Os versos dessa obra dão variados conselhos para a conservação da saúde. Uma parte dos conselhos se refere à alimentação: não beber muito vinho, não comer muito à noite, etc. A obra contém recomendações detalhadas, como a de levantar cedo pela manhã, lavar as mãos e olhos com água fria, espreguiçar-se de modo suave, pentear os cabelos, esfregar os dentes, caminhar, etc. s
Quanto à alimentação, o "Regimen" apresenta uma série de restrições: só comer quando o estômago estiver vazio da refeição anterior; evitar peras, maçãs, pêssegos, leite, queijo, carnes salgadas, carne de cervo, de égua, de vaca e de bode, especialmente quando estiver doente.
Seis coisas que aqui serão descritas
Possuem um poder secreto contra todos os venenos:
Pera, alho, raizes de rabanete, nozes, nabo e ruta,
Principalmente alho; pois aquele que o comer,
Pode beber, e não se preocupar com quem fez sua bebida;
Pode caminhar todas as horas por ares infectados.
Como o alho possui portanto poderes de salvar da morte,
Suporte-os, embora produzam um hálito desagradável:
E não zombe do alho, como alguns que pensam
Que ele apenas faz os homens piscarem, beberem e federem.

Página do livro "Regimen sanitatis Salernitanum
O que são os "ares infectados" de que o "Regimen" fala? O próprio livro explica que são ares impregnados por maus odores, capazes de produzir doenças: "É certo que a infecção vem principalmente pelo cheiro". No entanto, ao contrário de Avicena, o "Regimen" não acredita que o uso de perfumes possa superar a infecção do ar. Ele recomenda simplesmente viver longe de qualquer lugar de onde possa provir o ar infectado:
No entanto, para os quartos de sua moradia, dá esta orientação:
Em casas onde você pensa fazer sua residência,
Que perto da mesma não haja cheiros ruins,
Ou água podre, ou excrementos,
Que o ar seja claro e limpo, e livre de fendas
Que venham de passagens secretas e cavernas.
Embora existam certas idéias gerais por trás do "Regimen", observa-se que nesta e em outras obras populares do período aparecem inúmeras receitas e indicações práticas que não se baseiam em nenhuma teoria. Vamos mostrar um exemplo tirado de outra obra: o "Tesouro dos pobres", escrito no século XIII. Esse livro é de autoria de um português, conhecido como Petrus Hispanus, que em 1277 tornou-se papa (João XXI).
O "Tesouro dos pobres" é um receituário com indicações para muitas doenças comuns. Uma delas é o carbúnculo ou antraz - uma doença atualmente considerada como transmissível e que se caracteriza pelo aparecimento de manchas que lembram carvões.
Contra o antraz. Primeiramente faça-se uma sangria no lugar em que está o antraz. Se a matéria vier da parte de cima do pescoço, faça-se a sangria da veia hepática. Se for do lado do coração, [faça-se da veia] cardíaca; feito isso, prepare para si o seguinte remédio: colocar por cima farelos cozidos com vinagre; da mesma forma, colocar alhos amassados com sal, siler e amoníaco, colocando por cima dissolvido em vinagre. Também vale beber ou colocar em volta teriaga. Também vale colocar diamante ou safira perto de qualquer pessoa. Também colocar por cima a crista de galo ou galinha atrai o veneno. Antes de colocar tudo isso, verifique se há lá veneno e atraia o mesmo com linha ou outra coisa. Repita-se, para não ficar lá, e aplique-se em volta ceruso, isto é, alvaiade, diluída com óleo de rosas, suco de erva-moura e um pouco de farinha de cevada; e aplique-se em um ponto sadio. Também dizem que a consolta menor triturada entre duas pedras, por milagre divino, cura o antraz. Diz-se que aplicar por cima dos carbúnculos gemas de ovo cruas, trituradas com igual quantidade de sal, faz bem.
Esse é o estilo geral dos receituários medievais. Talvez algumas das indicações fizessem algum efeito benéfico. A maior parte era provavelmente inócua ou mesmo prejudicial.
No final da Idade Média e no Renascimento a Europa foi varrida por grandes pestes, de diversos tipos. Existem motivos históricos para o surgimento dessas epidemias, nessas épocas. Durante a Idade Média, as cruzadas cristãs colocaram os europeus em contato com outros povos e com doenças desconhecidas, para as quais o organismo europeu não tinha nenhuma resistência. No Renascimento, as grandes navegações tiveram um efeito semelhante.
Uma das mais terríveis epidemias medievais foi a peste negra. Iniciou-se em 1347 ou 1348 e estima-se que matou 1/3 da população da Europa. Parece ter sido uma combinação de peste bubônica e pneumonia.

A peste negra em Tournai (Bélgica), no século XIV.
Como ocorreu em outras ocasiões semelhantes, as antigas teorias médicas não conseguiram explicar essa peste. Galeno não falava sobre nada parecido. Todos percebiam que a peste passava de uma pessoa para outra, mas a Bíblia falava mais sobre contágio do que qualquer médico grego.
Mesmo sem ter uma base teórica, era necessário agir. Imaginou-se que o melhor modo de impedir que a doença atingisse uma região seria proibir a entrada de pessoas já doentes. Mas as pessoas poderiam estar doentes sem sabê-lo e sem manifestar nenhum sintoma. Como distinguir os sãos dos doentes? A idéia que surgiu foi isolar todas as pessoas que estivessem vindo de locais infectados e esperar durante vários dias, para verificar se surgiam nelas os sinais da peste. Se surgissem, não poderiam entrar. Se não surgissem, a pessoa poderia entrar na cidade.
A cidade de Ragusa, perto de Veneza elaborou nessa época a primeira legislação exigindo uma quarentena (de 40 dias) para viajantes que viessem de lugares infectados. Não havia, é claro, nenhuma base médica para esse número, 40. Provavelmente, os legisladores se inspiraram no período hebraico de impureza das mulheres após o parto.
Um médico da época, Guy de Chaliac, assim descreve a peste negra em Avignon, em 1348:
A mortalidade começou entre nós no mês de janeiro e durou sete meses. Foi de dois tipos. O primeiro durou dois meses. Era caracterizado por uma febre contínua e por cuspir sangue; as pessoas morriam dela em três dias. A segunda durou durante o resto do tempo. Também era caracterizada por uma febre contínua e por apóstemas [inchações], carbúnculos e tumores nas partes externas, principalmente nas axilas e virilhas. E as pessoas morriam dela em cinco dias. Era tão contagiosa (especialmente a que incluiu cuspir sangue) que um homem a pegava de um outro não apenas quando vivia junto, mas simplesmente por olhar para ele. Por isso as pessoas morriam sem servidores e eram enterradas sem padres. O pai não visitava o filho, nem o filho [visitava] o pai. A caridade estava morta e a esperança caída.
Havia, portanto, a percepção de que a peste era contagiosa, mas o medo era tanto que se acreditava poder adquirir a enfermidade até pelo olhar.
Guy de Chauliac conta que essa epidemia se iniciou no oriente e se espalhou pelo mundo todo. Ele estima que 3/4 da população morreu com a peste. Ele próprio foi vítima dela, ficando doente durante seis semanas, mas sobreviveu.
Na época, segundo o mesmo autor, houve lugares em que se supeitou que a doença havia surgido porque "os judeus envenenaram o mundo", e por isso mataram todos os judeus da região. Outros acreditaram que os pobres mutilados eram os responsáveis, e os expulsaram. Ninguém compreendia a doença e os médicos nada podiam fazer contra ela. No entanto, Guy de Chauliac tinha uma explicação para a peste: a influência dos astros, que modificou o ar e atuou sobre os humores do corpo humano.
Seja o que for que o povo diga, a verdade é que a causa dessa mortalidade era dupla: uma ativa e universal, outra passiva e particular. A causa ativa e universal foi a disposição de uma certa conjunção importante de três corpos celestes - Saturno, Júpiter e Marte - que ocorreu no dia 24 de março de 1345, no décimo quarto grau de Aquário . Pois (como já disse em meu livro sobre astrologia) as conjunções mais importantes são presságios de eventos maravilhosos, poderosos e terríveis, como mudança de governantes, o surgimento de profetas e grandes mortalidades. Dependem do signo e do aspecto dos corpos em conjunção. Não deve vos espantar, portanto, que tal importante conjunção tenha significado uma horrível mortalidade, pois foi não apenas uma grande [conjunção], mas uma das maiores. O signo era humano e por isso ele anunciou sofrimento para a humanidade. E por ser um signo fixo, significava longa duração. Pois [a mortalidade] começou no Oriente, um pouco depois da conjunção, e ainda estava no Oeste em 1350. Ela [a conjunção] modificou o ar e os outros elementos de tal forma que, como o ímã move o ferro, ela moveu os humores espessos, quentes, venenosos; e reunindo-os dentro do corpo, criou lá apóstemas. Daí decorreram as febres contínuas e o cuspir sangue no início, quando essa matéria corrompida era forte e perturbava o estado natural. Então, quando perdeu sua força, o estado natural não ficou tão perturbado e expeliu aquilo que conseguiu, principalmente nas axilas e virilha, assim causando bubões e outros apóstemas. Assim, os apóstemas externos foram efeitos dos internos.
A causa particular, passiva, foi a disposição de cada corpo, tal como debilidade, cacoquimia ou obstrução, da qual os trabalhadores e os pobre morreram.
O autor afirma que para se prevenir contra a doença, "nada era melhor do que fugir do lugar antes de ficar infectado". Também recomenda purgantes, sangrias para diminuir o sangue, purificar o ar com fogo e fortificar o coração com a teriaga, frutos e coisas perfumadas; fortificar os humores com o "bolus" da Armênia e resistir à putrefação com coisas ácidas. Para curar os doentes, tentava-se utilizar sangrias e evacuações, além de remédios. Fazia-se os apóstemas externos "madurarem" por meio de figos e cebolas cozidas, misturados com fermento e manteiga. Depois, eles eram abertos e tratados como uma úlcera. Aplicavam-se no tumores ventosas, depois eram escarificados e cauterizados.
Guy de Chauliac elaborou uma teriaga especial para essa peste, seguindo os ensinamentos de Arnaldo de Villanova e dos médicos de Paris e Montpellier. O remédio era composto por mais de 40 substâncias diferentes, incluindo noz moscada, gengibre, zedoária, raiz de genciana, sálvia, menta, limão, "osso de coração do cervo", raspas de marfim, safira, esmeralda, coral vermelho, aloés, sândalo, conserva de rosas, conserva de nenúfares e outros materiais variados.

A peste bubônica produzia inchações sob os braços
e nas virilhas, cheias de pus (bubões), que eram perfuradas pelos médicos
para aliviar a dor que causavam (gravura do século XV).
Apesar de teriagas milagrosas como essa, de nada adiantou a fértil imaginação dos médicos, diante da peste. A destruição foi imensa.
Esta e outras pestes tiveram enorme efeito sobre o povo, que passou a viver temendo pela próxima epidemia mortal. O desconhecimento das causas das doenças levava a todo tipo de especulação. Nesse período, a astrologia médica fez grande sucesso; a religião utilizou as pestes para lembrar aos pecadores que deviam temer a Deus; e ressurgiram com muita força as crenças em poderes mágicos ou diabólicos como causadores de enfermidades.