Para verificar se a infecção do campo era produzida pelos carrapatos, como se supunha, Smith escolheu um outro campo isolado, no qual não haviam ainda sido colocados animais doentes. Espalhou pelo solo alguns milhares de carrapatos coletados de gado da região onde havia a doença. Nesse campo, no dia seguinte, foram colocadas quatro cabeças de gado sadias. Três contraíram a doença. Isso foi uma forte indicação de que a doença era transmitida pelos carrapatos.
Por fim, em outro experimento, foram colocadas vacas da região doente em um campo, depois de se retirarem dessas vacas todos os carrapatos. Depois de algum tempo, essas vacas foram retiradas. O gado sadio que foi colocado depois no mesmo campo não ficou doente. Isso indicava que não eram os excrementos do gado doente, a água, o solo ou o capim que transmitiam a doença.
No ano seguinte, após o inverno, não foram observados carrapatos no campo infectado. Colocando-se 5 cabeças de gado nesse campo, nenhuma delas ficou doente.
Em toda a série de experimentos, observou-se que bastava a presença de carrapatos provenientes de animais doentes para produzir a doença em animais sadios e que não bastava a presença de animais doentes para produzir a doença. Portanto, ela não era transmitida diretamente por contato, nem pelos excrementos, mas apenas pelo inseto.
Uma vez conhecida a causa e o modo de transmissão de uma doença, torna-se possível uma prevenção bem fundamentada. Com o conhecimento de que a febre do Texas era transmitida pelos carrapatos, foi possível o controle da mesma.
A febre amarela foi a primeira doença humana para a qual se detectou um inseto transmissor. Esses estudos foram publicados em 1884 pelo médico cubano Juan Carlos Finlay y de Barres (1833-1915), embora só fossem confirmados e aceitos vinte anos depois.

Juan Carlos Finlay y de Barres.
Antes de estudar o trabalho de Finlay, vamos no entanto recuar um pouco no tempo.
Já vimos que no final do século XVII e início do século XVIII, houve uma grande epidemia de febre amarela no Brasil. Durante muito tempo, a doença parece ter desaparecido do país. No entanto, no fim de setembro de 1849, um navio norte-americano, depois de passar por Havana e outros lugares em que havia a febre amarela, chegou ao Brasil. Em outubro, apareceram alguns casos da doença em Salvador. No mês seguinte, já havia uma forte epidemia, que atingiu milhares de pessoas. No Recife, morreram cerca de 2.800 pessoas. No Pará, houve 12.000 doentes e 590 mortos de uma população total de 16.000 habitantes. A doença se fixou na região, matando mais de 5.000 pessoas nas décadas seguintes. Em Fortaleza, dos 41.000 habitantes, 28.500 adoeceram e 900 morreram, em 1851.
Os navios levaram também a doença ao Rio de Janeiro. No ano de 1850, da população de 166.000 habitantes, houve mais de 90.000 doentes, dos quais morreram mais de 4.000. Dessa época até o fim do século, houve um total de 58.000 vítimas de febre amarela, no Rio de Janeiro.
Como os médicos explicavam a doença? Sua causa parecia ser a indigestão, ou talvez a supressão da transpiração, pela umidade, pela chuva; ou talvez o sereno da madrugada, ou mesmo a insolação do verão. A falta de trovoadas também foi considerada uma das causas. Continuava-se também a acreditar na existência de miasmas, provenientes da decomposição de organismos, que originariam a doença.
As idéias sobre a causa da febre amarela começam a mudar após o desenvolvimento da teoria microbiana das doenças. No Brasil, como em outros lugares, os primeiros sucessos da teoria logo fizeram com que todos começassem a procurar e encontrar microorganismos causadores de tudo.
Nos Estados Unidos, em 1878, um médico chamado Richardson afirmou ter descoberto bactérias em forma de halteres, que seriam a causa da febre amarela. Deu-lhes o nome de Bacteria sanguinis febris flavae (bactéria sangüínea da febre amarela). A descoberta não foi confirmada por estudos posteriores.
No Rio de Janeiro, Domingos José Freire Júnior, professor
da Faculdade de Medicina, anunciou em 1880 que havia encontrado a causa da
febre amarela: o Cryptococcus xantogenicus - nome que significa literalmente:
a bolinha oculta que produz a cor amarela. O microorganismo teria sido localizado
no fígado, baço e rins dos doentes. Freire estudou o processo
de transmissão do micróbio e o encontrou na água, nos
alimentos, no ar, nos cemitérios e nos hospitais. A partir dessa descoberta,
produziu em 1883 uma vacina contra a febre amarela, que aplicou em mais de
10.000 pessoas. Ele alegou ter reduzido a mortalidade da doença em
90%. Em 1885, o médico Araújo Góes estudou essas descobertas
e negou a existência dos "Cryptococcus": Freire Júnior
havia observado apenas hemácias. Sua vacina, por sua vez, era no mínimo
inócua.
O mais insistente "descobridor" brasileiro de micróbios da
febre amarela foi João Batista de Lacerda. Em 1883, ele divulgou a
descoberta do Fungus febris flavae e, nos anos seguintes, à medida
que eram percebidos seus erros, foi sucessivamente "descobrindo"
novos micróbios.
Diante de uma seqüência de fracassos e pela importância da doença, Dom Pedro II convidou Pasteur a vir ao Brasil estudar a febre amarela. A princípio, Pasteur pareceu interessado. Solicitou ao imperador do Brasil permissão para fazer experiências com alguns condenados à morte. Dom Pedro II disse que isso era impossível, e Pasteur desistiu de vir ao Brasil.
Durante décadas, houve sucessivos pesquisadores que anunciaram ter, enfim, corrigido o erro dos anteriores e encontrado o "verdadeiro" micróbio causador da febre amarela.
No caso desta doença, o avanço mais importante não ocorreu com a descoberta de um micróbio e sim com a descoberta do inseto que transmitia a doença.
A idéia de que os mosquitos podiam ter alguma relação com a febre amarela já havia sido proposta em 1848, por Josiah Nott. Mas foi graças às investigações cuidadosas do cubano Finlay, que em 1881 essa relação começou a ser esclarecida.
Sabia-se que a febre amarela produz imunidade: as pessoas que se salvam da doença não a adquirem novamente. Por analogia com outras doenças, imaginou-se que era uma enfermidade contagiosa. Mas os fatos conhecidos eram confusos. Algumas vezes, pessoas que viviam junto a doentes de febre amarela também ficavam doentes; outras vezes, não.
Durante a época em que mais se discutia o contágio da doença, vários médicos - Firth, Chervin, Guyon e outros - que eram firmes opositores da doutrina do contágio, quiseram dar ao mundo uma prova da sinceridade de suas opiniões. Eles próprios se expuseram ao contato das roupas de enfermos e de cadáveres, dormindo em suas camas, respirando o seu alento, esfregando as mãos e o rosto com o vômito, ingerindo o próprio vômito negro, inoculando-se com o sangue, a saliva, e excrementos de tais enfermos. Nenhum deles adoeceu. Concluiram que a doença não era contagiosa.
Finlay estava convencido de que a doença não passava diretamente de um doente para uma pessoa sã. Imaginou então que pudesse existir algum transmissor da febre amarela.
Como em outros casos, o ponto de partida foi uma crença popular de que os mosquitos pudessem produzir a doença. Para estudar essa hipótese, Finlay resolveu testar se era possível transmitir a febre amarela fazendo com que um mosquito picasse uma pessoa doente e, depois, uma pessoa sadia. Buscando esse agente, por exclusão, fixou-se no estudo de um inseto sempre presente nos focos de infecção, em Cuba e outros locais próximos: um mosquito que picava as pessoas durante o dia, chamado Culex fasciatus (também conhecido como Stegomya fasciata e depois chamado de Aedes aegypti)
O próprio Finlay tinha grandes dúvidas teóricas sobre a possibilidade de que esse fosse o vetor. Afinal de contas, a doença deve ser transmitida por alguma coisa material. Seria possível que o aguilhão de um mosquito, comparável a um pequeno cone de diâmetro igual a 1/30 de milímetro, pudesse reter uma quantidade suficiente de vírus para realizar uma inoculação eficaz? Isso parecia absurdo. No entanto, ele resolveu fazer o teste.

O mosquito Aedes aegypti é o responsável pela transmissão
da febre amarela.
O próprio Finlay tinha grandes dúvidas teóricas sobre a possibilidade de que esse fosse o vetor. Afinal de contas, a doença deve ser transmitida por alguma coisa material. Seria possível que o aguilhão de um mosquito, comparável a um pequeno cone de diâmetro igual a 1/30 de milímetro, pudesse reter uma quantidade suficiente de vírus para realizar uma inoculação eficaz? Isso parecia absurdo. No entanto, ele resolveu fazer o teste.
Os experimentos foram realizados perto de Havana, em uma fazenda de jesuítas, onde os novos padres se "aclimatavam", ao chegar em Cuba.
Finlay coletou inicialmente vários dos mosquitos que eram suspeitos de atuar como vetores. Para isso, ele esperava que surgissem tais insetos e que picassem uma pessoa (às vezes, ele próprio). Dava preferência a mosquitos jovens, "que aparentemente nunca tivessem picado alguém" . O inseto era aprisionado em um tubo de vidro, que era tampado com algodão. Quando o tubo era destampado, invertido e colocado sobre o braço de uma pessoa, o mosquito imediatamente o picava, e ficava sugando o sangue de 1 a 5 minutos. O tubo era tampado novamente. O mosquito demorava 2 ou 3 dias a digerir o sangue e só então picava novamente.
No dia 13 de agosto de 1883, Finlay fez um desses mosquitos picar um jovem que estava no sexto dia de febre amarela, em um hospital de Cuba. No dia 15, o mesmo mosquito foi levado a picar uma outra pessoa que estava no sexto dia da febre amarela e que morreu 3 dias depois. Transportado para a fazenda dos jesuítas, no dia 17 de agosto, o mesmo mosquito é levado a picar o padre P. U., como experimento.

O cubano Carlos Finlay diante de pesquisadores norte-americanos, aplicando
um tubo de vidro com mosquitos transmissores da febre amarela no braço
de um voluntário.
No dia 24 de agosto, o padre caiu doente. Depois de 8 dias de doença, descritas detalhadamente por Finlay, ele se recuperou.
Finlay repetiu o mesmo tipo de teste com outros enfermos e novas pessoas sadias. Houve casos em que não houve transmissão da doença. Finlay acabou por descobrir que era necessário que o doente estivesse em certa fase da doença (entre o terceiro e o sexto dia) e que houvesse um intervalo de tempo entre o contado do mosquito com o doente e a picada da pessoa sadia. Para obter com segurança a transmissão, era necessário utilizar vários mosquitos ao mesmo tempo.
Em estudos posteriores, Finlay conseguiu também transmitir a febre amarela através de injeções com sangue colhido de doentes. Fez ainda testes de imunização, tentando desenvolver um processo de transmitir uma forma branda da doença.
A partir de seus estudos, já em 1884, Finlay indicou o modo de evitar a propagação da febre amarela: isolar os doentes dos insetos.
Do fato da inoculabilidade da febre amarela por picadas do mosquito se infere a necessidade de preservar os enfermos atacados dessa afecção contra as referidas picadas, a fim de evitar a propagação da enfermidade.
Apesar de seu sucesso nesse estudo, Finlay não conseguiu observar o agente causador da doença, que seria transmitido pelo mosquito. Isso, na verdade, não foi um defeito de seu trabalho, mas mostra que ele era um ótimo investigador. De fato: a febre amarela é causada por um vírus, que nem Finlay nem ninguém poderia ter observado com as técnicas existentes na época.
Seus estudos foram confirmados em 1900 por uma comissão norte-americana, coordenada por Walter Reed. Nessa época, o governo dos Estados Unidos tinha grande interesse no controle dessa doença, pois, além de atingir o país, a febre amarela inviabilizava a construção do Canal do Panamá, que era de enorme importância econômica. Reed e seu grupo confirmaram a descoberta de Finlay. No entanto, Reed também não conseguiu descobrir um micróbio associado à febre amarela.
Em 1901, o mesmo grupo descobriu que o soro sangüíneo, filtrado através de paredes de porcelana capazes de reter as bactérias, era ainda capaz de transmitir a doença. Não se tratava, portanto, de nenhuma bactéria ou microorganismo visível ao microscópio. Concluiu-se que a causa da febre amarela era um "vírus filtrável", ou simplesmente um vírus - no sentido moderno da palavra.
De certa forma, o vírus invisível foi uma noção muito incômoda, nessa época. No caso da raiva, da febre amarela, da varíola e em vários outros, não se conseguia ver nenhum agente microscópico da doença. Também não se conseguia cultivar esses vírus invisíveis em nenhum meio de cultura, fora de animais. Não se podia aplicar aqui, portanto, os postulados de Koch.
Apesar de não se chegar ao agente causal da doença, a descoberta do processo de transmissão foi suficiente para o controle da febre amarela: desde que não houvesse mosquitos, a doença não se espalharia. A destruição dos mosquitos foi feita através de drenagem de águas estagnadas e por substâncias que destruíam as larvas dos insetos (como petróleo). Com o combate ao mosquito, a partir de 1901, a febre amarela desapareceu de Cuba e do Panamá.
É interessante lembrar os processos antigos de prevenção da febre amarela. Como vimos, a grande epidemia do Recife, no final do século XVII, foi combatida com medidas de limpeza, desinfecção de casas, roupas e objetos de doentes, fogueiras, tiros de canhão, controle da moralidade, ervas aromáticas, enterros especiais de cadáveres, etc. Ninguém se preocupou com mosquitos nem com a existência de pântanos perto da cidade. Quais dessas medidas podem ter sido úteis, no caso? Talvez as fogueiras, as ervas aromáticas e os tiros de canhão tenham ajudado a espantar os mosquitos. As outras medidas, por mais justificadas que fossem para os conhecimentos da época, foram inúteis.
No Estado de São Paulo, a febre amarela produzia muitas mortes no início do século. Em Sorocaba, houve 2.300 casos. Diante da situação, conhecendo o trabalho de Finlay, Emílio Ribas iniciou em 1901 o combate ao mosquito, conseguindo controlar a doença.

Oswaldo Cruz, nomeado Diretor Geral da Saúde Pública em 1903.
No Rio de Janeiro, sucessivas epidemias de febre amarela produziam muitas mortes. De um modo geral, a doença chegava pelos navios. Em 1896, chegou à cidade o navio "Lombardia", com 340 pessoas. Dessas, apenas 7 não ficaram doentes. Morreram 234.
Em 1903, Oswaldo Cruz foi nomeado Diretor Geral da Saúde Pública, pelo presidente Rodrigues Alves e iniciou o combate à febre amarela. Nesse ano, houve 584 mortes por essa doença, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, o número baixou para 48, mas em 1905 subiu novamente para 289. Nos anos seguintes, o número de vítimas foi caindo para 42, 39, 4 e, finalmente, em 1909, não houve nenhuma morte por febre amarela. Logo depois, a vigilância diminuiu, e em 1928 ocorreu um forte surto epidêmico. De 1928 a 1929, morreram 478 vítimas da febre amarela, no Rio de Janeiro.
Outros vetores de doenças foram sendo descobertos, no final do século XIX e início do século XX. Em 1897, Ronald Ross descobriu que o plasmódio da malária era transportado por mosquitos - Anopheles - identificado por Grassi em 1898. A malária não era um problema tão grave quanto a febre amarela, pois há muito tempo se conhecia um remédio eficaz - o quinino. No entanto, com o conhecimento de seu meio de transmissão, foi também possível controlá-la.
No final do século XIX, houve epidemias asiáticas de peste bubônica. Seu estudo permitiu, primeiro, a descoberta do microorganismo causador da doença por Yersin, em Hong Kong, em 1894. Em 1897, Simond e Ogata mostraram que a peste bubônica é transmitida pela pulga de ratos doentes. A peste bubônica se espalha, primeiramente, entre os ratos, por suas pulgas, que não costumam picar seres humanos. No entanto, quando um rato doente morre e seu corpo esfria, as pulgas procuram outro hospedeiro e se não encontram logo um outro rato, podem picar seres humanos e transmitir-lhes a doença. Na época das grandes pestes européias, já se havia observado que havia grande mortalidade de ratos antes que a doença aparecesse nas pessoas; mas não se sabia a relação entre as duas coisas.

Em 1897, descobriu-se que a pulga transmitia peste bubônica (desenho
de Amadeo Terzi).
O modo de evitar o surgimento e a propagação da peste bubônica é a redução dos ratos, nas cidades. Isso pode ser conseguido, em parte, com medidas de limpeza: redução do lixo acumulado pelas ruas e em terrenos vazios, limpezas de porões das casas, etc.; ou por medidas dirigidas diretamente ao seu extermínio, através de venenos. Nas antigas pestes, como vimos, o primeiro tipo de medida era tomada (com o fim consciente de diminuir o mau cheiro) e algumas vezes procurava-se eliminar também todos os animais das cidades. No entanto, é difícil exterminar os ratos; e como é muito mais fácil matar os gatos, que são mais visíveis, provavelmente essas medidas eram mais prejudiciais do que benéficas, pois eliminavam os predadores naturais dos roedores.
Depois que se descobriu a relação entre os ratos e a peste, em muitos lugares em que essa doença aparecia, as autoridades estimularam a população a combater os ratos, remunerando as pessoas por corpos de ratos que fossem entregues. Essa medida é perigosa, pois se o rato já estiver doente, pouco depois de sua morte as pulgas procurarão outro lugar para viver - e escolherão, muito provavelmente, a pessoa que matou o rato e o levou para entregar às autoridades sanitárias.
Uma outra medida que era tomada contra as pestes era a purificação das roupas, colocando-as ao ar livre. Em parte, isso pode ter sido útil: as pulgas saem de roupas expostas ao calor do Sol. Por outro lado, dentre as dezenas de substâncias aromáticas recomendadas para serem usadas nas casas, é possível que alguma fosse também útil contra pulgas. Sabe-se que, no Brasil, existem ervas que, colocadas dentro de casas, são capazes de afastar as pulgas. Todas as outras medidas tomadas contra a peste, no entanto, eram inúteis: queimar substâncias aromáticas pelas ruas, fazer fogueiras, cheirar esponjas embebidas em vinagre e outras medidas semelhantes não tinham efeito nem contra os ratos, nem contra as pulgas.
Houve descobertas inesperadas de vetores. Durante o século XIX, havia sido percebido que a transmissão do tifo se dava, como no caso do cólera, pela água. Apesar disso, não se conseguia controlar totalmente a doença, que irrompia às vezes entre os soldados, durante a guerra. Em 1909, Charles Nicolle estabeleceu que o tifo é transmitido por piolhos, que até então eram considerados como incômodos, mas inofensivos.
Deve-se a um brasileiro, Carlos Chagas, a descoberta de uma nova doença, seu microorganismo causador e seu vetor, em uma série de estudos realizados no início do século. Em 1907, estava sendo contruída uma estrada de ferro no norte de Minas Gerais. Havia muita malária na região e Carlos Chagas foi incumbido de organizar as medidas que permitissem proteger os trabalhadores contra a doença. Durante esse trabalho, Chagas tomou conhecimento da existência de um grande inseto que se alimentava de sangue, chamado "barbeiro". Esse inseto, quase do tamanho de uma barata, vive escondido em frestas das casas, durante o dia, mas à noite sai de seu esconderijo e suga o sangue dos moradores. Normalmente, quando se acende uma luz, ele se enconde rapidamente. Conta-se que a mordida não é dolorosa e que o inseto ataca em geral o rosto das pessoas adormecidas, sem que elas acordem.

Carlos Chagas
Como estavam sendo descobertos muitos insetos transmissores de doenças, Chagas resolveu examinar alguns barbeiros à procura de microorganismos. Talvez ele esperasse encontrar um novo vetor da malária. Mas achou dentro de alguns barbeiros um novo tipo de microorganismo: certos flagelados, semelhantes aos que provocam a "doença do sono" do gado africano. Mais tarde, eles foram batizados como Trypanosoma cruzi
Esses microorganismos pareciam novos e não se conhecia nenhuma doença produzida por eles. No entanto, Chagas prosseguiu sua pesquisa. Experimentou picar diversos animais pelo barbeiro. Observou que, depois de algumas semanas da picada, era possível encontrar os mesmos tripanosomas o sangue desses animais de teste. Nem todos os animais eram suscetíveis. Cruz conseguiu infectar macacos, coelhos, cobaias e cães. As cobaias eram especialmente sensíveis ao microorganismo e morriam depois de uma semana.
Posteriormente, examinando o sangue de pessoas da região estudada, Chagas encontrou o tripanosoma no sangue de alguns habitantes, especialmente crianças. Através do estudo desses enfermos, conseguiu caracterizar uma doença nova para a Medicina, que era conhecida pelo povo como "opilação" e que passou a ser chamada "doença de Chagas". As crianças que apresentavam tripanosomas tinham sintomas de anemia, pequeno crescimento, desordens nervosas, aumento dos gânglios linfáticos e, às vezes, fígado e baço inchados, além de outros sintomas. Os microorganismos às vezes desapareciam do sangue, tornando-se mais fáceis de encontrar em períodos de febre. Às vezes a doença era grave e levava à morte.

Carlos Chagas descobriu que o Barbeiro (Triatoma megista) é o vetor
de uma doença causada por microorganismos denominados Trypanosoma cruzi.
Em outros casos, os sintomas mais agudos passavam e a doença se tornava crônica, produzindo gradualmente problemas cardíacos graves. No campo, onde a doença de Chagas ocorre mais comumente, é grande o número de pessoas atacadas por essa enfermidade de forma crônica, muitas vezes sem saber que estão doentes.
O trabalho de Carlos Chagas foi posteriormente confirmado, em quase todos os seus detalhes. Pouco se acrescentou ao que ele próprio fez, com seus auxiliares. Este bom exemplo de pesquisa microbiana no Brasil nos redimiu dos trabalho de Lacerda, Fajardo e outros.
No caso da doença de Chagas, foi possível apenas encontrar
um modo de prevenção, pelo combate ao barbeiro. Não existe
até hoje cura para a doença, nem vacina contra ela.
Há suspeitas de que o conhecido naturalista Charles Darwin foi vítima
dessa doença. Durante sua juventude, ele viajou pela América
do Sul e observou em vários locais um animal semelhante ao barbeiro.
Ele conta que era muito desagradável sentir esses grandes insetos subindo
por seu corpo para picá-lo. Darwin diz que os nativos de Iquiqui se
divertiam com esse animal, capturando-o e vendo-o sugar o sangue do dedo de
uma pessoa, pois, embora fosse normalmente achatado, ele inchava e ficava
redondo. Posteriormente, Darwin teve problemas incuráveis de saúde
com alguns sintomas que concordam com os da doença de Chagas, que era
então desconhecida.
A gradativa descoberta de vetores das doenças permitiu controlar males terríveis, como a peste bubônica, a malária, a febre amarela e outras enfermidades. Há, no entanto, a necessidade de que as autoridades e a própria população estejam conscientes da necessidade de manter uma constante vigilância para evitar que elas reapareçam. Quando se pensa que a luta foi vencida e que não é preciso tomar mais cuidado, pode haver o ressurgimento da febre amarela e do dengue, como ocorreu no Brasil na década de 1980.