Uma vez que se conheça cada doença, pode-se estabelecer racionalmente o processo de sua cura. Se um humor está em quantidade excessiva, ele deve ser reduzido pela expulsão, com diuréticos, vomitórios, sangrias, clisteres, etc. Se o que está desequilibrado não é a quantidade, mas a qualidade de um humor (por exemplo, se a fleuma está "muito fria"), a terapia deve consistir em alterar essa qualidade, pelo seu oposto. Aquilo que está frio deve ser aquecido, o que está seco deve se tornar úmido, etc. O "aquecimento" pode ser produzido, por exemplo, por banhos quentes ou banhos de vapor, por alimentos "quentes" (com muito tempero), pelo vinho (que dá sensação de calor), etc.
Em toda essa teoria, não há lugar para um conceito como o de contágio. As influências externas podem produzir doenças apenas através do frio, calor, umidade ou secura. Não se pode imaginar que o toque de um doente possa alterar essas qualidades em uma pessoa sã e, por isso, o contágio é impensável, irracional e não poderia existir. Na corrente médica racionalista, portanto, as epidemias só podem ser devidas a uma influência externa (climática) que atinge ao mesmo tempo um grande grupo de pessoas. Sendo mais sistemática do que o pensamento hipocrático, a medicina racionalista se torna ainda mais fortemente incompatível com as "superstições" sobre contágio.

Ilustração japonesa do processo de sangria.
A medicina racionalista não foi a única corrente médica posterior a Hipócrates. Houve outras teorias opostas e existiu também uma importante corrente empírica que negou totalmente a possibilidade de se formular qualquer teoria para explicar a prática médica.
Não é possível neste livro, no entanto, explorar todas as correntes que existiram. Nenhuma delas deu uma contribuição importante para a compreensão do contágio; e a corrente que predominou e teve mais forte influência nos séculos posteriores foi a racionalista. Por isso, vamos nos concentrar em sua seqüência.
A medicina racionalista de base hipocrática teve seu ápice nas obras de Galeno. Cláudio Galeno nasceu em Pérgamo, no ano 129 da era cristã. Morreu aos setenta anos, em 199 ou 200, provavelmente em Roma. De certa forma, pode-se dizer que ele era romano, pois viveu nesse império. No entanto, toda sua formação se baseou na medicina grega, e ele preferiu escrever suas obras em grego - não em latim. Pode, por isso, ser considerado um continuador da tradição médica grega.
Galeno foi fortemente influenciado por Aristóteles. Embora ele critique várias concepções aristotélicas, seu ponto de vista geral sobre a ciência é o mesmo exposto por Aristóteles. Defende que o verdadeiro médico deve ser também um filósofo; defende o conhecimento de física, astronomia, fisiologia, lógica e outras ciências, como base para a medicina.
A obra de Galeno é muito vasta. Escreveu enormes tratados sobre cada assunto. De um modo geral, fundamentou-se nas obras hipocráticas, desenvolvendo alguns de seus pontos. Uma doutrina que tem raizes nos escritos de Hipócrates mas só ganhou forma definitiva em Galeno, é a teoria dos temperamentos.
Cada pessoa já nasceria com certa combinação ou "tempero" dos quatro humores básicos. Poderiam existir pessoas em que os quatro estivessem perfeitamente equilibrados, mas normalmente haveria predominância de um ou de dois humores. Daí surgiriam certos tipos físicos, havendo também repercussão na própria personalidade da pessoa.
Os quatro temperamentos mais importantes são aqueles em que predomina um único humor.
Os diversos climas, as regiões geográficas, as atividades, os alimentos e remédios - tudo, enfim, poderia ser classificado a partir da concepção dos quatro elementos, das quatro qualidades e dos quatro humores.
Conhecendo-se essas propriedades, seria sempre possível compreender as situações de equilíbrio ou desequilíbrio, a saúde e a doença. Tudo se torna perfeitamente compreensível, dentro de um sistema filosófico racional.
A partir dessa concepção, Galeno recomenda cuidados para a preservação da saúde.
Mantendo moderação e equilíbrio em relação
às características de cada uma dessas seis coisas, seria possível
manter o equilíbrio interno e a saúde.
As concepções de Galeno eram tão coerentes, tão
bem fundamentadas sob o ponto de vista filosófico, que se tornava difícil
negá-las. Tudo se encaixava com perfeição. Sua obra era
tão impressionante, que foi aceita com entusiasmo nos séculos
seguintes, durante mais de mil anos.
Essa aparente perfeição da medicina de Galeno foi, justamente, o seu maior defeito. Quando tudo parece estar correto e compreendido, diminui ou cessa o desejo de investigar e descobrir coisas novas. Quando se dispõe de um sistema racional completo, a experiência se torna desnecessária. A teoria nunca é colocada em questão, por ser perfeita - mesmo se na prática as pessoas morressem.

Os quatro temperamentos humanos, segundo a teoria de humores,
representados por C. Ripa (1603): fleumático (predominância da
água), sangüíneo (ar), colérico (fogo), melancólico
(terra).
O império romano foi o herdeiro da cultura grega. Os romanos não desenvolveram um pensamento muito original, mas há vários aspectos da medicina romana que nos interessam, por sua relação com a transmissão de doenças e com as fases posteriores de nossa história.
Na antiga medicina de Roma, nota-se uma preocupação com venenos, que não existe na medicina grega. Em parte, isso pode se dever ao grande contato dos romanos com a África e com serpentes. Outro possível motivo é a difusão da prática de envenenar os inimigos. Os venenos mais poderosos possuem uma característica estranha, sob o ponto de vista médico: uma pequena quantidade deles é capaz de matar uma pessoa.
Plínio, chamado "o Velho", em sua grande obra "História Natural" (século I D.C.), fez uma compilação de tudo o que se sabia em sua época sobre animais, vegetais e minerais, descrevendo-os e dando seus uso médicos. Plínio diz que, entre os Romanos, o estudo de remédios só se desenvolveu após a divulgação dos trabalhos do rei Mitridates, de Pontos. Esse rei, segundo vários autores posteriores, foi o primeiro a fazer um estudo sobre antídotos.

Imagem do livro "História Natural", de Plínio "o
velho".
Mitridates, o maior rei de seu tempo, que foi depois vencido por Pompeius, conforme se conta e conforme as evidências, foi um atento investigador dos problemas da vida, superando os que nasceram antes dele. Por seus esforços solitários, ele elaborou um plano de beber veneno diariamente, depois de tomar remédios, para se acostumar a eles e para que se tornassem inócuos. Foi o primeiro a descobrir vários antídotos, um dos quais é conhecido por seu nome. Ele também descobriu a mistura dos antídotos com o sangue dos patos de Pontos, pois eles se alimentam de substâncias venenosas.
Segundo Plínio, Pompeius, que venceu Mitrídates, coletou seus remédios e seus escritos, que foram traduzidos para o latim por Lenaeus. Esse teria sido o primeiro trabalho médico original, em latim.
Um primeiro aspecto interessante no estudo dos venenos é que uma pessoa pode se acostumar ou habituar aos mesmos, de tal forma que depois eles não façam mais efeito (fenômeno que será, muito depois, chamado de "imunização"). Sabia-se, na época, que algo semelhante podia ocorrer com algumas doenças. Na peste de Atenas, que já foi descrita antes, as pessoas que adquiriam a doença e escapavam com vida (como o próprio Tucídides), ficavam protegidas contra a peste: podiam ter contato com os doentes, sem correr risco nenhum.
É interessante assinalar que muitos povos "primitivos" já conheciam o processo de habituação contra venenos. Em 1560, José de Anchieta descreve como os indígenas brasileiros praticavam a habituação ao veneno das cobras venenosas. Ao se referir à jararaca brasileira, Anchieta afirma que os índios, quando "mordidos sucessivamente, não só não correm risco de vida, como mesmo sentem menor dor, o que tivemos mais de uma vez ocasião de observar".

Desenho de um manuscrito árabe sobre remédios, mostrando a coleta
de cobras para a preparação de antídotos.
Da mesma forma, no século XIX, o coronel português M. de Serpa-Pinto conta o modo pelo qual foi vacinado pelos Vatuas, da costa oriental da África, contra as serpentes: eles extraiam o veneno e preparavam com ele e com substâncias vegetais uma pasta escura que era introduzida em incisões feitas na pele. A operação era muito dolorosa e era seguida por um inchaço que durava uma semana. Os Vatuas asseguram que o procedimento produzia imunização contra a picada de serpentes.
Além desse aspecto, o estudo dos venenos levou à busca de antídotos - remédios específicos contra cada tipo de veneno, capaz de anular os seus efeitos. Essa idéia de antídoto era completamente diferente da concepção hipocrática dos remédios, que se destinavam a reestabelecer o equilíbrio dos humores corporais e não a combater alguma substância estranha que entrou no organismo.
Um terceiro aspecto importante é que, na busca de antídotos eficazes, começou a elaboração de misturas extremamente complexas de muitas substâncias diferentes - enquanto que, inicialmente, buscava-se utilizar apenas uma ou duas substâncias, capazes de produzir vômito, evacuação, etc.
Desenho de um manuscrito árabe sobre remédios, mostrando a coleta de cobras para a preparação de antídotos.
No império romano, ocorriam muitas epidemias que chamaram a atenção dos médicos. Em geral, seguindo a tradição hipocrática, eles consideravam que a epidemia se devia a uma mudança climática que produzia um desequilíbrio dos humores. Um autor do primeiro século antes da era cristã, Celsus, faz uma descrição dos cuidados que deveriam ser tomados durante as epidemias:
Há precauções indispensáveis, que se deve tomar, durante o reinado de uma epidemia, por aquele que ainda não foi atingido mas que não está a salvo de seus ataques. O mais seguro é então viajar ou navegar. Se isso não é possível, deve fazer-se transportar em liteira, levar-se docemente em pleno ar, antes da hora dos grandes calores; utilizar unções leves e, como se aconselhou mais acima, evitar a fatiga, as indigestões, o frio, o calor e os excessos venéreos. Deve-se tomar muito mais cuidado ainda se ocorrer algum mal estar, e nesse caso não se levantar pela manhã, nunca caminhar de pés nus, sobretudo quando acaba de comer ou tomar um banho, renunciar a produzir vômitos tanto em jejum quanto após o jantar, não produzir evacuações alvinas, tentar mesmo interrompê-las se aparecerem, e remediar preferivelmente pela abstinência a plenitude excessiva do corpo.
Igualmente, deve-se suprirmir os banhos, não ficar suado, manter-se em guarda contra o sol do meio-dia, sobretudo se ele vier depois da única refeição que se deve fazer no dia. Essa refeição será por fim muito moderada, para não se expor às indigestões; e em dias alternados deve-se beber água e vinho. Tomando-se essas precauções, não se mudará mais nada em sua maneira de viver. Todas as doenças pestilenciais, e principalmente aquelas que são trazidas pelos ventos do meio dia, exigem que se conforme a esses preceitos.
Celsus recomenda, na prevenção contra as epidemias, os procedimentos gerais que já apareciam em Hipócrates e outros autores para manter a saúde: cuidar especialmente da alimentação e da bebida, utilizar moderação nas atividades, etc. Quando a pessoa fosse atingida pela epidemia, os procedimentos de cura consistiam em reestabelecer o equilíbrio dos humores:
Nas febres, o caráter pestilencial exige também uma atenção especial. A dieta, os purgativos ou lavagens [intestinais] não são nesse caso de utilidade nenhuma, e quando as forças o permitem, o melhor é tirar sangue, sobretudo se a febre é acompanhada pela dor. Se esse meio não oferecer segurança, deve-se, logo que a febre estiver menos forte, desembaraçar o estômago fazendo vomitar.
Nessa época, entre os romanos, generaliza-se a idéia de que as epidemias são produzidas por fenômenos celestes. A astrologia estabelecia uma conexão entre os astros e os fenômenos terrestres. Eram especialmente os cometas que eram vistos como os anunciadores das maiores tragédias. O astrólogo romano Marcus Manilius, do primeiro século da era cristã, indica o significado dos cometas: destruição de colheitas, praga, morte:
Pode ser que por meio desses aspectos e incêndios do céu, deus nos envie, por piedade, sinais de uma sorte miserável. Os fogos com que o céu queima jamais foram sem significado. Os homens do campo, com suas esperanças destruídas, choram sobre os campos arrasados. Entre os sulcos estéreis o homem que ara a terra, cansado, em vão estimula o esforço de seus animais. Ou então, quando uma doença grave e uma corrupção lenta dos corpos atingiu os homens, brota uma chama mortal do centro da vida e varre os povos; e pelas cidades se sucedem piras flamejantes para os mortos.
Assim foi a praga que atingiu o povo de Erechteus e que levou a antiga Atenas a se transformar em um sepulcro, sem guerra (...).
Tais são os desastres que os cometas brilhantes em geral proclamam. A morte vem com essas tochas celestes, que ameaçam a terra com o brilho de piras incessantes, pois o céu e a natureza são atingidos e parecem condenados a compartilhar a tumba dos homens. Esses fogos também anunciam guerras e revoltas, e armas erguidas em atos de traição. (...)
Não se considerava que os cometas e os planetas produzissem diretamente as doenças. Pensava-se que eles alteravam a atmosfera, e esta, por sua vez, produzia as epidemias.
Embora não se trate de um autor romano, cabe citar o autor desse período que se tornou a principal autoridade antiga em astrologia: Claudius Ptolemaios (ou Ptolomeu), o famoso astrônomo e geógrafo egípcio do século II D. C. O nome de Ptolomeu é bastante conhecido, por ter sido quem desenvolveu o sistema astronômico geocêntrico (no qual a Terra é o centro do universo) que só foi modificado no século XVI, por Copérnico. Embora mais conhecido como astrônomo, Ptolomeu escreveu também uma obra sobre astrologia, o "Tetrabiblos" ou "Livro quádruplo", que foi provavelmente o mais influente texto astrológico de todos os tempos.
No Tetrabiblos, Ptolomeu desenvolveu uma teoria sobre a influência dos planetas que toma como ponto de partida a classificação das quatro qualidades básicas de Aristóteles (quente ou frio, úmido ou seco).
Segundo Ptolomeu, cada um dos astros possui um poder específico capaz de influenciar os acontecimentos da Terra, como o clima. O Sol tem poder de aquecer e, em certo grau, de secar. A Lua umidece e é moderadamente quente, produzindo por causa dessas duas qualidades o amolecimento e a putrefação. Saturno seria um planeta principalmente frio, moderadamente seco. Marte teria a capacidade de secar e queimar. Esses dois planetas (Saturno e Marte) são considerados maléficos, por Ptolomeu. Seriam os principais responsáveis por doenças e catástrofes. Pelo contrário, Júpiter e Vênus, juntamente com a Lua, seriam os astros benéficos e protetores.
Júpiter é descrito como sendo temperado ou equilibrado, tendo a capacidade principal de aquecer e também a de umidecer de forma moderada, produzindo ventos fertilizantes. Vênus também seria um planeta equilibrado, capaz principalmente de umidecer e também de aquecer moderadamente.
Mercúrio, por fim, é descrito como um astro mutável, que às vezes seca e às vezes umidece, mudando rapidamente de propriedades, por estar cada vez de um dos lados do Sol. Mercúrio e o Sol são considerados como astros que às vezes são benéficos, às vezes maléficos, dependendo de suas associações com outros astros.
O Tetrabiblos contém uma descrição detalhada da conexão entre os vários planetas e os órgãos do corpo humano: Júpiter, por exemplo, era o astro que dominava os pulmões, as artérias, o tato e o sêmen. As doenças ocorreriam principalmente por influência de Saturno e Marte, mas a posição dos outros astros determinaria o órgão que seria afetado. Como exemplo dessas relações, podemos dar essa descrição:
Em geral ocorrem feridas quando a Lua está perto dos signos de solstício ou equinócio [Áries, Câncer, Libra e Capricórnio]; no de equinócio de primavera [Áries], pela lepra branca; no do solstício de verão [Câncer], por líquens; no do equinócio de outono, pela lepra; no solstício de inverno, por verrugas e outros semelhantes.
Em geral Saturno produz ventres frios, aumenta a fleuma, torna as pessoas reumáticas, fracas, magras, ictéricas, e predispostas à disenteria, tosse, cólica e elefantíase; ele também torna as mulheres sujeitas a doenças do útero. Marte faz as pessoas cuspirem sangue, torna-as melancólicas, enfraquece seus pulmões e causa o escorbuto e a sarna. Além disso ele as torna constantemente irritadas (...), hemorróidas, tumores e também úlceras ardentes ou feridas devoradoras. (...)
Mercúrio os acompanha principalmente para prolongar os efeitos maléficos, tendendo ao frio quando se une a Saturno e estimulando continuamente reumatismos e acúmulo de fluidos, principalmente nopeito, garganta e estômago. Quando se une a Marte, ele adiciona sua força para produzir secura ainda maior, como no caso de olhos com feridas ulcerosas, abcessos, erisipela, erupções de pele, bílis negra, insanidade, epilepsia e coisas semelhantes.