Istambul 1996. Representantes de todo o mundo estão reunidos para debater o futuro urbano do planeta na "II Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos, Habitat II".
Dessa reunião conclusões - preliminares - importantes são expostas ao mundo, e suas aplicações, vistas imediatamente em muitas cidades. Uma delas: o caos urbano no trânsito pode significar não-investimentos para as cidades. Pudemos notar, em médias e grandes cidades, uma corrida para a educação no trânsito, utilizando medidas diversas, do simples panfleto a vídeo conferências para empresários.
Outra conclusão importante: a primeira, na lista das cidades mundiais, é São Paulo!
Conforme os participantes, São Paulo oferece não apenas produção e transporte de bens, mas uma gama enorme de serviços aos consumidores, principalmente produção, transporte e consumo de informações, devendo-se entender por informação, o que é comum a todos, e aqui podemos citar medias, educação, finanças, propaganda e publicidade, telefonia, telecomunicações , etc..
Na década de 60, Lewis Munford, em seu livro ‘A cidade na História’
(editora Martins Fontes, 1991 no Brasil; 1961, nos EUA) preconizava-profetizava
os sistemas informacionais com o nome de cidades invisíveis.
Sem querer chatear o leitor de, mas apenas com a intenção (tentação?)
de melhor informar, o conceito de invisível não é apropriado
para o entendimento das "cidades eletrônicas.
Esclarece o dicionário Aurélio que invisível é o "que não se vê" e o verbete virtual, "o que existe como faculdade, porém, sem exercício ou efeito atual". Nos dois casos, não conseguimos dar conta da cidade, quer a chamemos de invisível ou virtual.
Como estamos tratando de informática,( pedimos paciência ao leitor) buscamos então, em um dicionário técnico o significado de Virtual: "um adjetivo usado para descrever um dispositivo ou serviço que NÃO É, na realidade, o que aparenta SER". Esclareceu?
Claro que NÃO.
O que o verbete quer dizer é: os circuitos virtuais são conceituais
e não físicos. Isto é, quando você acessa uma página
da Internet, por exemplo, o circuito físico através do qual
eles efetivamente se comunicam pode ir de A(você) para as estações
D, E, F, antes de chegar a B(a página da Internet que você queria).
Assim, nada temos de invisível nesse serviço; ao contrário,
é a virtualidade que está ocorrendo.
A cidade virtual foi tema de um livro lançado pela Agência Estado quando aconteceu o encontro em Istambul, ‘Da cidade de Pedra à cidade Virtual - Contribuição para o debate sobre o futuro de nosso Habitat’ . Cidade Virtual que Júlio Moreno, em seu artigo, chama de Netrópolis e define, "Netrópolis é uma cidade invisível que reúne em torno de si cerca de 60 milhões de pessoas. Ou seja, mesmo não existindo fisicamente, Netrópolis já é a maior metrópole do mundo: a rede (‘network’ em inglês) que une computadores de todo o globo". E acrescenta: "Discutir o futuro das cidades, sem se preocupar com o significado e o impacto dessa comunidade virtual...para os chamados assentamentos humanos, é um erro."
Seu texto prossegue na trilha das idéias de Munford sobre a cidade invisível, apontando as vantagens e desvantagens dessa cidade, para concluir: "...Tal como a cidade de pedra, a cidade invisível nasce sabendo que um dia morrerá. Porque, o que importa de fato são as pessoas, sua linguagem, seus ritos e sua liberdade de viver - e não apenas seus remanescentes físicos ou virtuais."
Longe desse fim(?), a corrida pela conexão ainda está em curso, e é necessário analisa - la em seus impactos sociais.
Falar em assentamentos virtuais, quando cinco milhões de famílias lutam pela terra, a marcha dos Sem Terra coloca-se como grande acontecimento de resistência político-social, trabalhadores são adjetivados de inempregáveis, pobres ameaçam a paz-classe-média, parece incoerência.
Em sua coluna semanal, "América", na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein afirma que "... não tem sentido apresentar a reforma agrária como prioridade estratégica, num final de século movido por globalização e tecnologia informatizada. Aqui nos EUA, menos de 3% da população permanece no campo" (20/04/97).
E qual, então, deve ser a preocupação da geografia? Assentamentos Virtuais ou reais? Tecnologia de Ponta ou Pontal(do Paranapanema)? Informatização ou Escolarização básica?
TUDO!!!!!!
Porém, esse tudo não é a síntese de todas as ciências, que uma geografia anterior quis fazer... E não conseguiu.
Para a geografia, a cidade virtual, "num fim de século movido por globalização e tecnologia informatizada", deve ser objeto de suas preocupações, seus estudos e análises, buscando aquilo que o Prof. Milton Santos, o grande geógrafo brasileiro agraciado com o prêmio internacional Vautrin Lud ( o Prêmio Nobel da Geografia), conclama contra a globalização perversa : a EMOÇÃO.
Diz-nos o Professor Milton Santos que as classes pobres, estando excluídas
da racionalidade (tecnológica-informatizada) podem visualizar um futuro
onde, a EMOÇÃO, é o principal motor contra a "carência
fundamental" . Seu grande trunfo é a comunicação
e não apenas a informação. Comunicação
que se dá no corpo-a-corpo e não no corpo-máquina, que
as classes altas e médias gostam de alardear.
O papel da geografia é unir essa realidade da velocidade informatizada
com a realidade da lentidão do corpo-a-corpo, ambas presentes no mesmo
processo histórico.
O novo cidadão carioca, Joãozinho Trinta, já afirmou que "quem gosta de pobre é intelectual". Não é o caso dessa análise geográfica, buscando dar conta do real, enquanto processo inacabado, que tem o virtual como um dos momentos.
Avançar cientificamente é não cair no gosto fácil das apologias técnico-científico-informacionais, nem no fel dos críticos-cítricos .
Fonte: www.iis.com.br