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CONTÁGIO

Os inquisidores indicam que as bruxas são capazes de causar todo tipo de enfermidades, e que os próprios médicos jamais excluem a possibilidade de que alguma enfermidade seja produzida por feitiçaria:

Ora, não há enfermidade do corpo, nem mesmo qualquer forma de lepra ou de epilepsia, que não possa ser causada pelas bruxas, com a permissão de Deus. Prova-o o fato de que não há uma enfermidade que seja, nesse aspecto, isentada pelos médicos. Basta a consideração cuidadosa do que já dissemos a respeito dos poderes diabólicos e da perversidade das bruxas para que não encontremos qualquer dificuldade nesse enunciado.
(...)

[Santo Isidoro] acrescenta que, sem fazer uso de qualquer peçonha, pela mera virulência de seus encantos, conseguem tirar dos homens sua própria vida.

O "Malleus maleficarum" está repleto de exemplos do poder das bruxas, como estes:

Na diocese de Constance, entre Breisach e Freiburg, há uma leprosa (...) que costumava contar a muitas pessoas o que lhe acontecera por ter travado discussão com uma outra mulher. Certa noite, após a discussão, teve de ir à frente da casa por algum motivo. No mesmo instante, veio da casa da tal mulher, oposta à sua, um vento quente que aatingiu no rosto e a contaminou com lepra, mal de que padece desde então.

Por fim, na mesma diocese, no território da Floresta Negra, uma bruxa estava sendo suspensa pelo carcereiro sobre a pilha de lenha da fogueira onde seria queimada, quando então lhe disse:

Eu te pagarei! - e em seguida soprou no rosto do homem. Instantaneamente, viu-se o miserável afligido por horrível forma de lepra que lhe cobriu o corpo e não o deixou viver por muitos dias. Por brevidade, os muitos e tenebrosos crimes dessa bruxa e muitos outros casos semelhantes são aqui omitidos. Basta mencionar os muitos casos que ouvimos de pessoas acometidas de epilepsia ou de mal-caduco que o foram por meio de ritos mágicos: por meio de ovos enterrados junto a certos cadáveres, normalmente com os cadáveres de bruxas, a par de outras cerimônias das quais não podemos falar, em que tais ovos eram dados às ví-timas junto com alimento ou bebida.

Vê-se que mesmo doenças bem conhecidas, que se sabia serem contagiosas, como a lepra, eram atribuídas à magia.

Os poderes das bruxas, é claro, não se limitavam a produzir doenças. O livro descreve vários casos de pessoas transformadas em animais pelas feiticeiras, além de muitos outros poderes fantásticos, como produzir tempestades.

Como todas as enfermidades podem ser causadas pela magia, todas elas podem também ser combatidas por orações e por exorcismos:

Já foi dito que as bruxas são capazes de afligir os homens com todo tipo de enfermidades físicas. Pode-se, portanto, considerar como regra geral que os vários remédios verbais ou práticos a serem aplicados contra essas enfermidades são igualmente aplicáveis a todas as demais, como contra a epilepsia, a lepra, entre outras.

O "Malleus maleficarum" indica alguns dos modos de combater as doenças produzidas pela magia:

Nider, no primeiro capítulo de seu Praeceptorium, diz que é lícito benzer o gado, da mesma forma que o é aos homens doentes (...). Pois diz que quando uma pessoa ou uma virgem devota benze uma vaca com o sinal-da-cruz, rezando um pai-nosso e a saudação angelical, toda a obra demoníaca que sobre ela se abate é afastada, se tiver sido causada por bruxaria.

As diferenças entre doenças naturais e sobrenaturais ficam muito diluídas. As ervas e outros remédios podem servir para preservar ou curar de doenças, mas como elas funcionam? Os inquisidores sugerem que elas servem para fortalecer a pessoa e aumentar sua resistência ao demônio. Dessa forma, se uma pessoa se cura através de remédios, isso não quer dizer que a enfermidade era natural - poderia ter sido também um efeito de feitiçaria. Por precaução, era conveniente acompanhar qualquer tratamento médico por orações e por apelos aos santos e a Deus, para que eles fossem realmente eficazes.

Nessa época, o número de supostas bruxas capturadas e queimadas pelo Inquisição atingiu dezenas de milhares. É natural que, nesse tipo de clima cultural, a busca de uma compreensão médica das doenças e de sua transmissão ficasse em segundo plano.

Na Idade Média e no Renascimento, popularizou-se a crença de que as feiticeiras ou bruxas podiam controlar os poderes da natureza, causando tempestades e epidemias.
Na Idade Média e no Renascimento, popularizou-se a crença de que as feiticeiras ou bruxas podiam controlar os poderes da natureza, causando tempestades e epidemias.

Alguns trechos do Malleus maleficarum mostram que os inquisidores aceitavam, nessa época, algumas concepções astrológicas. Desde o final da Idade Média, por influência árabe, a astrologia havia adquirido grande influência na Europa. Um dos astrólogos árabes mais influentes foi Albumasar, ou Abu Ma'shar de Bagdá (século X). Traduzido para o latim, ele influenciou fortemente o desenvolvimento da astrologia européia. Na Espanha e depois em Portugal, após a invenção da imprensa de tipos móveis, surgiram obras muito populares, os chamados "Reportórios dos tempos", que divulgaram essas idéias. Essas obras davam indicações sobre as épocas e condições adequadas para o plantio e colheita, relações entre os astros e o clima, etc. Grande parte dessas obras era destinada à astrologia médica, indicando as condições celestes capazes de produzir doenças, bem como as épocas adequadas para utilizar sangrias ou purgantes.

Em 1585, o português André do Avelar publicou um "Reportório dos tempos" que copiou do espanhol Jerônimo Cortês, que por sua vez se baseou em Abulmasar. A obra é repleta de indicações sobre os sinais que anunciam o surgimento das tão temidas pestes:

Em tempo de algum eclipse, se aparecer algum sinal de cor negro, verde ou ruivo, ou de muitas cores, denota peste.

Peste é certa quando venta sul, e não chove, e se vai e torna, e não chove, e a pedaços faz frio, e às vezes calma, e começa a chover, e se vai, então é sinal de peste, pintas e ruins enfermidades.

Peste se espera quando no verão faz seco, e no estio frio e úmido, e no outono muita calma e fogos, e no inverno muita secura e calor.

Rãs e ratos, e todos os répteis, quando se multiplicam e andam por cima da terra, e há muitas moscas, é sinal de peste.

Quando as aves abandonam seus ninhos e fogem, denota peste.

Aves noturnas se saem de dia muitas, como atônitas, denota peste.

Observando-se os acontecimentos atmosféricos ou astronômicos dos primeiros dias do ano, seria possível prever tudo o que aconteceria nos meses seguintes. Por exemplo:

No 11o dia, se ventar pela manhã, haverá muita abundância de peixes, com guerras, e se de noite ventar, haverá peste. O 12o dia se for sereno, denota multidão de ovelhas, e se for ventoso significa peste. O 13o dia se for sereno, promete grandes tempestades, e se de noite correrem ventos, morrerão muitas ovelhas e cabras. O 14o dia se tiver o sol um resplandor excessivo, extraordinário, e de noite ventar significa peste, e cópia de enfermidades. O 15o dia se for sereno e com ventos de noite significa guerras.

Os eclipses eram sempre sinal de catástrofe. Seu significado dependia do signo em que ocorresse. Se houvesse um eclipse nos signos do fogo (Áries, Leão, Sagitário), haveria guerras, lutas, "desterro de algum príncipe, prisões em gente vulgar por muitas discórdias, incêndios, roubos, destruições, febres agudas, destruição dos frutos" e outras calamidades. Se o eclipse ocorresse nos signos do ar (Gêmeos, Libra, Aquário), haveria "fome com muitas doenças, corrupção do ar, e peste".

Os cometas, igualmente, sempre anunciariam desgraças.

Essa tradição astrológica, iniciada na Antigüidade, manteve-se muito forte até o século XVII, declinando mas não desaparecendo nos séculos seguintes.

Houve ocasiões em que as autoridades religiosas se manifestaram contra a astrologia. Isso ocorreu, em particular, no início do século XVI. Havia sido feita uma previsão astrológica de um grande dilúvio que aconteceria em 4 de fevereiro de 1524, quando haveria uma conjunção de Saturno, Júpiter e Marte no signo de Peixes, provocando chuvas torrenciais.

Muitos livros foram escritos para combater a previsão. Um deles é o do Frei Antonio de Beja, português. Um dos argumento que ele utiliza é que, se os astros determinassem os acontecimentos na Terra, todos os locais seriam igualmente atingidos pelas mesmas calamidades - e isso não ocorre. Uma cidade pode ser atingida pela peste sem que ela apareça nas cidades vizinhas.

Observamos aqui cada dia ser uma cidade e vila destruída por peste, e outra muito chegada e vizinha dela, ficar totalmente sadia, sem nenhum dano. Como há pouco tempo, que por castigo celestial e merecimento de nossas maldades vimos na nobre cidade de Lisboa, onde morreram milhares cada dia. Em alguns lugares muito chegados a ela, esse mal não tocou.

Apesar de críticas religiosas à astrologia, pode-se dizer que a religião católica foi muito tolerante e jamais perseguiu os astrólogos como fez com as bruxas e feiticeiros. A Medicina, por sua vez, admitia a importância da astrologia para explicar as epidemias, através de influências climáticas, pois isso estava de acordo com a tradição galênica e hipocrática. Certamente essa tradição astrológica dificultou a compreensão das causas bem terrestres de doenças transmissíveis.

Os cometas eram consierados sinais da peste (tapeçaria de Bayeux, século XII).
Os cometas eram consierados sinais da peste (tapeçaria de Bayeux, século XII).

BRUXARIA, ASTROLOGIA E DOENÇAS

Durante a Idade Média e no Renascimento, a crença nos poderes mágicos ou demoníacos como causa de enfermidades se torna muito forte. Foi especialmente durante a Inquisição, com a caça às bruxas, que se tornou claro como essas crenças eram fortes e difundidas.

Um dos mais importantes documentos sobre o assunto é o "Malleus maleficarum" (o martelo das malditas, ou das feiticeiras). Esse livro, escrito em 1484, foi um manual escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger - dois dominicanos, professores de teologia. Parece ter sido o trabalho mais utilizado pelos inquisidores de toda a Europa, que o empregavam como orientação para interrogar e julgar as feiticeiras. Apesar de escrita em uma época em que a cultura européia já estava bem mais desenvolvida, essa obra mostra antigas idéias sobre o poder da magia.

Os autores do "Malleus maleficarum", Kramer e Sprenger, receberam para seu trabalho amplos poderes do papa Inocêncio VII. Ao incumbi-los de sua missão inquisitorial, o papa escreve em uma bula de 9 de dezembro de 1484:

(...) Chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligíssimos na mais profunda amargura, que em certas regiões da Alemanha do Norte (...), muitas pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a própria salvação e a desgarrarem-se da Fé Católica, entregaram-se a demônios, a Íncubos e a Súcubos , e pelos seus encantamentos, pelos seus malefícios e pelas suas conjurações, e por outros encantos e feitiços amaldiçoados e por outras também amaldiçoadas monstruosidades e ofensas hórridas, têm assassinado crianças ainda no útero da mãe, além de novilhos, e têm arruinado os produtos da terra, as uvas das vinhas, os frutos das árvores, e mais ainda: têm destruído homens, mulheres, bestas de carga, rebanhos, animais de outras espécies, parreirais, pomares, prados, pastos, trigo e muitos outros cereais (...)

Como se vê, o próprio Papa acreditava que as bruxas e feiticeiros, com auxílio do demônio, destruiam plantações e arrasavam animais e pessoas. Kramer e Sprenger discutem, com ampla erudição, se de fato existe esse poder e se as doenças e epidemias não teriam apenas outras causas naturais, como por exemplo a influência dos astros:

Há quem defenda que toda tansformação que se dá no corpo humano - para a saúde ou para a doença, por exemplo - pode ser reduzida à questão das causas naturais, conforme Aristóteles demonstrou no sétimo livro da sua Física. E dessas causas a maior é a influência dos astros em cujo movimentoos demônios não têm o poder de interferir: isso só Deus pode fazer.

No entanto, contra essa opinião, os inquisidores apresentam a autoridade religiosa:

Santo Agostinho nos serve de testemunha ao dizer: "Existem, com efeito, feitiços, malefícios e encantamentos diabólicos, que não só fazem adoecer os homens como também os matam".

Desenho feito por Dürer: sifilítico sob o zodíaco.
Desenho feito por Dürer: sifilítico sob o zodíaco.

Os inquisidores não colocam em dúvida a influência dos astros sobre as enfermidades. Eles aceitam, por exemplo, que os cometas são criados por Deus para prenunciar a morte dos reis:

São João afirma que os cometas não são criação natural, nem são astros encontrados no firmamento; por isso nem seu significado nem sua influência são naturais. Diz-nos ele que os cometas não são astros criados desde o princípio, mas sim criados para uma ocasião particular, depois se dissolvendo por ordem divina. Essa a opinião de S. João Damasceno. Deus, porém, através desses sinais, prenuncia a morte de reis e não de outros homens não só porque os reis são pessoas públicas, mas também porque da sua morte pode sobrevir a confusão em seus reinos. E os Anjos são mais diligentes na sua atenção para com os reis para o bem geral. Pois os reis nascem e morrem sob o cuidados dos Anjos.

Ao mesmo tempo que reconhecem a importância dos astros, os inquisidores afirmam que as pragas e enfermidades podem ser causadas pelos demônios:

Ninguém há de negar que certos flagelos e males que de fato e visivelmente se abatem sobre os homens, os animais e os frutos da terra - e que não raro decorrem da influência dos corpos celestes - podem ser muitas vezes causados pelos demônios, desde que Deus o permita.

Pode nos parecer, hoje em dia, totalmente absurdo que se atribuissem as epidemias e doenças às bruxas; isso nos parece fruto da imaginação doentia da época. No entanto, os inquisidores reafirmam que esses poderes são reais:

Quisera Deus que tudo isso fosse irreal e meramente fantasioso para que livrássemos nossa Santa Madre Igreja da lepra dessas abominações. Infelizmente, o julgamento da Sé Apostólica, única Soberana e Mentora de toda a verdade, expresso na Bula de nosso Santo Padre, assegura-nos e nos torna cientes do florescimento entre nós de tais crimes e malefícios, e não havemos de nos abster de prosseguir com a inquisição para que não ponhamos em risco nossa própria salvação.