As noções de impureza e de seu contágio estão presentes de modo muito claro na Bíblia. A conexão entre doenças e impureza é também muito clara nessa tradição. Embora em muitas outras culturas religiosas tenham existido idéias semelhantes às do contágio, é claro que na civilização européia, a partir da Idade Média, a influência religiosa mais importante é a cristã. No Antigo Testamento da Bíblia, encontramos várias passagens relevantes.
O deus hebraico, como se sabe, era capaz de enviar doenças e epidemias de todos os tipos sobre os que o desobedeciam. No livro do Êxodo, na Bíblia, descreve-se que Moisés pediu ao faraó do Egito, em nome do deus hebraico, que libertasse o seu povo. Como o faraó não o fez, conta a Bíblia que a divindade hebraica teria enviado sucessivas pragas sobre o Egito, incluindo doenças:
- Vai encontrar o Faraó, e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor, o Deus dos hebreus. Deixai ir meu povo, para que ele me sacrifique. Se vos recusardes ainda, e se vós os retiverdes, estenderei minha mão sobre vossos campos, e os cavalos, asnos, camelos, bois e ovelhas serão atingidos por uma peste muito grave.
Como o Faraó não obedece, Deus manda que Moisés encha as mãos com cinzas e as lance para o céu: "Esse pó espalhar-se-á por todo o Egito. Então se formarão nos homens e nos animais úlceras e tumores, em toda a terra do Egito".
Por fim, a Bíblia conta que o Faraó acaba por ceder, quando uma peste mata todos os filhos mais velhos de todos os egípcios - incluindo o filho do próprio Faraó.
Em vários pontos da Bíblia, fica claro que o deus hebraico não lança doenças apenas sobre os inimigos dos hebreus, mas também sobre eles próprios, se não obedecerem às suas ordens. O livro do Deuteronômio, por exemplo, tem esta ameaça:
Se não quiserdes escutar a voz do Senhor vosso Deus, e não vos guardardes e não praticardes todos os mandamentos e as cerimônias que eu vos prescrevi hoje, todas estas maldições cairão sobre vós e vos atingirão.
Os castigos indicados são terríveis: pobreza, insucesso em tudo, traição, fome, e muitos tipos de doenças - peste, febre, úlceras, sarna, loucura, cegueira, "e um mal incurável da planta dos pés até a ponta da cabeça". Essa maldição não terminava com a morte: transmitia-se a todos os descendentes, pois o próprio sêmen levava a maldição.
A "lepra" das roupas e das casas era apenas uma concepção desenvolvida por analogia com a lepra das pessoas. Não se tratava de um conceito semelhante ao nosso, de que um objeto pode ser veículo de contágio de uma doença. As roupas e casas podiam ficar "leprosas" sem nenhum contato de pessoas doentes.
Quando uma pessoa se curava de "lepra", ela não ficava automaticamente pura. Era necessária uma série de rituais religiosos para que ela se livrasse da sua impureza. O ritual era extremamente elaborado. A pessoa deveria levar ao sacerdote dois pássaros. Um deles era morto em sacrifício, e com seu sangue (e outras substâncias) tingia-se o segundo pássaro. A pessoa era aspergida 7 vezes com esse sangue, e depois o pássaro era solto, para voar. O significado simbólico parecia ser o seguinte: pelo sangue derramado sobre o pássaro e sobre a pessoa impura, eles se uniam; o pássaro passava a representar a própria pessoa. Quando ele era deixado livre para voar, ele levava embora as impurezas da pessoa.
No entanto, o ritual não terminava aí. A pessoa devia lavar suas roupas, raspar todos os pelos do corpo, lavar-se, e aguardar durante 7 dias. A raspagem permitia verificar se realmente não havia mais manchas ou sinais da doença. Após os sete dias, a pessoa devia novamente raspar todos os pelos e se lavar. Era então feito um sacrifício de um carneiro, que era oferecido à divindade pedindo-se que ele fosse aceito em pagamento pelo delito ou pecado cometido pela pessoa. Simbolicamente, isso significava que a lepra tinha sido um castigo por algum delito ou pecado, e que só agora, penitenciando-se e pagando por esse delito ou pecado, a pessoa ficava realmente pura.
Há um aspecto bastante interessante nesse ritual, e que aparece também em outros semelhantes: a transmissão da impureza de uma pessoa para um animal. O Levítico prescreve um ritual anual, de purificação de todo o povo.
Nesse ritual, tomam-se dois bodes. Um deles é morto. O sacerdote transfere todos os pecados do povo para o segundo bode, que é o "bode expiatório".
Ele é levado para o deserto e é solto. Dessa forma, as impurezas de todas as pessoas foram embora. A pessoa que conduz o bode para o deserto precisa se purificar, pois alguma impureza pode ter passado para ela, ao conduzir o animal carregado de pecados.
A idéia de um "bode expiatório" ou de outro animal
que vai carregar os pecados e a culpa de todas as pessoas, aparece em várias
outras civilizações - até mesmo na América, antes
da chegada dos europeus ao México. De modo semelhante, o Novo Testamento
cristão indica que Jesus expulsou os demônios de pessoas e passou
esses demônios para porcos. Esse exemplo ilustra um aspecto do conceito
mágico ou religioso de contágio: as impurezas podem ser adquiridas
por contato, e podem também ser expelidas da pessoa, para um animal
(ou, às vezes, para outra pessoa).
Na concepção hebraica de impureza, vemos alguns dos aspectos
da moderna concepção médica de doenças contagiosas.
Mas é claro que há também muitas diferenças.
No pensamento bíblico, as idéias de pecado, impureza, sujeira, doença, castigo e morte estão todas intimamente interligadas. O livro da Bíblia em que se pode perceber melhor essas idéias é o Levítico.
De modo semelhante a outras culturas antigas, o Levítico ensina que uma pessoa pode se tornar impura (pecadora, suja) de muitos modos diferentes. Os tipos que mais nos interessam, por terem relação com a doença, não têm relação com falhas morais e com pecados no sentido do cristianismo.
Existem vários tipos de animais, por exemplo, que são considerados impuros. Enquanto que a vaca ou a ovelha são animais puros e que podem ser comidos pelos hebreus, o Levítico ensina que os quadrúpedes ruminantes que não tenham a pata dividida em duas (como o camelo) são impuros e não podem servir de alimento. Da mesma forma, as lebres, os porcos e vários outros animais são proibidos para os hebreus. Dos animais aquáticos, apenas são puros os que possuem nadadeiras e têm o corpo recoberto por escamas. Polvos ou baleias, que não obedecem a essas condições, seriam impuros.

Na tradição bíblica, a purificação era
um importante meio para eliminar pecados e doenças.
Os animais impuros não podem ser comidos e nem mesmo tocados, quando estão mortos. Se uma pessoa tocar um animal impuro morto, ela ficará impura: terá cometido uma falta religiosa, contra o deus hebraico, e terá ficado suja. A pessoa fica contaminada pela impureza do animal que tocou, e se alguém tocar essa pessoa, também ficará impuro.
Para se libertar da impureza, nesse caso, era necessário lavar as roupas, lavar o próprio corpo, e esperar até o anoitecer. Apenas à noite a pessoa ficaria novamente pura. Antes disso, a pessoa não poderia participar de atos religiosos, nem entrar em contato com outras pessoas, pois elas se contaminariam também.
Tudo o que sai de um animal impuro também é impuro. Se alguma coisa cai de um animal impuro morto sobre um objeto, esse objeto também fica impuro. No caso de objetos de argila, porosos, essa impureza não pode ser retirada: eles devem ser quebra-dos, destruídos. No caso de roupas ou objetos de madeira, eles devem ser lavados e, após o anoitecer, se tornarão puros novamente. Se, antes de serem purificados, a água escorrer desses objetos para um outro, este outro também ficará impuro. Ou seja: a própria água, que é o principal meio de purificação, também pode transmitir a impureza. No entanto, a água em grande quantidade (em rios, reservatórios, etc.) não fica impura.
Mesmo os animais puros, podem se tornar impuros, se morrerem por si próprios. Nesse caso, aplica-se a eles a mesma restrição que aos animais impuros: não podem ser comidos nem tocados, pois transmitirão sua impureza a quem os tocar. Esta regra parece uma prescrição de origem médica, pois evita que as pessoas tenham contato com alguma doença que poderia ter matado o animal. Mas a Bíblia não dá esse tipo de justificativa, e sim um motivo puramente religioso. O Levítico avisa:
Tomai cuidado para não contaminar vossas almas, e não tocai nenhuma dessas coisas, para que não sejais impuros.
Há várias outras causas possíveis de impureza, associadas a doenças ou estados físicos. Como em muitas outras civilizações, a Bíblia ensinava que as mulheres menstrua-das deviam ser consideradas impuras, durante 7 dias. A pessoa que tocasse uma mulher menstruada ou objetos sobre a qual ela esteve (cama, roupa, cadeira), ficaria impura e deveria fazer o procedimento já indicado: lavar suas roupas, lavar-se e esperar até o anoitecer para ficar puro.
Também após o parto, a mulher se torna impura. Se o filho for um menino, a impureza dura 7+33 dias (ou seja, um total de 40 dias). Se for uma me-nina, a impureza dura o dobro desse tempo. Durante esse período de impureza, as mu-lheres deveriam ficar relativamente isoladas. Foi provavelmente a partir desse número "mágico", 40 dias, que se originou a "quarentena" - período de isolamento de pessoas que podem estar com uma doença contagiosa.
O final do período de impureza, nesses casos, não significa que a mulher se torna automaticamente pura. É necessário realizar um ritual, fazendo oferecimentos, no tempo, ao deus hebraico, para pagar pelas suas faltas e se tornar novamente pura.
As normas sobre mulheres menstruadas aplicam-se também a homens
com corrimento do órgão sexual (gonorréia). Eles se tornam
impuros enquanto estiverem doentes, e os leitos e cadeiras que utilizarem
também se tornam impuros.

Na Bíblia, as doenças são descritas muitas vezes como
castigos divinos. Essa ilustração medieval mostra Jó
atingido pela lepra. Uma doença à qual o Levítico dá
grande atenção é a lepra. No entanto, a lepra a que a
Bíblia se refere nem sempre corresponde àquilo que chamamos
de lepra.
Praticamente qualquer tipo de mancha branca era chamada de lepra. Quando um hebreu apresentava esse tipo de sinal, devia ser levado ao sacerdote, que o examinava. Se os pelos da região das manchas tinham mudado de cor e se a pele apresentava uma depressão no lugar da mancha, o sacerdote declarava que se tratava de lepra impura, e a pessoa teria que ficar isolada dos demais. No entanto, em outros casos de "lepra" o sacerdote podia declarar que a pessoa estava pura. Os impuros deveriam ser separados da sociedade, para não contagiar outras pessoas.
Todo homem que seja manchado pela lepra e que tenha sido separado dos outros por decisão do sacerdote, usará roupas sem costura, andará com a cabeça nua, com o rosto coberto por suas vestes, e gritará que é sórdido e contaminado.
Também os objetos podiam ficar "leprosos": com manchas semelhantes à da lepra. No caso de roupas, por exemplo, se aparecessem tais manchas, elas deveriam ser levadas ao sacerdote que as examinaria e guardaria durante 7 dias. Se as manchas crescessem, ele declararia que se trata de lepra, e elas deveriam ser queimadas. Se não crescessem, poderiam ser lavadas, depois observadas durante mais 7 dias. Se nada aparecesse, seriam lavadas de novo e declaradas puras.
As casas em que aparecessem manchas nas paredes, com a região manchada mostrando uma depressão em relação ao resto da parede (semelhante à pele dos doentes), também seriam consideradas leprosas. Em alguns casos, era possível retirar algumas partes da parede da casa e torná-la pura; em outros, a residência precisaria ser abandonada e destruída totalmente.