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CONTÁGIO

Álvares dá grande importância ao estado de espírito: uma pessoa alegre parecia menos sujeita a adquirir a enfermidade do que uma triste ou receosa:
Deve-se evitar todo peso do espírito, dor, cólera, tristeza - e sobretudo o medo do mal.

Há uma infinidade de outros remédios preservativos da peste da qual poderás facilmente coligir os autores. É verdade que o principal remédio, ímpar, para esse mal é manter-se alegre, e beber de manhã antes de sair de sua casa.

Gravura de 1493 mostrando uma visita a um doente de peste. O médico mantém junto ao nariz uma esponja embebida em vinagre, enquanto dois ajudantes queimam perfumes para se proteger contra a doença.
Gravura de 1493 mostrando uma visita a um doente de peste. O médico mantém junto ao nariz uma esponja embebida em vinagre, enquanto dois ajudantes queimam perfumes para se proteger contra a doença.

Para se proteger do ar maligno, Álvares recomenda também tomar um alho com um pouco de vinho, ou levar na boca um pouco de angélica, zedoária, genciana, ou outras substâncias aromáticas. O vinagre, que impede a putrefação dos alimentos, era especialmente recomendável contra as epidemias:

Antes de sair de casa, as pessoas comuns lavarão as mãos, o nariz, as orelhas e o rosto com vinagre ou vinho, mesmo no caso de crianças pequenas.

Era recomendável também adicionar vinagre aos alimentos, e embeber nele uma esponja, para cheirar com freqüência ou colocar sobre o coração, "como um remédio soberano contra toda corrupção do ar". Pode-se também adicionar ao vinagre canela e outras substâncias aromáticas.

Vários tipos de substâncias podiam ser carregadas em saquinhos, pendurados ao pescoço, para proteger da peste.

Por fim, adiciona vários procedimentos médicos preventivos: as pessoas cheias de sangue devem fazer sangrias da veia média do braço direito, depois usar um purgante leve, e por fim um remédio de acordo com os humores que abundam em seu organismo. Também recomenda as "pílulas de Refus", às quais se adiciona açafrão, ou amoníaco, ou outras substâncias boas para "retirar o veneno". Não poderia deixar de receitar um antídoto tradicional: o remédio de Mithridates, contra todos os venenos, do qual fornece uma receita simples particular - duas nozes, dois figos, 20 folhas de arruda, um grão de sal. Ou então, abre-se um figo, coloca-se dentro o cerne de uma noz, oito folhas de arruda e um grão de sal, depois tempera-se com bom vinho; deve-se tomar em jejum.

Álvares indica uma série de remédios populares da época, como a teriaga, o "opiato vulgar de Salomão", o óleo de vitríolo (ácido sulfúrico), etc. Sugere também vários outros procedimentos estranhos, como esfregar os pulsos, têmporas e coração com óleo de escorpiões, ou usar presa ao corpo uma pedra de lápis-lazuli. E depois de uma série de regras das mais variadas, termina o seu livro assim:

Fim. Aceite-o quem quiser.

Todas as crenças e recomendações de Álvares são típicas da época. Algo muito semelhante pode ser encontrado em um folheto publicado em Lisboa em 1569: "Recompilação das coisas que convém guardar-se no modo de preservar a Cidade de Lisboa e os sãos, e curar os que estiverem enfermos de peste".

Este pequeno livro, composto pelos médicos Tomás Álvares e Garcia de Salzedo, "Medicos do Serenissimo Rey de Portugal, Dom Sebastião Primeiro, nosso Senhor", não contém qualquer discussão teórica. É apenas um conjunto de normas a serem respeitadas contra a peste, compiladas, como o próprio nome diz, de muitas fontes.

A "Recompilação" dá enorme importância ao ar da cidade. No caso de Lisboa, recomenda-se especialmente que sejam feitas fogueiras pelas ruas, por causa da grande umidade da cidade, "que é causa potentíssima desta enfermidade". São indicados para o fogo as madeiras de cedro, cipreste, oliveria, pinho, aroeira, zimbro, alecrim "e todos os mais bons cheiros que cada um quiser deitar". Os fogos devem ser feitos especialmente pela manhã e no início da noite.

E estas duas coisas são muito louvadas na física [medicina], tanto para o remédio, como para a purificação do ar, no qual consiste grande parte da cura e preservação deste mal, porque como o ar corrupto é a causa dele, a sua retificação será o remédio.

Com o mesmo objetivo, a "Recompilação" recomenda a limpeza das ruas e das praças, e que as imundícies e excrementos sejam levados à noite ou de madrugada para serem jogados ao mar, pois durante o dia o ar ficaria mais impregnado com o mau cheiro.

É necessário tomar cuidados com as roupas: não se deve utilizar roupas com pregas, ao caminhar ou visitar os enfermos, pois elas carregariam mais ar infectado dentro delas.

O Sol é considerado muito benéfico, recomendando-se que não se saia de casa nem se abram as janelas antes do nascer do Sol. "Em tempo de inverno, e em dia frio e claro, se podem abrir as janelas ao meio dia, em horas em que entre o Sol, e purifique os aposentos, e casas."

As casas devem ser mantidas limpas, lavadas com água e vinagre, sendo ainda melhor utilizar vinagre e água de rosas, em partes iguais. É conveniente também perfumá-las com rosas, benjoim e outras substâncias aromáticas. Recomenda-se fazer fogos, dentro de casa, no verão, de noite e pela manhã, com madeiras de bom cheiro, como cipreste, zimbro, alecrim, murta, oliveira, loureiro, videira; pode-se ir também colocando perfume, nas cinzas, quando acabar a chama. No inverno, o fogo pode ser feito a todas as horas. Pode-se espalhar ervas e ramos de bom cheiro pela casa; colocar frutas como laranjas, limões, marmelos, etc.

A "Recompilação" recomenda, como Álvares, que se façam saquinhos de substâncias aromáticas, que podem ser cheirados durante o dia, ou pendurados sobre o coração. Enfim: a maior parte das indicações se refere à purificação do ar e ao combate contra os maus odores.

Os autores da "Recompilação" reconhecem o perigo do contágio, e por isso proibem bailes, danças e qualquer ajuntamento de pessoas. As casas onde tenha havido três ou mais doentes devem ser esvaziadas; é preciso queimar fogos e perfumes dentro dessas casas e mantê-las vazias "porque está claro que aquele ar está mais danado que outro". As roupas de pessoas empesteadas devem ser queimadas ou lavadas com água do mar, depois com água doce, e por fim com água e vinagre, para purificá-las. O sangue das sangrias deve ser imediatamente mandado para o mar, pois supõe-se que ele também pode transmitir a enfermidade.

Os enterros devem ser feitos o mais depressa possível. A "Recompilação" sugere que se faça uma cova muito alta e comprida para lá serem colocados todos os corpos. O doente deveria ser envolvido no lençol ou manta na qual morrer, e o corpo deveria ser coberto primeiro com cal, depois com terra, "seja muito calçado, para que não saia mau vapor; porque depois de Deus, o remédio deste mal consiste na retificação do ar, e em impedir que se corrompa."

Todo tipo de podridão ou mau cheiro precisa ser evitado. Deve-se proibir a venda de carne de animais que morrerem, ou que começarem a ter mau cheiro, e o mesmo com pescados e para outros mantimentos. Recomenda-se dar preferência à carne do que aos peixes, especialmente os pescados perto da cidade, "onde comem muitas imundícies".

Os pobres que tenham feridas pelo corpo devem ser impedidos de andar pelas ruas: deve-se combinar com eles para que recebam alimentos em algum lugar recolhido, de maneira que não andem pela cidade, porque com suas chagas não há dúvida senão que ajudarão a danar mais o ar."

Há várias regras sobre alimentação: deve-se preferir alimentos secos, evitar gordura e todos os produtos de leite, exceto queijo velho, "do muito bom dalentejo". Os doces e misturas de comidas são nocivos. Deve-se preferir vinho branco, bebido com moderação.

Vários cuidados devem ser tomados com a água: buscar água de fonte conhecida, ou de rio que corra por terra limpa, no qual não se curta linho ou cânhamo. Deve-se evitar água de poço, ou então fervê-la com certas substâncias purificadoras - no inverno, canela, erva doce, ou cravo; no verão, azedas, ou sementes dela, ou um pouco de vinagre. "Ajuda também na retificação da água, ou vinho que se houver de beber, apagar na água ou no vinho uma lâmina ou barra de ouro ardendo".

Os exercícios devem ser moderados, pois além de excitar e aquecer os humores, produzem mau cheiro. Devem ser feitos em aposento fechado e perfumado.

A "Recompilação" considera muito importante um estado de espírito positivo: evitar ira, nojo, tristeza, etc. As roupas devem ser alegres, cheirosas e limpas, sem pregas. O uso de pedras preciosas em contato com o corpo também ajuda a proteger da peste - principalmente esmeraldas e jacintos. Como fortificantes, são indicadas a triaga e outros remédios.

Deve-se eliminar do corpo tudo o que é supérfluo, através das fezes (purgantes). Também é conveniente fazer sangrias moderadas, especialmente nos que estejam muito vermelhos, ou com excesso de sangue, ou que se sentem pesados, etc. "A estes tais convém a sangria, e se podem sangrar no crescente da Lua das duas veias da arca", ou nos pés.

Se apesar de todos os cuidados, a doença se instalar, há vários procedimentos médicos indicados. Logo no início, indica-se a importância de grandes sangrias; mas quando a pessoa já está fraca, a sangria deve ser evitada, pois apenas produz a morte mais rápida. O sangue deve ser extraído do mesmo lado e lugar onde surgem os inchaços, com o objetivo de ajudar a natureza a "tirar o veneno", pelo mesmo lado e lugar onde ela opera.

Além da sangria, recomenda-se purgantes, sempre posteriores à sangria. Os purgantes devem ser muito suaves: rosas, violetas em conserva, e polpa de tamarindos. Em alguns casos, aconselha-se o suadouro, que também pode eliminar o veneno; mas não é muito recomendado, pois "o veneno é grosseiro e sangüíneo".

A "Recompilação" indica vários medicamentos que devem ser colocados sobre os inchaços, "para atrair o veneno" e para aliviar a dor.

E para isto é remédio muito conveniente a cebola assada com a teriaga, e azeite de açucenas, pisada, e posta no inchaço, e tornando a por de duas em duas horas, ou de hora a hora: e ponha-se mais, ou menos assada, segundo for a dor; porque se a dor é pouca, asse-se pouco, para que tenha mais virtude atrativa: e se a dor é grande, asse-se mais, porque quanto mais se assar, mais mitiga a dor, e sempre tem virtude atrativa.

Também se podia depenar um galo vivo, polvilhá-lo com sal moído, e colocar sobre o inchaço, para atrair o veneno. Era recomendado também o uso de sanguessugas, capazes de sugar grande quantidade de sangue, de modo indolor.

De um modo geral, os procedimentos curativos pareciam se basear na idéia de que havia alguma substância nociva no organismo (o "veneno"), que precisava ser retirada através de evacuações, sangrias, ou por "atração".

SÉCULOS XVI E XVII: TENTATIVA DE QUEBRA DA TRADIÇÃO

Os séculos XV e XVI presenciaram muitas mudanças na Europa. É o período em que se dá a invenção da imprensa, a redescoberta da pólvora, as grandes navegações. Ocorre um enorme desenvolvimento econômico e cultural.

Embora nas universidades a tradição continue a ser respeitada e seguida como antes, começa a surgir um amplo movimento de renovação científica e cultural. O Renascimento é um período durante o qual se percebe uma tentativa de valorizar o homem, a iniciativa individual, o realismo.

No campo religioso, ocorre no século XVI o movimento de reforma de Lutero, que dividiu a igreja cristã e questionou os valores tradicionais. Na mesma época, surge a teoria astronômica de Copérnico, que tira a Terra do centro do universo e a transforma em um dos vários planetas circulando em torno do Sol.

A impressão de livros permitiu uma maior difusão de obras de todos os tipos, incluindo as científicas e médicas. Foram publicadas edições das obras clássicas, que antes circulavam apenas sob forma de manuscritos. Enquanto que antes os estudos nas universidades eram rígidos, limitados a alguns poucos autores e textos selecionados, torna-se disponível uma grande variedade de idéias de diferentes épocas e tendências. Tudo isso deve ter estimulado o surgimento de uma renovação nas ciências.

O próprio trabalho de Fracastoro, já estudado, que pertence a essa época, mostra esse tipo de renovação, através da influência do atomista romano Lucretius. No entanto, outros autores do século XVI e XVII representam melhor a tentativa de revolucionar a Medicina. Nesse período, surgem críticas diretas e globais à tradição antiga. Andreas Vesalius (1514-1564) funda a anatomia moderna, através da cuidadosa observação, descrição e representação artística do corpo humano. Seus estudos mostram que Galeno havia povoado a antiga anatomia com muitos erros graves, que durante mil anos foram aceitos como verdade, pois ninguém era capaz de se dedicar à própria observação da natureza. Mais tarde, William Harvey (1578-1657) irá revolucionar a fisiologia, mostrando que o sangue circula por todo o corpo, bombeado pelo coração, ao contrário do que se acreditava até a época. Talvez o autor médico mais característico desse movimento de renovação seja Paracelso. Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), que se auto-denominava Paracelso , atacou de modo direto e violento toda a tradição. Sua ruptura com as autoridades antigas foi mostrada de modo formal quando ele queimou publicamente os livros de Galeno e Avicena, numa praça de Basle, em 1527. O maior obstáculo ao desenvolvimento do conhecimento lhe parecia ser o respeito aos livros tradicionais. Era necessário retornar ao "livro da natureza" e adquirir conhecimento pela experiência. Para diferenciar-se dos médicos da época, que só escreviam em latim, Paracelso redigiu seus livros no idioma popular: alemão.

Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, auto-denominado Paracelso.
Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, auto-denominado Paracelso.

Paracelso não se tornou o Copérnico da Medicina, no entanto: não conseguiu edificar uma nova teoria que substituisse a antiga. Sua obra foi uma estranha mistura de idéias místicas, astrológicas, alquímicas e médicas.

O homem é, para ele, uma miniatura do universo (um microcosmo) e por isso os conhecimentos médicos não podem ser separados de uma filosofia sobre toda a natureza. Ele foi mais um mago do que cientista, no conceito moderno da palavra. Talvez a maior contribuição que ele tenha dado à Medicina tenha sido o impulso para buscar algo novo, através de todos os meios disponíveis.