Entre os celtas, nos tempos rijos e sanguinários, quando, pelas agrestes montanhas, dia e noite, atroavam buzinas roucas conclamando os guerreiros para a defesa da pátria ou para a partilha dum gamo, enquanto as facas iam talhando a selvagina, ao clarão rubro da fogueira, os file, com os olhos no céu, correndo os dedos ágeis pelas cordas da harpa, recontavam os feitos dos heróis, as beneficências dos gênios e as maravilhas excelentes da terra farta e amável.
Os file eram a "memória" da raça.
Porque ainda não surgira o artista imortalizador que gravasse na pedra eterna ou inscrevesse na folha destrutível a tradição nacional, os file guardavam na memória, transmitindo, de homem a homem, não só os hinos improvisados pelos bardos como as lendas do gênio popular, e a história, conservada nesses monumentos orais, ia dum a outro, como a chama dum círio passa a outro círio.
Dividiam-se os file em dez categorias, desde o oblairo, que apenas sabia sete histórias, até o ollam que repetia de cor trezentas e cinqüenta.
Este livro, amigos meus, é mais vosso do que meu, porque na sua composição entrou apenas a minha memória. Como o ollam venho contar aos que surgem a odisséia da nossa mocidade.
Triste, triste foi a nossa vida posto que, de longe em longe, como um raio de sol atravessando nuvens tempestuosas, o riso viesse palidamente à flor dos nossos lábios. Mas chegamos, vencemos... Deus o quis! E, se ainda não tomamos de assalto a praça em que vive acastelada a indiferença pública, já cantamos em torno e, ao som dos nossos hinos, ruem os muros abalados, e avistamos, não longe, pelas brechas, a cidade Ideal dos nossos sonhos.
Mas no dia em que nela pudermos entrar vitoriosos, pisando a verde, macia e cheirosa folhagem, indo repousar à sombra das árvores, perto da frescura e do murmúrio da água, nesse dia, reunidos pela saudade, sacrificaremos, com religioso sentimento, aos manes dos que ficaram adormecidos à sombra dos ciprestes.
É vosso todo este livro, meus amigos. Eu vim seguindo a caravana que a Musa precedia, cantando, como Minam, à frente de Israel, no êxodo. Vim seguindo e apanhando pelo caminho saibroso e seco as gotas de sangue, as gotas de lágrimas, as estrofes sonoras, os arrancados soluços e os suspiros que deixáveis e, durante a marcha, só três vezes paramos, com as liras caladas, os olhos lacrimejantes, para guardar na terra santa os que caíam.
Já lá vão quinze anos de sonhos e de sofrimentos!
Eis-nos acampados diante da cidadela e que temos nós? Que tesouro possuímos depois de tão árduo combate? Temos ainda, e só, a moeda com que nos lançamos à aventura: Esperança, e alguns louros na fronte: os primeiros cabelos brancos. Enfim...! Já é muito não havermos perdido a Esperança.
O ollam vai falar. Sursum corda!
A manhã tépida, rosada e ressoante — porque os sinos badalavam festivamente em todos os campanários iluminados pelo sol magnífico dum sábado de verão — tinha para Anselmo um encanto novo. Seus vivíssimos olhos pardos, fulgurantes como os dos tigres, filtravam, através das lentes do pince-nez, a alegria, toda espiritual, que lhe ia na alma. Errando pelo céu muito azul, repousando na copa frondosa das árvores do parque onde cantavam, à compita, cigarras e passarinhos, deslizando pela verdura macia dos tabuleiros, boiando nas águas quietas, lisas, espelhentas dos lagos, raro em raro frisadas pelas palmouras dum cisne, que ia airosamente da margem à ilha, tão sereno como se vogasse ao som da correnteza, não viam seus olhos senão a casa para onde o levavam ansiosamente os passos sôfregos, do outro lado do parque, perto dos Bombeiros.
Que lhe importava o esplendor da manhã se outro maior lhe estava reservado além daquelas grades, num retiro maravilhoso de Arte, povoado de mármores divinos, como um templo?
Ali, sim! Dilataria a alma sequiosa e seus olhos teriam a desejada visão duma oficina sagrada. O soalho, de caprichoso e miúdo mosaico de madeira, encerado, luzidio, devia ser forrado por um largo tapete de altas felpas moles, semeado de flores, por entre as quais ninfas, graciosamente nuas, andassem fugindo aos egypans, não porque os temessem, senão para que, demorando a posse, mais os desejos neles inflamassem.
Nas paredes preciosos e raros gobelinos, panos da Ásia, de seda e ouro, com deuses truculentos e aves abrindo caudas imensas resplandecentes, oculadas de ouro. E telas de artistas célebres sóbrias; bronzes e mármores, panóplias de armas autênticas, uma severa biblioteca de madeira negra sabiamente abastecida, a mesa, vasta e pesada, manuelina; cadeiras altas como faldistórios e, acima da mesa, suspenso do teto por uma grossa corrente de velhíssima prata, a lâmpada serena das meditações.
Assim imaginava Anselmo a casa de Ruy Vaz, à qual se dirigia pela primeira vez.
Conhecera o romancista na rua do Ouvidor, dias antes, e ia vê-lo na intimidade do gabinete, nas suas vestes maneiras de trabalho.
Ia penetrar esse ádito em que habitava o escritor que ele seguia de longe, enamoradamente, quando o via passar na multidão com grandes olhos femininos, de longas, sedosas e curvas pestanas, sempre enevoados de sonhos, cofiando o bigode negro, num andar rápido como se sempre fosse à pressa anotar uma idéias, registrar uma observação, rematar uma página, esboçar um romance, consultar uma nota. E tinha revoltas violentas vendo a indiferença da multidão que nem sequer abria alas ao autor de tantas e tão soberbas páginas humanas.
Seguia e, se fosse a uma apetitosa aventura de amor, discreta e arriscada, sorver extasiadamente o primeiro beijo criminoso, enlaçar, com ânsia, o corpo branco e fragrante, molemente lânguido, da mulher amada, não levaria o coração tão sobressaltado. Quando passou o portão deteve-se um momento ao sol, hesitante. "Mas àquela hora o romancista devia estar almoçando..."
Uma corneta soou gravemente, em notas prolongadas e o dobre de um sino passou rolando nos ares lúcidos. Meio-dia!
Atravessou a rua e, de olhos altos, consultando as placas, parou diante de um largo portão que, abrindo sobre um pátio ladrilhado, dava ingresso à casa, de dois altíssimos andares.
Um homem barbado, em mangas de camisa e descalço, varria preguiçosamente a entrada, com a cabeça derreada, um olho fechado para evitar a fumaça do cigarro que lhe rolava, úmido, nos beiços. Anselmo abordou-o:
— Não mora aqui o senhor Ruy Vaz? O homem cuspiu para um lado a ponta do cigarro e, levantando a cabeça hirsuta e ruça de poeira, encarou o estudante com indiferença:
— Quer falar ao senhor Ruy Vaz?
— Sim.
— É por aqui, a terceira porta. E, enristando a vassoura, indicou uma passagem estreita ao lado da escada que levava aos pavimentos superiores. Com a direção indicada, Anselmo dirigiu-se a um corredor cimentado onde amareleciam pontas de cigarros, ao longo do qual corria uma banqueta de tinhorões que o calor escaldante da hora amolecia. Seguindo, metia os olhos indiscretos por todas as janelas, surpreendendo interiores modestos: camas desfeitas, mesas abarrotadas de livros, malas aos cantos. Em um deles um estudante, em camisa, com as pernas nuas, curvado diante de um lavatório de ferro, fazia o laço da gravata ao espelho, enquanto outro, moreno, de óculos, ia e vinha alarmando o silêncio com um vozeirão tormentoso à medida que escovava, com fúria, o casaco que sustentava nas mãos suspenso pela gola:
A vindima eis terminada É beber, toca a beber!
Mentalmente Anselmo concluiu a copla da opereta:
Boa pinga preparada Vai provada agora ser.
Justamente chegava diante da janela que arejava e iluminava o retiro espiritual do romancista. Deteve-se e o sangue, violentamente sacudido pelo choque duma grande surpresa, estuou-lhe no coração.
Ó sonho! Ruy Vaz ali estava, não como um deus no santuário venerável, mas homem, simples homem, modesto e pobre, entre móveis reles, de calças de brim, camisa de cetineta aberta no peito, curvado sobre a bacia do seu lavatório de vinhático escovando os dentes com fúria.
Ao centro da sala a mesa acumulada de livros e de papéis, duas estantes de ferro, a cama ao fundo e as paredes nuas, tristemente nuas como as da cela de um monge.
O estudante, passada a primeira impressão, sentiu-se mais à vontade. Aquela singeleza ascética tornava o homem mais acessível, humanizava o deus e, repentinamente, como nesse relâmpago cerebral dos moribundos que revêem a vida inteira no transe extremo da agonia, Anselmo lembrou-se dos grandes escritores: Camões, seguindo lentamente as ruas de Lisboa na fria, nevada tristeza das manhãs de inverno, estendendo a mão gloriosa e forte da pena e da espada à caridade; Cervantes, encolhido num cárcere, com um cantil e um pão; Shakespeare, sofreando os cavalos das seges à porta dos teatros e, mais próximo, o dulcíssimo Lamartine acabrunhado e esquecido; Balzac decompondo o cérebro para abrandar os credores que o perseguiam implacavelmente; Murger acabando na triste sala dum hospital e.
— Oh!
— Bom-dia!
— Entra. Vendo-o, Ruy Vaz precipitou-se para a porta arrastando chinelas e convidou-o descerimoniosamente: Entra... Então? Ofereceu-lhe uma cadeira. Anselmo, porém, repousando o chapéu sobre a mesa, ia sentar-se em outra, mas o romancista opôs-se:
— Essa, não! Joga muito, é o meu navio. E a cadeira das sensações de aventura e um edificante exemplo dos funestos resultados do vício. Serve para dar-me a ilusão das grandes viagens pelos mares fortes e, ao mesmo tempo, previne-me contra as bancas. Joga tanto que até perdeu os fundos. Que há de novo? Está um dia magnífico para um passeio ao campo. Atulhou de fumo um cachimbo, repoltreou-se na sua cadeira de trabalho, esticou as pernas, cruzou os pés e ficou-se baforando.
Anselmo achava-o íntimo demais. A sua mobília não era das mais preciosas, isso não era, mas o talento dava-lhe direito a uma restiazinha de orgulho; era, entretanto, de tão lhana franqueza, de tão simples camaradagem... Ainda orgulho, pensou o estudante. O romancista, notando-lhe a timidez e o vexame, queria pô-lo à vontade. Magnânimo, isso sim; magnânimo como um leão.
— Vim interromper o seu trabalho, disse Anselmo tomando da mesa uma espátula de osso.
— Não, por hoje tenho a minha conta. Ia agora justamente fazer o meu pequeno passeio à chácara. Quer vir?
Pois não. Saíram seguindo para o fundo da casa. O que o romancista chamara pomposamente, imaginosamente "chácara" era um terreno bravio, que fora, em tempos mais prósperos, jardim cheiroso e de trato. Um caramanchel, sobre o qual alastrava, viçosa, a verde folhagem de uma passionaria, fazia uma arcada rústica dando passagem para esse canto isolado e mudo de meditação e entulho. Ao centro, sitiado pelo mato daninho, velho tanque escalavrado e seco, com um outeirinho ao meio de onde subiam, largas e duras, as folhas de ferro de uma planta que, outrora, esguichara a água sussurrante por um bico insinuado entre as hastes derreadas e enferrujadas. Um banco forrado de conchas, com assento de mosaico, escaldava ao sol, junto ao muro; outro fronteiro, resguardado pela ramada frondosa dum tamarindo, com muita erva em torno e, derrubado, meio oculto pelas ervas, um hércules de louça, fendido e enegrecido, com a pele do leão sobre os ombros, um coto da massa ao punho, em atitude contemplativa, jazia em esquecimento triste.
Os olhos alcançavam os fundos das casas vizinhas: janelas abertas à luz, chaminés fumegando, mulheres debruçadas falando para os quintais; e, de instante a instante, cortava fundamente o silêncio o grito de uma araponga, metálico como a pancada sonora e ressoante do malho na bigorna. Sentaram-se os dois e Anselmo pôs-se a falar saudosamente da terra amada e longínqua, berço de ambos, província farta que é um celeiro e um Parnaso onde, com a mesma exuberância, pululam o arroz e o gênio; terra de algodão e de odes donde; com ingrata indiferença, emigram os fardos para os teares da América e os vates para a rua do Ouvidor; terra das líricas, terra das palmas verdes, terra dos sabiás canoros.
O romancista ouvia a facúndia do patrício, fumando com a impassibilidade de um turíbulo, os olhos altos como se seguisse um sonho. O silêncio de êxtase em que ficou foi interpretado pelo estudante como uma prostração de saudade.
Ele fora despertar na alma do patrício a nostalgia que o tempo consumidor havia esmaecido, lembrando-lhe a terra nativa onde lhe haviam corrido os dias da infância, onde haviam rolado as suas primeiras lágrimas. Céus que seus olhos lânguidos tanto namoraram nas doces manhãs cheirosas quando, das margens remotas dos grandes rios vinham, em abaladas, brancas, sob o azul macio, as garças peregrinas; campos de moitas verdes onde, nas arroxeadas tardes melancólicas, ao som abemolado das flautas pastoris, o gado bravio, descendo das malhadas, em numeroso armento, junto, entrechocando os chifres aguçados, mugia magoadamente quando, por trás dos serros frondosos, lenta e alva, a lua subia espalhando pela terra morna o seu diáfano e pálido esplendor; frescas ribeiras, sonorosas onde o mururu expande o seu aroma, à noite; serras e alcantis agrestes, sítios do alto sertão, cabanas hospitaleiras das estradas, noites de idílio, noites de festa... Ah! Tabaroas morenas de olhos negros, colos que cheiram como baunilhais, bocas que recendem mais que bogaris... Ah! Minha terra! Cantilenas de amor junto à fogueira, balsas vogando rio abaixo, ao sabor da corrente... Ó tempos nunca esquecidos! Ah! Minha terra!
Dois pombos passaram no ar batendo as asas.
— Em que pensa? — perguntou Anselmo.
— Na minha terra. Enfim... que hei de fazer se o coração entende que, apesar de tudo, hei de ter saudades dela.
— Apesar de tudo... Tem então alguma queixa?
— Se tenho alguma queixa?! Da terra, não: dos homens, muitas. Depôs o cachimbo e, miudamente, em narração sentida, recapitulou a sua história de sofrimento e heroísmo. Primeiro no comércio, vida acabrunhadora e rude, toda material. De manhã, à hora dormente d'alva, quando ainda, com a luz dourada que nasce, brilha a pálida estrela, de pé, os olhos mal abertos, lá ia varrer os cantos da casa, espanar o balcão, os móveis e arrumar à porta as amostras. Depois todo um longo dia a servir, entre o tédio dos fregueses e a grosseria dos patrões, ganhando apenas o alimento escasso que parecia ser dado como esmola. À noite, num quarto abafado sobre uma enxerga, com uma candeia lúgubre, enquanto os companheiros, extenuados, roncavam trovejantemente abalando o tabique, entregava-se à furtiva leitura. Lia, lia sem ouvir os sinos da Sé que, no silêncio adormecido, gravemente anunciavam as horas. Lia, mas com que receio, estremecendo ao menor ruído, preparando-se para soprar a candeia a fim de que o não apanhassem em flagrante de tão nefando crime. E os galos cantavam, rompia a manhã. Cerravam-se-lhe, então, as pálpebras. Mas um dos companheiros, que dormira balordamente a noite toda, ia arrancá-lo ao leito impelindo-o para a vassoura com o pulso acostumado às arrobas dos fardos.
— Eh! Molenga! Quem sabe se temos aqui um filho de morgado!
Só aos domingos dava um pulo à casa e, com o rosto no colo maternal, soluçava, sentindo uns dedos brandos e carinhosos andarem-lhe pelos cabelos e, de vez em quando, um beijo na fronte. Mas quando os lábios fugiam, no ponto em que soara o beijo, lágrimas ficavam.
Mas quis Deus que o livrassem do tormento — lá foi aos estudos e, à medida que no Liceu escutava a palavra lenta de Sotero, o mestre amigo que sabia de cor Horácio, Ovídio e Virgílio, no atelier de um artista passava as horas de folga familiarizando-se com o desenho: estirando as primeiras linhas, contornando imagens, debuxando academias, entre esboços de telas, estudos, manchas, até que, um dia o mestre, dando-lhe tintas, uma tela nova e liberdade, escancarou a porta larga do atelier que abria para um terreno amplo, mostrou-lhe a Natureza, a esplêndida e viva Natureza na sua agitação alegre, num esplendor de cores, numa harmonia de sons e disse-lhe: trabalha! Foi nesse dia de deslumbramento que ele sentiu no coração o surto artístico. Era a vida. Trabalha!
E, maravilhado, dilatando os olhos e lançando-os livremente pelas aveludadas relvas, pelas frondosas copas do arvoredo, pelas águas claras que fugiam e pelo céu alto, magnífico, de um azul forte, sem mancha de nuvem, tomou dos pincéis e, febrilmente, com enlevo, foi transportando a Natureza, tal qual a via ao ar livre, sem sentir o ardor cáustico do sol que lhe dourava a cabeça ardente. De quando em quando ouvia a voz animadora e simpática do velho mestre: "Trabalha!"
Ele não precisava que lhe dissessem — era com ânsia que ali estava, possuído, num delírio, como se receasse que a tarde viesse rápida e apagasse aquelas cores admiráveis que eram as galas da terra e as maravilhas do espaço. Ainda uma vez, porém, a sorte foi-lhe ingrata e adversa. Uma manhã, desolada manhã!
Os sinos dobraram de espaço a espaço, lúgubres, e, rápida, correu a notícia da morte do pintor.
Tinha em tão alta consideração o mestre que não se contentou com os ofícios fúnebres que celebraram em duas ou três igrejas, com órgão, mas, cultualmente, porque lhe faltava quem, com resignação, se prestasse a ser vitimado com um golpe de faca, à maneira gaulesa, sobre a laje branca e fria do túmulo do artista, tomou dum metro de tela e, rebuscando na história do mundo um episódio que lhe fornecesse farta mortalha, achou a revolução francesa que, prodigamente, lhe cedeu a hóstia desejada.
Pôs-se então a pintar com abundância de vermelhão da China. Escolheu uma rua da velha Paris, apertada e sombria. As casas, altas, de quatro e cinco andares, desaparecem sob o acúmulo de mortos, porque há cadáveres até ao alto das goteiras. Aqui, os pés de um patriota; ali, a cabeça de uma criança; além o ventre estripado de uma mulher; e, saindo da hecatombe, hirto como um fueiro, o braço de uma das vítimas ameaçando a tirania. O fundo do quadro oblativo, de perspectiva trágica, é um coágulo de sangue, expressão, em rubro, do anunciado jour de gloire.
O quadro tem gênio, o que o mata é o zarcão hemorrágico. É um necrotério. O autor tinha vinte anos e, nessa idade, quem faz questão de mais ou de menos mortos? Ele queria o grandioso e atirou à tela toda a população da França espatifada, a população da França e gente das colônias, porque há lá um pé, certamente da Martinica, muito em destaque no sarapatel heróico.
Exposto o quadro foi tão grande o espanto que a cidade ficou deserta como um cemitério e os mortos foram transferidos para o gabinete do artista, onde esperam o juízo final.
Por esse tempo andavam-lhe no cérebro umas idéias novas e um impulso novo levava-o a outros exercícios mais intelectuais que o do pincel. Em abandono desolado, sem o conforto do mestre, refugiou-se no seu gabinete donde, como um profeta vingador, vivendo em cenóbio para fugir aos vícios torpes do mundo e às seduções do pecado, mandava, em largas páginas, nervosamente escritas à luz serena da Moral, a terrível e fulminante "polêmica" contra os padres que, de batina arregaçada e solidéu relambório posto à banda, com ares devassos e desabridos de capadócios, iam anuviando as almas simples com pregações obscuras quando a quaresma fúnebre chegava, enchendo a cidade de melancolia e dum cheiro insípido de incenso.
A cleresia uivou e uivaram as classes conservadoras. O jovem demagogo era olhado com asco pela gente pacata e as velhas, se, por acaso, viam-no passar, caminho do jornal, que era o oráculo de onde ele anunciava os crimes dos intrujões de sotaina, que tocavam para o arrabalde, em noites claras, com mulherio e vinhaça, bebendo e folgando até à hora em que o sol os devia trazer humildemente, santamente, aos confessionários, as boas velhas, se o viam passar, procuravam, trêmulas e aflitas, as contas dos seus rosários e pediam a graça de Deus para aquele espírito endemoniado.
A celeuma foi grande e redobrou de violência quando, inesperadamente, ele atirou ao meio pacato, como uma bomba, o seu primeiro romance, libelo formidável contra o preconceito. As famílias bradaram, o comércio rugiu, a cleresia esbravejou e um jornalista dos mais conspícuos, ferreteando-o com a vilta de "zote", conjurou-o a deixar "a vidinha peralvilha de escritor indo, de preferência, para a foice e o machado. Já que tanto amava a natureza e não acreditava na metafísica, nem respeitava a religião, tendo entusiasmo apenas pela saúde do corpo e pelo real sensível ou material, que se fosse a cultivar as terras ubérrimas". E clamava, terminando: "À lavoura, meu estúpido! À lavoura! Precisamos de braços e não de prosas em romances." E, conceituosamente, em rasgo de sabedoria, perorou: "Res non verba." E o jornal em que saíram estas palavras tinha, no cabeçalho, em grandes letras gordas, o preclaro e sugestivo título de: Civilização.
Apesar dos acirrados vitupérios da crítica e dos esconjuros indignados do beatério o livro teve saída: em menos de um mês esgotaram-se mil volumes e, na capital, um brado uníssono saudou triunfalmente o romancista que, desde então, não teve outro pensamento senão o de transportar-se ao Rio de Janeiro, com o produto da venda do seu livro maldito.
E fez-se de rumo para o Rio, a cidade ideal dos que têm na alma uma aspiração. E como ele a divisava através da fantasia! Uma cidade suntuosa, culta, intelectual e nobre, onde os artistas eram olhados com admiração e respeito, como em Florença, no tempo dos Médicis, quando, diante de Cosme, o Magnífico, Miguel Ângelo animava com o seu cinzel vital os mármores impassíveis e fazia irradiar a tela com a magnificência grandiosa das suas tintas.
Logo que saltou no cais com as malas e a tela sanguinolenta que recebera, para todos os efeitos, o título de A Barricada, sentiu grande peso no coração e os olhos foram-se-lhe saudosos pelo mar imenso. Vago pressentimento de infortúnio punha-lhe densas névoas na alma, mas a grande luz animava-o — reconhecia o céu, reconhecia o sol, eram os mesmos, que lhe importava o resto?
Se, por vezes, combalido, o seu espírito cedia à tristeza e ao desânimo, como a voz espectral do velho Hamlet, correndo subterrânea e soturna bradava aos de Elsenor: Jurai! Subia do fundo da sua memória a voz meiga e animadora do mestre: — Trabalha!
E foi o espírito amado que o apresentou. Não quis estrear com a pena, preferiu o lápis, e fez-se desenhista de um jornal ilustrado.
Mas a vida começou ingrata e árdua. Quantas noites de desalento! Quanta amargura! Quanta saudade! E, nem sequer o colo da velha mãe para repousar a cabeça, nem os seus beijos, nem os seus carinhos... De longe em longe, uma carta trazendo a bênção; e era só.
E se uma doença o prostrasse?! Quem havia de ficar à sua cabeceira como ela ficava, noites e noites, de olhos abertos, solícita e acariciante? Mas a voz do mestre levantava-lhe o ânimo:
— Trabalha!
Deixou o lápis, molhou a pena e, noites longas, num quarto pobre, que era como a gruta dos ventos, enchendo tiras e tiras, concluiu outro romance e, desde essa época, ora num alto sótão, ora ao rés do chão, suspendendo A Barricada a centenas de paredes, correu a cidade com as tintas secas na palheta, com os fios dos pincéis endurecidos, seguindo a grande Alma do povo nas suas ruidosas alegrias, nos seus inconsolados sofrimentos.
Entrava na oficina do operário, subia às pedreiras e, enquanto a broca ia furando o granito, sob a radiação vivíssima do sol, auscultava o coração do homem rude. Ia aos mercados, aos quartéis e, à noite, disfarçado, de blusa e tamancos, um gorro à cabeça, o cachimbo à boca, penetrava as estalagens confundindo-se com os que fervilham nesses formigueiros de almas; sentava-se à mesa das tavernas lôbregas, fazia-se das farândolas e assim, mergulhando nesses oceanos, trazia as pérolas que encravava nas páginas dos seus livros. Era essa a sua história. Anselmo, que ouvira extasiado, quando o romancista terminou disse, com inveja de todos aqueles sofrimentos:
— Sim, mas venceu! Hoje descansa e tem um nome glorioso. Ruy Vaz sorriu reacendendo o cachimbo e Anselmo, pondo-se de pé, exclamou:
— Pois eu agora é que vou começar a viver.
— Das letras?!
— Sim.
— Dize então, e dirás melhor e com mais acerto: vou começar a morrer.
— É possível, será um suicídio, mas não posso com o Direito. O Corpus Juris é o meu pesadelo. Tenho horror a tudo aquilo. O Oriente, o luminoso Oriente!... A Grécia com os seus deuses e com os seus heróis, a Índia com os seus mistérios. Isso sim! Sinto-me arrastado para essas idades. Amo o antigo e esse entranhado amor faz com que eu acredite na metempsicose. Eu fui grego, pelejei nas Termópilas...
— E apanhaste um golpe na cabeça que te levou uma aduela.
— Palavra de honra! Afirmou convencidamente o estudante e, assomado, pôs-se a discorrer e, enquanto referia episódios clássicos de Homero, de Hesíodo, de Xenofonte, Ruy Vaz, que lhe mirava os sapatos muito lustrosos, perguntou:
— Qual o teu número?
— Meu número? 128.
O romancista ergueu-se violentamente.
— Como?! 128...! Não são tão grandes os pés dos versos do Rodrigues. Falo do teu calçado.
— Ah! Pensei que se referia ao meu número de matricula: 38.
— Trinta e oito. Então somos gêmeos. É também o meu. Levantou-se e, depois de lançar um novo olhar aos sapatos do estudante, convidou-o:
— Vamos! O sol começa a abrasar. E caminharam vagarosamente para o quarto onde o criado, como um ciclone, atirava furiosas vassouradas levantando uma nuvem de poeira.
Tiveram de esperar um instante ao ar. Logo, porém, que o criado deu por terminada a limpeza, entraram e Ruy Vaz foi ao lavatório fazer uma ligeira ablução e, enquanto mergulhava as mãos espalmadas, batendo na água com a volúpia de um cisne acalmado, o estudante, de cócoras, examinava as estantes passeando os olhos pelas lombadas dos livros, atirados ao acaso em mistura incongruente e confusa: a Manon, de Prévost, estava apertada entre decrépitos volumes de Helvécio e um massudo relatório do ministério do império; Homero, numa intangida brochura, tinha familiarmente ao lado um volumete: Urzes e flores, dum Mendes, de Araraquara, contemporâneo e piegas.
Era assim em todos os raios — a douta filosofia acotovelada pelo romantismo ridente; a religião com os seus mistérios da vida superior e as suas consoladoras promessas de eternidade e bemaventurança esbarrava com as duras palavras céticas de Schopenhauer e de Hartmann, e Musset, meigo e amoroso, gasto do muito uso que dele havia feito toda uma geração de sentimentais, dormia sobre um atochado volume de Annaes da câmara dos deputados do ano de 1851.
— Tens alguma coisa urgente a fazer na cidade? — perguntou o romancista enxugando as mãos.
— Não. Por quê?
— É que eu preciso dos teus sapatos.
O pasmo do estudante não passou despercebido ao autor de A Barricada.
— Imagina a minha situação. Tenho um caso de amor, amor fino; o meu lunch de hoje vai ser um fruto proibido. É uma dama da élite: loura, de olhos azuis, uma cabecinha de Botticelli. Vive a bocejar entre os sessenta anos gelados e impertinentes do marido e a ferrenha catadura do avô reumático, que enche a casa de gemidos quando a não abala com os roncos. Esse lírio formoso espera-me hoje às 3 horas da tarde, enquanto o marido discute no Senado uma prudente medida de salvação nacional e o avô toma o seu choque elétrico. A ocasião é das mais favoráveis. Dá-se, porém, o caso grave de eu não ter, no momento, calçado idôneo. As mulheres têm o olhar curioso e essa então, que é pudica, no primeiro instante baixará os olhos e dará pelos meus sapatos, que começam a descambar em alpercatas. Tenho ali um par de botinas, mas apertam-me como credores, e tu compreendes que um homem que vai para tão arriscada fortuna deve ir preparado para todos os casos, principalmente para correr. Imagina que morre um senador e suspendem a sessão ou que, por excesso de umidade não funciona a máquina elétrica, como hei de eu, com os pés entalados, fugir à cólera do marido ou à fúria do avô? Um é bravio na oposição, deve ser tremendo em se tratando da honra doméstica; o avô foi revolucionário, viu muito sangue, e feroz. De mais, as minhas botinas (falo-te como a um irmão) têm um vício inveterado que me faz perder um tempo precioso sempre que delas me sirvo. Tenho os minutos contados, devo seguir diretamente, aladamente se possível for, para Laranjeiras e, se eu as puser nos pés, sei que vou ter à secretaria de Agricultura.
— Como?!
— É uma história. Empresta-me os sapatos e, às cinco, estou aqui com eles.
— Pois não. Mas a história...?
— Ah! Falando, Ruy Vaz, para não perder tempo, ia vestindo-se. A história é simples. Já pensei em escrevê-la com o título: A psicologia das botas. Há botinas de primeira mão, ou antes: de primeiro pé, e há botinas sabidas. Sabido é o calçado experiente que já serviu a outrem, e por velho, passou à tripeça do remendão que lhe pôs uma tomba e uma sola, vendendo-o por preço cômodo aos que vivem a esperar sapatos de defuntos. Não penses que te quero chamar defunto, nem contava hoje contigo. A felicidade vem sempre inesperadamente. As sabidas guardam os hábitos do primeiro dono. Se serviram a um militar forçam os pés ao ritmo da marcha; se foram de um amanuense levam-nos à secretaria e assim por diante; é macabro, mas é verdadeiro. Tive um par de botas que me arrastava sempre para as praias, para as casas de armas, para as farmácias, para os trilhos dos bondes. Preocupado com essa contumácia dei-me ao estudo do caso e convenci-me que o primeiro dono fora um desgraçado que tinha mania do suicídio. Essas que agora possuo foram, com certeza, na primeira encarnação, de algum empregado da secretaria de Agricultura. Os teus sapatos são novos?
— Comprei-os ontem.
— Ah! Então são puros, não estão ainda viciados. Vou com eles como se levasse nos pés as asas de Mercúrio. Dá-me-os. O estudante, meio desconfiado, tirou os sapatos e mergulhou os pés nas desbocadas chinelas do romancista. Rápido, Ruy Vaz calçou-os e pôs-se de pé radiante.
— Então, servem?
— Ora! Estou como no Paraíso! Não há como a gente ter o mesmo número e é maravilhosa a exatidão das matemáticas. Grande coisa o algarismo! Mas fez uma careta: — Diabo, o teu 38 é caixa baixa, tem pouca altura. Tens o pé muito seco, isto é mau. O pé é a base do homem, deve ser forte. Enfim... como o calor dilata os corpos e todo eu ardo em ansiedade... até logo! Tomou a bengala, acendeu um cigarro e estendeu a mão ao estudante:
— Olha, tens aí poetas e filósofos. Sobre a mesa há o volume de odes de um vate goiano, se quiseres dormir. O fumo está aqui nesta velha faiança. Até logo! Se vier alguém não estou em casa, podes mesmo dizer que fui para Petrópolis ou para São Paulo, embarca-me para onde quiseres. Até logo! Já à porta, voltou-se: Se queres fazer exercício de idílio apurando a ternura, das quatro em diante costuma aparecer a uma janela dos fundos daquela casa, que tem a parede blindada de zinco, uma menina ruiva, arrepiada, de olhos chorosos que se presta pacientemente a ouvir declamações: Vai lá para o banco da chácara. Franziu de novo o nariz, torcendo o pé: Diabo! Decididamente tens o pé muito seco... e isto está me incomodando deveras. Até logo, às cinco. E foi-se.
Anselmo ficou a meditar sobre a estranha Psicologia das botas e sobre o destino dos seus sapatos. Já os via penetrando, com discreção, a câmara da entediada e loura dama. Já os via afundados nos felpudos tapetes, já os via aconchegadinhos às sandálias bordadas da amorosa, falando-lhes em segredo, perto do leito, enquanto os donos...
Ah! O dono dos sapatos era ele e ali estava só, com duas velhíssimas chinelas nos pés, entre livros, diante de uma mesa carregada de papéis onde reluzia a pasta do escritor, bojuda e larga. Que havia de fazer para não sentir as horas lentas e caladas que iam passar? Tirou o casaco e o colete e, senhor da casa, sentiu uma pontinha de despeito, mas recompôs o espírito alvoroçado com um argumento fino e justo: "Sim, se lhe emprestei os sapatos ele confiou-me a casa que, se não vale pelos móveis, duma deplorável banalidade, muito merece pelo que há ali naquela pasta atochada, preciosa como um tesouro e por aquela soberba Barricada que, se agora as aranhas profanam, mais tarde há de ser disputada com o mesmo furor artístico com que hoje os milionários se batem a moedas por um palmo de tela da Renascença." Sentou-se à mesa, tomou um volume, abriu-o ao acaso, e leu:
Une nuit que j'étais prês d'une affreuse Juive, Comme ou long d'un cadavre, un cadavre étendu, Je me pris à songer...
Eram versos de Baudelaire. Apesar de os conhecer, deixou-se levar por eles, embalado no ritmo das estrofes, seduzido pela sonoridade das rimas, mas, de quando em quando, desviava-se-lhe o espírito: a transcendente Psicologia das botas perseguia-o e os seus sapatos como que lhe passavam por diante dos olhos animados, fugindo numa névoa para a câmara cheirosa de uma mulher loura, que surgia dentre sedas e linhos, esplêndida de graça e nua como a Vênus quando nasceu do mar, enrolada em rendas de espumas, à luz do sol da Hélade divina.
Levantou-se bocejando e, mole, sob o influxo dormente do silêncio e do sol que espalhava um suave narcótico no ar, atirou-se à cama com o Baudelaire e leu até que o livro aberto lhe caiu sobre o peito e os olhos se lhe fecharam languidamente.
Que horas seriam quando despertou? Vinha perto a noite. A brisa era fresca, a luz era branda. Sons de flauta passavam no ar. Seria o rouxinol? Não, não era o rouxinol nem era a cotovia, mas um vizinho melómano que soprava o tubo. Ergueu-se, foi lavar o rosto e, revendo-se ao espelho, lançou à própria imagem esta interrogação preocupada: "Por onde andarão os meus sapatos?" Escurecia. Começava a entediar-se quando bateram à porta discretamente.
— Quem é?
— Sou eu, disse alguém com preguiçoso vagar. Foi à porta, entreabriu-a e distinguiu um vulto imenso de mulher. Como lera a Géante, de Baudelaire, atribuiu a aparição daquela monstruosidade à sugestão da leitura. Mas a aparição movia-se, coçava o queixo e falou:
— Sinhá mandô sabê vosmicê cum passô e si vai lá...
— Sinhá! Quem seria a solícita criatura?! Alguma formosa mulher, sem dúvida; talvez a musa reinante do romancista. E que lhe havia de mandar dizer?
— Olha, dize-lhe que estou passando mal. Torci um pé justamente quando me vestia para ir jantar. Como vai ela?
— Ela tá boa. Então vosmicê não vai?
— Não posso. Dize-lhe que estou impossibilitado de sair.
— Sim, sinhô. E a imensa mulher moveu-se na sombra pesadamente e foi-se. Quem será?! — pensou de novo Anselmo olhando tristemente para os pés, como um pavão. Sinhá!?..
Mas... por onde andarão os meus sapatos!? E, conjeturando, debruçou-se à janela, já aflito, vendo chegar a treva sem que, ao menos, tivesse à mão, para alumiar o aposento, uma reles candeia. Como, porém, o almanaque anunciava para a noite seguinte lua cheia contava com a presença clara do astro.
Efetivamente uma luz pálida foi-se desdobrando e branqueando os muros, entrou pela janela, foi até ao fundo do quarto pondo uma fronha alvíssima no travesseiro do leito e uma piedosa mortalha sobre os mortos de A Barricada. O corredor cimentado ficou mais branco que o mármore e os grilos, enlevados, cantaram nas frinchas dos muros enquanto os morcegos, trissando, passavam no ar sossegado que os jasmins abertos perfumavam.
Anselmo começava a sentir as exigências do estômago, o ventre tirânico mandava-lhe recados ao cérebro.
— Acordou a jibóia! disse, como se falasse à lua. Efetivamente a jibóia acordara e a tempo, valha a verdade, visto como o primeiro repasto fora às onze da manhã e, como era verão, dos dias longos, era justo que, a horas tão adiantadas da tarde, tendo digerido, ela reclamasse nova ração. Mas como havia ele de acudir à fome se não se podia mobilizar preso, como estava, pelos pés?
Entrou em cólera surda invectivando o romancista e ia já transpondo o terreno vil da injúria quando ouviu passos arrastados e reconheceu a alentada mulher, que vinha, de novo, pelo corredor, anunciada por alegre retinir de louças, precedida de suave aroma de guisados, mais grato que o dos jasmins abertos.
Era ela, a desconforme criatura, e trazia uma bandeja coberta por uma toalha alva como o luar. Deu com ele à janela e, sem falar, sorrindo, passou a porta e depôs sobre a bojuda pasta a abastecida bandeja.
— Sinhá mandô dizê qui vosmicê não arrepare... Mas cumu vosmicê disse qui não podia sahi móde o seu pé...
— Oh! fez ele descobrindo, com veneração, a bandeja, é muito amável. Sim, era amável a misteriosa dama e devia ter um cozinheiro perito.
A sopa era dourada e rescendia. Por certo lá ao alto, no luminoso e calmo espaço, todo cheio do esplendor do astro, chegou o perfume porque a lua, dividida em partículas como uma hóstia, veio boiar nos olhos que cintilavam, como ardentias, sobre a superfície da sopa tão dignamente contida em uma tigela de porcelana da China. Havia uma fritada, um triângulo fofo e louro, incrustado de camarões, tendo no vértice uma gorda azeitona de Elvas; um prato de cabidela, fatias sangrentas de roast-beef, entre folhas tenras de alface, ladeadas por duas lascas de fiambre de uma cor de rosa macia; pão, vinho, dois damascos em calda, num pires, e uma grossa talhada de queijo.
A jibóia torcia-se com ânsia, atirando botes como se quisesse abocanhar de uma vez tudo quanto havia. O aroma punha-a em desespero inenarrável. Mas Anselmo como que se comprazia com o suplício da besta íntima, sorvendo voluptuosamente o perfume dos pratos e regalando os olhos com aspecto sedutor das iguarias.
Ó ciência difícil dos temperos! Ó arte sutil da ornamentação dos pratos. Um roast-beef, sem o recamo da alface, é como a mulher sem meias. Que delícia! Quem diria que ele havia de sair do leito para aquele delicado festim: De cubiculo recta in triclinium ire! Assim dizia Anselmo no coração enquanto a boca ia-se-lhe enchendo d'água.
A lua foi a companheira que teve, alegre e sóbria companheira, e a mulher, sentada pacientemente à porta, pôs-se a sussurrar um canto enternecido em que falava de amores, enquanto ele sorvia a colheradas a sopa que era um delicado polme de ervilhas sabiamente temperado, com leve sabor de paio e uns longes suaves de cravo-da-índia, Depois foi a fritada, depois a galinha e só ficaram na bandeja migas de pão, ossos de frango, um caroço de azeitona, dois de damascos, a casca recurva e roxa do queijo e palitos, o mais passou sofregamente ao bojo da jibóia que se enroscou de novo para digerir sossegada.
Só faltava o café, o café e a dama que bem merecia uma página de Arte, uma longa e rendilhada apologia, não dos seus dotes plásticos e de espírito, mas do seu fino paladar, tão nobremente recomendado por aqueles pratos rescendentes. Mas para o cozinheiro, como para o anfitrião, vale mais que todas as palavras, que podem não ser sinceras, a prova irrefutável dos ossos esburgados.
Sim, um elogio rasgado diz menos, e com menor expressão, do que quatro ossinhos lisos, chuchurreados, no meio do prato raspado. Pensou em atirar ao corredor os restos do banquete, mas não: queria que a generosa dama e o sábio cozinheiro vissem, com orgulho, que tudo havia comido, com escrupulosa gana, não deixando senão o que de todo lhe fora impossível engolir, como ossos e caroços. Esgotou a garrafa e, saciado, num bom humor de fartura, foi rebuscar no colete uns níqueis e deu-os à estupenda mulher que, à luz branda do luar, parecia menos aterradora e pesada. Oh! a delícia da saciedade!
— Deus lhe pague!
— Pede-lhe antes que me traga os sapatos. A mulher não entendeu e, guardando as moedas cautelosamente no seio, que era um outeiro em volume, tomou a bandeja e foi-se levando os ossos e novecentos réis. Anselmo acendeu um cigarro e debruçou-se à janela, enlevado na beleza da noite e, com os olhos no céu, pôs-se a recitar baixinho:
Le mal dont j'ai soulfert s'est enfui comme un rêve, Je n'en puis comparer le lointain souvenir Qu'à' ces brouillards légers que l'aurore soulève Et qu'avec la rosés on voit s'évanouir.
Era a primeira estrofe da "Noite de Outubro" de Musset e ia aos versos da Musa:
Qu'aviez-vous donc, o mon poète!
quando Ruy Vaz apareceu no corredor. Anselmo sentiu a alma dilatar-se.
— Fui além da hora. Ah! meu amigo, se não fosse lembrar-me que estavas aqui descalço teria passado a noite a desfolhar malmequeres. Esplêndida criatura! Atirou o chapéu sobre a mesa e respirou desafogadamente, Divina mulher! E tu? Como te foste? Leste as odes?
— Não: reli Baudelaire, dormi até a noitinha e, como estava com o estômago em condições de Deus poder reproduzir o milagre da criação do mundo, fiz de Elias aceitando um jantar que me caiu do céu.
— Eis aí um hotel que ainda não me forneceu pensão. Mas sem frase: — Onde jantaste?
— Aqui. O luar foi a toalha; jantei sobre a tua mesa de trabalho.
— Mandaste vir de algum hotel?
— Não. Apareceu-me a Providência, não como ao profeta sob a forma de um corvo — mas disfarçada em exuberante mulata...
— Vê lá! Não tenha o demônio armado uma cilada ao teu estômago. Também a Santo Antão foi servida uma mesa lauta e todavia...
— Não, a mulata veio em nome de uma misteriosa mulher saber se aparecias hoje.
— Uma mulata monstro?! Uma mulata em dois volumes?! a Januária! A Januária da Elvira! exclamou o romancista.
— Não sei; eu tinha fome e não tinha sapatos.
— E pediste jantar...?
— Não; nada pediste. Digo assim porque a mulata tomou-me por ti, no escuro; disse apenas que não contasse contigo porque, havendo torcido um pé, estavas impossibilitado de sair. Devo o jantar à sagacidade da mulata. Retirou-se tornando, pouco depois, com uma bandeja opípara. Entendi que não te ficava bem fazer cara a tão saborosos e perfumados pratos e tratei-os com a deferência de que eram dignos.
— Essa agora!
— Estás preocupado...?
— Com razão. Essa mulher, essa nefanda Elvira, é uma pérfida; traiu-me e com o meu alfaiate e eu tinha jurado cortar de uma vez para sempre o fio que nos ligava e agora...
— Acho que fazes mal. Uma mulher que janta como essa deve ser excelente menagére. Não a conheço senão através da sua cozinha; não sei se é loura, se é morena, se tem os olhos pretos ou garços, juro, porém, que tem em casa um admirável cozinheiro.
— Um coração volúvel como uma nota de mil réis. Enfim, o mal está feito; não quero interromper a tua digestão... e está aberto o precedente para os dias nefastos. Começas bem, não há dúvida. Outros andam atrás de jantares e a ti vêm os jantares, e com sobremesa. Hás de dar-me o segredo do teu talismã. Podes ir longe, principalmente se subires mais um ponto no calçado; tens o pé demasiadamente seco, é um Ceará. Devolvo-te os sapatos. Anselmo calçou-os imediatamente e, vendo que o romancista procurava alguma coisa debaixo da cama, riscou um fósforo.
— Obrigado. Cá estão eles. Arrastou um par de veneráveis botinas, nas quais os pés desapareceram como por encanto e respirou. O bom filho à casa torna. Não há nada como a liberdade. Como me sinto bem na largueza... Nem parece que estou calçado.
Anselmo vestiu-se e, vendo que o romancista passava a escova nos cabelos e retorcia os bigodes, perguntou:
— Vais sair?
— Vou ao Sant'Anna. Tenho lá uma peça, quero ver se o Heller resolve alguma coisa. Por que não vens? Está uma noite linda e fresca.
— Posso ir.
— Então vamos. Estamos na hora e tenho ainda de passar no meu charuteiro para apanhar uns colarinhos. Fecharam a janela e a porta e saíram.
Foram seguindo devagar, à luz da noite, sob a carícia do ar, fino e tépido como um hálito humano.
O parque era uma extensa massa de verdura onde o luar punha reflexos de prata. As casas abertas recebiam a brisa e exalavam bafios quentes de forno. Passavam bondes apinhados, carros rodavam lentamente e os lampiões, em alas, estendiam reticências de ouro ao longo das ruas. Nos hotéis cheios havia um confuso rumor de vozes, tinidos de copos. Às mesas, de sórdidas toalhas, chalravam os trabalhadores, em mangas de camisa, os pés em grossos tamancos, soprando para o ar viciado densas baforadas de fumo. Era a gente sadia e forte da labuta brutal: homens de bíceps hercúleos, abaçanados das soalheiras, que repousavam estirando as pernas depois de bem repastados; eram os colonos que se reuniam, como em ágape fraternal, recordando a pátria, com pilhérias fortes de mesa à mesa e grandes obscenidades que faziam estourar gargalhadas.
Os caixeiros iam dum a outro com o parati, diziam a sua chalaça e, como havia intimidade entre esses homens, a pretexto de pândega, trocavam-se murros, mas ninguém se revoltava — era um divertimento heróico como de leões que, depois de haverem esquartejado a presa, a golpes de garras, nas clareiras desertas, perto das límpidas águas, rugindo, rolando, com as fauces rubras de sangue, brincam amigamente enquanto as fêmeas fartas, deitadas de flanco, os olhos semicerrados, deixam-se sugar pelos cachorrinhos.
Mais adiante, à porta de uma taverna, castanhas estalavam ao fogo e, junto ao balcão, sentado numa saca, um lazzarone, o cachimbo nos beiços, ia tirando da sanfona os sons da Mandolinata. O rumor crescia confuso: apitos de bondes, gargalhadas, estouros de garrafas, rodar pesado de carroções que se recolhiam e, no alto, sempre a paz maravilhosa da noite estrelada.