Último volume publicado pela escritora, data de 1977, ano em que morreu. De certa forma condensa as experiências até então realizadas pela autora, ao revolver sua principal preocupação - o ato de escrever.
Narrado em 1º pessoa por Rodrigo S. M., escritor que pretende contar, sem requintes e brilho de estrelas, a história de uma nordestina:
Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra meus hábitos uma história com começo, meio e gran finale seguido de silêncio e de chuva caindo.
Através das constantes interferências do narrador, o leitor vai conhecendo quão difícil é o relacionamento dele (como autor) com o ato da escritura e, ao mesmo tempo, desvenda seu envolvimento com a personagem que vai gradativamente compondo. Nesse sentido pode-se perceber que a composição da obra serve para amarrar dois pontos fundamentais da ficção: a criação da personagem e a psicologia da composição. Outro ponto a ser destacado é o da linguagem que, na obra adquire uma presença constante, porque é motivo de insistentes investigações por parte do narrador, chegando às raias da personificação, uma vez que a linguagem também enfrenta a "crise" da criação.
Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas eu não vou enfeitar a palavra, pois se eu tocar no pão da moça se tornará em ouro - e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência.
O narrador passa a mergulhar no problema da comunicação, na esperança de poder traduzir com palavras a historia e combiná-la com a discussão sobre a palavra e a criação.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás - descubro eu agora - também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
O posicionamento do autor na investigação escrita combinado com a preocupação de se auto-analisar traduz-se no profundo debate entre a finalidade da criação e o veículo da comunicação que é a linguagem. Por fim, ao investigar fragmentos da vida da personagem, isto é, ao confeccionar a narrativa propriamente dita, passando pela investigação dos fatos, a linguagem passa a exercer seus domínios na vida social, indicando, dentre os processos de criação, a interação do elemento bruto (palavra), da lapidação artística (autor) e da transposição social (vida da personagem).
Nesse sentido, é possível verificar o entrecruzamento dessas três investigações, todas elas modeladas a partir de aprofundamento pscicofilosóficos que desencadeiam a tessitura da trama do volume. O leitor que esperar um relato linear ou uma história romanesca, dificilmente conseguirá satisfazer seus anseios, pois o volume não é um relato sentimental, nem procura dourar a realidade:
(...) nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos.
Então, por que ler o volume? De certa forma, sua leitura induz a captar o sentido mais profundo da linguagem e a tentar, através da forma, o esboço de um conteúdo. Ler pela necessidade de ler, da mesma forma que se encontra no escritor a necessidade de escrever:
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. (...)
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde, no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela - e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial.
Não raro, o processo de produção da linguagem é associado ao processo de produção musical. A composição assume o aspecto da música e a nomenclatura torna-se a mesma.
(..) As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, rendas, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. (...)
Esqueci de dizer que tudo o que estou agora escrevendo é acompanhado pelo rufar enfático de um tambor batido por um soldado. No instante mesmo que eu começar a história - de súbito cessará o tambor.
O narrador coloca dados sobre a história que pretende contar, intercalando-os com suas preocupações metalingüísticas. Com poucas palavras situa a narrativa no presente, mesmo porque, segundo ele, não há outro tempo possível.
Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
A criação, no entanto, não flui com facilidade. Ela transcorre com esforço descomunal, pois escrever é como "quebrar rochas".
Devagar, buscada nas entrelinhas, vai surgindo Macabéa, personagem nordestina de Alagoas que, por algum motivo desconhecido, vem para o Rio, "uma cidade toda feita contra ela". O narrador, identificando-se com a personagem, envolve-se na narrativa, partilha com sofreguidão o destino que vai traçando para ela, e, culminando num processo de puro êxtase de criação, acaba se tornando ele mesmo um personagem. Faz-se pobre como a personagem, adquire olheiras, não se permite mais prazeres pequenos como futebol, porque se identifica com a situação vivida pela nordestina: escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e na há lugar para mim na terra dos homens.
A apresentação de Macabéa se dá aos poucos, para que o leitor possa ter tempo para se acostumar com toda a miséria da personagem:
Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-na de "panos", diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio coitada era melhor que o pardacento. Ela era toda um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar que seu cheiro era murrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio.
Entre a singela e a asquerosa, Macabéa aparece órfã, sendo criada por uma tia que morre não sem antes lhe financiar um curso de datilografia. Com rápidas pinceladas, o autor compõe o quadro da infância miserável, de educação precária.
Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão (...)
Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas. (...) Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabeça (...)
Depois - ignora-se por quê - tinham vindo para o Rio, o inacreditável Rio de Janeiro, a tia lhe arranjara emprego, finalmente morrera e ela, agora sozinha, morava numa vaga de quarto compartilhado com mais quatro moças balconistas das Lojas Americanas.
É como datilógrafa que a jovem sobrevive no Rio. Alimentava-se mal, cheirava mal, vivia mal. Estava ameaçada de ser despedida do emprego.
Pequenas vaidades a sustentavam, pequenos prazeres serviam para amolecer-lhe a vida.
(...) o luxo que se dava era tomar um gole de café frio antes de dormir. Pagava o luxo tendo azia ao acordar. (...)
Ela era calada (por não ter o que dizer) mas gostava de ruídos. Eram vida. (...)
Seu espaço está circunscrito à Rua do Acre, onde mora, e à Rua do Lavradio, onde trabalha, perto do porto que espia no movimento domingueiro.
Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro.
Tinha poucos "luxos": uma vez por mês ia ao cinema, pintava de vermelho as unhas das mãos, bebia refrigerante e café, comia cachorro-quente e às vezes sanduíche de mortadela. Morava em pensão miserável com quatro Marias no mesmo quarto. Macabéa , de madrugada, ligava o rádio emprestado e invariavelmente ouvia a Rádio Relógio, que dava "hora certa e cultura" através de pequenas informações do tipo almanaque intercaladas com anúncios comerciais; mesmo porque, a moça adorava e colecionava recortes de anúncios. O tom monótono da rádio casa-se perfeitamente com a vida da datilógrafa que passa a se identificar com o locutor na escassez de atrações, na falta de colorido, na linguagem desnudada, no vocabulário pequeno. A Rádio Relógio é tão-somente um traço exterior semelhante ao esboço de poucas linhas traçado para a personagem.
O mundo inteiro de Macabéa é totalmente fora dos padrões, convertendo a personagem que está sendo criada num ser totalmente inverossímil a conviver com um mundo real e devastador. O narrador ao tecer as características da moça, vai-se distanciando dos fatos que inicialmente constituem sua preocupação primeira e passa a se identificar cada vez mais com a personagem, tanto que acaba por receber as pressões que ele mesmo cria para Macabéa, assumindo para si a morte que se aproxima da personagem. Passando por lenta metamorfose, o narrador deixa transbordar em si o sofrimento de sua "cria" que estranhamente principia miúda, cresce e consegue uma autonomia na narrativa, fazendo o narrador confessar que já não pode influir no destino da personagem.
(Estou passando por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra).
Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me tiro-me de mim como quem tira uma roupa.
Despersonalizo-me a ponto de adormecer (...)
Vou fazer o possível para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la e de eu mesmo ir para a cama dormir.
Macabéa por acaso vai morrer? Como posso saber?
No escritório da datilógrafa também trabalha a oxigenada Glória, mestiça de "bom vinho português e também amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido". Glória termina por atrair as atenções de Olímpico de Jesus, nome que ironicamente remete à cultura pagã e à religiosidade cristã, num contraponto entre gregos e romanos.
Olímpico de Jesus foi um breve-brevíssimo caso de namoro de Macabéa. Ele é operário, metalúrgico, com canino de ouro e tem uma louca paixão por discursos, sonhando com dinheiro e querendo ser deputado por Paranaíba. Passa como uma luz pela idéia de Macabéa que até ela é alguém, uma datilografa com namorado metalúrgico, que pode até se casar, embora ambos tenham problemas de comunicação. Para Olímpico, trocar Macabéa por Glória foi negócio de ocasião: a oxigenada tinha família, comida na mesa, pai açougueiro e, para completar, era loura, oxigenada, mas loura.
Macabéa confessa à colega de trabalho que gostaria de ser Marylin Monroe e é com uma atriz que se parece na última cena da narrativa, quando representa seu único e grande papel, ao ser atropelada por um rico "Mercedes". Antes de morrer, balbucia uma frase: "Quanto ao futuro", pois a cartomante, consultada pouco antes, antecipara-lhe um futuro em que seria amada por um rico e louro estrangeiro. O abraço final, que ela mesma se dá ao assumir a posição fetal para acomodar o corpo, representa a união do amor, da vida a se extinguir e da morte. A morte dá a Macabéa a oportunidade vital de reconhecer-se como ser humano consciente, à espera do futuro.
Terá tido ela saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras e palavras, sim, é assim. Nesta hora exata macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.
O sangue que Macabéa vomitou saiu de sua boca como o batom dos lábios vermelhos da estrela de cinema, estrela inatingível, sublime, assemelhando-se à etérea vida da nordestina, tão breve como um ponto-final.
Fonte: br.geocities.com

Macabéa nasceu em Alagoas, num ambiente de extrema pobreza. Órfã dos pais desde os dois anos de idade, foi criada por uma tia, única parenta sua no mundo, tão pobre quanto ela. Dessa tia a menina levou muitos cascudos na cabeça, forma que empregava a mulher para educar a sobrinha. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual ela que não se casara por nojo - como também porque achava seu dever.
Destituída de qualquer conforto, totalmente alienada do consumismo _o único desejo da menina era comer goiabada com queijo, prazer que quase sempre lhe era negado, por castigo.
A medida que crescia, Macabéa aprendia que "vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende". Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável. ( observe a atualidade da crítica feita pela autora neste trecho ) .Mas uma coisa descobriu inquieta: já não sabia mais ter tido pai e mãe, tinha esquecido o sabor. "Ela falava sim, mas era extremamente muda".
Não se sabe por que as duas vieram para o Rio de Janeiro, quando Macabéa tinha 19 anos. Um pouco antes de morrer a tia arranjou-lhe emprego de datilógrafa no escritório de uma empresa de representante de roldanas ( observe que ironia existe aqui_ o parafuso dispensável vai trabalhar numa empresa que revende roldanas_ é a engrenagem perfeita!!!)
A moça passou a morar numa vaga de quarto compartilhado com quatro balconistas das Lojas Americanas. O quarto ficava numa região pouco nobre da cidade, próximo a prostitutas que serviam a marinheiros.
O chefe da firma, Sr. Raimundo Silveira, um dia lhe avisou com brutalidade que ia despedi-la porque ela errava demais na datilografia, além de sujar o papel. Com sua natural humildade ela respondeu se desculpando pelo aborrecimento causado. Surpreso com a reação, o chefe adiou a demissão, embora contrariado.
Macabéa tinha um sono superficial porque estava resfriada havia um ano. Tinha acessos de tosse que sufocava com o travesseiro para não acordar as colegas de quarto. Às vezes sentia fome antes de dormir e ficava meio alucinada pensando em coxa de vaca. O remédio era mastigar e engolir papel. ( Noto aqui já um traço do realismo fantástico tão comum aos escritores desta geração de 45 ).
Dessa forma defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos gastando pouco de sua vida para esta não acabar, (...).
Teria ela a sensação de que não vivia para nada?
Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu?
Assustou-se tanto que parou de pensar. (.. ) O luxo que se dava era tomar um gole de café frio antes de dormir. Pagava o luxo tendo azia ao acordar. (...) Vivia em tanta mesmice que de noite não se lembrava do que acontecera de manhã. (...) Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia na cabeça. Ou sonhava estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada.
Quando acordava se sentia culpada sem saber por que, talvez porque o que é bom devia ser proibido. Culpada e contente. Por via das dúvidas se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente três ave-marias, amém, amém, amém. Rezava mas sem Deus ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia. (...)
Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrinas faiscantes de jóias e roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e, sofrer um pouco é um encontro. Domingo ela "acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada’.
Ela era doída por soldado. "Quando via um, pensava com estremecimento de prazer: será que ele vai me matar?"
Macabéa tinha um luxo, além de uma vez por mês ir ao cinema: pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das mãos. Gostava de filme de terror ou de musicais. Tinha predileção por mulher enforcada ou que levava tiro no coração.
"Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. ( retrato atual e típico da literatura contemporânea _ já neste livro a autora fez uma referência à rede de varejo Lojas Americanas e agora também salienta a marca Coca-cola de refrigerantes ). Só então vestia-se, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.
Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia. Deixava o som bem baixinho na Rádio Relógio, "que dava hora certa e cultura". No intervalo entre as "gotas de minutos", havia anúncios comerciais. Ela adorava anúncios.
A vida de Macabéa - ela possuía uma vida interior e não sabia disso - era cheia do vazio que enche a alma dos santos Ela era uma espécie de santa. "Não sabia que meditava pois ignorava o que quer dizer a palavra. Mas sua vida era uma longa meditação sobre o nada. ( Meditava enquanto batia à máquina, por isso errava ainda mais).
Contudo a moça tinha seus prazeres: às noites costumava ler à luz da vela os anúncios que recortava de jornais velhos do escritório. Gostava especialmente de um anúncio que mostrava um colorido pote aberto de creme para pele de mulheres. "O creme era tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo não seria boba. Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, às colheradas no pote mesmo. Faltava gordura ao seu organismo. "Tornava-se com o tempo apenas matéria vivente em sua forma primária.
Talvez fosse assim para se defender da grande tentação de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. ( Era apenas fina matéria orgânica. Existia, só isto).
Às vezes, ela sentia enjôo para comer. "Isso vinha desde pequena quando soubera que havia comido gato frito. Assustou-se para sempre. Perdeu o apetite, só tinha a grande fome. ( Nunca havia jantado ou almoçado num restaurante. Era de pé mesmo no botequim da esquina).
Macabéa jamais havia ganho presentes. Um dia, viu um livro que o patrão, dado a literatura, deixara sobre a mesa. "Humilhados e Ofendidos". Ficou pensativa. Talvez tivesse se definido pela primeira vez numa classe social, Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?
Um dia em que quis descansar, inventou a mentira.
Nunca se sentiu tão contente. Não devia nada a ninguém e ninguém lhe devia nada. "Até deu-se ao luxo de ter tédio".
No dia seguinte, 7 de maio, sob uma forte chuva de final de tarde, encontrou um namorado. "O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Ele a olhara enxugando o rosto molhado com as mãos, E a moça, bastou-lhe vê-lo para torná-lo imediatamente sua goiabada com queijo" ( observe como aqui a associação entre o desejo da gula e da luxúria se complementam )
Ele a convidou para passear. O rapaz era do sertão da Paraíba e estranhou o nome dela, achando que parecia nome de doença de pele.
Na segunda e na terceira vez em que se encontraram também chovia. Perdendo a forçada educação que vinha mostrando, o rapaz disse para ela: "Você também só sabe é mesmo chover!" "Desculpe", acrescentou a moça que já o amava tanto que não sabia como se livrar dele. Numa dessas vezes é que lhe perguntou seu nome e ficou sabendo ser Olímpico de Jesus (ele acrescentou Moreira Chaves, mentindo, porque tinha como sobrenome apenas o nome de Jesus, sobrenome dos que não tem têm pai). Fora criado por um padrasto.
Ele era operário de uma metalúrgica, transportava o dia inteiro barras de metal. Conseguia até economizar algum dinheiro; dormia de graça numa guarita em obras de demolição, por camaradagem do vigia.
Olímpico gostaria de ser toureiro não tinha pena do touro, apreciava o sangue. Antes de vir para o Rio, tinha ajuntado economias até conseguir arrancar um canino perfeito, substituindo-o por um dente de ouro faiscante. Mantinha a esperança de ser um homem rico, poderoso e até deputado. Em sua terra fora o que se chama de "cabra safado", pois já havia matado um homem de que não gostava, nos cafundós do sertão, com um canivete.
Nas horas de folga esculpia figuras de santo, mas não as vendia por achá-las bonitas. Olímpico era macho de briga. Mas fraquejava em relação a enterros: às vezes ia três vezes por semana a enterro de desconhecidos, cujos anúncios saíam nos jornais. (...) Sempre que podia roubava alguma coisa, Matar e roubar davam-lhe certo "status". "Vingava-se dos poderosos desenhando caricaturas de seus retratos nos jornais".
"As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne de sol, carne-seca, rapadura e melado, Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o amargor da infância. (...) Os dois não sabiam inventar acontecimentos’, Sentados no banco da praça, "nada os distinguia do resto do nada. Em seus diálogos curtos e inconsequentes. Macabéa relatava informações esparsas ouvidas na Rádio Relógio e Olímpico ou repetia seus sonhos de grandeza ou se irritava com ela. A única vez em que a moça falou de si própria na vida foi quando respondeu ao namorado que lhe perguntou se tinha preocupação: "Não, não tenho nenhuma. Acho que não preciso vencer na vida". Estava habituada a se esquecer de si mesma.
Certa vez, para se mostrar forte, Olímpico levantou Macabéa com um braço só; mas não aguentou por muito tempo. A moça caiu "de cara na lama, o nariz sangrando".
Mas era delicada e foi logo dizendo: Não se incomode, foi uma queda pequena. Ele passou vários dias sem procurá-la. Seu brio fora atingido. Depois retornou e chegaram até a entrar num açougue: o cheiro de carne crua a encantava e ele ficava fascinado com a faca amolada do açougueiro".
Macabéa não dava nenhuma despesa a Olímpico a não ser quando este lhe pagou um cafezinho pingado "que ela encheu de açúcar quase a ponto de vomitar mas controlou-se para não fazer vergonha. O açúcar ela botou muito para aproveitar’.
Certa feita, os dois foram ao zoológico, ‘ela pagando a própria entrada. Teve muito espanto ao ver os bichos.
Quando Olímpico viu Glória, a colega de Macabéa. apaixonou-se por ela. "Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. Apesar de branca, tinha em si a força da mulatice.
Oxigenava em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas raízes estavam sempre pretas. Mas mesmo oxigenada ela era loura, o que significava um degrau a mais para Olímpico". ( Repare no nome do personagem_ representa a eterna loucura humana de alcançar os deuses ).
Além do mais, era carioca, pertencente ao ambicionado clã do Sul do pais "Glória tinha mãe, pai e comida quente em hora certa. Isso tornava-a material de primeira qualidade.
Olímpico caiu em êxtase quando soube que o pai dela trabalhava em um açougue. Pelos quadris adivinha-se que seria boa parideira.
Enquanto Macabéa lhe pareceu ter em si mesma seu próprio fim
Olímpico desmanchou o namoro com Macabéa para namorar Glória. "Diante da cara pouco inexpressiva demais de Macabéa, ele até que quis lhe dizer alguma gentileza suavizante na hora do adeus para sempre. E ao se despedir lhe disse. Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida? - Não, não, não! Ah por favor quero Ir embora! Por favor me diga logo adeus! (... )
A reação dela veio de repente inesperada: pôs-se sem mais nem menos a rir. Ria por não ter se lembrado de chorar. (... ) Ficaram rindo os dois aí ele teve uma intuição que finalmente era uma delicadeza perguntou-lhe se ela estava rindo de nervoso Ela parou de rir e disse muito, muito cansada: Não sei não..."
Macabéa procurou permanecer como se nada tivesse perdido. Não ficou triste nem desesperada: "ela era crônica".
No dia seguinte ao final do namoro, ela resolveu se dar uma festa: comprou sem necessidade um batom novo vermelho bem vivo. "No banheiro da firma pintou a boca até e até fora dos contornos para que seus lábios finos tivessem aquela coisa esquisita dos lábios de Marylin Monroe (mais uma referência ao mundo pop! )
Glória riu-se dela. Você endoidou, criatura?"
"Depois tudo passou e Macabéa continuou a gostar de não pensar em nada. Vazia, vazia" Glória lhe perguntou "Por que é que você me pede tanta aspirina? (... ) - É para eu não me doer tanto ! - Você se dói? - Eu me dôo o tempo todo - Aonde? Dentro, não sei explicar. (. ) - Um dia a pílula te cola na parede da garganta que nem galinha de pescoço meio cortado, correndo por ai"
Macabéa rezava indiferentemente e o misterioso Deus dos outros lhe dava, às vezes, um estado de graça. ‘Feliz, feliz, feliz. Ela de alma quase voando. E também vira o disco-voador"
Às vezes a graça lhe pegava em pleno escritório. Então ela ia ao banheiro para ficar sozinha. De pé e sorrindo até passar; esse Deus era muito misericordioso com ela: dava-lhe o que lhe tirava"
Sua única conexão com o mundo restringiu-se a Glória, que não era amiga, só colega. Quando mais nova, Macabéa se conectava com o retrato de Greta Garbo. "Mas o que ela queria mesmo ser não era a altiva Greta Garbo cuja trágica sensualidade estava em pedestal solitário. Ela queria parecer com Marylin.
O namoro de Olímpico e Glória ia bem. "Glória tinha um traseiro alegre e fumava cigarro mentolado para manter um hálito bom nos seus beijos intermináveis com Olímpico" Este não se arrependeu de ter rompido com Macabéa, pois seu destino era subir na vida. Glória compensou a colega por ter-lhe roubado o namorado convidando-a para uma refeição num domingo em sua casa, onde Macabéa se fartou de chocolate, biscoitos e bolo. No dia seguinte passou mal.
"Dias depois, recebendo o salário, teve a audácia de pela primeira vez na vida procurar o médico barato indicado por Glória. (... )
Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era exatamente o que queria nada. Macabéa estava com começo de tuberculose pulmonar (mas também ela só comia cachorro quente, tomava café e coca-cola). O doutor lhe aconselhou comer espaguete e evitar álcool.
Palavras do médico no final da consulta, quando ela demonstrou não saber o que era espaguete e não entender o que ele queria dizer com evitar álcool: "Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam!" A ninguém, nem a Glória contou acerca da consulta.
A colega havia garantido a Macabéa que ficara com Olímpico porque não queria desobedecer a cartomante, que era médium. Talvez por remorso, aconselhou à nordestina: "Por que você não paga uma consulta e pede pra ela te pôr as cartas?" E emprestou-lhe dinheiro.
Pela segunda vez, a moça tomou coragem, a pretexto de dor de dente conseguiu licença para faltar ao serviço. Não lhe foi difícil descobrir o endereço da gorda e exageradamente gentil madama Carlota, ex-prostituta, ex-cafetina, atual cartomante bem sucedida, moradora de apartamento próprio, fã de Jesus, "doidinha por Ele" que sempre a ajudou.
Mais falando de si mesma do que de sua "cliente", a cartomante concluiu: Mas, Macabeazinha. que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!" Resolveu, então, animar a pobre coitada. "Tenho grandes noticias para lhe dar:
Sua vida vai mudar completamente! (...) Até seu namorado vai voltar e propor casamento (...) e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por um homem estrangeiro (...) Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. (... ) Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!
"Num súbito ímpeto de vivo impulso, Macabéa, entre feroz e desajeitada, deu um estalado beijo no mosto da madama. (..) Só então vira que sua vida era uma miséria. Teve vontade de chorar.
Saiu da casa da cartomante mudada. "Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro"
Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa foi atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse socorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabeça, que começou a sangrar. Tomada por uma espécie de delírio oco, observou que havia capim na rua. "O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta" como se ela fosse "uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue. Só que Macabéa lutava muda. Então começou levemente a garoar_ Olímpico tinha razão ela só sabia mesmo era chover!
Os curiosos que se aproximaram nada fizeram "como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam. o que lhe dava uma existência"
"Ela se mexeu devagar b acomodou o corpo em posição fetal. (. ) Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. eu sou. Teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. (.. ) Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Então ela pronunciou uma frase que ninguém entendeu: "Quanto ao futuro." Vomitou um pouco de sangue’ Estava enfim livre de si e de nós. (...) Viver é um luxo. Pronto, passou."
"A Hora da Estrela" é, basicamente, o relato das fracas aventuras de uma moça alagoana "numa cidade toda feita contra ela":_ o Rio de Janeiro.
Clarice Lispector usa o recurso de criar um narrador-personagem: à medida que ele nos faz conhecer a protagonista, também conhece sua própria identidade.
Por que o narrador escreve? Para se compreender. Enquanto eu tiver perguntas para fazer e não houver resposta continuarei a escrever". Sua tarefa é "a procura da palavra no escuro". Evita tratar da felicidade: ela "provoca aquela saudade demasiada e lilás- (.) Eu não quero provocar porque dói.’
O narrador não tem classe social, é um marginalizado "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado e não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria.-
Macabéa é, portanto. uma invenção do narrador que com ela se identifica e com ela morre.
Moída-a sobre o destino e a solidão dele mesmo. Cria-a de forma onisciente (= que tudo sabe) e onipotente ( que tudo pode). Faz da vida dela uma aprendizagem da morte, pois declara: "A morte que é nesta história o meu personagem predileto’. Macabéa desejava ser estrela de cinema, admirava Greta Garbo e Marylin Monroe.
A morte a fez atingir seu objetivo: essa foi a hora da estrela..
De qualquer maneira, e apesar dos pesares, ou apesar do encontro marcado com o crepúsculo, a moça experimentou a antevisão da aurora - "a cartomante lhe decretara sentença de vida" e ela era ‘uma pessoa grávida de futuro".
Ao ser colhida pelo Mercedes amarelo já havia assumido para sempre a felicidade impossível, num esforço sobre-humano que consistiu em mitificar o pesadelo em sonho". (Eduardo Portella).
Junto ao sangue de sua cabeça, nas pedras do esgoto, estava vivo um tufo de capim verde.
Macabéa é um substantivo coletivo, "a resistente raça anã teimosa", o Nordeste rural na sua difícil contracena com a engrenagem urbana, a cidade inconquistável. Ela é o grito no silêncio daqueles que estão marginalizados social e existencialmente.
"A Hora da Estrela’ apresenta dois núcleos de interesse a história de Macabéa e as reflexões do narrador. E, pois, um romance do tipo digressivo em que as opiniões do narrador fazem parte do enredo As páginas iniciais são tomadas pelos comentários dele sobre a própria narrativa, é um texto de metalinguagem, isto é, muito preocupado com a investigação da natureza linguistica do próprio texto.
O narrador assume três formas de presença: monólogo fio condutor da ação; relato puro e simples: palavras das personagens.
Na verdade, sofrendo de consciência culposa, Clarice Lispector se esconde na figura do narrador. Ele escreve no estilo que caracteriza a escritora: a palavra, material básico da narrativa "não pode ser enfeitada e artisticamente vã, tem que ser apenas ela".
Sem retórica ( discursos eloquentes) e sem melodramas ( impactos emocionais), o interior das personagens vai aparecendo e sensibilizando ( é o que chamamos de epifania ).
A consciência individual passa ao primeiro plano da narração. revelada de forma simples, profunda e poética.
Embora possa parecer alienada dos problemas sociais, Clarice Lispector neste livro denuncia todo o contexto social brasileiro e, por extensão, a injustiça no mundo. Ela apresenta a estrutura interna do ser humano massacrado. Com este processo, aparentemente de pura introspecção e de pura fabulação filosófica, ela questiona o mundo organizado e a cultura dominante, resgatando do preconceito os ofendidos e humilhados.
Em um de seus escritos ela deixou as seguintes palavras:
"Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior do que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir "arte’, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era "fazer alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar o escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema da justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele - e, sem me surpreender não consigo escrever".
Sua preocupação com o problema dos oprimidos confirma-se na dedicatória do livro, na qual Clarice Lispector registrou "Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública". Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo ma-dê’
Este livro tem duas características fundamentais: a originalidade do estilo e a profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente banais. A linha condutora é a estória de um imigrante nordestino deslocado e perdido na grande cidade do Rio de Janeiro. Através desse personagem, descortina-se a pobreza "feia e promíscua" e ao mesmo tempo a singeleza de vidas tão pouco interessantes. A narrativa, cheia de digressões (que fazem lembrar o estilo machadiano), vai além da descrição realista de um cotidiano inexpressivo - questiona os valores da sociedade moderna, o papel social do artista contemporâneo e a própria existência humana. A Hora da Estrela transita entre o lado trágico e o lado esplêndido da vida, entre a fragilidade e a grandeza do ser humano. O tema da solidão tem a função de dar destaque às desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo novas perspectivas aos problemas e indagações que nos cercam
Fonte: Literatura Net