Como já vimos, Davaine havia estudado, juntamente com Rayer, o antraz ou carbúnculo dos carneiros. Eles havia observado a presença de certos microorganismos no sangue dos animais mortos. No entanto, na época em que fizeram esses estudos, eles próprios não deram grande importância à descoberta. Em 1863, Davaine retoma os estudos sobre o antraz.
Durante o trabalho anterior, havia sido observado que o sangue dos animais que haviam morrido pelo antraz mostrava-se cheio de coágulos e com a presença de certos bastonetes (bactérias). No entanto, esse sangue só era observado quando o animal já tinha morrido. Havia a possibilidade de que fosse apenas um produto da deterioração ou putrefação do sangue.
Nos novos estudos, Davaine observou que era capaz de transmitir o antraz a vários animais diferentes, com injeção de uma pequena quantidade do sangue de animais doentes. Inoculou cavalos, bois e coelhos, que morriam depois de três ou quatro dias com os mesmos sintomas dos carneiros e apresentando sempre o sangue cheio de coágulos e com os mesmos bastonetes. No entanto, inicialmente os bastonetes só eram observados quando o animal morria.
Davaine fez testes de transmissões sucessivas da doença em coelhos: quando um deles morria, utilizava seu sangue para produzir a doença em um outro, e assim sucessivamente. O resultado era sempre idêntico.
Estudando o sangue dos animais inoculados, dia após dia, Davaine observou que havia um período no qual não se observava nenhuma bactéria; no entanto, no terceiro dia, elas começavam a aparecer e seu número aumentava muito, antes que surgisse qualquer sintoma da doença. Logo depois, o animal se mostrava doente e morria em poucas horas.
Durante esse período inicial de "incubação" da doença (termo usado por Davaine), o sangue não transmitia a doença. Quando os bacilos se tornavam visíveis, o sangue passava a transmitir a doença. Davaine concluiu que as bactérias eram a causa do antraz, pois surgiam no sangue antes de qualquer outro sinal da doença e porque apenas quando elas estavam presentes era possível transmitir a doença por inoculação do sangue.
Surgiram, no entanto, objeções ao trabalho de Davaine. Poderia ter ocorrido que o sangue contivesse alguma substância (um veneno) capaz de produzir a doença; enquanto esse veneno estivesse começando a atuar no organismo, o sangue ainda seria incapaz de transmitir a doença; depois, quando o organismo já estivesse doente, o sangue se tornaria carregado de veneno, pela sua deterioração e putrefação; ao mesmo tempo, surgiriam as bactérias, que seriam um dos sintomas e não a causa da doença.
No ano seguinte (1864), Davaine publica novo trabalho. Durante esse período, ele inoculou 150 animais, sempre com resultados idênticos. Observou que guardando durante algum tempo o sangue de coelhos mortos pelo carbúnculo e permitindo que o sangue apodrecesse, as bactérias eram destruídas. Tomando esse sangue apodrecido, Davaine injetou pequenas quantidades em coelhos sadios. Eles não adquiriram o carbúnculo e não surgiam bactérias no seu sangue. Quando a quantidade de sangue podre era grande, os coelhos inoculados morriam, mas com sintomas diferentes dos observados no antraz. Colhendo sangue desses coelhos, logo antes de sua morte, Davaine observou que ele não transmitia a doença a outros coelhos.
Davaine concluiu que o antraz não tinha relação com o apodrecimento do sangue e que não era um veneno. A putrefação produzia algum tipo de substância tóxica ou venenosa, mas que não se transmitia por inoculações sucessivas. O carbúnculo, pelo contrário, sempre se reproduzia nas sucessivas inoculações, comportando-se como um ser vivo.
Neste trabalho, Davaine utiliza a palavra "vírus" para designar a causa do antraz ou carbúnculo. Até essa época, como vimos, essa palavra era aplicada indiscriminadamente a uma grande variedade de influências mórbidas ou venenosas, incluindo o veneno das serpentes. No entanto, a partir desse momento começou a surgir uma diferenciação entre venenos propriamente ditos (que não se reproduzem e propagam de um doente para outro) e os vírus (que se propagam sucessivamente, como no caso da varíola).
É claro que as bactérias de Davaine não eram vírus no sentido atual da palavra. Mas este foi um dos passos pelos quais se chegou à conceituação atual.
Outra importante linha de investigações foi desenvolvida na
mesma época por François Jules Lemaire. Como Pasteur e Béchamp,
Lemaire era um químico e não médico ou biólogo.
No início da década de 1860 ele se dedicava ao estudo de substâncias
antissépticas. Observou que a benzina, o ácido fênico
e o alcatrão eram capazes de interromper a fermentação
e a putrefação orgânica. Estudou especialmente as propriedades
do ácido fênico, mostrando que ele servia para destruir os infusórios.
Utilizou essa substância na conservação de peças
anatômicas e de animais. Em 1861, mostrou que o ácido fênico
diluído a 1% e adicionado ao ácido acético curava a sarna,
matando o ácaro que produz essa afecção.
Do estudo dessas substâncias químicas, Lemaire foi levado à
investigação dos microorganismos que produziam a fermentação
e putrefação. Existia a crença de que esses seres podiam
se espalhar pelo ar, mas os estudos realizados nessa época não
eram totalmente conclusivos. Lemaire desenvolveu um novo método para
capturar microorganismos do ar. Ele colocava gelo dentro de um balão
de vidro fechado. O balão, colocado na atmosfera, produzia a condensação
de vapor d'água em sua superfície e, juntamente com o vapor,
eram coletados os microorganismos do ambiente. Lemaire recolhia o líquido
e depois o estudava ao microscópio.
Durante as fermentações e putrefações há desprendimento de gases da substâncias em transformação. Em 1864, Lemaire estudou pelo processo acima indicado o ar acima de materiais em fermentação e putrefação e observou que, juntamente com os gases, desprendem-se dessas substâncias os seres microscópicos que produzem esses processos. Imaginou então que os miasmas não eram simplesmente odores, mas microorganismos que acompanhavam os cheiros fétidos de substâncias em decomposição. No mesmo ano, Lemaire estudou um fungo microscópico (o Achorion schoenleinii, já estudado antes por Bazin) que produz uma micose no homem. Bazin já havia sugerido que esse microorganismo poderia se espalhar pelo ar. Lemaire estudou um menino que tinha essa afecção no couro cabeludo. Produzindo uma leve corrente de ar da cabeça do menino em direção a um balão de vidro com gelo, a 50 cm de distância, ele verificou que a umidade condensada em torno do balão continha esporos de Achorion. Esta foi a primeira vez que se detectou no ar a presença de seres vivos capazes de reproduzir uma doença.
Lemaire realizou vários estudos utilizando sua técnica de
coleta de microorganismos do ar. Em 1866, pesquisou o ar exalado na respiração
de pessoas saudáveis. Para isso, investigou o ar dos quartos de uma
instalação militar. Os soldados dormiam em quartos coletivos,
com portas e janelas fechadas. Deitavam-se às 9 horas da noite. Durante
dez dias, entre as 4 e 5 horas da manhã, antes que eles se levantassem,
Lemaire coletava a umidade do ar dos alojamentos, para estudo. Os soldados
eram todos saudáveis, jovens e se alimentavam bem. O pesquisador conta
que, ao entrar nos quartos, sentia um forte odor desagradável, "sui
generis". Um dos quartos tinha 24 leitos, dos quais 20 estavam ocupados.
Outro tinha 38 leitos, com apenas 17 ocupados. Nos dois, Lemaire coletava
uma certa quantidade de líquido condensado do ar. Esse líquido
tinha o mesmo odor desagradável do quarto.
Observando depois esse líquido ao microscópio, observou a presença
de vários corpúsculos cilíndricos, esféricos e
ovóides, que se multiplicavam rapidamente, nas horas seguintes. Identificou
várias bactérias conhecidas, nesse material. A única
diferença observada entre os dois quartos foi que o segundo, que tinha
menor número de leitos ocupados, apresentava menor número de
microorganismos.
Para comparação, Lemaire coletou também, no mesmo horário, o ar exterior, à mesma altura dos quartos. A água coletada era pura, sem aparentar microorganismos. Guardando-a em recipiente fechado, Lemaire só conseguia perceber microorganismos nela depois de 48 horas, e não eram encontradas algumas das bactérias encontradas no ar dos quartos.
Lemaire concluiu que a própria respiração de pessoas saudáveis produz um miasma, que poderia ser daninho a pessoas fracas. O estudo mostrava também a importância da ventilação dos quartos, à noite.
De certa forma, Lemaire estava se encaminhando na direção de nossos conceitos atuais, mas várias de suas idéias eram diferentes das que aceitamos. Talvez por não ser um biólogo, ele não dava muita importância às diferenças entre os microorganismos que observava. Por não ser médico, também não percebia grande diferença entre as doenças. Em 1868, ele sugeriu que a peste, a febre amarela, a febre intermitente (malária), o tifo, o cólera e várias outras doenças transmissíveis fossem todas de natureza idêntica, mostrando sintomas diferentes apenas por causa de distinções entre os indivíduos afetados, suas alimentações, etc. Ele considerou que todas essas doenças eram de natureza parasitária, produzidas por infusórios, pois haviam sido encontrados vibriões no sangue de pacientes com todas essas enfermidades.
A teoria de Lemaire era uma modernização da teoria dos miasmas
não específicos. Ele supôs que tanto as matérias
em putrefação como os próprios homens e animais saudáveis,
produzem continuamente miasmas, com o desprendimento de vegetais e animais
microscópicos no ar. Esses microorganismos podem entrar em pessoas
através de vários caminhos (pela respiração, pela
pele, pela ingestão de alimentos) e produzir em seu interior um estado
de fermentação e putrefação que causa as doenças.
Lemaire afirma que as emanações gasosas de qualquer tipo de
material orgânico podre são capazes de produzir doenças
graves e a morte de animais sadios. O mesmo resultado é obtido pela
introdução de material em putrefação no animal
através de inoculação subcutânea, injeção
nas veias e introdução no tubo digestivo. Matando-se os microorganismos
do material em putrefação pelo ácido fênico, ele
já não produzia mais esses efeitos.
Começou também a surgir nessa época a idéia de
que as pessoas poderiam se proteger contra as doenças ingerindo desinfetantes
e antissépticos. Do creosoto e do alcatrão, que tinham poder
antisséptico, fizeram-se o "rum creosotado" e o "conhaque
de alcatrão", que foram muito populares no Brasil até meados
do século XX.
Lemaire encontrava microorganismos por toda parte. Observou bactérias e vibriões no sangue de doentes com tifo, varíola, antraz, gangrena e outras doenças. Quando ele próprio teve cólera, coletou seus próprios dejetos e depois os observou ao microscópio, observando grande variedade de microorganismos diferentes. Em estado sadio, observou seu próprio corpo em diferentes situações, sempre à procura desses seres microscópicos. Produzindo em si mesmo uma transpiração abundante, coletou o suor e nele encontrou várias bactérias. Estudou a saliva de sua própria boca, depois de 8 dias sem qualquer higiene, e nela encontrou uma multidão de microorganismos. Estudou uma camiseta de flanela que usou durante quatro dias: ao umidecê-la e espremer o líquido também encontrou nele diversos seres microscópicos.
Lemaire, como outras pessoas da época, aderiu de forma pouco cuidadosa à idéia de que os microorganismos podem transmitir doenças. Durante a década de 1860, houve uma explosão de "descobertas" de seres microscópicos que causavam todas as doenças conhecidas. Em 1867, V. Poulet observou infusórios no ar expirado por crianças com coqueluche: observou bactérias e bacilos e supôs que eles eram a causa da doença, que parecia ser contagiosa. Mas seu estudo se reduziu a isso.
Nessa fase, os microorganismos não eram isolados, cultivados, nem se testava se eles realmente transmitiam a doença. Poucos foram os casos em que houve sequer uma identificação cuidadosa desses microorganismos. As descrições de diferentes observadores eram em geral contraditórias.
O botânico Hallier, de Jena, utilizava um método simples de estudo. Examinava-se ao microscópio as secreções dos doentes, depois elas eram semeadas em qualquer meio de cultura e o mofo que surgia era declarado causa da doença. Alegou descobrir a causa do cólera, da febre tifóide, do tifo exantemático, da varíola, etc. Seus trabalhos foram atacados por De Bary, especialista em plantas inferiores, que mostrou que os mesmos mofos surgiam também espontaneamente pelo meio de cultura em contato com o ar, e que não se repetiam sempre os mesmos efeitos quando o teste de Hallier era repetido. Trabalhos como o de Hallier trouxeram descrédito desse tipo de explicação.
Havia boas excessões. O estudo de afecções externas produzidas por fungos - como as micoses - conseguiu se desenvolver de modo bastante satisfatório. Em 1867, Robert Wreden estudou doenças do ouvido humano, encontrando em alguns casos os fungos Aspergillus flavescens e Aspergillus nigricans. Coletou esses fungos e observou que conseguia cultivá-los em uma laranja. Testou sobre os fungos cultivados a ação de várias substâncias, para verificar de que modo era possível destruí-los. Verificou que o hipoclorito de cálcio diluído e o arsenito de potássio tinham grande poder contra esses fungos, enquanto que outras substâncias recomendadas na época, como o álcool, não destruiam os fungos.
Wreden estudou também como esses fungos se espalhavam pelo ar. Em um hospício, observou a ocorrência desses fungos em pessoas que ocupavam uma sala que tinha uma parede mofada. Apenas quando a parede foi lavada com solução de hipoclorito de cálcio, destruindo o mofo, foi possível curar de modo definitivo as pessoas.
Nesse período, o estudo mais completo e cuidadoso de microorganismos associados a doenças foi, sem dúvidas, o de Davaine. Após as investigações que já havia realizado sobre o antraz, ele continuou suas pesquisas, aprofundando-as e respondendo a novas objeções. Apesar de todos os testes que havia feito antes, permanecia a dúvida sobre se eram realmente as bactérias que produziam o antraz, ou se alguma outra substância do sangue poderia ser a verdadeira causa da doença. Davaine injetou sangue de um coelho doente em uma fêmea, no final da gravidez. A coelha ficou doente e morreu, mas o feto não mostrava sinais da doença e não foram encontradas as bactérias em seu sangue. É o próprio sangue da mãe que alimenta e permite a oxigenação do feto. Davaine percebeu que esse sangue era filtrado pela placenta, não havendo passagem das bactérias. Isso era uma forte indicação de que a doença era realmente causada por elas e não por alguma substância dissolvida no sangue.
Davaine conseguiu depois reproduzir esse mesmo tipo de fenômeno artificialmente. Para isso, filtrou o sangue de um animal doente em um filtro de porcelana; verificou que o material retido no filtro, que continha as bactérias, transmite a doença; o líquido que atravessa o filtro e que não contém os corpúsculos não transmite o antraz. Era difícil objetar a esses novos experimentos.
Em 1869, Davaine desenvolveu, com o auxílio de A. Raimbert, um estudo sobre a transmissão do antraz. Embora essa doença fosse, na época, mais comum entre os animais, havia uma doença humana semelhante, chamada às vezes de "pústula maligna". Os trabalhadores dos matadouros e curtumes eram às vezes acometidos por essa doença mortal e diziam que ela lhes era transmitida pelas moscas. Raimbert estudou os vários tipos de moscas que infestavam esses locais. Algumas delas se alimentavam de sangue, e ele imaginou que podiam ser realmente o veículo de transmissão da doença. Fez experimentos em que colocou sangue de animais doentes de antraz em um recipiente, verificando que esse tipo de mosca se alimentava do sangue. Estudou depois as moscas ao microscópio, verificando que fora de seu corpo e no seu interior havia bactérias do antraz. Esmagando diferentes partes do corpo das moscas, fez experimentos de inoculação em cobaias, que morreram de antraz. Isso mostrava que as bactérias ingeridas pelas moscas mantinham o seu poder e não haviam morrido. O estudo não mostrou, no entanto, que a picada das moscas realmente transmitisse a doença, nem que esse fosse o modo pelo qual a doença era de fato transmitida.
No mesmo ano, Davaine publicou um trabalho comparando os efeitos de injeções de substâncias podres com injeções de sangue com antraz. Anteriormente, ele havia concluído que, no caso de substâncias podres, havia simplesmente um veneno, que não se reproduzia no organismo. No entanto, prosseguindo seus estudos, ele se convenceu de que os microorganismos que produziam a putrefação de substâncias orgânicas eram a causa da morte por septicemia. Em seus experimentos, tomou o sangue contido no coração de um boi sadio, guardou-o durante dois dias e, quando observou que estava apodrecendo, injetou-o em cobaias. Elas morreram depois de poucos dias, e no seu sangue Davaine observou a presença de muitas bactérias diferentes da do antraz: eram filamentos móveis, do tipo chamado de "vibrião", enquanto as bactérias do antraz eram imóveis.
Tomando o sangue das cobaias mortas, Davaine o injetou em novas cobaias e observou que era possível transmitir sucessivamente a septicemia. No caso do antraz, uma gota de sangue era suficiente para transmitir a doença; no caso da septicemia, era necessária uma quantidade maior, mas a doença também era transmitida.
Note-se como a pesquisa de Davaine era cuidadosa. Ele procurava investigar todos os aspectos, fazer comparações, identificar os agentes das doenças, fazer sucessivas transmissões a animais sadios, etc. Nesse período, pode-se dizer que seu trabalho foi exemplar.
Apesar de todos esses cuidados, o trabalho de Davaine não foi suficiente para convencer os mais céticos. Um deles foi o influente pesquisador Claude Bernard (1813-1878). Bernard aceitava que diferentes microorganismos podem existir e atacar o homem, mas que o ponto essencial é o estado interno do organismo, e por isso esses agentes podem estar presentes sem produzir efeito. Afirmava que os vírus se desenvolvem muitas vezes no organismo e por isso podem ser considerados mais como produtos da doença do que suas causas. Acreditava que as bactérias do antraz podem se desenvolver espontaneamente no organismo (sem infecção externa), embora a doença possa também ser transmitida de um animal doente para outros.

Claude Bernard, um dos opositores de Davaine.
De certa forma, as dúvidas de Bernard não eram razoáveis, dado o volume de evidências apresentadas por Davaine. No entanto, havia uma grande mistura de bons trabalhos com pesquisas fracas e duvidosas, na época. Era difícil perceber a diferença entre eles. Quais eram, afinal, os critérios que poderiam discriminar entre uma investigação completa, conclusiva, e uma investigação incompleta? Isso não estava nem um pouco claro. Foi graças ao trabalho de Koch, na década seguinte, que foram estabelecidos esses critérios.

Joseph Lister.
À medida que se desenvolvia o conhecimento dos microorganismos e de suas relações com enfermidades, esses conhecimentos eram também aplicados à prática médica. Costuma-se considerar que um dos primeiros resultados médicos desses desenvolvimentos foi o trabalho de Joseph Lister (1827-1912) de prevenção de infecção de ferimentos.
Lister era um cirurgião, que estava estudando as complicações que ocorriam no tratamento de fraturas expostas. Quando uma pessoa se feria e fraturava um braço ou uma perna, o tratamento era relativamente simples e satisfatório sempre que o dano era apenas interno. No entanto, quando o acidente produzia uma ferida externa (fratura exposta), surgiam infecções que eram, geralmente, mortais. Quando era necessário amputar um membro, era quase certa a morte do paciente, pelo mesmo motivo.
Em seu primeiro trabalho, publicado em 1867, Lister descreve as ocorrências comuns nesses casos: parecia que o sangue se alterava, ocorrendo uma putrefação no local da ferida. Vinte e quatro horas depois do acidente que ocasionou a fratura, sai da ferida um líquido ou soro que tem um odor de matéria em decomposição. Esse odor se torna cada vez mais fétido durante os dois ou três dias seguintes, antes do estabelecimento da supuração, ou seja, do surgimento de pus. A infecção muitas vezes se espalhava pelo organismo todo, levando à morte.
É claro que desde a Antigüidade as infecções em feridas eram um importante problema médico. Hipócrates recomendava secar as feridas, pois "o estado seco é mais próximo do estado sadio, e o úmido mais próximo do estado de doença." Ele recomendava utilizar em feridas recentes o vinagre ou vinho, com substâncias adstringentes (como o alúmen). Celsus adicionou às receitas de Hipócrates o uso de óleo, mel e ervas como folhas de oliveira ou aloés. Galeno recomendava o uso de vinho, alúmen, água de cal, decocção de plantas adstringentes e vitríolo (sulfato de cobre) em úlceras malignas com putrefação. No período medieval, o médico árabe Rhazes obteve álcool pela destilação do vinho e o utilizou nas feridas. Albucasis recomendava o uso de cal viva.
Utilizava-se também, na Idade Média, a cauterização de feridas com ferro em brasa ou com óleo fervente. Mas a cauterização e o uso de cáusticos (como a cal viva) foram praticamente abandonadas no século XVII, restando apenas as práticas mais suaves e tradicionais.
Sob o ponto de vista dos conhecimentos atuais, sabemos que várias das substâncias utilizadas eram benéficas para o tratamento de feridas, destruindo ou dificultando a multiplicação de microorganismos e evitando desse modo as infecções. Os tratamentos eram empíricos, mas bastante eficientes.
No início do século XIX, o tratamento de feridas com as substâncias tradicionais também foi abandonado. Como não se compreendia a natureza da infecção, nem havia explicação para os tratamentos utilizados, tudo foi tentado. Alguns autores ingleses recomendavam utilizar-se apenas água nas feridas. Outros, como Broussais, utilizavam óleo e farinha de linhaça. Com as tentativas de inovar, certamente os resultados eram piores do que os antigos. Como resultado, as práticas cirúrgicas do século XIX tornaram-se mais perigosas do que anteriormente.
Lister conta que ocorriam muitos casos de piemia, erisipela e podridão de hospital entre os internados. Na sala de que Lister cuidava, essas "doenças hospitalares" apareciam principalmente quando a sala estava cheia de pessoas com lesões abertas. Quando havia fraturas sem lesão externa, ocorria uma diminuição dessas enfermidades. "Isso me pareceu ser uma prova evidente de que as emanações derivadas de escoamentos pútridos, distintas das que resultam da simples acumulação de seres humanos, formam a grande causa de insalubridade de um hospital cirúrgico." A situação enfrentada por Lister tinha certa semelhança com a febre puerperal estudada por Semmelweis. No entanto, ao invés de supor que a doença podia passar de uma pessoa para outra, ele imaginou que o problema estava no ar.
Lister se convenceu de que "a causa essencial da supuração nas feridas é a decomposição produzida pela influência da atmosfera no sangue ou serum retido nela, ou em porções de tecido destruídas pelo dano".
Havia uma antiga crença de que o ar era prejudicial para a cura de feridas. Arnaldo de Villanova, Paracelso e outros médicos do período medieval e do renascimento afirmavam que era preciso proteger as feridas e cortes cirúrgicos do ar. No século XVI, Joseph du Chesne recomendava lavar as feridas com água, tratando-as também com vinagre e óleo. Justificava esse uso dizendo que o vinagre serve para proteger alimentos contra o mofo e a putrefação, tendo igual papel nas feridas; e que o óleo impedia que o ar entrasse na ferida, protegendo-a da corrupção. Na mesma época, Ambroise Paré indica a importância de costurar as grandes feridas, unindo suas bordas, para "proteger da alteração do ar, que prejudica as feridas". Em torno de 1600, havia um consenso dos médicos, que acreditavam que o ar produzia complicações e gangrena; mas ninguém sabia o motivo disso.
Lister se pergunta como a atmosfera pode levar à decomposição das substâncias. Ele estava razoavelmente informado sobre as pesquisas recentes. Sabia que não é o oxigênio que produz esse efeito e sim certas partículas que flutuam no ar, que são os germes de seres inferiores visíveis ao microscópio. Lister associou os estudos de Pasteur às infecções, imaginando que os germes da atmosfera penetravam nas feridas e lá se multiplicavam e produziam a alteração do sangue, a putrefação, o cheiro e o pus.
O hospital de Lister ficava ao lado de um campo onde, pouco antes, haviam sido enterrados cadáveres de coléricos. Lister supôs que as complicações graves das feridas dependiam dos germes provenientes do cemitério, que poderiam ser transportados pelo ar. Elas ocasionariam uma putrefação, cujos produtos envenenariam o organismo.
Na verdade, as idéias de Lister estavam próximas das de Lemaire, de um miasma não específico associado a microorganismos produzidos pela putrefação. Mas Lister não cita os trabalhos de Lemaire.
Poderíamos imaginar que o passo seguinte deveria ser o estudo microscópico do líquido que surgia nas feridas, para verificar se continha microorganismos. Esse seria o procedimento natural de um pesquisador que estivesse investigando a causa da infecção. Mas não foi isso que Lister fez. Ele não era um microscopista e sim um cirurgião. Seu interesse era prático e não teórico. Ele não procurou testar diretamente essa hipótese. Lister a aceitou e partiu da idéia dos germes do ar para desenvolver um método adequado para evitar as infecções.
Partindo de sua hipótese, Lister procurou um modo de tratar das feridas com uma substância capaz de matar esses germes e impedir a putrefação. A substância não poderia ter uma ação cáustica muito violenta, pois iria ser aplicada em uma ferida aberta.
Nas décadas anterior, haviam sido feitos vários estudos sobre substâncias antissépticas (ou seja, que impedem ou dificultam a putrefação). Fazia-se testes colocando carne ou outros materiais animais e vegetais em diferentes líquidos e comparando-os para verificar o surgimento da decomposição do material. Estudou-se o vinho, álcool, óleo de terebentina, sal amoníaco, salitre, bórax, alúmen, aloés, mirra e outras substâncias. Magendie e Duroy observaram o grande poder da tintura de iodo na conservação de carne, sangue e outros materiais. Angus Smith testou vários gases, observando o poder antisséptico do cloro, bromo, iodo, ácido clorídrigo, ácido sulfuroso e éter. Todas essas pesquisas observavam a putrefação, mas não estudavam seus aspectos microscópicos. Autores posteriores testaram o efeito de substâncias sobre os próprios microorganismos.
Lister escolheu a substância antisséptica mais poderosa que conhecia e que não produzia muita irritação nos tecidos vivos: o ácido fênico ou carbólico, que havia sido estudado por Lemaire. Ele próprio já havia recomendado essa substância para evitar a gangrena. No entanto, novamente, Lister parece ter escolhido esse antisséptico sem conhecer os estudos daquele pesquisador, pois afirma:
Durante o decorrer do ano de 1864 fui impressionado pela leitura de um relatório sobre os efeitos notáveis do ácido fênico sobre as águas de esgoto da cidade de Carlisle.
A adição de uma quantidade muito pequena de ácido fênico a essas águas retirava todo odor fétido às águas de irrigação, e até destruia os entozoários que infestavam ordinariamente os animais que se alimentavam nessas pastagens.
Pareceu-lhe que um antiséptico tão poderoso poderia ser conveniente para experimentos sobre o assunto. Resolveu assim aplicar ácido fênico em fraturas complicadas. A primeira tentativa, realizada na Enfermaria Real de Glasgow, em março de 1865, foi um insucesso: a ferida se infeccionou e o paciente morreu. As tentativas seguintes foram bem sucedidas
O procedimento inicialmente utilizado por Lister consistia em embeber um pano em ácido fênico puro (ácido cristalizado, diluído em pouca água), que era introduzido com uma pinça na ferida. Lister colocava sobre a ferida um pequeno pedaço de tecido também embebido em ácido fênico, e recobria tudo com uma tampa de em metal maleável (estanho), para evitar a evaporação do ácido e reduzir o contato com o ar. Em feridas grandes, usou uma pasta feita de gesso, ácido fênico e óleo de linhaça (uma parte de ácido para três de óleo).
Depois que Lister começou a usar o método antisséptico, não ocorreu mais nenhum caso de piemia em 36 fraturas abertas tratadas. Antes da introdução do método antisséptico, nos anos de 1864 e 1866, houve respectivamente 17 e 18 amputações, com 10 e 9 curas, havendo 7 e 9 mortes (a metade dos casos, quase). Durante o período antisséptico, os resultados foram muito melhores. Em 1867, houve 7 amputações, todas bem sucedidas; em 1868, 17 amputações, com 3 mortes; em 1869, 16 amputações, com 3 mortes.
As feridas assim tratadas não se infeccionavam, mas o método não era adequado. O ácido puro utilizado por Lister produzia grande irritação dos tecidos, dificultando a cicatrização. Aos poucos, ele foi alterando o procedimento e utilizando o ácido mais diluído. Em períodos posteriores, fixou-se na concentração de uma parte do ácido para 40 partes de água.
Em 1871, o procedimento utilizado já era bastante diferente. As feridas eram lavadas com água clorada, solução de ácido sulfuroso, ácido fênico ou cloreto de alumínio. Colocava-se sobre o ferimento uma gaze antisséptica, desenvolvida por ele, impregnada por ácido fênico e recoberta por uma fina camada de resina, que diminuía o efeito irritante do ácido. Por cima da gaze, ele colocava um tecido impermeabilizado com borracha, para evitar todo contato com o ar.
No caso de cirurgias, as mãos, instrumentos e objetos utilizados eram todos desinfetados com ácido fênico na concentração de 1/40 ou 1/20. Além disso, durante todo o tempo da cirurgia, era feita uma pulverização de ácido fênico diluído sobre o local da operação. O objetivo era formar uma "atmosfera antisséptica" capaz de destruir todos os germes do ar, para que eles não pudessem infectar o corte cirúrgico. Inicialmente, eram utilizadas pequenas bombas pulverizadoras manuais. Mas Lister considerava tão importante essa "atmosfera antisséptica", que desenvolveu um novo tipo de pulverisador automático, a vapor, capaz de produzir uma nuvem contínua de ácido fênico sobre o local da cirurgia.
O método de Lister foi adotado em outros locais, com sucesso. Em
München, no ano de 1874, a gangrena havia atingido 80% de todas as feridas,
fossem acidentais ou cirúrgicas, tratadas no hospital. No início
de 1875, foi introduzido o método antisséptico, e não
houve mais casos de gangrena. A piemia desapareceu, a erisipela era rara e,
quando existia, era leve.
Apesar da boa repercussão inicial, o trabalho de Lister logo foi criticado.
O professor Léon le Fort rejeitou, em 1882, as idéias de Lister. Ele notou que muitos cirurgiões que não protegiam as feridas do ar tinham tanto sucesso quanto Lister. Em Zurich, o cirurgião Rose salvava 83% dos amputados, usando curativos abertos. Portanto, a tampa protetora de metal ou borracha utilizada por Lister parecia desnecessária.
Ao invés de acreditar na infecção pelo ar, Le Fort supõe que poderia ocorrer um contágio, pelos instrumentos, esponjas de limpeza, mãos e objetos necessários ao curativo. Cuidando-se da limpeza dessas coisas, tornava-se desnecessária a proteção contra o ar.
Deve-se aqui assinalar um aspecto das cirurgias da época que pode nos parecer inacreditável, mas é real. As feridas acidentais, as pústulas, os cortes cirúrgicos e todas as outras afecções externas dos doentes dos hospitais eram lavadas, para se fazer curativos. Para lavar as feridas, utilizava-se uma esponja e uma bacia com água. A mesma bacia, a mesma esponja e a mesma água eram utilizadas para todos os pacientes, passando de cama para cama sem qualquer tipo de desinfecção. Apenas na década de 1860, o médico norte americano William Morton propôs o uso de um dispositivo portátil que permitia lavar as feridas em água corrente. Pode-se perceber que, nessa época, havia problemas muito mais graves nos hospitais do que a transmissão de germes pelo ar.
Quanto à pulverização de ácido durante a cirurgia, ela também foi duramente criticada: parecia ter um papel mínimo, ou ser inútil. Desde que fossem tomados os cuidados de limpeza, as cirurgias eram seguras, sem que fose utilizada a pulverização. Os aparelhos desenvolvidos por Lister eram custosos, além de tornar a cirurgia muito incômoda: tudo ficava molhado, o paciente ficava frio, a visão do local operado ficava mais difícil. A prática de pulverização acabou por desaparecer, mantendo-se a mesma estatística de sucesso.
Embora o ácido fênico parecesse adequado para a desinfecção das mãos e de objetos como as esponjas de limpeza, muitos preferiam a desinfecção dos outros instrumentos pelo fogo ou pelo aquecimento em vapor ou estufas, de acordo com o método desenvolvido a partir de 1880 por Octave Terrillon em Paris e Schimmelbusch em Berlim.
Para uso local nas feridas, o ácido fênico foi em geral substituído por outros antis-sépticos, como a solução de iodo, a água oxigenada, compostos de mercúrio.
O estudo microscópico, ao invés de fortalecer o trabalho de Lister, trouxe uma nova crítica: nos seus curativos eram encontrados todos os tipos de microorganismos.

Para evitar a infecção nas cirurgias, Lister borrifava anti-sépticos
durante as operações (gravura de 1882).
Aos poucos, todos os aspectos do trabalho de Lister foram sendo criticados - com bons argumentos e total razão. É difícil indicar algo que tenha sido mantido, de sua proposta inicial. A hipótese básica de Lister, fundamentada no trabalho de Pasteur (ou talvez devêssemos dizer: nas pesquisas de Lemaire), era de que a causa das infecções das feridas e cortes cirúrgicos eram germes que vinham do ar. A experiência mostrou que a grande fonte de germes eram os instrumentos e mãos dos médicos e enfermeiras e por isso as pulverizações e coberturas dos curativos foram abandonados. Lister acreditou na necessidade de utilizar antissépticos fortíssimos nas feridas e curativos, para impedir sua infecção. Posteriormente, preferiu-se utilizar nas feridas antissépticos mais brandos, e gazes esterilizadas, mas sem antisséptico. O ácido fênico foi abandonado, substituído por outras substâncias. Ao invés de destruir os germes causadores da putrefação (antissepsia), passou-se a adotar medidas que evitavam a presença desses germes (assepsia).
O golpe final contra as propostas de Lister veio, por ironia, do próprio Louis Pasteur, que sempre divulgou e deu apoio a Lister. Depois de muitas tentativas, Pasteur conseguiu identificar e isolar o microorganismo causador das infecções mais graves - da septicemia. Descobriu então que se tratava de um vibrião anaeróbico - ou seja, que vive e se reproduz sem contato com o ar, sendo destruído pelo oxigênio. A conclusão imediata dessa descoberta é que os cuidados tomados por Lister para evitar o contato entre o ar e a ferida eram prejudiciais, pois protegiam os vibriões contra o oxigênio que poderia destruí-los.
Não há dúvidas de que, na segunda metade do século XIX, houve uma revolução nos métodos utilizados nos hospitais, levando à prevenção de infecções hospitalares.
Afinal, o que restou do trabalho de Lister? Muito pouco ou talvez nada. Lister foi mais um símbolo de um movimento do que um descobridor da profilaxia da infecção hospitalar. Por sua influência, estimulou outros médicos a estudarem o problema e desenvolverem os métodos que depois se tornaram aceitos por todos. Por mais que simpatizemos e admiremos a tentativa de Lister, não foi ele quem chegou a uma compreensão das infecções nem quem desenvolveu os métodos preventivos adequados.

Louis Pasteur em seu laboratório.
Trata-se de um caso muito diferente do de Semmelweis. Este conseguiu desenvolver um método para evitar a propagação da febre puerperal, partindo de estudos bastante cuidadosos e de análises que podemos considerar como corretas. Lister partiu de meras hipóteses e analogias que depois se verificou serem incorretas, e desenvolveu métodos pouco adequados para a prevenção das infecções.
Apesar disso, por fatores difíceis de entender, Lister foi bastante respeitado e homenageado durante sua vida, embora todos abandonassem seus métodos e suas idéias. Ele é lembrado até hoje como o suposto descobridor da causa e dos métodos de prevenção das infecções cirúrgicas. Semmelweis, pelo contrário, foi atacado e esquecido, embora seus métodos fossem depois, gradualmente, adotados por todos.