Em uma linguagem rebuscada, Fracastoro conta uma série de histórias, uma das quais introduz o nome da enfermidade. Ele conta que o pastor Syphilus, do Haiti, havia prestado homenagens divinas ao seu rei, Alcithous. Por isso, teria sido castigado pelo deus Sol, que enviou a nova doença aos homens. Daí vem o nome da enfermidade, sífilis. A história é tola, mas o nome foi adotado por todos.
No princípio de sua obra, Fracastoro expõe seu objetivo:
Meus cantos vão ensinar que germe e que reunião de acidentes diversos produziram uma doença estranha, ignorada durante muitos séculos, que, depois de fazer em nossos dias estragos em toda a Europa, e em uma parte da África e da Ásia, veio cair sobre a Itália, e unir-se aos funestos exércitos dos Franceses, dos quais esse mal recebe o seu nome. (...) Enfim, procurarei as causas secretas desse flagelo nas influências do ar, e dos astros.
Como vamos ver, Fracastoro introduz algumas concepções novas, mas mantém a crença no poder dos astros na produção da sífilis.
Fracastoro expõe a crença existente na época, de que a doença tivesse sido introduzida por Colombo e se espalhado pelo contato sexual. No entanto, ele nega essa explicação, pois diz que ela apareceu simultaneamente em muitos países da Europa e só depois na Espanha e Portugal. Afirma, também, que muitos "foram atacados por esse contágio, sem haver se comunicado com ninguém, e sem o ter obtido no seio do prazer."
Essas circunstâncias devem nos ensinar, creio, que essa doença tem uma origem mais ampla e mais importante do que se apresenta inicialmente, e que seu princípio deve ser buscado em causas menos conhecidas e mais elevadas.
Para explicar o surgimento desta enfermidade, Fracastoro irá utilizar uma teoria astrológica, bem ao gosto da época. Inicialmente, ele afirma que uma doença tão geral só pode ter sido transmitida pelo ar:
(...) Se quereis conhecer pela ordem o princípio e as causas; começai por dirigir vossos olhares sobre a parte imensa do universo, e sobre a multidão de cidades que foram infectadas por esse contágio. Considerando depois que o germe de um flagelo tão geral não pode ser guardado nas águas dos mares, nem no seio da terra; vós vos convencereis que os princípios e a séde do mal estão no ar, esse elemento que abraça nosso globo inteiro, e que é o veículo orginário dessas pestes mortais que afligem a natureza humana. O ar é o pai e a fonte das coisas. É ele quem produz entre os homens as maiores doenças, sendo de uma natureza própria para se corromper de cem modos diferentes, por causa da maciez de suas partes; sendo igualmente pronto a receber todos os tipos de impressões, e a comunicá-las depois de recebê-las.
Mas como o ar se corrompeu e produziu essa enfermidade? Por uma influência
celeste, já que os astros agitam e movem os elementos terrestres:
O Sol e os planetas são os primeiros móveis que regem e agitam
o mar, a terra e o ar. À medida que esses astros fazem suas revoluções,
e mudam de lugar no céu, os elementos submetidos a suas leis sofrem
diversas mudanças. Vêde como no inverno, quando o Sol, levado
por seu carro rápido para o Sul, se afasta de nosso globo, o frio logo
exerce sua violência (...) Não existe dúvida, de modo
semelhante, que a tocha da noite, a Lua, tem grande domínio sobre os
mares, e sobre toda a umidade espalhada no universo; que o planeta sinistro
de Saturno, o de Júpiter, mais favorável ao mundo, Marte e a
bela Vênus - que, em uma palavra, todos os astros presidem aos elementos,
que eles atormentam sem cessar. Por isso eles são causa de grandes
agitações, em toda parte, sobretudo se encontramos vários
que atuem juntos, ou se ocorrer que eles se afastem de seu caminho ordinário
para percorrer novas rotas. Esses acidentes aparecem sem dúvida depois
de várias revoluções do céu, e são obras
do tempo; assim os deuses se servem dos astros para a realização
dos destinos.
Sempre que existem novas situações nos céus, podem surgir também novos efeitos na Terra: "(...) Deveis vos surpreender que o ar alterado produza em algumas épocas novas doenças, e que os mortais infelizes sofram no curso do século as influências de um astro rigoroso?"
Como evidência de que os astros podem trazer novas doenças, Fracastoro lembra a peste negra de dois séculos antes, e que havia sido causada pela união de Marte e Saturno. Convida, por isso, seus leitores a elevarem os olhos para os céus, para descobrir a origem do novo flagelo. E logo identifica a causa: uma conjunção de Júpiter, Marte e Saturno na constelação de Câncer. Embora Júpiter seja um planeta benéfico, ele não é capaz de impedir a ação de Saturno e Marte reunidos.
[Júpiter] não pode se impedir de lamentar os infelizes mortais, prevendo as guerras, a destruição das coisas e dos impérios, as devastações e as mortes funestas que devem desolar a terra. Ele é atingido pela dor sobretudo à vista dos efeitos contagiosos de uma nova enfermidade, cuja violência não pode ser interrompida por nenhum recurso da indústria humana. Os outros deuses aplaudem; o Olimpo treme, e o ar fica carregado por um novo veneno. Suas influências malignas se espalham pouco a pouco e infectam logo o espaço imenso dos céus. Talvez os planetas, unindo seus fogos ao Sol, tenham puxado dos mares e da terra vapores que, insinuando-se nas partículas do ar, o tenham alterado e carregado desse veneno, rarefeito demais para ser sensível aos olhos; talvez algum outro vício do ar tenha corrompido nossa atmosfera.
Segundo Fracastoro, o ar pode ser afetado de diversas maneiras pelas "sementes celestes" que aí se espalham, e podem influenciar às vezes só as plantas, às vezes só alguma espécie de animal. No caso da sífilis, "ela só quer o homem. Ela se insinua em seus membros para consumi-lo. Sem dúvida esse veneno, circulando em todo o corpo, se prendeu à parte espessa do sangue, aos humores que lá residem, às matérias gordurosas e fétidas; que ele, em uma palavra, se nutriu de tudo o que aí havia de impuro; é a razão que devemos dar para essa doença que encontrou seu alimento no sangue."
Fracastoro não associa a sífilis ao contato sexual. Como a enfermidade viria pelo ar, ele sugere vários cuidados para se preservar dela, tais como: escolher um ar conveniente; fugir dos ventos quentes; fugir dos lugares lamacentos ou pantanosos; viver no cambo aberto, ou numa colina agradável, onde o ar é sempre renovado pelos ventos. Recomenda evitar o repouso e ócio. O trabalho e os exercícios são saudáveis; suar faz bem. Não se deve fatigar o espírito. Deve-se respeitar um regime no qual são evitados os peixes e pássaros que se alimentam de peixes. Não se deve utilizar freqüentemente nem o vinagre, nem o leite. Quanto ao vinho, só devem ser usados os provenientes de solo úmido. As plantas odoríferas, que purificam o ar, também são úteis. Quando, apesar de todos os cuidados, a enfermidade surgir, o tratamento consiste em purificar o corpo:
Se a doença se mostra na primavera ou o outono, se aquele que foi atacado está na força da idade e se é de um temperamento sangüíneo, será conveniente picar-lhe a veia basílica ou a mediana, para desembaraçá-lo do sangue supérfluo e corrompido. Mas seja em que estação for, deve-se apressar em lançar para fora, por meio de purgações, os maus humores, conseqüências do mal contagioso, após ter o cuidado de se preparar para isso por poções resolutivas, atenuantes e diluentes.
Logo após o aparecimento da sífilis, os médicos experimentaram muitos remédios e descobriram que o mercúrio, embora seja uma substância venenosa, pode curar essa doença. Fracastoro sugere várias explicações para a eficácia do mercúrio.
Talvez as partículas agudas de que ele se compõe, encontrando-se extremamente divididas depois de haver penetrado nas diferentes partes do corpo, tornam-se capazes, por esse meio, de dissolver e de destruir a semente da peste; talvez, enfim, porque os destinos e a natureza lhe deram qualquer outra qualidade, que nos é desconhecida.
Fracastoro recomenda misturar o mercúrio com várias substâncias, quase todas elas de cheiro desagradável: raízes de eléboro negro e de íris em pós, galbanum, assafétida, óleo de lentisque e óleo tirado do enxofre. A pessoa deve cobrir todo o corpo com esse ungüento e depois se deitar e cobrir bem, até transpirar abundantemente. Essa operação deveria ser repetida dez vezes.

Doentes de sífilis sendo tratados por suadouro e mercúrio, no
século XVII
A absorção do mercúrio pelo corpo produzia uma salivação incessante, que obrigava o paciente a cuspir sem parar. Isso era interpretado como um bom sinal: parecia que era a própria doença que saia do corpo, com a saliva. "O humor espesso e maligno que vos atormentava se dissolverá pouco a pouco. Vós o sentireis flutuar com a saliva, e tereis a satisfação de vê-lo escoar-se como um riacho e cair a vossos pés."
Em meio a todas as descrições de Fracastoro, podemos perceber os seguintes elementos importantes: os astros podem influenciar e produzir combinações novas dos elementos terrestres; isso ocorre principalmente quando eles se reúnem em uma constelação (conjunção); o ar se torna então corrompido ou envenenado, ficando repleto de germes ou sementes da enfermidade, provenientes do céu; esse ar produz a corrupção do sangue, que pode ser combatida por processos gerais de purificação (sangria, evacuações) ou por remédios cuja ação não é compreendida.
Embora Fracastoro utilize repetidas vezes a palavra "contágio" em suas descrições, em nenhum instante ele esclarece em que sentido a doença é contagiosa.
Embora o livro sobre a sífilis seja a mais conhecida obra de Fracastoro, foi em outro trabalho que ele desenvolveu o seu conceito de contágio. Em 1546, ele publicou um estudo "Sobre doenças contagiosas". Nesse trabalho, ele aceita a existência de enfermidades - entre as quais inclui a varíola, lepra, tifo, pneumonia, peste bubônica e outras - que podem passar de uma pessoa para várias outras. Como o número de pessoas doentes pode ir aumentando, sem que a doença se enfraqueça, Fracastoro concluiu que essas doenças epidêmicas eram causadas por pequenos germes ou sementes que possuem o poder de se multiplicar no corpo do paciente. Um veneno, pelo contrário, não se multiplica sozinho e não pode produzir uma epidemia.
Se, portanto, nos permitirmos definir a febre pestilencial, nós diremos: É uma febre de putrefação profunda e impura; contém germes do mais agudo contágio; por isso é uma doença mortal, e é contagiosa para outra pessoa. Isso, portanto, e não a putrefação, é a raiz de seu conteúdo, é a característica essencial da febre pestilencial. (...)
Aquilo que é sua causa essencial e diríamos formal, é que se trata de uma febre que contém em si os germes do contágio causador da morte. Por estas razões, as febres que são causadas por venenos, embora mortais, não são pestilenciais, pois não são contagiosas. Pois lhes faltam as características essenciais e formais da praga.
Esses germes são denominados de "contagion". Trata-se de uma corrupção que se desenvolve dentro da substância, passa de uma coisa para outra, e é causada originalmente pela infecção por partículas imperceptíveis. Os germes são descritos como pequenos demais para serem vistos.
De acordo com Fracastoro, há três modos de contágio: pelo contato direto de uma pessoa com outra; por agentes intermediários fomentadores (fomites), impregnados por material infeccioso, tais como roupas velhas, às quais aderem os germes das enfermidades; e à distância, pelo ar.
Cada tipo de semente ou germe causaria uma doença diferente. No entanto, os germes poderiam se modificar, transformando-se nas sementes de outras doenças, assim explicando diferentes epidemias. Partindo dessa concepção, Fracastoro indica como método terapêutico tentar destruir rapidamente os germes que invadem o corpo.
Não há dúvidas de que Fracastoro se aproximou muito de nosso conceito de enfermidades transmissíveis. No entanto, não se deve pensar que ele seja um cientista moderno. Como vimos, ele continua a aceitar todo tipo de concepções sobre a influência dos astros na atmosfera; e não se pode dizer que sua idéia de contágio tivesse uma boa fundamentação. Como Fracastoro apela para coisas invisíveis (os germes ou sementes), a hipótese não podia ser testada. No fundo, era uma hipótese como muitas outras - com uma desvantagem: era nova e contrária à teoria galênica.
No século XVI, continuavam a predominar as concepções de Hipócrates e Galeno, na medicina. As pestes continuam a se suceder, atingindo fortemente Portugal. Podemos verificar quais as idéias mais comuns no período, estudando alguns escritos de médicos portugueses desse século, sobre a peste.
Manuel Álvares (1545-1612) foi um importante médico português, que tornou-se professor da Universidade de Toulouse (de 1572 até sua morte). Em 1585, houve uma peste bubônica em Toulouse, e Álvares escreveu um livro em que tentava explicar a enfermidade e indicar como se podia evitá-la e curá-la. Ele começa respeitosamente associando as pestes à religião:
As doenças populares, que os médicos chamam de epidêmicas, vêm comumente pela expressa vontade de Deus, como um flagelo enviado pelos pecados dos homens, e disso temos vários exemplos na santa escritura (...)
Seria muito demorado discorrer aqui sobre o número das pestilências que foram memoráveis, desde a criação do mundo até nossa época. Delas, a maior parte foi enviada pelos pecados dos homens, sem que nelas houvesse qualquer aparência de causas secundárias que as houvessem produzido, a não ser apenas a expressa vontade de Deus.
Em seguida, Álvares discorre sobre várias hipóteses a respeito do surgimento das epidemias:
Algumas vezes as mesmas doenças provêm da infecção do ar gerada pelas imundícies, inundações, chuvas, umidade, tremores de terra, vapores ou abundância de corpos mortos. Essa é perniciosa não apenas aos homens mas também aos animais, como ocorreu em Roma nos tempos de Tarquinius Superbus, quando o ar se infectou pela má nutrição das pessoas.
Como vimos, a idéia de que o ar transmite as epidemias era já bastante antiga. Não poderia faltar também, é claro, a menção a fatores astrológicos:
Esses contágios são geralmente precedidos por algumas conjunções de astros ou eclipses com aspectos funestos, como foi a conjunção de Saturno e Marte, no signo de Aquário, casa própria do dito Saturno, (...) que os médicos que não ignoram Astrologia notaram ter muitas vezes sido causa de doenças populares, e também um antes da coqueluche do ano 1580. Pois, embora muitos autores antigos digam que os astros são por si todos bons e não enviam nada de mau aos corpos inferiores, no entanto nosso Senhor, servindo-se de causas secundárias como instrumentos da justiça, permite que por suas influências que por si são boas e salutares, os quatro elementos se alterem tanto, que o ar, do qual nos servimos mais, absorvendo-o continuamente pela respiração, adquira alguma intemperança ou má qualidade contrária à nossa vida.
Álvares admite também a existência do contágio - no entanto, utiliza uma concepção exagerada e fantasiosa do fenômeno:
Essas mesmas doenças também provêm muitas vezes sem qualquer corrupção do ar, pelo simples contato e toque das coisas infectadas. Isso é muito comum e citarei um só exemplo disso. Na cidade de Selêucia, na Babilônia, no tempo do imperador Antonino, alguns soldados da companhia de Avidius Cassius, movidos pela avareza de roubar, abriram certo cofre de prata, do qual saiu um vapor ou ar infecto e aí guardado há muito tempo, que infectou todo o império, do oriente até o ocidente. Na mesma ocasião ocorreu a grande peste de Roma no tempo do imperador Commodus, em que todos os dias morriam mais de 1.000 pessoas, e isso por meio de certos homens abomináveis, que jogavam pela cidade certas coisas impregnadas de veneno, por cujo toque uma infinidade de pessoas foi surpreendida pela peste.
Conhecidas as causas das epidemias, pode-se tentar evitá-las. Como elas são enviadas por Deus, a primeira providência é abolir a causa principal, que é o pecado:
Para remediar esse grande mau que começa a invadir a nossa cidade (...)
evemos em primeiro lugar tentar por todos os meios, continuando nossas devoções e preces santamente instituídas, corrigir nossas vidas, apagar nossos pecados por uma verdadeira penitência, e com um coração suplicante pedir a sua divina magestade [que tenha piedade da cidade] (...)
Como Álvares admite que a enfermidade possa passar de uma pessoa para outra, recomenda que se cuide das portas da cidade: "evitar que nenhuma pessoa entre de qualquer lugar infectado, para não aumentar o contágio". Pelo mesmo motivo, os doentes deviam ser isolados; e devia-se evitar também confusões ou aglomerações.
Não se deve falar sobre os doentes, nem ir ver nenhum, a não ser estando seguro de que não há doença contagiosa; e a esses de longe. E ao falar às pessoas, manter-se um pouco afastado.
Embora a enfermidade venha pelo ar, Álvares recomenda que se faça varrer as ruas e que se limpem as imundícies. É importante observar que, nessa época, praticamente não existiam esgotos nas cidades. Os dejetos eram lançados das casas para as ruas. Não havia, também, coleta de lixo, que era igualmente lançado às ruas ou empilhado nas praças públicas. O mau cheiro exalado das ruas devia ser terrível. Como se associava as doenças a um ar corrompido e podre, tudo o que piorava o cheiro do ar devia ser evitado.
Como se acreditava que o principal meio de transmissão das pestes era o ar, a doença podia ser carregada pelo ar preso às roupas. Por isso, Álvares recomenda a proibição de venda de tecidos ou vestimentas. Além disso, "deve-se manter os porcos longe das casas, assim também como os cachorros e gatos; pois eles com freqüência trazem o mau ar". As roupas também deveriam ser periodicamente purificadas:
É bom mudar com freqüência de roupas, e fazê-las passar sobre o fogo, como também manter fogo aceso no quarto, sem se aquecer demais.
Como também tereis cuidado de que vossa habitação seja mantida limpa e que os de vossa família não fiquem descalços; pois daí provêm muitos males que não se nota. A freqüente troca de camisa e roupas é também extremamente exigida contra esse mal, desde que as que tirardes sejam colocadas no ar, a fim de que se tiverem alguma coisa de mau, o ar, passando em cima, o leve e dissipe sem perigo.

Gravura japonesa de 1871, mostrando queima de roupas e animais mortos para
profilaxia.