Sistemas semelhantes de inoculação da varíola foram descobertos independentemente em outros locais - inclusive na Europa - mas não tiveram grande difusão. Sabe-se que no principado de Gales, muitos séculos atrás, fazia-se "enxerto" de varíola. O procedimento eram chamado "comprar bexiga", pois se pagavam duas ou três moedas à pessoa que fornecia a doença aos outros. O procedimento era popular entre os estudantes: a mão ou braço eram arranhados, esfregando-se sobre o arranhão a matéria da varíola. Na Dinamarca, havia um costume semelhante no século 15. No entanto, tudo isso parecia apenas superstição ou folclore. A Medicina erudita ignorava o processo.
Em meados do século XVII, missionários jesuítas que estavam na China comunicaram aos europeus o método de inalação das cascas de feridas para prevenção da varíola. Mas o método não sucitou muito interesse. Nessa mesma época, o método indiano é adotado na Grécia, no Egito e depois na Turquia, e de lá acabou chegando à Europa.
O processo utilizado nesses locais consistia em passar a doença diretamente de um doente para uma pessoa sadia. Arranhava-se ou perfurava-se o braço ou a testa da pessoa com uma agulha, que estava embebida no líquido de uma pústula "madura" (tendendo a secar).
Na Turquia, os maometanos não aceitaram o processo de inoculação. Os cristão turcos utilizavam o processo, e observava-se uma enorme diferença de mortalidade pela varíola, entre as duas populações. O fato foi observado e impressionou o médico grego Emanuel Timoni, que estava na Turquia em 1713. Ele enviou uma carta à Inglaterra, comunicando suas observações, e seu trabalho foi publicado pela principal sociedade científica da época: a Royal Society, de Londres. Mesmo assim, o processo não despertou interesse. Ele só foi difundido graças ao esforço de uma mulher: Lady Mary Wortley Montague.
Lady Montague era esposa do embaixador inglês em Constatinopla. Em 1717, diante do perigo da varíola, fez inocular seu filho naquela capital por Maitland, um cirurgião inglês. Em 1722 ela retornou à Inglaterra e sua jovem filha foi inoculada por uma pequena incisão em cada braço. Foi a primeira pessoa inoculada na Inglaterra. A notícia se espalhou e, graças ao prestígio de Lady Montague, alguns meses depois, a princesa e outros membros da família real foram inoculados, com sucesso.
Os médicos ingleses resolveram estudar o método. Em 1725 foram feitos experimentos com criminosos condenados, em Newgate, que se ofereceram como voluntários, ganhando como prêmio o perdão real, caso não morressem. Sete foram inoculados pelo método chinês e seis pelo método turco. Notou-se que cérebro de um dos prisioneiros do primeiro grupo foi afetado; por isso houve um preconceito contra o método chinês, que não foi adotado. Começou-se a fazer inoculações pelo método turco. O processo foi chamado de "variolação" ou de "inoculação de bexigas". Não devemos chamar esse processo de "vacinação". Mais adiante veremos o significado exato da palavra "vacina".
À medida que a notícia se divulgou pelo mundo, muitos começaram a adotar esse processo. No Brasil, um missionário carmelita do Pará leu uma notícia sobre a variolação e resolveu aplicá-la, pois a metade dos seus índios já havia morrido com a enfermidade.Outros missionários seguiram seu exemplo, com bastante sucesso.
No caso da varíola natural, observava-se nessa época que uma de cada cinco ou seis doentes acabava morrendo. Em alguns casos, a metade das pessoas doentes morriam. No caso da variolação, havia um certo risco. Estudos publicados em 1727 mostraram que, de 764 pessoas inoculadas, 15 haviam morrido. As vítimas eram geralmente crianças e idosos, que tinham consulsões e morriam. A proporção era muito alta: uma para cada 50 pessoas. Houve também acidentes graves, em Boston, em 1723, por exemplo, onde uma grande parte dos variolados morreu.
Qual era a gravidade da enfermidade, nessa época? Em torno de 1700, cerca de 0,5% da população de Londres morria de varíola, a cada ano. Através de estatísticas oficiais, pode-se conhecer a taxa anual de mortalidade por essa doença, em Londres, no final do século XVII:

O risco de adquirir varíola e ficar cego ou deformado devia ser muito maior. Por isso, a maior parte da população achava que era melhor se arriscar com a variolação do que ser atingido ela varíola natural.
Na França, houve inicialmente forte reação contra o procedimento. Uma folheto anônimo, denominado "Razões de dúvidas contra a inoculação", questionava se podia deixar de ser criminosa a inoculação de uma doença sobre um corpo humano. Afirmava que não se conhecia se o processo era realmente antigo ou apenas uma invenção recente. O autor do folheto dizia que o procedimento adotado era arbitrário, injusto, falso, irregular. A variolação era totalmente contrária a tudo o que se sabia em Medicina (ou seja: contrária à teoria dos humores), pois não produzia a evacuação das matérias nocivas ao organismo. Por fim, reprovava o processo por vários motivos: a variolação "é contrária aos olhos do Criador"; não preserva da varíola natural; é contrária às leis civis; e parece mais pertencente à Magia, do que à Medicina.
Quem se horrorizasse com o processo, na época, não podia ser criticado. Sob o ponto de vista mais intuitivo, é repugnante fazer uma ferida no braço e passar sobre ela o pus tirado de uma pessoa doente. Sob o ponto de vista racional, como se podia entender que o virus (veneno) da varíola produzida artificialmente se tornava mais fraco do que quando era recebido naturalmente, pelo contágio, em quantidade muito menor? E sob o ponto de vista teórico: por que motivo a pessoa que já adquiriu a enfermidade fica protegida depois contra ela? Nada era compreendido.
A resistência na França foi vencida graças principalmente ao esforço do astrônomo e naturalista Charles-Marie de la Condamine, que escreveu a favor da variolação, em 1755, influenciando muitos nobres a se deixar inocular.
Aproximadamente na mesma época, outros países da Europa aceitaram o processo.
O método sofreu várias adaptações e mudanças. Na Itália, era seguido o seguinte processo: inicialmente, a pessoa devia se preparar, por alguns dias, seguindo um regime equilibrado, tomando um ou dois laxativos brandos, e, dependendo do temperamento da pessoa, fazendo uma sangria . Depois, fazia-se um corte na pele do braço, com o comprimento de uma polegada. Nesse corte era introduzida uma linha impregnada pelo líquido de uma pústula "madura". Depois de 40 horas, a linha era retirada.
À medida que o processo se difundia e era utilizado por pessoas mais experientes, o risco foi diminuindo. Na segunda metade do século XVIII, morria apenas uma de cada 400 pessoas inoculadas. Seria um risco aceitável?
Na segunda metade do século XVIII, na Europa, um de cada 300 habitantes morria de varíola, a cada ano. Como a varíola podia atacar em qualquer idade, era um risco contínuo, para quem não passasse pela variolação. Parecia portanto válido o processo. Mas nem todos se deixavam inocular: era um processo de uso voluntário.
Depois de algum tempo, no entanto, ressurgiram as críticas. A varíola não estava desaparecendo da Europa. Parecia estar até aumentando. Em Londres, por exemplo, os dados mostravam isso claramente:

Em 1772, observou-se o máximo de mortes de varíola em Londres: 3.992 em um único ano. Agora, a cada década, 10% dos habitantes de Londres morriam de varíola, um número nunca alcançado no século anterior.

Logo surgiu uma terrível suspeita: a própria variolação estava espalhando a doença. Antes desse processo ser introduzido, as pessoas estavam sujeitas apenas a se contagiar de pessoas doentes pelo processo natural. Mas agora, muitas pessoas adquiriam a varíola artificialmente, e as pessoas que não eram inoculadas podiam adquirir o contágio também delas. Ou seja: as fontes de contágio aumentaram. Embora a enfermidade artificial fosse mais fraca, talvez ela mantivesse todo o seu poder quando passasse pelos processos naturais para outras pessoas.
Felizmente, no final do século XVIII, foi descoberto um modo mais seguro de prevenção da varíola: a vacinação. Essa descoberta é tão importante, que merece uma descrição detalhada.
Foi no final do século XVIII que o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) realizou estudos que levaram à substituição da variolação pela vacinação.
Em um artigo publicado em 1802 em um jornal médico, o próprio Jenner conta a sua descoberta. Ele trabalhava com pessoas do campo, e praticava a variolação. Sua atenção foi chamada para uma enfermidade parecida com a varíola, chamada em inglês "cow pox", que acometia as vacas:
Minha investigação sobre a natureza da varíola das vacas começou mais de 25 anos atrás. Minha atenção para essa doença singular foi excitada observando que, entre aqueles que, no campo, eu era freqüentemente chamado a inocular [com a varíola], muitos resistiam a todos os esforços de lhes dar a varíola. Estes pacientes, descobri, tinham sofrido uma doença que chamavam de cow-pox, contraída ordenhando va-cas afetadas com uma erupção peculiar de suas tetas.

Gravura do médico inglês Edward Jenner.
Em suas obras, Jenner descreve um grande número de casos desse tipo. O primeiro exemplo foi o de um fazendeiro, Joseph Merrett. Em 1770, alguns cavalos de sua fazenda começaram a ter feridas nos joelhos . Logo depois, as vacas foram afetadas por varíola de vaca, e em seguida apareceram feridas nas mãos de Merrett, que as ordenhava. Surgiram os vários sintomas, e ele ficou incapaz de trabalhar durante vários dias. Depois, sarou.
Em abril de 1795, ocorrendo aqui uma inoculação geral [variolação], Merrett foi inoculado com sua família. Já se havia passado um período de 25 anos desde que ele tinha tido a cow-pox. No entanto, embora se inserisse repetidamente a matéria variólica em seu braço, descobri que era impossível infectá-lo com ela, aparecendo apenas uma eflorescência na pele, com aparência erisipelosa no centro, próxima às partes perfuradas. Durante todo o tempo que sua família teve a varíola - e um dos seus membros a teve de modo muito forte - ele permaneceu na casa com eles, mas não recebeu dano pela exposição ao contágio.
Jenner testou a resistência à varíola de várias pessoas. Um viajante chamado John Phillips teve cow-pox aos 9 anos de idade. Quando tinha 62 anos, Jenner o inoculou com a varíola, "tendo o cuidado de usar a matéria em seu estado mais ativo". Logo se produziu um efeito semelhante ao de uma picada de inseto, que cresceu, tornando-se uma eflorescência grande. John sentiu dor, ficando com o ombro endurecido, no quarto dia. Mas logo depois de alguns dias os sintomas desapareceram, sem que surgissem as pústulas características da variolação.
Ou seja: as pessoas que adquiriam a varíola de vaca não adquiriam a varíola humana no processo de inoculação . Se isso fosse verificado, seria de grande importância, pois Jenner sabia que a doença das vacas, embora produzisse feridas nas pessoas, não era tão grave quanto a varíola, e nunca era mortal. No entanto, o efeito observado não parecia ser uma regra geral:
No curso da investigação desse assunto, que, como todos os outros de uma natureza intrincada e complexa, apresenta muitas dificuldades, descobri que alguns daqueles que pareciam ter sofrido de cow-pox, apesar disso, ao serem inoculados com a varíola, sentiam sua influência exatamente como se não lhes tivesse sido comunicada a doença pela vaca. Isso me levou a inquirir os praticantes médicos no campo em torno de mim, e todos concordaram com essa opinião, que a cow-pox não devia ser confiada como um preventivo certo da varíola.
Por algum tempo isso diminuiu, mas não extingüiu o meu ardor; pois, à medida que prosseguia, tive a satisfação de aprender que a vaca estava sujeita a certa variedade de erupções espontâneas nas tetas; que elas eram capazes de comunicar feridas às mãos dos ordenhadores; e que todas as feridas transmitidas pelo animal eram chamadas pelas ordenhadoras de cow-pox. Assim eu transpus um grande obstáculo, e, em conseqüência, fui levado a formar uma distinção entre essas doenças, uma das quais denominei de cow pox verdadeira e as outras de espúrias, pois não possuem poder específico sobre a constituição.
A situação, como se vê, não era muito clara.
Logo surgiram outras dúvidas. Jenner tomou conhecimento de que, de
várias pessoas que haviam ordenhado a mesma vaca, na mesma ocasião,
e que tinham adquirido a varíola de vaca, algumas depois não
mostravam nenhum efeito ao serem inoculadas com a varíola humana, mas
outras mostravam todos os sintomas.
Isso, como o obstáculo anterior, forneceu um cheque doloroso a minhas
esperanças; mas, refletindo que as operações da natureza
são geralmente uniformes, e que não era provável que
a constituição humana (tendo sofrido a cow-pox) devesse em alguns
casos ficar perfeitamente protegida da varíola, e em muitos outros
ficar desprotegida, reiniciei meus trabalhos com ardor redobrado.
Jenner logo chegou a uma nova conclusão: o efeito da enfermidade das vacas dependia do estágio em que ela era transmitida às pessoas. Em certas fases da doença da vaca, ela transmitia às pessoas uma mudança constitucional que as protegia contra a varíola. Em outras fases, a pessoa podia ficar doente e podiam surgir ferimentos em seu corpo, mas ela não ficava protegida contra a varíola. Jenner interpretou essa diferença a uma mudança do veneno (ou vírus) da doença:
Os resultados foram afortunados; pois eu agora descobri que o vírus da cow-pox podia sofrer mudanças progressivas, precisamente pelas mesmas causas que o da varíola; e que, quando era aplicado à pele humana em seu estado degenerado, produziria os efeitos ulcerativos em um grau meior do que quando não estava decomposto, e algumas vezes ainda mais; mas tendo perdido suas propriedades específicas, era incapaz de produzir aquela mudança sobre a estrutura humana..
...que é necessária para torná-la insuscetível de contágio variólico; e assim tornou-se evidente que uma pessoa poderia ordenhar uma vaca um dia, e pegar a doença, ficando para sempre segura; enquanto que uma outra pessoa, ordenhando a mesma vaca no dia seguinte, poderia sentir a influência do vírus de tal modo a produzir feridas e, em conseqüência disso, poderia sentir uma indisposição de extensão considerável; e no entanto, como foi observado, tendo sido perdida a qualidade específica, a constituição não receberia qualquer impressão peculiar.
A partir de todas as informações que colheu e de suas análises, Jenner se convenceu de que poderia proteger as pessoas da varíola utilizando a varíola de vaca. Planejou propagar a enfermidade por inoculação como no caso da varíola, primeiro da vaca, e depois de uma pessoa para outra.

Jenner vacinando o menino Phipps
É interessante assinalar que a idéia de fazer inoculações de outras doenças já havia surgido antes, por influência da variolação. Um professor de Jenner, chamado John Hunter (1728-1793) estava estudando as doenças venéreas e desejava descobrir se a sífilis e a gonorréia eram manifestações diferentes de uma mesma enfermidade, ou doenças diferentes. Resolveu fazer uma experiência: inoculou em si próprio o pus das feridas de um doente de gonorréia. Como resultado do teste, adquiriu sífilis (sem dúvida porque o doente tinha, também, essa doença) e concluiu que as duas enfermidades tinham uma causa comum.
Em 1796, Jenner se sentiu suficientemente seguro para fazer a sua primeira experiência. Atualmente, qualquer teste desse tipo seria feito primeiro com animais, mas não existiam esses cuidados no século XVIII. Assim, ele resolve fazer o experimento diretamente com seres humanos. Nessa época, ele cuidou de uma empregada de uma fazenda, chamada Sarah Nelmes, que havia acidentalmente adquirido a varíola de vaca. Seu braço apresentava grandes feridas produzidas pela enfermidade. Jenner utilizou o pus dessas feridas para tentar transmitir a doença a um menino da mesma fazenda, chamado Phipps.
Para observar mais cuidadosamente o progresso da infecção, eu selecionei um garoto saudável, com cerca de oito anos de idade, para inocular com a cow-pox. A matéria foi tirada da ferida da mão de uma ordenhadeira (que havia sido infectada pelas vacas de seu patrão) e foi inserida no dia catorze de maio de 1796, no braço do garoto, por meio de duas incisões superficiais, penetrando pouco a cútis, com cerca de meia polegada de comprimento cada uma.
No sétimo dia ele reclamou de desconforto na axila, e no nono ele se tornou um pouco frio, perdeu seu apetite, e teve uma leve dor de cabeça. Durante todo o dia ele estava perceptivelmente indisposto, e durante a noite teve algum grau de inquietação, mas no dia seguinte estava perfeitamente bem.
A aparência das incisões no seu progresso para um estado de maturação foram bastante iguais às produzidas de modo semelhante pela matéria variólica. A única diferença que percebi foi no estado do fluido límpido que surgia da ação do vírus, que assumia geralmente uma coloração mais escura, e que a eflorescência se espalhava em torno das incisões, que tinham uma aparência mais erisipelatosa do que comumente percebemos quando se usa matéria variólica desse mesmo modo; mas tudo desapareceu (deixando nas partes inoculadas cascas e depois cicatrizes) sem dar a mim ou ao meu paciente o menor trabalho.
Esse era o primeiro passo: tinha sido possível transmitir a doença da moça para o menino, artificialmente, e a enfermidade tinha sido bastante suave. Mas era preciso verificar se essa varíola de vaca artificial protegia contra a varíola humana.
Para verificar se o menino, depois de sentir uma afecção tão leve do sistema pelo vírus do cow-pox, estava seguro do contágio da varíola, ele foi inoculado no dia primeiro de julho seguinte com a matéria variólica, tomada diretamente de uma pústula. Foram feitas várias leves perfurações e incisões em ambos seus braços, e a matéria foi inserida cuidadosamente, mas não se seguiu nenhuma doença. Foram observadas nos braços as mesmas aparências que comumente vemos quando um paciente tem matéria variólica aplicada, depois de ter tido ou cow-pox ou varíola. Alguns meses depois ele foi novamente inoculado com matéria variólica, mas não se produziu efeito sensível em sua constituição.
Este experimento foi muito arriscado, mas deu um resultado feliz. Poderia ter sido uma tragédia.
Jenner interrompeu as suas pesquisas até a primavera de 1798, quando a doença das vacas surgiu em várias fazendas. Ele fez, então, novos experimentos.
No dia 16 de março de 1798, ele inoculou um garoto de 5 anos de idade, chamado William Summers, com o pus tirado das tetas de uma vaca que tinha a cow-pox. No sexto dia ele se sentiu indisposto, vomitou e surgiu um inchaço em seu braço, mas no oitavo dia ele já estava se sentindo bem.
No décimo-segundo dia (28 de março), Jenner inoculou William Pead, um menino de oito anos, utilizando material tirado da pústula de William Summers. No sexto dia, William Pead queixou-se de dor nas axilas e no sétimo mostrou os sintomas de pessoas com cow-pox. Depois de mais três dias, sarou.
No dia 5 de abril, várias crianças e adultos foram inoculados a partir de material tirado do braço de William Pead. Em sua maior parte, eles adoeceram no sexto dia e melhoraram no sétimo; mas em três deles houve uma indisposição secundária por causa de uma extensa inflamação erisipelatosa nos braços inoculados. Jenner aplicou mercúrio nas feridas e elas melhoraram. Um deles tinha apenas meio ano de idade.

Pintura representando o médico Edward Jenner vacinando um bebê,
com material tirado da ferida do braço de um menino.
Entusiasmado com o sucesso, Jenner realiza sucessivas transferências da doença de uma pessoa para outras. Verifica que os efeitos são sempre semelhantes, não se tornando nem mais fracos nem mais fortes, com as transferências sucessivas.
Jenner estava tão seguro de que essas pessoas estavam todas protegidas contra a varíola, que nem se deu ao trabalho de fazer testes com todas elas. Apenas fez, após vários meses, a experiência de inoculação da varíola humana no primeiro menino, William Summers, e em mais duas pessoas. Nos três casos, não houve efeitos. Jenner considerou seus experimentos perfeitamente decisivos, concluindo que "a cow-pox protege a constituição humana da infecção da varíola". Ele divulgou seu trabalho através de um folheto publicado em 1798, ao qual se seguiram depois outras obras.

É curioso assinalar que foi o título dos trabalhos de Jenner que levou ao nome "vacina":
- "Uma investigação sobre as causas e efeitos da variolae vaccinae, uma doença descoberta em alguns dos condados ocidentais da Inglaterra, particularmente Gloucestershire, e conhecida pelo nome de cow pox" (1798)
- "Novas observações sobre a variolae vaccinae" (1799)
- "Uma continuação de fatos e observações relativas à variolae vaccinae ou cow-pox" (1801)
Essas publicações, embora escritas em inglês, apresentavam
em latim o nome da doença das vacas: "variola vaccinae",
que significa varíola das vacas ou varíola "vaquina"
(que Aurélio me perdoe essa palavra). A palavra "vaccina"
era portanto um adjetivo latino, que indicava a origem da enfermidade. Não
representava o procedimento utilizado. Assim como a variolação
era chamada de inoculação da varíola, passou-se a falar
sobre a inoculação da varíola das vacas, ou seja, da
varíola "vaquina". Como o latim dava um maior respeito ao
Folha re rosto de uma das obras de Jenner.
procedimento, era preferível utilizar a expressão "inoculação da variola vaccinae", que depois foi simplificada para "inoculação da vacina" e por fim se transformou em "vacinação". A palavra "vacina", isoladamente, é um absurdo gramatical, pois trata-se de um adjetivo ("da vaca") que é usado como substantivo. Pior ainda é falar sobre as "vacinas" contra várias doenças, que não têm nada a ver com vacas. Mas a linguagem, infelizmente, é assim: quando se esquece a origem das palavras, seu significado muda tanto que elas se tornam irreconhecíveis.
Mas voltemos à época de Jenner. A divulgação desses trabalhos produziu repercussão imediata. Outros médicos logo se apressaram a testar as observações de Jenner. No mesmo ano de 1798, George Pearson publicou um estudo em que confirmou a eficácia da varíola de vaca para proteger contra a varíola humana. No ano seguinte, o médico Joseph Marshall inoculou 211 pessoas com a cow-pox e depois tentou transmitir-lhes artificialmente a varíola humana. Nenhuma delas contraiu a enfermidade.
Embora houvesse alguma resistência ao novo método, que não era compreendido, muitos médicos aderiram à inoculação da varíola de vaca. O próprio Jenner indica que, até 1801, "mais de 6.000 pessoas foram inoculadas com o vírus da cow-pox e a maior parte delas foi desde então inoculada com o da varíola, e exposto à infecção de todos os modos racionais que puderem ser imaginados, sem efeito." Em 1806, o "Royal College of Surgeons" da Inglaterra fez um inquérito sobre a eficácia e os efeitos de vacinação. Os 426 médicos que responderam haviam vacinado, até essa época, um total de 164.381 pessoas. Desse total, 56 pessoas tiveram varíola depois da vacinação, o que mostrava que a proteção não era totalmente segura. Houve alguns efeitos negativos da vacinação: 66 casos de fortes erupções na pele, 24 casos de inflamação do braço, e em três desses casos as pessoas morreram.

Caricatura de Gillray, intitulada "o maravilhoso efeito da nova inoculação",
satirizando o processo de vacinação e sugerindo efeitos imprevistos.
Havia, no entanto, oposição à vacinação. Os jornais populares publicavam ilustrações que ridicularizavam a vacinação, mostrando pessoas que se transformavam em vacas. Também houve resistência por parte de muitos médicos, como William Rowley, B. Moseley e John Gale Jones. Por uma lado, era um processo puramente empírico, que não era compreendido. Por outro lado, parecia um método perigoso. Foram descritos casos em que a vacinação foi seguida por erisipela, em pessoas aparentemente saudáveis, havendo muitas mortes. Por outro lado, como a doença era passada de uma pessoa para outra, verificou-se que podiam ser transmitidas ao mesmo tempo outras doenças, como a sífilis. Assim, ao tentar se proteger da varíola, a pessoa podia cair vítima de outra enfermidade transmissível.
Houve muitas falhas iniciais por causa de falta de padronização de métodos e falta de cuidados básicos. O próprio Jenner se preocupou em esclarecer as diferenças entre a verdadeira varíola de vaca e outras enfermidades do gado. Descreveu também detalhadamente os cuidados a serem tomados: como colher o material das vacas, como guardá-lo, como inoculá-lo.
As vantagens do processo descoberto por Jenner eram muitas. Em primeiro lugar, os efeitos secundários e o risco da vacinação eram menores: apenas 3 mortes em 160.000 pessoas vacinadas, contra 1 morte em cada 500 pessoas às quais se tinha aplicado a variolação. Em segundo lugar, verificou-se que a doença das vacas apenas se transmitia pelo contato, nunca pela proximidade ou pelo ar. Por isso, as pessoas que eram inoculadas com a varíola das vacas não se tornavam perigosas para as demais. Pelo contrário, a varíola humana podia se transmitir sem contado físico direto (pelo ar) e por isso as pessoas que adquiriam a varíola humana artificial se tornavam perigosas para as outras.

Com a prática da vacinação, a mortalidade pela varíola começa a ser reduzida, durante o século XIX.
É verdade que, aos poucos, foram surgindo problemas. Em 1818 surgiu uma violenta epidemia de varíola na Inglaterra e no continente europeu. Atingiu e matou muitas pessoas que tinham sido inoculadas antes com varíola e com cow-pox. Isso mostrava que nenhum dos métodos proporcionava uma segurança total. Em 1826-7 houve epidemia de varíola na França; em 1827, na parte norte da Itália. Muitos vacinados foram novamente atacados pela varíola.
A partir de então, começou na Prússia a prática da "revacinação": repetir a vacinação, com o objetivo de proteger mais as pessoas. Não havia nenhuma base teórica para essa repetição, mas aparentemente o novo método deu resultado. Na Prússia, durante uma epidemia, ocorreu apenas um caso de varíola, em 5 anos, entre 14.384 soldados revacinados, e apenas três casos entre 26.864 civis revacinados.