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Os Laços de Família
(Resumo)

Clarice LIspector

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.

— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.

Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca", pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.

— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os e ria.

— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.

— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.

— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra, "a proteger uma criança” ...

— Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não chegavam logo à Estação?

— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.

— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.

— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.

Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.

O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada...

— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.

— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou... Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.

— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.

— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com seu pai:

— Dê lembranças a titia! gritou.

— Sim, sim!

— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.

— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.

No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia e refluia no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.

O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.

— "Ela" foi?

— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.

— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.

Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.

Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.

Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.

Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança voavam...

O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança ainda é inocente!" Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina", pensou com cólera, "a criança é inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.

"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.

Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.

A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.

— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.

Fonte: www.releituras.com

Os Laços de Família
(Resumo)

Publicado em 1960, Laços de família é um dos pontos máximos da prosa de Clarice Lispector, talvez o supra-sumo de seus contos. As narrativas dessa obra usam constantemente o fluxo de consciência, por meio do qual conhecemos o universo mais íntimo das personagens. É um expediente que autoriza sua literatura a ser chamada ora de psicológica, ora de introspectiva.

Suas personagens são sempre flagradas no momento em que, a partir do cotidiano banal, alcançam o lado misterioso, inusitado, diferente da existência humana, mesmo que não consigam entendê-lo. No fim, acabamos nos deparando com histórias de exteriorização do oculto, em que o protagonista termina buscando, nos elementos exteriores, o seu interior. Ou seja, a busca da identidade passa pela busca do outro, seja humano, animal ou objeto.

O primeiro conto é Devaneio e embriaguez de uma rapariga, que chama a atenção pelo virtuosismo da autora de reproduzir com fidelidade as expressões típicas de Portugal (lusitanismos) no fluxo de consciência da protagonista, de fato portuguesa. Essa personagem está entediada com seu papel de esposa e mãe de família, chegando a relaxar em suas tarefas de tal forma que, presa à cama, o marido pensa que está adoentada. É o tédio que se instala.

Uma mudança ocorre quando ela e o marido vão jantar com um rico negociante. A protagonista embebeda-se, o que lhe abre caminho para a explosão de vida, longe da mesmice do cotidiano. Fica sempre na vertigem da saída de seus limites, algo até próximo do vexame, mas sente-se segura por ser amparada pela presença de seu marido.

Sua felicidade chega a ser comprometida com a chegada no restaurante de uma loira, dona de um padrão de beleza mais em voga na sociedade. A humilhação parece ficar consagrada pelo fato de a nova figura portar chapéu, ao contrário da portuguesa.

O jogo é virado quando a portuguesa percebe, ao olhar para a cintura fina da moça, que esta estaria impossibilitada de parir. Conclui: bonita, mas ineficiente no que seria sua função feminina. Isso talvez explique a comparação que a protagonista faz entre si e uma vaca: leite, maternidade, vida.

O resto do conto dedica-se ao triunfo da portuguesa, em meio a uma náusea provocada pela bebedeira, que lhe faz sentir o corpo agigantado. Atinge, aí, sua epifania. Sente-se bem. É esposa e mãe de família. Em meio à sensação de que o leite está estourando em seu seio, determina que arrumará sua casa, colocará seu lar nos eixos. Assume majestosamente o seu papel feminino.

O segundo conto é Amor, cuja protagonista é outra dona de casa, que passa sua vida cuidando do lar e da família, como uma maneira de ocupar o tempo e fugir de si mesma. Nota-se, pois, que não está feliz.
Numa tarde, enquanto todos estavam ausentes, resolve fazer compras. No caminho de volta, no bonde, uma cena inusitada ocorre: vê um cego mascando chiclete. Esse ato maquinal feito na escuridão talvez possa ser comparado ao estilo de vida da protagonista. Com certeza, foi um detonador de desequilíbrio na existência insossa da personagem, o que fica simbolizado no tranco que o bonde dá, provocando a queda de suas compras.

Tão atrapalhada a personagem fica, que desce no ponto errado. Dirige-se ao Jardim Botânico. É o momento e o lugar de sua epifania. Diante das árvores, sua emoção é muito grande. Esses vegetais davam frutos, mas também eram sugados por parasitas, o que lhe deu um incômodo nojo (seria uma metáfora de sua condição feminina?).

Perde tanto a noção do tempo que, quando se lembra de que tinha uma família para cuidar, descobre que o parque estava fechado com ela dentro. Enquanto se esforça para encontrar alguém que lhe permitisse a saída, realiza uma inversão de valores. Se antes achava anormal, loucura um cego mascando chiclete, agora é o seu próprio estilo de vida, de dona de casa, mergulhado em rotinas domésticas, que se torna uma loucura.
Consegue voltar, dedicando-se ao seu marido e aos seus filhos. Ama-os, mas agora de uma forma incomodante; ama-os sentindo até nojo.

O terceiro conto, Uma galinha, pode ser resumido na seguinte indagação do narrador: "Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser?". É a história de uma galinha que foi comprada para servir de refeição a uma família, mas que consegue fugir num vôo prodigioso e desajeitado. É a luta por vida, mesmo que numa existência da forma mais instintiva.

No entanto, é perseguida pelo chefe da família, numa pândega corrida pelos telhados da vizinhança, até ser agarrada. De volta ao lar opressor, no meio do estresse misteriosamente a ave bota um ovo. Mais uma vez a imagem da feminilidade associada à maternidade. Tal ato mostra-se tão sagrado, pois que à véspera da morte ela dá vida, que acaba sendo poupada, tornando-se o xodó da casa.

O tempo passa, e com ele talvez todo o aspecto divino de sua feminilidade. Um dia acaba por servir de refeição.

O quarto conto é A imitação da rosa. Laura, sua protagonista (outra dona de casa), é extremamente perfeccionista. É tão metódica que arruma a casa e a si muito tempo antes do compromisso que tem à noite, só para estar disponível para ajudar o seu marido a se trocar de roupa.

O clímax surge quando vê um buquê de rosas, algo tão comum, que pareceu naquele momento inusitado. É uma metáfora da feminilidade e da perfeição. Quase uma representação de Laura, que só não é completamente perfeita no seu papel feminino porque não tem filhos.

Sente a tentação de mandar as flores para sua amiga Carlota, que lhe é exatamente o oposto no quesito perfeição. Mas por que dar algo que é o melhor de si? Por que não ficar elas? Não teria mais direito? Até que conclui que seria coerente com seu senso de perfeição enviá-las.

O quinto conto, Feliz aniversário, é sobre uma festa em comemoração aos 89 anos de D. Anita. Toda a família reúne-se, todos ali saídos, gerados da matriarca. No entanto, esses laços de família são apenas formais, pois o grupo está presente apenas por obrigação. Não há mais emotividade em relação à velha, muito menos entre si. Tudo é artificial, forçado. D. Anita percebe que todos ali lhe são alheios, não parecem terem saído dela. É quando sente nojo. Em meio à festinha, cospe. Um ato escandaloso, mas que acaba sendo desculpado em nome da idade da senhora.

Nesse momento D. Anita triunfa sobre sua família. Um dos seus filhos, empolgado em fazer discursos, no final da festa despede-se com um "Até o ano que vem". Era um indicativo de que, apesar da mediocridade de sua família, D. Anita os superava, estava acima deles.

A menor mulher do mundo, o sexto conto, é carregado de aspectos líricos e simbólicos. Narra a descoberta da menor integrante de uma isolada e frágil tribo africana de pigmeus, os Likoualas. É o elemento mais pária dos párias. Assemelha-se à galinha do conto Uma galinha, ou a Macabéa, de A hora da estrela. E o mais inusitado é que Pequena Flor (este é o nome que ela recebeu) está grávida. Carrega dentro de si o mais precioso segredo da feminilidade: a maternidade.

A notícia da descoberta desse minúsculo ser humano espalha-se pelos jornais, causando as mais diferentes reações em seus leitores, desde a alienação, até o assombro, passando pelo lirismo, revolta e encanto. Mas destaca-se o mal-estar do cientista-explorador que a descobriu, pois sabe que o menor dos seres carrega uma vida, e a sagacidade de uma senhora, que encerra o conto quando fecha o jornal que estava lendo é diz: "Deus sabe o que faz". Dentro de uma cena banal, o mistério da vida.

O sétimo conto é O jantar. É o primeiro a apresentar o foco narrativo centrado numa figura masculina, que se põe a observar com detalhismo incrível um outro homem jantando. Na realidade, não é uma simples janta, mas um espetáculo do vigor primitivo diante do mais primordial ato da existência: alimentar-se. A metáfora para isso está na mão pesada e cabeluda do faminto manipulando os diferentes manjares.

Todo esse show esfria quando o degustador pede a sobremesa, que é classificada como medíocre em comparação a toda a encenação anterior, e principalmente quando põe óculos para pagar a conta. Nesse momento o observado - talvez longe do aspecto mais primitivo - parece ter envelhecido.

O oitavo conto, Preciosidade, tematiza delicadamente a iniciação feminina. Sua protagonista é uma menina que vivia a constante tensão de sempre se guardar. Sabia que possuía uma preciosidade, pois é uma mulher, mas nem sequer pensava no potencial que ela permitia. Temia a possibilidade dos homens por onde ela passava fazerem ou mesmo falarem alguma coisa proibida. Vivia, pois, na tensão da possibilidade de um ataque à sua feminilidade.

Flagramos a menina no início de um dia, preparando-se para ir à escola. Notamos o seu caráter desleixado, pois, como tem de sair cedinho, ninguém a vê e ninguém a fiscaliza. Por isso, não tem que se preocupar em tomar banho.

Uma reviravolta acontece. Na escuridão do caminho, perde sua preciosidade: é tocada. A cena transborda um mutismo tenso, não só da vítima, mas também dos agressores. Tanto que estes fogem, deixando-a por muito tempo paralisada, sem noção do tempo. Quando volta a si, retoma seu caminho para a escola, chegando na terceira aula.

O fato de ter sido tocada indica ter sido desejada. Perdeu uma preciosidade, que de certa forma era uma virgindade, mas acaba ganhando outra. Nasce mulher, com desejos. Por isso pede a seus pais sapatos novos. Quer ser bonita, quer aproveitar a vida, quer ser amada.

O nono conto, Os laços de família, inicia-se com a despedida de Severina, que havia passado alguns dias na casa de sua filha, Catarina. Enxerga-se aqui a riqueza das relações familiares, apesar das comuns faltas de jeito, dos interditos, do silêncio. O marido de Catarina, engenheiro (típico representante do pragmático, do certinho, do ajustado), não se relacionava bem com a sogra, o que parecia ser recíproco, mesmo que os conflitos se mostrassem surdos. No entanto, na despedida, apresenta-se de ambos os lados uma cordialidade surpreendente.

Mais interessante é a relação entre mãe e filha. Querem se despedir, mas não conseguem usar as palavras na adequada sinceridade. É difícil para Catarina dizer para a mãe que a ama. A mesma dificuldade deve estar do lado de Severina. Dessa forma, tudo cai na formalidade dos laços de família, escondendo outros laços mais fortes.

Voltando para casa, depois da partida da mãe, Catarina pensa em seu filho, qualificado por Severina como uma criança nervosa. Encontra-o ensimesmado, introspectivo, absorto. Dá trabalho libertá-lo de seu mundo, chamar a sua atenção. Mas consegue. Resolve sair com ele para um passeio, o que deixa o seu marido apreensivo. Misteriosamente ele sabe da explosão de sentimento, de amor que a esposa está tendo e que parece querer transferi-lo para o seu filho. Talvez por isso ele exclame: "Catarina, esta criança ainda é inocente!". Mas sua frase cai no vazio. Está sozinho. Da janela do seu apartamento, vê sua mulher e seu filho passeando. Intui o laço misterioso que há entre eles. Sente-se mais solitário, por estar excluído dessa ligação.

O décimo conto, Começos de uma fortuna, é diferente do conjunto, pois apresenta uma personagem masculina, um adolescente. Trata-se de Artur, alguém que luta por atenção, o que o faz adorar trocas. Como numa psicanálise, o narrador entra na gênese desse sentimento. Quando bebê, o menino adorava que as pessoas o abraçassem, o acariciassem, apertassem sua bochecha. Mas estranhava que logo se cansavam e o largavam, tão cheio de vida, tão carente, tão sedento por mais atenção. Paravam, saciavam-se, mas ele não, sempre ficando no vácuo.

A dúvida é se as relações baseadas na troca de fato são autênticas. Parece ser esse o problema que atormenta o garoto. Quer ir ao cinema com uma menina, mas não tem dinheiro para tanto. Pede dinheiro para os pais (belamente duros e afetivos), no que é negado. Há a possibilidade, que se concretiza, de conseguir emprestado com um amigo, o que significa contrair dívidas. E não pára de pensar em fazer fortuna, além de ficar na dúvida: não sabe se foi explorado pela menina. Riqueza, dívida, exploração, troca, afeto, todos são elementos que se misturam na mente de um adolescente que ainda é o bebê carente pedindo mais atenção, mais carinho.

O próximo conto é Mistério em São Cristóvão, denso de simbologia. Em uma noite tranqüila de maio, uma família composta de avó, mãe, pai, crianças e uma filha aproveitam a abastança a que atingiram. A única insatisfação está no coração da moça.

Quando de madrugada todos foram dormir, surgem três homens fantasiados para um baile. Um galo, um touro (o mais gordo) e um cavaleiro. Passam diante da casa abastada e admiram o jardim. Invadem-no, para colher um jacinto, curiosamente a flor que chega a representar os prazeres da existência. A idéia de equilíbrio, comodismo, abastança, é oposta à de intensidade da vida. Viver é de fato um desequilíbrio.

Mas a flor não chega a ser de fato colhida. Fica pendurada no ramo quebrado. É que no momento em que ia ser colhida, o homem-touro nota que estão sendo observados, justo pela moça.

O lar desequilibra-se. Terror. Medo. Todos acordam, mas não conseguem ver o motivo do desassossego da moça - os rapazes haviam fugido, entregando-se desajeitadamente à festa que os esperava. A ex-abastada família chega a duvidar que alguém tivesse estado lá, mas obtém a certeza quando vê o talo quebrado da flor de jacinto. A partir desse momento, todos se esforçam para reconquistar o equilíbrio em suas vidas. Menos a moça, agora dotada de fios de cabelo branco.

O penúltimo conto é O crime do professor de Matemática, dotado de elementos religiosos como missa, pecado, juízo final. Seu protagonista, um professor de Matemática (símbolo da frieza, precisão, objetividade) vai até a parte mais alta da cidade enterrar um cachorro. É uma forma de compensar o seu cão de estimação que havia abandonado. O que o animal havia feito de errado? Nada. Apenas tinha feito do pedagogo o homem que seria seu dono. Ser humano era uma tarefa que incomodava, assustava o mestre, principalmente quando o bicho encarava, não cobrando nada, apenas humanidade.

No final, o homem desenterra o cão e se esquece do crime que havia cometido (abandonar o cão ou não ter coragem de ser humano?). Desce a montanha (como se estivesse em posição mais elevada, mais consciente de suas falhas e caísse na alienação?) e volta para o "seio de sua família". Mergulha, provavelmente, na apatia de sua existência.

O último conto é O búfalo. Nele a protagonista, vinda de um fracasso amoroso de não ser correspondida, quer odiar. É provavelmente um mecanismo de defesa, de acordo com uma frase que se fixa em sua mente: "Onde aprender a odiar para não morrer de amor?" Dirige-se, portanto, ao zoológico, na esperança de que, em contato com formas tão primitivas, conseguisse tão destrutivo sentimento.

No entanto, não encontra esse sentimento, muito menos atenção. Sua experiência parece fadada ao fracasso. Até que passeia na montanha russa. Sentir-se jogada em todas as direções é um solavanco semelhante ao vivenciado pela personagem de Amor. É um desequilíbrio que abre caminho para experiências superiores.
Até que se depara com o torso volumoso de um búfalo, algo próximo da simbologia sexual masculina. A protagonista parece desejá-lo, mas momentaneamente cai na mesma armadilha do amar: é ignorada, pois o animal lhe dá as costas.

No entanto, em pouco tempo, como que instintiva e intuitivamente, o animal sente a presença da mulher. Aproxima-se dela e a encara. É um contato fortíssimo, em que ela sente a explosão de algo como um misto de ódio e amor, da forma mais primitiva e, talvez por isso, mais intensa. É a sua epifania, que se assemelha a um êxtase sexual. O conto termina com o desmaio da protagonista, que tem em seus últimos momentos de consciência as idéias do céu e do búfalo misturando-se.

Fonte: br.geocities.com