No dia 16 de março de 1798, ele inoculou um garoto de 5 anos de idade, chamado William Summers, com o pus tirado das tetas de uma vaca que tinha a cow-pox. No sexto dia ele se sentiu indisposto, vomitou e surgiu um inchaço em seu braço, mas no oitavo dia ele já estava se sentindo bem.
No décimo-segundo dia (28 de março), Jenner inoculou William Pead, um menino de oito anos, utilizando material tirado da pústula de William Summers. No sexto dia, William Pead queixou-se de dor nas axilas e no sétimo mostrou os sintomas de pessoas com cow-pox. Depois de mais três dias, sarou.
No dia 5 de abril, várias crianças e adultos foram inoculados a partir de material tirado do braço de William Pead. Em sua maior parte, eles adoeceram no sexto dia e melhoraram no sétimo; mas em três deles houve uma indisposição secundária por causa de uma extensa inflamação erisipelatosa nos braços inoculados. Jenner aplicou mercúrio nas feridas e elas melhoraram. Um deles tinha apenas meio ano de idade.

Pintura representando o médico Edward Jenner vacinando um bebê,
com material tirado da ferida do braço de um menino.
Entusiasmado com o sucesso, Jenner realiza sucessivas transferências da doença de uma pessoa para outras. Verifica que os efeitos são sempre semelhantes, não se tornando nem mais fracos nem mais fortes, com as transferências sucessivas.
Jenner estava tão seguro de que essas pessoas estavam todas protegidas contra a varíola, que nem se deu ao trabalho de fazer testes com todas elas. Apenas fez, após vários meses, a experiência de inoculação da varíola humana no primeiro menino, William Summers, e em mais duas pessoas. Nos três casos, não houve efeitos. Jenner considerou seus experimentos perfeitamente decisivos, concluindo que "a cow-pox protege a constituição humana da infecção da varíola". Ele divulgou seu trabalho através de um folheto publicado em 1798, ao qual se seguiram depois outras obras.

É curioso assinalar que foi o título dos trabalhos de Jenner que levou ao nome "vacina":
- "Uma investigação sobre as causas e efeitos da variolae vaccinae, uma doença descoberta em alguns dos condados ocidentais da Inglaterra, particularmente Gloucestershire, e conhecida pelo nome de cow pox" (1798)
- "Novas observações sobre a variolae vaccinae" (1799)
- "Uma continuação de fatos e observações relativas à variolae vaccinae ou cow-pox" (1801)
Essas publicações, embora escritas em inglês, apresentavam
em latim o nome da doença das vacas: "variola vaccinae",
que significa varíola das vacas ou varíola "vaquina"
(que Aurélio me perdoe essa palavra). A palavra "vaccina"
era portanto um adjetivo latino, que indicava a origem da enfermidade. Não
representava o procedimento utilizado. Assim como a variolação
era chamada de inoculação da varíola, passou-se a falar
sobre a inoculação da varíola das vacas, ou seja, da
varíola "vaquina". Como o latim dava um maior respeito ao
Folha re rosto de uma das obras de Jenner.
procedimento, era preferível utilizar a expressão "inoculação da variola vaccinae", que depois foi simplificada para "inoculação da vacina" e por fim se transformou em "vacinação". A palavra "vacina", isoladamente, é um absurdo gramatical, pois trata-se de um adjetivo ("da vaca") que é usado como substantivo. Pior ainda é falar sobre as "vacinas" contra várias doenças, que não têm nada a ver com vacas. Mas a linguagem, infelizmente, é assim: quando se esquece a origem das palavras, seu significado muda tanto que elas se tornam irreconhecíveis.
Mas voltemos à época de Jenner. A divulgação desses trabalhos produziu repercussão imediata. Outros médicos logo se apressaram a testar as observações de Jenner. No mesmo ano de 1798, George Pearson publicou um estudo em que confirmou a eficácia da varíola de vaca para proteger contra a varíola humana. No ano seguinte, o médico Joseph Marshall inoculou 211 pessoas com a cow-pox e depois tentou transmitir-lhes artificialmente a varíola humana. Nenhuma delas contraiu a enfermidade.
Embora houvesse alguma resistência ao novo método, que não era compreendido, muitos médicos aderiram à inoculação da varíola de vaca. O próprio Jenner indica que, até 1801, "mais de 6.000 pessoas foram inoculadas com o vírus da cow-pox e a maior parte delas foi desde então inoculada com o da varíola, e exposto à infecção de todos os modos racionais que puderem ser imaginados, sem efeito." Em 1806, o "Royal College of Surgeons" da Inglaterra fez um inquérito sobre a eficácia e os efeitos de vacinação. Os 426 médicos que responderam haviam vacinado, até essa época, um total de 164.381 pessoas. Desse total, 56 pessoas tiveram varíola depois da vacinação, o que mostrava que a proteção não era totalmente segura. Houve alguns efeitos negativos da vacinação: 66 casos de fortes erupções na pele, 24 casos de inflamação do braço, e em três desses casos as pessoas morreram.

Caricatura de Gillray, intitulada "o maravilhoso efeito da nova inoculação",
satirizando o processo de vacinação e sugerindo efeitos imprevistos.
Havia, no entanto, oposição à vacinação. Os jornais populares publicavam ilustrações que ridicularizavam a vacinação, mostrando pessoas que se transformavam em vacas. Também houve resistência por parte de muitos médicos, como William Rowley, B. Moseley e John Gale Jones. Por uma lado, era um processo puramente empírico, que não era compreendido. Por outro lado, parecia um método perigoso. Foram descritos casos em que a vacinação foi seguida por erisipela, em pessoas aparentemente saudáveis, havendo muitas mortes. Por outro lado, como a doença era passada de uma pessoa para outra, verificou-se que podiam ser transmitidas ao mesmo tempo outras doenças, como a sífilis. Assim, ao tentar se proteger da varíola, a pessoa podia cair vítima de outra enfermidade transmissível.
Houve muitas falhas iniciais por causa de falta de padronização de métodos e falta de cuidados básicos. O próprio Jenner se preocupou em esclarecer as diferenças entre a verdadeira varíola de vaca e outras enfermidades do gado. Descreveu também detalhadamente os cuidados a serem tomados: como colher o material das vacas, como guardá-lo, como inoculá-lo.
As vantagens do processo descoberto por Jenner eram muitas. Em primeiro lugar, os efeitos secundários e o risco da vacinação eram menores: apenas 3 mortes em 160.000 pessoas vacinadas, contra 1 morte em cada 500 pessoas às quais se tinha aplicado a variolação. Em segundo lugar, verificou-se que a doença das vacas apenas se transmitia pelo contato, nunca pela proximidade ou pelo ar. Por isso, as pessoas que eram inoculadas com a varíola das vacas não se tornavam perigosas para as demais. Pelo contrário, a varíola humana podia se transmitir sem contado físico direto (pelo ar) e por isso as pessoas que adquiriam a varíola humana artificial se tornavam perigosas para as outras.

Com a prática da vacinação, a mortalidade pela varíola começa a ser reduzida, durante o século XIX.
É verdade que, aos poucos, foram surgindo problemas. Em 1818 surgiu uma violenta epidemia de varíola na Inglaterra e no continente europeu. Atingiu e matou muitas pessoas que tinham sido inoculadas antes com varíola e com cow-pox. Isso mostrava que nenhum dos métodos proporcionava uma segurança total. Em 1826-7 houve epidemia de varíola na França; em 1827, na parte norte da Itália. Muitos vacinados foram novamente atacados pela varíola.
A partir de então, começou na Prússia a prática da "revacinação": repetir a vacinação, com o objetivo de proteger mais as pessoas. Não havia nenhuma base teórica para essa repetição, mas aparentemente o novo método deu resultado. Na Prússia, durante uma epidemia, ocorreu apenas um caso de varíola, em 5 anos, entre 14.384 soldados revacinados, e apenas três casos entre 26.864 civis revacinados.
Sob o ponto de vista prático, a vacinação parecia excelente. Mas e sob o ponto de vista teórico? Não se entendia muita coisa.
A varíola das vacas parecia ser diferente da varíola humana - caso contrários, os efeitos seriam iguais. Como, então, uma enfermidade era capaz de proteger contra outra?
Jenner acreditava que tanto a varíola humana quanto a das vacas tinham a mesma origem. Nos seus trabalhos, ele cita vários fatos para tentar mostrar que a cow-pox somente surge nas fazendas, depois que aparecem cavalos com uma doença nos joelhos. Ele supõe por isso que os cavalos são a origem primitiva da cow-pox, que depois é passada às vacas pelas mãos das pessoas que cuidam de ambos. Ele supõe que a causa da doença vai se modificando, quando passa de um animal para outro:
A qualidade ativa do vírus dos joelhos dos cavalos aumenta muito depois de ter atuado ns tetas da vaca, pois raramente cavalo afeta o cavalariço com feridas, e raramente uma ordenhadeira escapa de infecção quando ordenha vacas infectadas.
Jenner supõe também que a própria varíola humana se origina da enfermidade dos cavalos:
Não se pode razoavelmente conjeturar, que a fonte da varíola é matéria mórbida de algum tipo especial, gerada por uma doença no cavalo, e que possam ter surgido repetidamente circunstâncias acidentais, desenvolvendo novas mudanças nela, até adquirir a forma contagiosa e maligna sob a qual a vemos agora fazer devastações entre nós?
Se a varíola humana e a cow-pox tiverem uma origem comum, torna-se mais fácil compreender como uma pode proteger contra a outra: porque possuem, essencialmente, a mesma causa, que passou apenas por algumas modificações.
A hipótese de Jenner sobre a origem eqüina da cow-pox, no entanto, logo foi negada.
Independentemente da origem da doença, o efeito da vacinação era tão misterioso quanto o da variolação. Por que motivo uma pessoa que já teve uma doença fica protegida contra essa enfermidade? Por que isso ocorre no caso da varíola e não ocorre no caso de outras doenças, que podem atacar várias vezes a mesma pessoa? O próprio Jenner não tenta explicar isso. Ele se contenta com o estabelecimento de que a vacinação funciona e é segura.
O químico Humphry Davy propôs, em 1811, uma explicação: um veneno poderia combater outro semelhante. Assim, se a pessoa já tivesse dentro de seu corpo um veneno (da cow-pox), esse veneno impediria a ação da varíola humana. Nessa hipótese, está implícita a suposição de que a varíola é transmitida por um tipo de veneno - o que todos aceitavam na época. Como vimos, o próprio Jenner fala muitas vezes sobre o "vírus" da varíola e da cow-pox, o que significava, na época, a mesma coisa que veneno.
Davy sugeriu que um processo semelhante à vacinação poderia ser utilizado com outras doenças que também sejam transmitidas por venenos. Ele se refere especificamente à raiva ou hidrofobia, que também passa de um cão para outro, pela mordida. George Pearson, por sua vez, havia sugerido, antes disso, que se poderia desenvolver um processo semelhante de proteção contra a sífilis - que também é contagiosa.
Nessa época, começou a se formar uma nebulosa associação entre essas várias idéias: uma enfermidade contagiosa que só ataque uma vez cada pessoa é transmitida por um vírus e deve poder ser evitada por um processo semelhante à vacinação.
Nem Jenner, nem os outros autores da época, se preocuparam em explicar como o "vírus" da varíola se multiplica dentro do organismo. Ninguém sugeriu, na época, que a doença pudesse ser causada por microorganismos.

No século XIX, a vacinação utilizava material tirado
das feridas das vacas, que era inoculado diretamente nas pessoas.
A vacinação é um exemplo clássico de técnica médica que surgiu sem nenhuma explicação, mas que funcionou. De certa forma, ela representa um retorno à humildade de Hipócrates, que não pretendia desenvolver uma ciência teórica e sim uma técnica, uma arte empírica de curar.