A civilização grega antiga foi o ponto de partida de toda a cultura científica ocidental moderna. Até hoje, é um grego - Hipócrates - a quem chamamos de "pai da Medicina".
A Medicina grega marca uma importante etapa na evolução do pensamento médico. Inicialmente, ela se assemelhava à Medicina de outras nações: era uma mistura de concepções mágicas, religiosas e de receitas práticas para a cura das doenças. No entanto, aos poucos ela foi se separando da magia e da religião, tentando transformar-se em algo independente: um conhecimento das doenças, de suas causas naturais e de sua cura. O desenvolvimento da Medicina grega não foi rápido. O período em que se firma a concepção de uma Medicina naturalista é, aproximadamente, a época em que viveram Platão e Sócrates (aproximadamente 400 anos antes da era cristã) - o tempo de Hipócrates. No entanto, antes de estudar a visão médica de Hipócrates, é importante compreender a visão médica grega que existia antes de sua época.
Hipócrates: "O pai da medicina"
A antiga religião grega aceitava a existência de muitos deuses diferentes. Na literatura grega mais antiga, desde as obras de Homero, vários deles estão associados à produção e à cura de doenças.
Um dos deuses associados às doenças era Apolo. Ele e sua irmã Artemis são descritos na mitologia grega como podendo produzir doença e peste através de flechas lançadas sobre os homens. A "Ilíada" de Homero descreve, no seu primeiro livro, um caso desse tipo, que ilustra as concepções mitológicas gregas.
Segundo a "Ilíada", o rei Agamenon havia raptado e tomado como amante a jovem Chryseis, filha de um sacerdote de Apolo, chamado Chryses. Esse sacerdote implorou a Agamenon que libertasse sua filha. Em troca, o sacerdote oferecia um pagamento e solicitaria aos deuses que os exércitos do rei fossem bem sucedidos na guerra. Apesar de falar em nome de Apolo, o pedido do sacerdote foi negado. O sacerdote se afasta, vai para a praia e faz uma oração ao deus Apolo, solicitando que ele o vingue.
Assim ele orou, e Apolo ouviu sua prece. Desceu furioso dos picos do monte Olimpo, com seu arco e sua aljava cheia, nos ombros. As flechas vibravam em suas costas, com a raiva que tremia dentro dele. Apolo se assentou longe dos navios, com uma face tão negra quanto a noite, e seu arco de prata deu um terrível assobio e espalhou a morte enquanto ele atirava suas flechas entre eles. Primeiramente o deus atingiu suas mulas e cães, mas depois dirigiu suas setas mortíferas contra as próprias pessoas. Durante todo o dia, queimavam as piras dos mortos.
Durante nove dias ele atirou suas flechas entre as pessoas (...)
A "Ilíada" conta que a epidemia não cessava. Aquiles reuniu os homens e propôs que consultassem um sacerdote ou algum intérprete de sonhos para descobrir por que Apolo estava tão furioso. Um adivinho, chamado Calchas, se apresenta e promete dizer a causa da peste, se Aquiles lhe prometer proteção. Então, o adivinho conta que Apolo está irritado porque o rei desrespeitou o sacerdote. Há uma disputa entre Aquiles e Agamenon, que por fim concorda em devolver a filha ao sacerdote. Após a devolução de Chryseis, são feitas orações e sacrifícios de animais a Apolo e a peste termina.
De modo semelhante, a peça teatral "Édipo rei", de Sófocles, se inicia quando uma peste está dizimando a população de Tebas. O rei Édipo manda um emissário consultar as pitonisas, para que elas revelem o motivo pelo qual o deus Apolo está castigando o país. O oráculo revela que é necessário varrer de Tebas uma coisa impura: o assassino do rei anterior, Laius. À medida que a peça se desenrola, descobre-se que o próprio Édipo matou, sem o saber, o rei Laius (que era seu pai) e casou-se com sua mãe, sendo essa a causa da peste.
Nesta fase da cultura grega, as grandes calamidades eram, portanto, produzidas pelos deuses, como castigo por ofensas religiosas. Havia, é claro, outros tipos de doenças comuns que não eram atribuídas aos deuses. Não se sabe, no entanto, como era o tratamento dessas doenças, no período mais antigo, na Grécia.
A mitologia grega indica que Apolo, o deus do Sol, além de produzir doenças, poderia também curá-las - e, por isso, ele se tornou a principal divindade controladora das doenças. Posteriormente, surgiu o semi-deus Asclepios (ou Esculápio), filho de Apolo, como divindade específica da Medicina.
Segundo autores romanos do início da era cristã, a Medicina grega começou com Asclepios. Teria nascido na Tesalia, no século XIII antes da era cristã. Teria acompanhado os argonautas, em sua expedição. Juntamente com Apolo, teria descoberto as plantas medicinais. É provável que tenha existido de fato um médico chamado Asclepios, que foi depois transformado em semi-deus pela tradição.
Há muitas e variadas lendas sobre seu nascimento e vida. Uma tradição conta que foi abandonado por sua mãe no monte Mirtion. Lá, foi alimentado por uma cabra do pastor Arestana e cuidado por seu cão. Achado pelo pastor, foi reconhecido como divino pela auréola que o rodeava. Outra tradição o faz nascer em Epidauro, filho de Arsipo e de Arsinoe.

Apolo, o Deus grego que produzia e curava doenças.
Segundo o escritor Ovídio, Asclepios foi o filho do deus Apolo com a mortal Coronis. Durante a gravidez, Coronis trai Apolo com um homem e é morta pelo deus. No entanto, ele salva o filho, tirando-o de seu ventre. Logo depois de ser tirado de sua mãe, Asclepios é levado por Apolo até Magnésia, confiado ao centauro Quíron, que conhecia todas as plantas medicinais e que o instruiu na arte da cura. "Curava a uns com as doces palavras da magia, a outros oferecia poções eficazes, ou lhes aplicava ervas em torno de seus membros, ou cortava o mal com o ferro, para devolver-lhes a saúde."
Asclepios, segundo a lenda, adquiriu um conhecimento tão grande que se tornou capaz de ressuscitar os mortos. Plutão, o deus dos infernos, pediu a Zeus que o matasse, pois estava despovoando seus domínios. Zeus atendeu a seu pedido e feriu com um raio o filho de Coronis. Depois, para consolar Apolo, seu pai, colocou-o no céu, onde forma parte da constelação da Serpente.
Asclepios é representado geralmente com um bastão de viajante, envolto por uma serpente - símbolo da adivinhação entre os gregos e acólito de todas as divindades médicas. Há diversos animais associados a ele: serpente, cão, cabra e galo - este último, símbolo de vigilância no exercício da profissão médica.
Na mitologia, Asclepios tem uma família que simboliza vários aspectos da Medicina. Sua esposa Epione aliviava a dor. Sua filha Hygeia era a divindade da saúde. Outra filha, chamada Panacea, representava os remédios que curam todas as doenças. Seu filho Telesphoros representava a recuperação do enfermo.
Hygeia, a filha preferida de Asclepios, é às vezes representada alimentando uma serpente. É do nome Hygieia (saúde, em grego) que vem o nosso termo "higiene". Para nós, a palavra se refere a limpeza, asseio. No entanto, seu significado primitivo é muito diferente: representava tudo aquilo que se pode fazer para manter ou restaurar a saúde.
Quando outras deusas eram invocadas para dar a saúde, davam-lhes também o epíteto de Hygeia (por exemplo: Atenas Hygeia ou Demeter Hygeia). A deusa egípcia Isis, associada à Medicina, era também cultuada entre os gregos, com o nome de Isis Hygeia. Era também representada com uma serpente.

Escultura de Asclepios e sua filha, Hygeia.
Aproximadamente no século VI antes da era cristã, foram criados templos especialmente dedicados a Asclepios. Esses templos eram edificados em lugares considerados saudáveis e de paisagem agradável. Estavam sempre rodeados por um bosque sagrado, no qual não se podia matar nem nascer.
Geralmente, dentro desse bosque, existiam uma fonte natural, um templo dedicado a Artemis e a outras divindades associadas à cura. Dentro do próprio templo, existiam geralmente serpentes vivas - símbolo de Asclepios.
As pessoas se dirigiam a esses templos em busca de curas milagrosas. Os enfermos tinham que cumprir certas práticas antes de serem admitidos no templo. Deviam submeter-se a jejuns, banhos, abluções, unções e purificações. Depois, deviam efetuar sacrifícios - em geral, de um galo. Então, os enfermos podiam passar a noite dormindo no templo - e isso era chamado de "incubação". Era um ato religioso pelo qual se provocava a aparição no sonho da própria divindade, para se obter uma revelação ou a cura.
Em alguns casos, o doente tinha visões que indicavam a natureza da doença e sua cura. Em outros casos, durante o sonho, o próprio deus o curava, instantaneamente. Isso ocorria pela aplicação das mãos no local doente, ou por operação cirúrgica, ou ministrando um remédio, ou pela ajuda de animais (uma grande serpente, um cachorro e um ganso) que acompanhavam Asclepios.

Na antiga Grécia havia templos dedicados ao deus da medicina (Esculápio
ou Asclépio), onde os doentes eram curados de forma sobrenatural durante
o sono.
Nem sempre o deus atendia ao doente, porque ele não o merecia ou não havia realizado a purificação antes da incubação. Podia também ocorrer que fossem necessárias muitas repetições da incubação, antes que a pessoa recebesse a visita de Asclepios.
Esse tipo de Medicina religiosa existia também no Egito: os doentes tinham o costume de se encerrar nos templos de Isis e de Serapis, e esperar que essas divindades lhes revelassem, durante o sono, os remédios que lhes eram necessários.
Há várias interpretações possíveis sobre o que ocorria no templo de Asclepios. Em parte, pode ter ocorrido que as pessoas se curassem de problemas psicossomáticos por simples sugestão. Pode também ter ocorrido que os próprios sacerdotes e encarregados do templo se disfarçassem, à noite, e dessem remédios e fizessem operações cirúrgicas, fazendo-se passar pelo deus. Pode ser que a parte mais importante do processo fosse posterior aos sonhos: os encarregados do templo talvez fizessem prescrições médicas úteis. De qualquer forma, pode-se dizer que os templos de Asclepios eram muito populares e procurados por muita gente.
O culto a Asclepios e as curas realizadas em seus templos duraram muitos séculos (até depois da era cristã) e se espalharam por vários países. Em Roma, no ano 295 antes de Cristo, foi erigido o primeiro templo a Asclepios por causa de uma epidemia. Conta-se que uma praga "havia infectado o ar, o sangue se corrompia nas veias e os homens se arrastavam como espectros lívidos. A morte feria sem descanso, e ria-se de todos os esforços humanos e de todos os recursos da arte... ". A peste já durava há muito tempo, e foram enviados emissários a um templo grego de Apolo, em Delfos, em busca de conselhos. O oráculo diz que não é o próprio Apolo quem deve ser consultado e sim seu filho (Asclepios).
Os embaixadores vão ao templo de Asclepios em Epidauro e pedem que se permita transportar a Roma a estátua do deus. De noite, Asclepios aparece em sonhos e lhes diz que vai acompanhá-los sob a forma de uma cobra. Surge uma grande serpente, que sai do tempo, depois vai até o porto e entra no navio romano. Chegando ao porto de Roma, a serpente mergulhou na água e nadou até uma ilha, no meio do rio Tibre. Lá foi erguido um templo a Asclepios, e a epidemia desapareceu.
A corrente médica religiosa, associada a Asclepios, foi muito popular e duradoura. Certamente existia na Grécia uma medicina prática, lado a lado com essa Medicina religiosa. Como vimos, o próprio mito de Asclepios indica que ele utilizava ervas, poções e mesmo cirurgia. Mas era muito forte a crença de que as doenças eram enviadas pelos deuses como punição por algum erro e de que a cura dependia da benevolência divina. Uma Medicina independente, naturalista, só poderia ter começado a se desenvolver quando a própria religião começou a se enfraquecer. Vamos ver como isso aconteceu, na Grécia.
O enfraquecimento das crenças mitológicas gregas começou a ocorrer, na Grécia, aproximadamente no século VI antes da era cristã. Nessa época, surgem os primeiros filósofos gregos importantes que conhecemos: Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Pitágoras, e outros. Esses filósofos começam a propor um novo tipo de conhecimento, que não provém da tradição religiosa e sim do próprio raciocínio humano.
Não foram conservados os escritos dos médicos anteriores a Hipócrates. No entanto, sabe-se alguma coisa sobre a medicina naturalista pré-hipocrática.
Um exemplo é o pensamento do médico Euryphon de Cnidos, que viveu em torno de 450 A. C. Ele atribuiu as doenças a distúrbios de alimentação: "Quando o ventre não se livra do alimento que foi tomado, são produzidos resíduos que se elevam à região da cabeça e então produzem doenças.
Quando, no entanto, o ventre é esvaziado e limpo, a digestão ocorre como deve (...)".
Essa idéia de resíduos impuros e a necessidade de evacuar e limpar os intestinos, é uma provável influência egípcia. Note-se que é uma concepção naturalista, bem diferente da idéia de impurezas religiosas, utilizada pelos hebreus e indianos.
É possível que os egípcios tenham notado, através de sua prática de embalsamamento, que após a morte os cadáveres começam a apodrecer a partir dos intestinos. Daí talvez tenha se originado a doutrina de que a principal causa da doença é o apodrecimento dos alimentos no ventre. Esse apodrecimento produziria substâncias nocivas, que se espalhariam pelo corpo, através do sangue, produzindo doenças. A doença poderia ser evitada, no entanto, pela limpeza dos intestinos ou por sangrias, retirando com o sangue as substâncias nocivas.
Heródoto, no quinto século antes da era cristã, informa que os egípcios tinham o hábito preventivo de purificar seus intestinos três vezes por mês, através de purgantes ou de clisteres. Durante três dias sucessivos, em cada mês, eles purgam seu corpo por meio de eméticos e clisteres, o que é feito por respeito à saúde, já que eles acreditam que toda doença a que as pessoas estão sujeitas é causada pelas substâncias de que se alimentam.
A lavagem intestinal através de clister parece ter passado do Egito para a Grécia. Atribuia-se a descoberta do clister (e de outros processos) à observação dos animais. Supunha-se que o pássaro íbis (semelhante à cegonha), com seu longo bico, fazia sua própria lavagem intestinal. Observando-o, os egípcios aprenderam a imitar essa prática. Havia também uma conotação simbólica: o íbis era um pássaro associado ao deus egípcio da medicina, Toth.
Os outros processos de purificação do corpo também teriam sido aprendidos de animais. Contava-se que o hipopótamo, quando se sente pesado, sai do Nilo, abre uma veia na própria perna com um espinho, deixa correr o sangue e depois a fecha com lodo.
A preocupação com a limpeza dos intestinos, que era uma obcessão dos egípcios, existiu também entre os gregos. A palavra grega "katharsis" (de onde vem "catarse", purificação) significava inicialmente a purificação dos intestinos, através de purgantes ou clisteres.
Uma outra idéia central que se desenvolve nesse período e que aparece nos escritos de vários filósofos, como Pitágoras e Alcmeon, é a de que a saúde é o resultado do equilíbrio e harmonia do corpo: excessos e desarmonia produzem doenças. Os escritos dessa época não foram conservados, mas um autor grego posterior assim descreveu a teoria de Alcmeon:
Alcmeon sustenta que o que estabelece a saúde é o equilíbrio dos poderes: úmido e seco, frio e quente, amargo e doce, e os demais. Pelo contrário, a supremacia de um deles é a causa da doença, pois a supremacia de qualquer um é destrutiva. A doença surge diretamente pelo excesso do calor ou frio, indiretamente pelo excesso ou deficiência de nutriente. E seu centro é ou o sangue ou a medula ou o cérebro. Ela [a doença] algumas vezes aparece nesses centros por causas externas: umidade de algum tipo, ou ambiente, ou exaustão ou causas semelhantes. Saúde, por outro lado, é a mistura proporcional das qualidades.
Escultura de Alcmeon, da escola pitagórica, para quem a saúde
era resultado de um equilíbrio entre os poderes.
Novamente, essa é uma doutrina médica totalmente naturalista, ou seja, sem a intervenção de conceitos sobrenaturais, mágicos ou religiosos. Teorias semelhantes, que interpretavam a doença como ruptura do equilíbrio de diversas substâncias ou poderes, surgiram também em outros locais, na Antigüidade: na China e na Índia, por exemplo.
Na filosofia chinesa tradicional, supunha-se a existência de cinco elementos básicos (madeira, fogo, terra, metal e água), que estavam associados às cinco cores, cinco estações do ano, e cinco órgãos do corpo humano. A doença era considerada como uma desarmonia dos cinco órgãos, produzida pela interferência do clima, planetas, etc. Também na Índia, em livros médicos escritos no início da era cristã, são encontradas idéias semelhantes. Mas não se sabe se existe alguma ligação entre a teoria grega e as de outras civilizações.
Na escola pitagórica, dava-se grande importância à alimentação para conservar a saúde ou curar doenças. A dieta normal era vegetariana, certos alimentos (como lentilhas) eram proibidos e recomendava-se alguns outros, como couve e aniz, como importantes para conservar a saúde. A terapia pitagórica parece ter se baseado principalmente em dieta, exercícios físicos, música e meditação.