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Espumas Flutuantes

Castro Alves

Prólogo

ERA POR UMA dessas tardes em que o azul do céu oriental — é pálido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas — e monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio— e queixoso e tétrico.

Das bandas do ocidente o sol se atufava nos mares ''como um brigue em chamas..." e daquele vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.

Além... os cerros de granito dessa formosa terra de Guanabara, vacilantes, a lutarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horizonte.

Longe, inda mais longe... os cimos fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distância sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste.

Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade.

E que lá, dessas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro;. . . é que dessas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Rafael subindo as escadas do Vaticano";... volvia agora silencioso e alquebrado... trazendo por única ambição—a esperança de repouso em minha pátria.

Foi então que, em face destas duas tristezas — a noite que descia dos céus,—a solidão que subia do oceano—, recordei-me de vós, ó meus amigos!

E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara. . .

Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!.. . Vós bem sabeis quanto sais efêmeros... —passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.

E quando—comediantes do infinito— vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?

— Uma esteira de espumas.. — flores perdidas na vasta indiferença do oceano.— Um punhado de versos... —espumas flutuantes no dorso fero da vida!...

E o que são na verdade estes meus cantos?...

Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa—este sopro do alto: do coração _ este pélago da alma.

E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do látego da desgraça

E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo— estes signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!

Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo... possam eles, ó meus amigos!—efêmeros filhos de minh'ahna—levar uma lembrança de mim às vossas plagas!

CASTRO ALVES

Espumas Flutuantes

À MEMÓRIA

DE

MEU PAI, DE MINHA MÃE E DE MEU IRMÃO

O. D. C.

Dedicatória

Apomba d'aliança o vôo espraia

Na superfície azul do mar imenso,

Rente... rente da espuma já desmaia

Medindo a curva do horizonte extenso...

Mas um disco se avista ao longe... A praia

Rasga nitente o nevoeiro denso!...

O pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!

Ninho amigo da pomba forasteira!...

Assim, meu pobre livro as asas larga

Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...

O mar atira-lhe a saliva amarga,

O céu lhe atira o temporal de inverno...

O triste verga à tão pesada carga!

Quem abre ao triste um coração paterno?...

É tão bom ter por árvore—uns carinhos!

É tão bom de uns afetos — fazer ninhos!

Pobre órfão! Vagando nos espaços

Embalde às solidões mandas um grito!

Que importa? De uma cruz ao longe os braços

Vejo abrirem-se ao mísero precito...

Os túmulos dos teus dão-te regaços!

Ama-te a sombra do salgueiro aflito...

Vai, pois, meu livro! e como louro agreste

Traz-me no bico um ramo de... cipreste!

O Livro e a América

AO GRÊMIO LITERÁRIO

Talhado para as grandezas,

P'ra crescer, criar, subir,

O Novo Mundo nos músculos

Sente a seiva do porvir.

—Estatuário de colossos —

Cansado doutros esboços

Disse um dia Jeová:

"Vai, Colombo, abre a cortina

"Da minha eterna oficina...

"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,

Qual Tritão descomunal,

O continente desperta

No concerto universal.

Dos oceanos em tropa

Um—traz-lhe as artes da Europa,

Outro — as bagas de Ceilão...

E os Andes putrificados,

Como braços levantados,

Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:

"Tudo marcha!... O grande Deus!

As cataratas — p'ra terra,

As estrelas—para os céus

Lá, do pólo sobre as plagas,

O seu rebanho de vagas

Vai o mar apascentar...

Eu quero marchar com os ventos,

Com os mundos... co'os firmamentos!!!

E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar!... Mas como?... Da Grécia

Nos dóricos Partenons

A mil deuses levantando

Mil marmóreos Panteons?...

Marchar cota espada de Roma

—Leoa de raiva coma

De presa enorme no chão,

Saciando o ódio profundo...

—Com as garras nas mãos do mundo,

—Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha

Na tirania feudal,

Levantando uma montanha

Em cada uma catedral?...

Não!... Nem templos feitos de ossos,

Nem gládios a cavar fossos

São degraus do progredir...

Lá brada César morrendo:

"No pugilato tremendo

"Quem sempre vence é o porvir!'

Filhos do sec'lo das luzes!

Filhos da Grande nação!

Quando ante Deus vos mostrardes,

Tereis um livro na mão:

O livro — esse audaz guerreiro

Que conquista o mundo inteiro

Sem nunca ter Waterloo...

Eólo de pensamentos,

Que abrira a gruta dos ventos

Donde a Igualdade voou!...

Por uma fatalidade

Dessas que descem de além,

O sec'lo, que viu Colombo,

Viu Guttenberg também.

Quando no tosco estaleiro

Da Alemanha o velho obreiro

A ave da imprensa gerou...

O Genovês salta os mares...

Busca um ninho entre os palmares

E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência

Desta sede de saber,

Como as aves do deserto —

As almas buscam beber...

Oh! Bendito o que semeia

Livros... livros à mão cheia...

E manda o povo pensar!

O livro caindo n'alma

É germe—que faz a palma,

É chuva—que faz o mar.

Vós, que o templo das idéias

Largo — abris às multidões,

P'ra o batismo luminoso

Das grandes revoluções,

Agora que o trem de ferro

Acorda o tigre no cerro

E espanta os caboclos nus,

Fazei desse "rei dos ventos"

—Ginete dos pensamentos,

—Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro

Fecundando a multidão!...

Num poema amortalhada

Nunca morre uma nação.

Como Goethe moribundo

Brada "Luz!" o Novo Mundo

Num brado de Briaréu...

Luz! pois, no vale e na serra...

Que, se a luz rola na terra,

Deus colhe gênios no céu! . . .

Hebréia

Flos campi et lilium convallium

(Cântico dos Cânticos)

Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!

Lírio do vale oriental, brilhante!

Estrela vésper do pastor errante!

Ramo de murta a recender cheirosa!. ..

Tu és, ó filha de Israel formosa...

Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...

Pálida rosa da infeliz Judéia

Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva

Mira-se triste sobre o azul das vagas?

Serão saudades das infindas plagas,

Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,

A terra santa do Oriente imenso?

E as caravanas no deserto extenso?

E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

Sim, fora belo na relvosa alfombra,

Junto da fonte, onde Raquel gemera,

Viver contigo qual Jacó vivera

Guiando escravo teu feliz rebanho..

Depois nas águas de cheiroso banho

—Como Susana a estremecer de frio—

Fitar-te, ó flor do babilônio rio,

Fitar-te a medo no salgueiro oculto...

Vem pois!... Contigo no deserto inculto,

Fugindo às iras de Saul embora,

Davi eu fora,—se Micol tu foras,

Vibrando na harpa do profeta o canto...

Não vês?... Do seio me goteja o pranto

Qual da torrente do Cédron deserto!...

Como lutara o patriarca incerto

Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.

Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.

Ai! guia o passo ao viajor perdido,

Estrela vésper do pastor errante!...

Quem dá aos pobres,

empresta a Deus.

Eu, Que a pobreza de meus pobres cantos

Dei aos heróis—aos miseráveis grandes—,

Eu, que sou cego, —mas só peço luzes...

Que sou pequeno, — mas só fito os Andes....

Canto nest'hora, como o bardo antigo

Das priscas eras, que bem longe vão,

O grande nada dos heróis, que dormem

Do vasto pampa no funéreo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se!

Duas realezas hoje aqui se abraçam!...

Uma—é um livro laureado em luzes...

Outra— uma espada, onde os lauréis se enlaçam.

Nem cora o livro de ombrear coto sabre...

Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...

Quando em loureiros se biparte o gládio

Do vasto pampa no funéreo chão.

E foram grandes teus heróis, ó pátria,

—Mulher fecunda, que não cria escravos —,

Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:

"Parti — soldados, mas voltei-me — bravos!

E qual Moema desgrenhada, altiva,

Eis tua prole, que se arroja então,

De um mar de glórias apartando as vagas

Do vasto pampa no funéreo chão.

E esses Leandros do Helesponto novo

Se resvalaram — foi no chão da história...

Se tropeçaram — foi na eternidade...

Se naufragaram—foi no mar da glória...

E hoje o que resta dos heróis gigantes?...

Aqui — os filhos que vos pedem pão...

Além — a ossada, que branqueia a lua,

Do vasto pampa no funéreo chão.

Ai! quantas vezes a criança loura

Seu pai procura pequenina e nua,

E vai, brincando co'o vetusto sabre,

Sentar-se à espera no portal da rua...

Mísera mãe, sobre teu peito aquece

Esta avezinha, que não tem mais pão!...

Seu pai descansa — fulminado cedro —

Do vasto pampa no funéreo chão.

Mas, já que as águias lá no sul tombaram

E os filhos d'águias o Poder esquece...

"'E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...

Lançai— a esmola, e colhereis—a prece!.

Oh! dai a esmola... que do infante lindo

Por entre os dedos da pequena mão,

Ela transborda... e vai cair nas tumbas

Do vasto pampa no funéreo chão.

Há duas cousas neste mundo santas:

—O rir do infante, —o descansar do morto..

O berço—é a barca, que encalhou na vida,

A cova —é a barca do sidéreo porto...

E vós dissestes para o berço—Avante!—

Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,

Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,

Do vasto pampa no funéreo chão.

É santo o laço, em qu'hoje aqui s'estreitam

De heróicos troncos—os rebentos novos—!

É que são gêmeos dos heróis os filhos,

Inda que filhos de diversos povos!

Sim! me parece que nest'hora augusta

Os mortos saltam da feral mansão...

E um "bravo!" altivo de além-mar partindo

Rola do pampa no funéreo chão!...

O Laço de Fita

Não sabes crianças? 'Stou louco de amores...

Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,

Nos negros cabelos da moça bonita,

Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia

Debalde minh'alma se embate, se irrita...

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,

Os astros se libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes...

Mas tu... tens por asas

Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...

Beijava-te apenas...

Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N'alcova onde a vela ciosa... crepita,

Talvez da cadeia libertes as tranças

Mas eu... fico preso

No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova... formosa Pepita!

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c'roa...

Teu laço de fita.

Ahasverus e o Gênio

AO POETA E AMIGO J. FELIZARDO JÚNIOR

Sabes quem foi Ahasverus?. .. —o precito,

O mísero Judeu, que tinha escrito

Na fronte o selo atroz!

Eterno viajor de eterna senda...

Espantado a fugir de tenda em tenda,

Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,

E no mundo tão grande... o forasteiro

Não teve onde... pousar.

Co'a mão vazia—viu a terra cheia.

O deserto negou-lhe —o grão de areia.

A gota d'água —rejeitou-lhe o mar.

D'Asia as florestas—lhe negaram sombra

A savana sem fim—negou-lhe alfombra.

O chão negou-lhe o pó!...

Tabas, serralhos, tendas e solares...

Ninguém lhe abriu a porta de seus lares

E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,

E não pôde entre tantas populaças

Beijar uma só mão...

Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,

Desde a inglesa à crioula das Antilhas

Não teve um coração!...

E caminhou!... E as tribos se afastavam

E as mulheres tremendo murmuravam

Com respeito e pavor.

Ai! Fazia tremer do vale à serra. ..

Ele que só pedia sobre a terra

— Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,

Um murmúrio de inveja se elevava,

Desde a flor da campina ao colibri.

"Ele não morre", a multidão dizia...

E o precito consigo respondia:

— "Ai! mas nunca vivi!" —

O Gênio é como Ahasverus... solitário

A marchar, a marchar no itinerário

Sem termo do existir.

Invejado! a invejar os invejosos.

Vendo a sombra dos álamos frondosos...

E sempre a caminhar... sempre a seguir...

Pede u'a mão de amigo—dão-lhe palmas:

Pede um beijo de amor— e as outras almas

Fogem pasmas de si.

E o mísero de glória em glória corre...

Mas quando a terra diz: — "Ele não morre"

Responde o desgraçado:—"Eu não vivi!. . ."

Mocidade e Morte

E porto avisto o porto

Imermo, nebuloso, o sempre noite

Cahmado—Eternidade. —

Laurindo.

Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate.

Dante.

Oh! Eu quero viver, beber perfumes

Na flor silvestre, que embalsama os ares;

Ver minh'alma adejar pelo infinito,

Qual branca vela n'amplidão dos mares.

No seio da mulher há tanto aroma...

Nos seus beijos de fogo há tanta vida...

Árabe errante, vou dormir à tarde

A sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma vez responde-me sombria:

Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,

E a alma um cisne de douradas plumas:

Não! o seio da amante é um lago virgem...

Quero boiar à tona das espumas.

Vem! formosa mulher—camélia pálida,

Que banharam de pranto as alvoradas.

Minh'alma é a borboleta, que espaneja

O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma vez repete-me terrível,

Com gargalhar sarcástico: —impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.

Vejo além um futuro radiante:

Avante! —brada-me o talento n'alma

E o eco ao longe me repete—avante!—

O futuro... o futuro... no seu seio...

Entre louros e bênçãos dorme a glórial

Após—um nome do universo n'alma,

Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária: —

Teu Panteon—a pedra mortuária!

Morrer—é ver extinto dentre as névoas

O fanal, que nas guia na tormenta:

Condenado — escutar dobres de sino,

—Voz da morte, que a morte lhe lamenta—

Ai! morrer —é trocar astros por círios,

Leito macio por esquife imundo,

Trocar os beijos da mulher — no visco

Da larva errante no sepulcro fundo.

Ver tudo findo... só na lousa um nome,

Que o viandante a perpassar consome

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito

Um mal terrível me devora a vida:

Triste Ahasverus, que no fim da estrada,

Só tem por braços uma cruz erguida.

Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,

Sombra de morte no ramal encerra!

Vivo— que vaga sobre o chão da morte,

Morto—entre os vivos a vagar na terra.

Do sepulcro escutando triste grito

Sempre, sempre bradando-me: maldito! —

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,

Quando a sede e o desejo em nós palpita...

Levei aos lábios o dourado pomo,

Mordi no fruto podre do Asfaltita.

No triclínio da vida— novo Tântalo —

O vinho do viver ante mim passa...

Sou dos convivas da legenda Hebraica,

O 'stilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,

Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!

Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!

Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga

Os prantos de meu pai nos teus cabelos.

Fora louco esperar! fria rajada

Sinto que do viver me extingue a lampa...

Resta-me agora por futuro — a terra,

Por glória—nada, por amor—a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria

Já me foge a razão na noite fria!..

Ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro S. João)

É a hora das epopéias,

Das Ilíadas reais.

Ruge o vento—do passado

Pelos mares sepulcrais.

É a hora, em que a Eternidade

Dialoga a Imortalidade...

Fala o herói com Jeová!...

E Deus — nas celestes plagas —

Colhe da glória nas vagas

Os mortos de Pirajá.

Há destes dias augustos

Na tumba dos Briaréus.

Como que Deus baixa à terra

Sem mesmo descer dos céus.

É que essas lousas rasteiras

São — gigantes cordilheiras

Do Senhor aos olhos nus.

É que essas brancas ossadas

São—colunas arrojadas

Dos infinitos azuis.

Sim! Quando o tempo entre os dedos

Quebra um séc'lo, uma nação...

Encontra nomes tão grandes,

Que não lhe cabem na mão!...

Heróis! Como o cedro augusto

Campeia rijo e vetusto

Dos séc'los ao perpassar,

Vós sois os cedros da História,

A cuja sombra de glória

Vai-se o Brasil abrigar.

E nós, que somos faíscas

Da luz desses arrebóis,

Nós, que somos borboletas

—Das crisálidas de avós,

Nós, que entre as bagas dos cantos,

Por entre as gotas dos prantos

Inda os sabemos chorar,

Podemos dizer: "Das campas

Sacudi as frias tampas!

Vinde a Pátria abençoar!..."

Erguei-vos, santos fantasmas!

Vós não tendes que corar...

(Porque eu sei que o filho torpe

Faz o morto soluçar. . . )

Gemem as sombras dos Gracos,

Dos Catões, dos Espartacos

Vendo seus filhos tão vis...

Dize-o tu, soberbo Mário!

Tu, que ensopas o sudário

Vendo Roma—meretriz!...

Ai! Que lágrimas candentes

Choram órbitas sem luz! —

Que idéia terá Leônidas

Vendo Esparta nos pauis?!...

Alta noite, quando pena

Sobre Árcole, sobre Iena,

Bonaparte—o rei dos reis—,

Que dor d'alma lhe rebenta.

Ao ver su'águia sangrenta

No sabre de Juarez!?...

Porém aqui não há grito,

Nem pranto, nem ai, nem dor...

O presente não desmente

Do seu ninho de condor...

Mãos, que, outrora de crianças

A rir— dentaram as lanças

Dos velhos de Pirajá....

De homens hoje, as empunhando,

Nas batalhas afiando,

Vão caminho de Humaitá!...

Basta!... Curvai-vos, ó povo!...

Ei-los os vultos sem par,

Só de joelhos podemos

Nest'hora augusta fitar

Riachuelo e Cabrito,

Que sobem para o infinito

Como jungidos leões,

Puxando os carros dourados

Dos meteoros largados

Sobre a noite das nações.

Os Três Amores

I

Minh'alma é como a fronte sonhadora

Do louco bardo, que Ferrara chora...

Sou Tasso!... a primavera de teus risos

De minha vida as solidões enflora...

Longe de ti eu bebo os teus perfumes,

Sigo na terra de teu passo os lumes. ..

— Tu és Eleonora...

II

Meu coração desmaia pensativo,

Cismando em tua rosa predileta.

Sou teu pálido amante vaporoso,

Sou teu Romeu... teu lânguido poeta!...

Sonho-te às vezes virgem... seminua...

Roubo-te um casto beijo à luz da lua...

— E tu és Julieta...

III

Na volúpia das noites andaluzas

O sangue ardente em minhas veias rola...

Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,

Vós conheceis-me os trenos na viola!

Sobre o leito do amor teu seio brilha...

Eu morro, se desfaço-te a mantilha...

Tu és—Júlia, a Espanhola!. . .

O Fantasma e a Canção

Orgulho! desce os olhos dos céus

sobre ti mesmo, e vê como os nomes

mais poderosos vão se refugiar numa

canção.

BYRON.

— Quem bate? —"A noite é sombrio!"

—Quem bate?—"É rijo o tufão!...

Não ouvis? a ventania

Ladra à lua como um cão.

" —Quem bate?—"O nome qu'importa?

Chamo-me dor... abre a porta!

Chamo-me frio... abre o lar!

Dá-me pão... chamo-me fome!

Necessidade é o meu nome!"

— Mendigo! podes passar!

"Mulher, se eu falar, prometes

A porta abrir-me?"—Talvez.

—"Olha... Nas cãs deste velho

Verás fanados lauréis

Há no meu crânio enrugado

O fundo sulco traçado

Pela c'roa imperial.

Foragido, errante espectro,

Meu cajado —já foi cetro!

Meus trapos — manto real!"

—Senhor, minha casa é pobre...

Ide bater a um solar!

—"De lá venho... O Rei-fantasma

Baniram do próprio lar.

Nas largas escadarias,

Nas vetustas galerias,

Os pajens e as cortesãs

Cantavam!... Reinava a orgia!...

Festa' Festa! E ninguém via

O Rei coberto de cãs!"

—Fantasmas! Aos grandes, que tombam,

É palácio o mausoléu!

—"Silêncio! De longe eu venho. . .

Também meu túmulo morreu.

O séc'lo—traça que medra

Nos livros feitos de pedra —

Rói o mármore, cruel.

O tempo—Atila terrível

Quebra cota pata invisível

Sarcófago e capitel.

"Desgraça então para o espectro,

Quer seja Homero ou Solon,

Se, medindo a treva imensa

Vai bater ao Panteon...

O motim —Nero profano—

No ventre da cova insano

Mergulha os dedos cruéis.

Da guerra nos paroxismos

Se abismam mesmo os abismos

E o morto morre outra vez!

'Então, nas sombras infindas,

S'esbarram em confusão

Os fantasmas sem abrigo

Nem no espaço, nem no chão...

As almas angustiadas,

Como águias desaninhadas,

Gemendo voam no ar.

E enchem de vagos lamentos

As vagas negras dos ventos,

Os ventos do negro mar!

"Bati a todas as portas

Nem uma só me acolheu!...

—"Entra!—: Uma voz argentina

Dentro do lar respondeu.

—"Entra, pois! Sombra exilada,

Entra! O verso—é uma pousada

Aos reis que perdidos vão.

A estrofe —é a púrpura extrema,

Último trono—é o poema!

Último asilo— a Canção!. . . "

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