A idéia moderna de contágio tem raízes muito antigas, no pensamento primitivo. Ela surgiu do pensamento mágico, pré-científico, que sobrevive em muitos povos, como os índios.
Não se pode saber ao certo como eram as concepções sobre enfermidades e medicina no período pré-histórico (antes da existência da escrita). Parecem sempre ter existido doenças, pois os fósseis de animais e homens pré-históricos mostram claros sinais de doenças que conhecemos. Por isso, é natural pensar-se que sempre houve uma preocupação com elas, que deve ter gerado hipóteses sobre suas causas.
Procura-se em geral "adivinhar" como eram essas concepções mais antigas estudando-se os chamados povos "selvagens" ou "primitivos" atuais (indígenas e aborígenes, que não possuem sistema de escrita). É claro que as idéias de um índio brasileiro atual (mesmo supondo que ele não foi aculturado) não devem ser iguais às de seus ancestrais de 5.000 anos atrás. No entanto, foram encontradas certas idéias muito comuns na maior parte dos povos "primitivos", e pode-se supor que elas tenham existido desde os tempos pré-históricos.
Embora o conceito científico de contágio seja moderno, a sua idéia geral é antiga e primitiva. "Contágio" significa a passagem de alguma coisa de uma pessoa (ou de um animal, objeto, etc.) para outra, pelo contato físico . Antes de se tornar um conceito médico, essa idéia surgiu como um conceito mágico.

Este curandeiro está "extraindo" uma enfermidade, introduzida
por magia no corpo do doente.
Uma concepção extremamente difundida por toda a humanidade, desde tempos remotos, é a de que se estabelece uma ligação ou vínculo com aquilo que tocamos. Em diversas práticas de magia, para se enfeitiçar uma pessoa e obter o seu amor, era necessário tocá-la com o dedo, ou obter algum objeto que tivesse sido tocado ou usado pela pessoa, pois assim se podia criar uma ligação com ela. Da mesma forma, na feitiçaria, para se influenciar uma pessoa, fabrica-se um boneco no qual se coloca alguma coisa dessa pessoa (cabelos, unhas, pedaço de tecido, etc.). Supõe-se que, assim, o boneco se torna ligado à pessoa e aquilo que se fizer com ele (por exemplo, espetando com alfinetes) irá repercutir também na pessoa (que ficará doente ou morrerá).
O contato direto entre um bruxo e uma pessoa era considerado o mais perigoso: acreditava-se que encostando um dedo ou mesmo pisando na sombra de uma pessoa, o mago poderia passar-lhe doenças, tirar sua vitalidade (roubar sua alma), etc.
Todas essas idéias fazem com que surja um temor de tocar ou se aproximar
de qualquer coisa considerada negativa, por medo de se ligar a ela e receber
algum tipo de "contágio" maligno. Assim, o contágio,
fosse intencional (por um mago ou feiticeira), fosse ocasional (por contato
com algum doente ou com um objeto maligno) era visto como uma importante causa
de doenças.
Os mortos, por exemplo, eram vistos como algo perigoso. Isso era reconhecido
tanto no caso de morte natural, como, principalmente, no caso de mortes por
causas estranhas, desconhecidas. Evitava-se tocar neles, ou mesmo em seus
objetos. Eram realizados vários rituais que procuravam quebrar a ligação
entre os vivos e os mortos. Muitas vezes, a cabana e os objetos do morto eram
queimados, para que não pudessem contagiar outras pessoas.
Não eram apenas influências negativas que se supunha serem transmitidas por contágio. As influências positivas de um objeto sagrado ou de uma pedra preciosa também poderiam atuar pelo simples toque. Tocando ou carregando consigo um cristal, a pessoa se unia a esse cristal e adquiria seu poder. Também se acreditava que um sacerdote ou mesmo um rei poderia transmitir um poder positivo, pelo toque.
Sempre que surgia alguma doença "estranha", que não podia ser curada pelos meios domésticos comuns, supunha-se que a causa era sobrenatural. Supunha-se que ela pudesse ser enviada por demônios, por feiticeiros ou pelos deuses. Em qualquer caso, acreditava-se que essas doenças estavam associadas também a algum tipo de infração cometida pelo doente ou por alguém de sua família. Essa infração poderia ter sido algum tipo de pecado ou ofensa a um ser sobrenatural, ou algum comportamento errôneo para com outras pessoas - uma transgressão social ou moral. Para determinar o tipo exato de doença, o curandeiro precisava também atuar como confessor, fazendo com que o doente procurasse se lembrar de todo tipo de falta cometida, que pudesse ter desencadeado a doença como castigo. Também se recorria a práticas de adivinhação com ossos, conchas, etc., para determinar a causa da doença.
Nem todas as doenças eram vistas como causadas por contágio. Havia outras causas - algumas delas sobrenaturais, como a cólera dos deuses e demônios; outras naturais. Doenças como resfriados, reumatismo, etc., eram vistas como ocorrências naturais, que não precisavam de explicação especial. Eram tratadas com remédios domésticos. No entanto, outras doenças eram vistas como algo estranho e misterioso, sendo necessário, nesse caso, recorrer a um sacerdote ou a um feiticeiro.
O que, exatamente, ocorre durante o contágio de uma doença, segundo essas concepções primitivas? Há muitos modos de tentar explicar o que ocorre. Em alguns casos, supunha-se que o contágio introduziu alguma coisa maligna dentro da pessoa - um espírito, um objeto enfeitiçado (como pontas de flecha mágicas), ou algo de outro tipo. Nesses casos, a cura exige que se retire do doente aquilo que penetrou nele.
Os feiticeiros procuram retirar o agente maligno através da transpiração, pela massagem, ou sugando, com a boca ou ventosas, os objetos mágicos do corpo. Os banhos purificadores também eram recomendados em muitos casos. Podem também ser utilizadas substâncias que produzam vômito, purgantes, ou mesmo extrair as substâncias malignas através de sangria.
Em casos especiais, é necessário abrir o crânio do doente, para que possam sair pelo orifício as causas que produzem fortes dores de cabeça. Quando a doença é produzida pela entrada de um espírito maligno, ele deve ser afastado por preces mágicas, pelo barulho (tocando tambores) ou mesmo batendo no corpo do doente. Em outros casos, supõe-se que o contágio, ao invés de introduzir algo, retirou alguma coisa da pessoa - sua vitalidade ou sua alma. Nesse caso, o curandeiro deve procurar localizar a alma do doente, que pode ter sido roubada e guardada por um feiticeiro dentro de uma cumbuca, ou pode ter sido levada para o mundo dos espíritos, por algum demônio.
De um modo geral, os curandeiros tinham sucesso e curavam seus doentes. Pode-se entender a eficácia de seus tratamentos a partir de conhecimentos modernos, pois eles utilizavam muitos medicamentos de grande poder, além de práticas importantes como a dieta. Por outro lado, é inegável o efeito real produzido pela sugestão sobre os doentes, e todo o tratamento mágico tendia a fortalecer a vontade e a certeza de se curar do doente. O próprio processo de confissão, que precedia o ritual de cura, pode ser considerado como benéfico, por aliviar eventuais culpas do doente e colocá-lo em harmonia psicológica com seu meio social.

Ainda hoje, tribos africanas realizam rituais para a cura, utilizando tambores,
máscaras e imagens de divindades, como a que vemos acima.
Muitas dessas concepções "primitivas" sobrevivem até hoje, em meio às sociedades mais cultas. Na tradição judaico-cristã, sobreviveu até hoje a idéia de que as doenças podem ser castigos divinos pelos pecados cometidos pelo doente. Nas religiões afro-brasileiras, a presença constante da feitiçaria e de práticas mágicas de cura é conhecida por todos. Ao longo de toda a história da humanidade, como veremos, essas e outras concepções "primitivas" sempre estiveram presentes.
Os povos mais antigos cujas idéias médicas são conhecidas, são os assírios e babilônios. Essas civilizações se desenvolveram na Mesopotâmia - o local onde, atualmente, existe o Iraque. São conhecidos textos desses povos, escritos em tabletes de argila há mais de 4.000 anos. Através desses textos, pode-se ter uma idéia sobre suas concepções médicas.
Sob todos os aspectos, as antigas sociedades da Mesopotâmia eram dirigidas
pela religião. O poder do rei vinha dos deuses e todas as leis sociais
eram de origem divina. Da mesma forma, supunha-se que o deus era o verdadeiro
mestre de tudo; ele atingia com a doença a quem quisesse atingir.
Se o homem esquece o fim de sua criação, rejeita as leis que
os deuses lhe impuseram, ele está em estado de pecado. O deus se irrita
e ocorrem calamidades. A mais comum é a doença.
Todos os deuses podem produzir e curar doenças. No entanto, são mais comumente invocados para curas, os deuses: Sin, Shamash, Damu (ou Tammuz), e Marduk.
A deusa da medicina, em especial, era Gula, também chamada Baba ou Ninkar-rak. Ela era denominada "A senhora que dá a vida aos moribundos, e os torna sadios pelo contato de sua mão pura."
"Deusa mãe dos homens, Baba, que lanças o encantamento da vida contra a agitação do coração, tu que cicatrizas as carnes dissociadas; ó mãe das criaturas vivas: afasta o mal da cabeça, o mal dos dentes, o mal do coração, o tenesmo, o mal do solhos, a fraqueza, a paralisia das articulações, toda doença maligna."
Uma divindade aquem se atribuía, na antiguidade, muitas doenças:
o deus (ou demônio) mesopotâmico Pazuzu.
Como a doença era produzida pelos deuses, o único recurso contra
qualquer enfermidade era apaziguá-los. Evidentemente, o médico
pertencia à classe dos sacerdotes, pois sem o conhecimento religioso
nada era possível. O médico-sacerdote apenas tem poder por causa
dos deuses que invoca:
"Eu sou o homem de Ea, eu sou o homem de Damkina, eu sou o enviado de
Mar-duk; para dar a saúde ao homem doente, o grande senhor Ea me enviou.
Eu sou o sacerdote conjurador de Ea; eu sou o mago de Eridu, sou eu quem recita
o encantamento para o doente.
Adiciona tua palavra pura à minha; adiciona tua voz pura à minha; torna eficaz minha pura conjuração. Carrega de poder de curar a palavra de minha boca.
Ao realizar as curas, o sacerdote associava a doença ao pecado ou à magia:
Que tu possas ser livrado de teu pecado, de teu encantamento, de tua falta, de teu ato errado, da maldição que pesa sobre ti, de tua doença, de teu sortilégio, de teu encantamento, de teu malefício, das maquinações malignas dos homens."
Para poder se curar, o doente deveria primeiramente tentar descobrir qual o pecado que ocasionou a doença, pois só então poderia saber a qual deus dirigir suas preces e oferendas. Às vezes, a própria pessoa sabia qual foi sua falha; outras vezes, não: "O pecado que cometi, eu não o conheço; a falta que cometi, eu não a conheço."
Pelo estudo dos sintomas da doença, era possível, muitas vezes, descobrir qual o deus que a havia produzido:
Quando um homem é atingido no pescoço, é a mão de Adad; quando é atingido no pescoço e seu peito está dolorido, é a mão de Ishtar, a dos colares. Quando um homem sofre das têmporas e os músculos do pescoço estão doloridos, é a mão de um demônio.
O sacerdote faz com que o doente recite uma lista de pecados que pode ter cometido, como um tipo de confissão.
Enquanto caminhava ao longo das ruas, e dos caminhos,
ele pisou sobre uma libação que havia sido derrubada,
ou colocou o pé sobre a água suja,
ou atirou os olhos sobre a água de lavar as mãos,
ou tocou uma mulher que tinha as mãos sujas,
ou olhou para uma jovem que não tinha lavado as mãos,
ou sua mão tocou uma mulher enfeitiçada,
ou tocou um homem que não tinha lavado as mãos,
ou viu alguém que não tinha as mãos lavadas,
ou sua mão tocou alguém cujo corpo estava sujo.
Aqui, nota-se que há um conceito de contágio mágico, já que ao tocar ou mesmo olhar para algo impuro, a pessoa também se torna impura.
Outras possíveis causas de doença são crimes ou infrações morais, sociais e políticas, como roubar, incitar brigas, mentir, etc. Violar leis religiosas, deixar de fazer oferendas aos deuses e de invocar a deusa antes das refeições, bem como jurar em falso pelo nome do deus, eram causas certas de doença.
Além de enviar doenças por sua vontade própria, os deuses podiam ser convocados para atacar os inimigos, através de preces e maldições como esta:
Que Sin lhe dê a hidropisia; que cubra seu corpo de lepra, como uma
roupa; que Gula coloque em seu corpo um veneno que não saia; que os
deuses lhe destinem a sorte de não ver, obturem suas orelhas e tornem
sua boca muda.
Uma famosa maldição desse tipo foi lançada por Hamurabi,
o célebre legislador, sobre quem ousasse modificar seu Código:
Que Ninkarrak caia sobre ele, até que ela tome sua vida, [lhe produza] uma do-ença grave, uma peste maligna, uma ferida perigosa que não possa ser curada, da qual o médico ignore a natureza, que não se possa acalmar com um curativo.
Em outros casos, não é o deus ou deusa que atinge o homem: eles o abandonam, deixam de protegê-lo, e ele é atingido pelos maus espíritos, demônios, etc. "Aquele que não tem um deus, quando caminha pela rua, o mal da cabeça o cobre como uma roupagem. Aquele que não tem deusa guardiã, o mal da cabeça tortura seu corpo."
Os feiticeiros podem, através de encantamentos, lançar o demônio de uma doença contra o corpo humano. Os demônios entram no corpo do homem e o torturam. Há imagens desses demônios: caricaturas humanas e de animais, com grandes dentes. Entre os demônios mais conhecidos, há o Pazuzu, do qual o Museu do Louvre possui uma reprodução em bronze; possui asas, que representam sua mobilidade (pág 10). Estava associado ao vento do sudoeste. Nas costas, tem o texto: "Eu sou Pazuzu, filho de Hanpa, rei dos maus espíritos do ar, que sai das montanhas, violentamente, produzindo a dor".
Outro demônio, feminino, era Lamashtu, que atacava crianças e mulheres grávidas. Tem cabeça de leão, pés de ave de rapina, corpo de mulher. Possui duas serpentes, aleita ao mesmo tempo um cão e um pequeno porco que pendem de seus seios.
A terapia era coerente com a causa atribuída às doenças. O tratamento exigia que o deus irritado fosse acalmado, obtendo-se seu perdão pela prece, sacrifício e oferendas. Dependendo do caso, era necessário expulsar o demônio que tomou o corpo do doente, através de um exorcismo.
Algumas das oferendas destinadas aos deuses eram alimentos como pão, bebidas, aves, carnes, leite, mel. O sacrifício podia ser uma substituição do doente por um animal, que é entregue ao deus, em sacrifício.