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Uma relação de amor...

...e ódio


''Estudar é bom, é um jeito de sonhar com uma vida melhor, se preparar para arrumar um trabalho''

Os jovens, de 11 a 15 anos, participaram de oficinas de fotografia e produziram mais de 8,8 mil imagens sobre sua relação com o ambiente escolar, os professores, os colegas e o entorno (leia mais na pág. 44). Todas as fotos publicadas nestas páginas são desses alunos. Elas mostram que o colégio é, ao mesmo tempo, espaço para paixões e desencantos. É nas salas de aula, no pátio e nos corredores (onde passam tantas horas durante tantos anos) que eles se abrem para o prazer de aprender, descobrem o valor da amizade e do amor, revelam a importância de ter em adultos como você verdadeiros modelos para a vida. Mas é aqui também que eles conhecem as agruras de estudar em espaços maltratados, sofrem com o descaso e o desrespeito de tantos professores e funcionários, se irritam com aulas desinteressantes e exercícios sem sentido, se incomodam profundamente em serem tratados aos berros ou como meros adolescentes. Essa mesma turma se angustia ao perceber que não fala a mesma língua que seus mestres e tem plena consciência de que a violência é uma via de mão dupla - se eles se colocam no papel de vítima muitas vezes, sabem perfeitamente que são responsáveis por provocar conflitos e contribuir para a depredação do patrimônio.


"Às vezes, vir à aula dá raiva porque tem muita gente que não quer saber de nada - inclusive os professores que faltam"

Sonho de um futuro bom


''O melhor de estar aqui é estudar para ter um emprego e, claro, para encontrar os amigos''

Manhã de quinta-feira na EE Professora Esther Frankel Sampaio, no bairro da Penha, em São Paulo. No intervalo, grupos de alunos conversam no pátio, enquanto no corredor um amontoado de gente espera a abertura da sala de informática. O professor chega e "dá a largada". Não há computadores para todos e quem pegar primeiro o mouse conduz a navegação de até três colegas. Um garoto explica a afobação: "A gente quer conseguir um emprego, né?!" Para os jovens da EE José Ribeiro Guimarães, em Mogi das Cruzes, co-autores das fotos desta reportagem, estudar também é um verbo que só faz sentido se vier acompanhado do substantivo trabalho. E no Brasil todo é assim: os estudantes sonham com um futuro melhor do que o presente de seus pais, pequenos comerciantes, pedreiros, trabalhadores rurais. Os adolescentes, na média, só expressam real interesse pelas atividades que lhes proporcionam prazer ou oferecem algum tipo de desafio. Por que seria diferente na sala de aula? Eles sabem reconhecer os professores que os vêem com respeito e admiração - e retribuem à altura. É por isso que os computadores são tão disputados. Eles são a chance de se integrar à sociedade da informação, conhecer o mundo, construir esse futuro melhor. Um futuro que precisa de amigos e amigas. E que lugar melhor do que a escola para fazer e fortalecer amizades, paquerar, despertar para a sexualidade? Há também os que aproveitam o colégio para se alimentar corretamente. Nessas horas, é bom ser aluno.

76% dos alunos vêem na escola o lugar onde podem aprender coisas para conseguir um trabalho Fonte: pesquisa A Voz dos Adolescentes, Unicef/2005

Desperdício institucionalizado


''Não tem nada pior do que chegar segunda-feira e ver o quadro cheio ¿ só para fazer cópia''

Tão importante quanto garantir o acesso à escola é garantir que todos aprendam. No entanto... Bem, no entanto, não é isso que se vê por aí. Infra-estrutura precária, professores que faltam (e não são substituídos), conteúdos sem ligação com a realidade, um mundo de descobertas do lado de fora dos blocos de concreto que deixam vazar luz para dentro dos corredores. O desinteresse do jovem é culpa do próprio jovem (inconseqüente, baderneiro) ou de um ensino que, muitas vezes, parece excluí-lo? "São poucos os professores que estimulam toda a nossa capacidade de aprender. Eles dão atenção apenas aos que estão muito interessados. Assim, é fácil ensinar", diz uma menina da EE Esther Frankel Sampaio. "Eu queria aulas de Educação Sexual para tirar minhas dúvidas, mas os professores morrem de medo das perguntas que a gente faz", emenda outra, de14 anos, da EE José Ribeiro Guimarães. Aos poucos, num processo lento e gradativo, o estudante percebe que o que ele precisa não é oferecido pela instituição. Juarez Dayrell, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador do Observatório da Juventude, vai além: "A capacidade criativa não é nada estimulada. A música, a dança e o teatro que surgem na periferia são desvalorizados pela escola. Com isso, estamos negando o direito aos alunos de vivenciar a própria juventude", analisa. "O resultado, muito mais sério, é que isso acaba por privá-los de esperança." Em tempo: no mês passado, uma das alunas da José Ribeiro Guimarães, também de 14 anos, se tornou mãe. Será que ela vai conseguir voltar a freqüentar a sala de aula?


1,7 milhão de jovens de 15 a 17 anos abandonaram a escola em 2005 Fonte: Inep

O espaço que (des)educa


''Tem professor que chama a gente de burro, vagabundo. Isso aqui, às vezes, mais parece uma prisão''

Para entrar na escola, é preciso se dirigir a um guichê gradeado, onde uma funcionária pouco sorridente pede os dados do visitante. Em seguida, ouve-se o barulho de um molho pesado de chaves saindo do bolso. Outro funcionário, também sem mostrar os dentes, abre um grande portão de ferro. O cenário impressiona. Há grades por todos os lados, a sala de informática mais parece uma cela (tudo para proteger o patrimônio...), as paredes são todas verdes (umas partes em tom claro, outras mais escuras) e as portas das salas de aula são de ferro com pequeninas janelas no meio. Você já viu essa cena, certo? Inúmeros colégios brasileiros são assim. No primeiro dia da oficina de fotografia, um número enorme, todo colorido, pintado na porta de uma sala, logo chamou a atenção. "Eu sou daqui, do pavilhão 10", dispara um garoto que passa pelo corredor. É impossível não pensar num presídio. Até que ponto a arquitetura escolar reflete a arquitetura pedagógica? Paulo Freire já tratou do assunto em seu livro Pedagogia da Autonomia: "É incrível não imaginar o significado do discurso formador que faz uma escola respeitada em seu espaço, na e pela limpeza do chão, na boniteza das salas, na higiene dos sanitários, nas flores que adornam". Se os adultos se incomodam com essa situação, por que os jovens achariam normal?


33,1% dos estudantes já foram xingados por colegas, professores ou funcionários na escola Fonte: pesquisa do Instituto SM para a Educação em 55 escolas públicas e particulares de São Paulo/2006

A lei da porrada


''Alguns alunos só pensam em destruir tudo e agredir os outros que querem aprender''

Diálogo entre as duas turmas de participantes da oficina de fotografia:

- Uma vez, fizemos rebelião aqui. Já aconteceu isso na sua escola?

- A gente quebra tudo lá também.

- É mesmo? As portas já foram arrancadas, os vidros quebrados e as mesas tacadas longe?

- Hã, hã... Mas com menos fúria.

- Aqui, teve um dia que começou a voar tudo: cadeira, mesa, caderno... Era gente chorando para todo lado. A confusão
só acabou quando chegou a polícia especial.

Nesse ponto, parece que todos (alunos, professores, diretores) concordam. "A escola seria melhor se os baderneiros fossem embora. Tem muita gente sem vontade de aprender", resume um de nossos jovens fotógrafos. Por que, então, essa rotina de violência se repete? Alguns dizem que se os estudantes se sentissem verdadeiramente donos do espaço escolar não haveria tanta depredação e tanta violência. Outros acham que a raiz do problema é que se instalou em muitos colégios uma espécie de lei da porrada: ganha quem fala mais alto. E o círculo vicioso parece não ter fim. Todos reclamam que as carteiras são rabiscadas, os muros, pichados, as paredes, depredadas, os vidros, quebrados. Mas, quando eles são trocados, permanecem pouco tempo intactos. As relações humanas também parecem se desmanchar facilmente. "Cala boca, ô, seu bolo fofo", "Japonês, chinês e coreano é tudo a mesma m...", "Aquela pretinha me paga" foram frases proferidas com naturalidade nas duas escolas durante a produção desta reportagem. Os jovens sabem perfeitamente que são ao mesmo tempo vítimas e protagonistas da violência. Eles entendem que é preciso pulso firme para controlar esse desejo desenfreado de romper os limites. Mas acham muito chato ter de passar por tudo isso dentro de um lugar chamado escola, onde eles deveriam estar aprendendo.

20,1% dos estudantes já sofreram agressões físicas dentro da escola Fonte: pesquisa do Instituto SM em 55 escolas públicas e particulares de São Paulo/2006

Parceria de sucesso


''É muito legal morar num bairro em que todos se conhecem e convivem bem dentro e fora da escola''

Se existe algo que os jovens reconhecem e valorizam como uma das melhores coisas da escola é a parceria que ela estabelece com a comunidade. Muita gente pode achar que os adolescentes não estão nem aí para a família, mas isso está longe da verdade. Confira alguns textos produzidos no primeiro encontro da oficina de fotografia: "Sou feliz quando vejo minha família feliz", "Nada é mais importante que meus pais", "Amo minha mãe e não sei viver sem ela". Nas fotos feitas fora da sala de aula, brotam pais, mães, avós, tios, irmãos e cachorros - muitos cachorros. Em bairros tranqüilos, os estudantes desfrutam de relações sociais mais próximas e protetoras: na venda ou no campo de futebol, é fácil encontrar alguém da mesma classe. Nas regiões mais populosas, essa parceria entre a escola e a comunidade pode não ser tão intensa, mas nem por isso é menos importante. Nesses lugares, os círculos de amizade acabam sendo mais limitados e ir à escola, para muitos jovens, é uma das poucas chances de interagir com pessoas da mesma idade (o educador argentino Juan Tedesco chama de "déficit de socialização" esse fenômeno tão comum hoje). Uma socialização que aparece,às vezes, na forma de uma laranja entregue na hora da saída para dar aquela forcinha na caminhada para casa.


95% dos jovens consideram a família a instituição mais importante para a sociedade Fonte: pesquisa A Voz dos Adolescentes, Unicef/2005

Fonte: revistaescola.abril.com.br