. São estudos que, embora respondam a muitas questões, suscitam tantas outras.

Para Claudia, o fato de ter ocorrido no Brasil o ovo de um saurópode, esse grande grupo ao qual pertenciam os titanossauros, diferentemente de outros ovos já descritos, pode indicar que aqui viveram espécies muito particulares desses animais e por que não dizer endêmicas. "Pela idade do material e por tratar-se de um novo gênero, isto corrobora o fato de que é um ovo diferente de outros já encontrados no mundo", diz. Mas essa é uma pergunta que pede muitos outros estudos, inclusive com a colaboração da geologia.

A hipótese levantada pela pesquisadora serve de indagação e aponta uma reflexão científica. Ela acredita que será factível buscar uma resposta para a ocorrência, no Brasil, de outras espécies novas tanto de ovos, como de animais que viveram no Cretáceo, período geológico que corresponde ao intervalo entre 144 milhões e 65 milhões de anos. É o último da Era Mesozóica, que começou com o Triássico, e esse sucedido pelo Jurássico. Há 90 milhões de anos não havia mais contato entre a África e a América do Sul, por exemplo. "Talvez possamos comprovar um dia que os titanossauros encontrados aqui sejam únicos, já que a idade dos dinossauros desse grupo coincide com a época após a separação. Eles podem ter se desenvolvido, num ambiente distinto, a partir daí", especula.

Apesar de ter descrito três novas espécies de titanossauros, Santucci acredita que pode haver semelhança com outros já conhecidos e que não haveria bem um endemismo, ou seja, ocorrência única em determinado lugar. "Não há como comparar classificação de ovo com classificação de osso", argumenta. Na sua opinião, talvez até haja endemismo, tanto que ele mesmo encontrou espécies novas. O fato é que existem outras ocorrências na mesma região que são muito parecidas com titanossauros argentinos.

É justamente a relação entre a ocorrência de titanossauros, grupo no qual se especializou, e sua distribuição com a separação dos continentes que Santucci escolheu como tema de sua tese de doutorado. Nos estudos anteriores, ele mapeou a ocorrência do grupo em terras brasileiras. Agora ele busca respostas para uma série de indagações já traçadas, tais como: Por que eles ocorrem em determinadas áreas mais abundantemente? Houve contato com as espécies cujos fósseis foram encontrados na Argentina, no Uruguai e até no Chile? De onde vieram os titanossauros encontrados no Brasil, passaram pelo Maranhão quando a África ainda estava unida, nesse ponto, ao Brasil? Os dinossauros encontrados na Argentina se deslocaram do Norte do Brasil?

Mas o principal mistério para ele é em que continente, afinal, surgiram os titanossauros e qual deles está na base da árvore evolutiva. No final do Jurássico, por exemplo, conforme relata Santucci, viveram os titanossauriformes, grupo de grande porte que ocorreu na América do Norte e na Tanzânia, no qual estão incluídos os titanossauros. Os titanossauriformes mais antigos, até o momento, relata, são os Braquiossauros. "Talvez seja o grupo mais próximo", observa. O estudo requer muitas investigações e Santucci está ciente de que terá que lançar mão da geologia para chegar a essas respostas. "Os fósseis de titanossauros geralmente não são bons indicadores de idade geológica, por isso é preciso usar outros recursos como microfósseis. Usarei também as rochas para verificar a evidência da separação continental, ou seja, para dar uma estimativa de quando isso realmente ocorreu", explica. (Lana Cristina)

Estudo de ovos fósseis é feito pela primeira vez no país

Crânio de um crocodilo
Crânio de um crocodilo que viveu no tempo dos dinossauros, encontrado em Itapecu-Mirim (MA)

Entre os méritos do estudo de Claudia Maria Magalhães Ribeiro destacam-se a especialização, o ineditismo e a exclusividade de seu trabalho. Ela é a primeira e única pesquisadora, da área da paleontologia, que se dedica ao estudo de ovos fósseis, especificamente de dinossauros e crocodilomorfos. Esses últimos, eram animais com forma semelhante a de crocodilos atuais. O orientador de sua tese de doutorado, defendida no mês passado, o paleontólogo Ismar de Souza Carvalho, classifica o trabalho como a primeira metodologia clara e aplicada para descrição de ovos fósseis.

"O trabalho em si é uma contribuição, porque antes só existiam relatos da ocorrência desse tipo de material. Agora, com o estudo da Claudia, tem-se um resultado científico", avaliou. Numa análise mais ampla, Carvalho considera também importante o fato do ovo descrito ser do final do Cretáceo, período geológico ao final do qual desapareceram os dinossauros, porque é o registro de vida e não só de morte, como é feito normalmente na paleontologia. "Embora não houvesse restos embrionários, o estudo dela é um documento de vida, e isso prova uma dinâmica relacionada ao comportamento dos animais, porque afinal Claudia provou que os ovos eclodiram. Responde muito também sobre os aspectos da ecologia da época", analisou.

O geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro também comemora o trabalho realizado por Claudia, que é bióloga por formação, mas que desde o mestrado encaminhou sua especialização para o campo da paleontologia. Ele é diretor do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, que fica em Peirópolis, bairro de Uberaba, cidade do Triângulo Mineiro. O material analisado por Claudia pertence ao acervo do centro de pesquisas, que é também um museu paleontológico. "Fortalece o trabalho do museu, afinal o material foi coletado na região de Uberaba", disse. O centro pertence à Fundação Municipal de Ensino Superior (Fumesu), ligada à Faculdade de Educação de Uberaba. "É um centro avançado de pesquisas da faculdade", explica Ribeiro, que é seu diretor.

Dos seis ovos de dinossauros achados no Brasil, apenas os dois que foram objeto da tese de Claudia têm agora uma descrição. Os outros quatro estão no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), a quem coube historicamente a responsabilidade pela catalogação de materiais fósseis no país. "Um material desse sem descrição é perda de informação científica para o Brasil e para o mundo", lamentou Luiz Carlo Ribeiro. Um dos ovos que está no DNPM foi o primeiro coletado no Brasil, pelo paleontólogo que dá o nome ao centro de pesquisa de Peirópolis. A despeito do nome estrangeiro, Price era brasileiro e coletou diversos fósseis no país, principalmente nas décadas de 40, 50 e 60.

Ele encontrou o ovo em 1946, época em que eram raros os achados do material pelo mundo todo. Esse, aliás, foi o primeiro ovo encontrado na América do Sul, fato estabelecido de maneira formal por Claudia Ribeiro em sua tese. Em 1951, Price publicou sua descoberta e relacionou o ovo aos dinossauros saurópodes. Uma de suas principais fontes de consulta foi o trabalho de 1947, do Abade Lapparent, que descrevia ovos achados próximos a fósseis de Hypselosaurus. "A descrição não continha o refinamento das feitas hoje em dia, mas deu uma pista ao Price", conta o geólogo Francisco José Corrêa Martins, da UFRJ e também professor de história da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP). Price tinha a informação de que o material relatado por Lapparent era de um saurópode herbívoro, da família titanossauridae. Os ovos estudado pelo francês, encontrados na região Sul da França, tinham até 30 centímetros de diâmetro.

A conclusão de Price, que tinha em suas mãos um ovo de 15 a 18 centímetros, foi a de que o material lembrava muito aqueles relacionados ao Hypselosaurus, mas que, pelo tamanho de fato não o era. Além disso, não havia material fóssil dessa espécie no Brasil. E, como na região de Peirópolis ele próprio havia encontrado fósseis de titanossauros, estabeleceu então a real ligação entre os dados. "Mais de duas mil peças foram coletadas na época em que as escavações eram chefiadas por ele", relata Martins. "Price foi um pesquisador extraordinário, um paleontólogo de "mão cheia", que teve a perspicácia de dizer que o ovo parecia com o daquela espécie francesa já descrita, mas que não iria classificá-lo como, relacionando-o ao grupo dos saurópodes e, possivelmente, da família dos titanossauros. Ele fez isso imaginando que futuras descobertas ou descrições apoiariam suas assertivas. Passado mais de meio século, comprovou-se que ele estava certo", completa.

Price é mestre para a maioria dos paleontólogos brasileiros, tanto que Claudia dedicou sua tese de doutorado à sua memória. Ela ainda está com o material analisado, mas, em breve, deve devolvê-lo ao museu de Peirópolis. O bairro vive da cultura dos dinossauros. Diversos moradores trabalham na coleta de material fóssil. O próprio Centro de Pesquisas nasceu de uma espécie de levante popular contra pedreiras existentes no local e que incomodavam a vizinhança. Não bastasse isso, destruíam o sítio fossilífero. A prefeitura embargou a atividade extrativa e, hoje, os ex-empregados vivem da coleta de ossadas e ovos fósseis.

O ovo descrito por Claudia foi encontrado em 99 e está quase inteiro, medindo entre 15 a 18 centímetros. O ovo não tinha restos embrionários, mas ela sabe que eclodiu, em razão das estruturas internas da casca, detalhe que representa informação preciosa para outros estudos paleontológicos. Os grandes herbívoros que eram os saurópodes titanossauros mediam até 15 metros da cabeça à cauda, tinham 5 metros de altura e pesavam cerca de 15 toneladas. Eles viveram entre 160 milhões e 65 milhões de anos atrás, tendo sido encontrados fósseis desses animais na Europa, na Ásia, na América do Norte, na África (especificamente em Madagascar) e na América do Sul.

A família a qual pertence o ovo descrito pela bióloga, por exemplo, a Megaloolithidae, foi estabelecida a partir de ovos do final do Cretáceo Superior (entre 70 e 65 milhões de anos), encontrados em camadas sedimentares da Bacia de Aix-en-Provence, na França. Depois de determinar a família, baseada na descrição científica de outros trabalhos, Claúdia buscou o relato dos gêneros pertencentes a ele. "São três gêneros descritos para a Megaloolithidae, dentre o material do mundo todo, mas o ovo que eu estudei não se encaixa na descrição de nenhum deles", afirma.

O segundo ovo que estudou em sua tese também ganhou descrição, mas não é possível dizer se é do mesmo gênero. O material encontrado em Ponte Alta, a leste de Uberaba (MG), em 1993, tem menos da metade das cascas preservadas, o que dificultou o estudo. "Ele tem características morfológicas semelhantes ao de 99, mas ainda não sei dizer se se trata de uma nova espécie", comenta. Após estudar a formação da casca de todo material e os aspectos relacionados à preservação (estudos tafonômicos), Claudia os relacionou aos dinossauros saurópodes e, provavelmente, de titanossauros já que esses animais ocorreram em abundância na região de Uberaba, fato comprovado pela existência de grande quantidade de fósseis relacionados a esse grupo, ali. (Lana Cristina)

Patagônia argentina foi área de postura de dinossauros no período Cretáceo

Inseto fóssil
Inseto fóssil da Bacia do Araripe com cerca de 100 milhões de anos

Os achados de ovos na América do Sul estavam restritos a ocorrências pontuais, quando em 1998, um grupo de geólogos argentinos, em trabalho de campo, na província de Neuquén, encontrou uma extensa área com ninhos de dinossauros. Segundo a bióloga Claudia Ribeiro, até 1980, as ocorrências de ovos com restos embrionários eram praticamente inexistentes. Há referências de material desse tipo nos Estados Unidos, na Índia e na Mongólia.

Tudo muda com o achado dos pesquisadores argentinos. Depois que uma roda de um dos veículos utilizados no trabalho de pesquisa geológica afundou, em uma planície árida e seca, eles se depararam com algo realmente inesperado. O local, uma área de 3 Km², estava cheio de ovos e cascas de ovos, que depois se verificou serem de dinossauros e que representaria uma área de postura. Os ovos estavam próximos a um vulcão extinto em Auca Mahuida, na parte leste da pré-cordilheira andina, no noroeste da Patagônia argentina.

"A quantidade de ovos, cascas e embriões encontrados mostra que houve a ocorrência de um fenômeno natural repentino", conta o geólogo Francisco José Corrêa Martins. "Podem ter acontecido duas coisas: a área de nidificação foi recoberta pela inundação causada por antigos rios que por ali passavam ou talvez aquele vulcão estivesse ativo na época e, ao entrar em erupção, poderia ter derretido a neve perto de seu cume que, ao descer as encostas, transformou-se em lama, sepultando a planície", adiciona.

Como os ritos de acasalamento, postura e eclosão são influenciados pelo clima, ou seja, pelas estações, o achado argentino pode trazer muitas respostas sobre a ecologia do período Cretáceo e também sobre o comportamento desses animais. Martins vislumbra mais que isso. Para ele, junto com achados paleontológicos da América do Sul, como os do Uruguai, Chile e Brasil, entre outros, o material encontrado em Auca Mahuida pode ajudar na compreensão de como os dinossauros evoluíram após a separação dos continentes e, mais amplamente, sobre como ocorreu a própria separação dos continentes.

Há 207 milhões de anos atrás, a Terra era uma gigantesca massa uniforme, que agregava todos os continentes conhecidos hoje, chamada Pangéia. Nessa época, a Pangéia começou a se fragmentar, dando origem a duas superfícies terrestres, a Laurásia, situada mais ao hemisfério Norte e o Gondwana, localizada mais ao hemisfério Sul. A primeira era formada pelo que hoje é a Europa, a América do Norte e a Ásia e a segunda era formada pela Índia, Austrália, África, América do Sul e Antártica. Entre 150 milhões e 144 milhões de anos atrás, Laurásia e Gondwana não eram mais ligadas.

A separação continental continuou ocorrendo. A Índia, por exemplo, conforme relato de Martins, era então um sub-continente a deriva, migrando na altura da ilha de Madagascar, por volta de 65 milhões de anos atrás. "Era como se fosse uma grande jangada de pedra, como se fosse um continente isolado no qual, certamente, os animais se reproduziam", compara. Essa relação entre separação continental e reprodução de espécies, feita por ele, serve para uma reflexão pessoal e pertinente. No momento da primeira divisão da Pangéia, não havia os dinossauros e sim répteis primitivos que deram origem a esses gigantescos animais. "Embora eles possam ter tido uma origem comum, eles foram evoluindo, assim, distintamente, pelos continentes", especula.

O grande carnívoro Tiranossauros Rex, por exemplo, que é encontrado só na América do Norte, não está mais sozinho na escala evolutiva. Há outros terópodes carnívoros, que também são encontrados inclusive no Brasil, como os carnossauros. Para explicar a tese de que bichos semelhantes encontrados em continentes, unidos em outra era geológica, podem ter o mesmo ancestral, Martins enumera outros exemplos. Não há registro, por exemplo, do Iguanodon, um ornitópode herbívoro, na Índia ou no Brasil, que antes da separação total pertenciam ao Gondwana. O Iguanodon só foi encontrado até hoje na América do Norte e na Europa, continentes que pertenciam à Laurásia.

O mesossauro, um espécime réptil primitivo de hábitos terrestre, mas que vivia sempre próximo a corpos d'água porque se alimentava de peixes no final da era Paleozóica (que durou até 250 milhões de anos), por exemplo, é encontrado no Brasil, especialmente em áreas dos estados de São Paulo e Paraná. Fósseis do bicho também foram achados na África. "Era um animal que tinha pouca amplitude de deslocamento, como os teiús dos dias de hoje e, no entanto, foi encontrado em regiões do Brasil e África, o que me leva a crer que essas partes da América do Sul e da África, onde se encontram os fósseis de mesossauros, já estiveram unidas um dia", observa. Até no reino vegetal, há exemplo enumerado pelo geólogo. Uma planta da era Paleozóica, do período Carbonífero, a glossopteris, só existe em trechos de continentes que pertenceram à Gondwana.

Na lista de semelhanças, há ainda dois dinossauros descritos e achados no Brasil. O Aeolosaurus (pronuncia-se elossauros) e o Antarctosauros brasiliensis, por exemplo, foram identificados com base em material encontrado na Argentina. Para Martins, o Gondwanatitan faustoi, identificado em São Paulo, é uma sinonímia (mesma espécie com nome diferente) do Aeolosaurus, identificado por pesquisadores da Unesp, em Peirópolis (Uberaba, MG). "Em se tratando de áreas intracontinentais, é possível ter ocorrido um intercâmbio de fauna entre o que hoje são os dois países. Talvez as regiões que constituem as atuais províncias de Neuquén e Rio Negro, do lado argentino, e as cercanias de Uberaba, pelo lado brasileiro, por exemplo, tivessem na época desses animais paleobiotas independentes, com barreiras entre elas, como um grande rio ou lago que, podendo ser sazonais, poderiam permitir assim a troca", explica.

Todas essas análises levam a uma conclusão anteriormente citada. São muitas perguntas sem respostas. Mas o fato é que, concordando com outros tantos especialistas da área, Martins também pensa que há muito estudo geológico por fazer, como o estabelecimento das colunas estratigráficas, datação de rochas, identificação das biotas que existiam na época etc. Além disso, há muito material fóssil para estudo paleontológico, sem descrição, no Mato Grosso, onde as coletas são incipientes, e mesmo em São Paulo e Minas Gerais, locais onde há mais estudos científicos.

O estudo, concordam geólogos e paleontólogos, é fundamental não só para registrar o passado, mas porque traz a reboque informações úteis não só no presente, mas sobretudo no futuro, inclusive de cunho econômico. Ao estudar as rochas, ainda que em função dos fósseis ali existentes, os especialistas podem, por exemplo, determinar a ocorrência de minerais energéticos, de jazidas de materiais para construção, ou se a região é adequada do ponto de vista geológico para uso habitacional ou agrícola. Enfim, abastecendo a sociedade de informações que podem ajudá-la nas decisões que precisa tomar.

Expedição científica em busca de dinossauros será filmada para a televisão

Pista de dinossauro do período cretáceo
Pista de dinossauro do período cretáceo, datada de 140 milhões de anos, encontrada em Sousa (PB), no Parque Vale dos Dinossauros

Resgatar a história da evolução da Terra nesse pequeno pedaço do continente chamado Brasil, e registrá-lo, é como se pode resumir o trabalho de uma equipe de 30 pessoas, formada por paleontólogos, cinegrafistas, produtores, motoristas, que começa na próxima 5ª feira, dia 25.

A tarefa durará pouco mais de um mês e foi batizada de "Em busca dos dinossauros", uma expedição científica por três sítios geológicos nacionais onde há registro da passagem desses grandes répteis, idealizado pelo Departamento de Paleontologia do Museu Nacional do Rio. A parte logística do projeto está por conta da Fogo-Fátuo Expedições, que tem experiência em viagens de longa distância, e a filmagem será feita pelo Centro de Cultura, Informação e Meio Ambiente (Cima), uma organização não-governamental ligada à empresa de produção cinematográfica Total Filmes. O custo deve chegar a R$ 600 mil e será dividido entre os parceiros privados do projeto.

Não é de hoje que pesquisadores sabem da existência de marcas de dinossauros no Brasil. O primeiro registro é da década de 20, feito pelo engenheiro de minas brasileiro, Luciano Jacques de Moraes, quando trabalhava para o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs). Ele encontrou duas pegadas na bacia do rio do Peixe, em Sousa, Paraíba, onde hoje há um parque temático, em cujo museu pode-se ver reconstituições dos dinossauros que teriam vivido ali.

A história se prolongou, passando pelo paleontólogo Llewelly Ivor Price e o geólogo brasileiro Diógenes de Almeida Campos, até que entrou para a coleção de pesquisas sobre dinossauros do padre Giuseppe Leonardi. A partir de 79 e durante boa parte da década de 80, Leonardi estudou exaustivamente as pegadas, até construir réplicas dos principais de seus donos. A ele se deve grande parte do que se sabe hoje sobre os sítios geológicos de Sousa. São 22 no total, incluindo as bacias de Sousa e Uiraúna-Brejo das Freiras, com mais de 395 indivíduos dinossaurianos. Podem haver outros sítios, avalia o paleontólogo Ismar de Souza Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, Leonardi se encontra na Austrália atrás de outras pegadas, que se supõem de dinossauros.

A expedição passará por Sousa, para o registro cinematográfico das pegadas, mas os paleontólogos aproveitam a visita para buscar outros registros. O coordenador da viagem, o paleontólogo Sérgio Alex de Azevedo, explica que a região é a melhor do país para observar esse tipo de fóssil, chamado pelos pesquisadores de icnofósseis, que são pegadas e pistas.

O primeiro sítio a ser visitado será a Chapada do Araripe, em Santana do Cariri (CE), próximo aos municípios de Crato e Juazeiro do Norte. Essa formação fossilífera inclui trechos do Ceará, Piauí e Pernambuco, mas a maioria dos fósseis descritos é do Ceará. Há registro de fósseis de vegetais, animais invertebrados, peixes, anfíbios, lagartos, crocodilos, quelônios, além de dinossauros e pterossauros, que são outra família de grandes répteis.

Há uma informação curiosa sobre Santana do Cariri que, ao chegar no meio científico, intrigou os pesquisadores. Até os anos 60, acreditava-se que as rochas ali encontradas datavam do período devoniano da era paleozóica, com cerca de 350 milhões de anos. Com as pesquisas desenvolvidas desde então e a descoberta de fósseis, como os conchostráceos, descobriu-se que a Formação de Santana é do Cretáceo, muito mais jovem, com cerca de 110 milhões de anos. O Cretáceo é o último período da era Mesozóica, quando viveram dinossauros e pterossauros. Foi nesse período que os dinossauros se extinguiram. Pteurossauros eram grandes répteis voadores, de outra família, quase confundidos com dinossauros. E Conchostráceos foram crustáceos que possuíam duas conchas e surgiram durante o cretáceo.

O último sítio a ser visitado pelos aventureiros-cientistas está no Maranhão. É a Laje do Coringa, na Ilha do Cajual, próxima à cidade de Alcântara. De acordo com Marcos Didonet, diretor do Cima, a histórica cidade de Alcântara será objeto das filmagens. "Vamos retratar durante toda a viagem os anônimos que fazem o Brasil, suas histórias, costumes e sua cultura", conta.

Assim, as belíssimas paisagens que desabrocharem diante das câmaras serão também registradas. Em Alcântara, a equipe terá o apoio da Aeronáutica, que administra o centro brasileiro de lançamento de foguetes. O pessoal do Cima pretende filmar ainda os ninhais de pássaros Guará, que ficam nas Ilhas Maranhenses e um ex-quilombo, da comunidade de Santana do Cariri.

Didonet afirma que recebeu algumas propostas de TVs abertas e fechadas para transmitir o documentário de 50 minutos que retratará a expedição dos paleontólogos. Ele, no entanto, não revela quem o procurou. "Como não fechamos com ninguém, não posso adiantar quem são os interessados", justifica. Há pelo menos seis meses, sua equipe realiza outras viagens, mais curtas, para contatar pessoas que trabalham nas localidades a serem visitadas. Dessa fase pré-expedição, saiu uma fita de demonstração de cinco minutos do documentário educativo e outra resumindo a viagem em si, com duração de dez minutos.

O Cima atua há 14 anos em projetos de educação ambiental e a Total Filmes já participou de produções como o registro do Festival de Cinema do Rio e na parceria com empresas cinematográficas estrangeiras, como as norte-americanas Columbia Pictures e Fox. Além do material em vídeo, o grupo produzirá cinco livros infantis, onde o dinossauro será o protagonista, mostrado em situações que simulam como era sua vida, seus hábitos e sua relação com o meio ambiente.

Para Sérgio Alex de Azevedo, que coordenará os trabalhos científicos, o documentário é uma forma de ampliar as informações ao público sobre o estágio atual da paleontologia brasileira, e disseminar esses estudos nas salas de aula, seja de ensino fundamental ou médio. "É preciso levar ao conhecimento do público o fato da existência dos dinossauros no Brasil e, como há um interesse natural para o tema, pode haver também uma influência na fixação do conhecimento na área de ciências, tendo como condutores os dinossauros", observa o paleontólogo.

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