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CONTÁGIO

Através das influências dos planetas e de suas posições no céu, seria determinado o clima de cada época do ano. Ptolomeu não faz uma associação entre o clima e doenças, mas ele nem precisava indicar isso: os próprios médicos se encarregavam de fazer a ligação.

Apesar dessa tradição astrológica e hipocrática, outros autores - principalmente alguns que não eram médicos - vislumbravam outras possíveis causas das epidemias. O arquiteto romano Vitruvius, discute a escolha do local par se edificar uma cidade, e indica as seguintes regras:

Como se pode reconhecer se um lugar é sadio, e o que o impede de sê-lo:

Quando se quer construir uma cidade, a primeira coisa que se deve fazer é escolher um lugar saudável. Ora, esse lugar deve ser elevado; além disso, não deve estar sujeito nem às neblinas nem às brumas; que tenha uma boa temperatura do ar; que não esteja exposto nem aos grandes calores nem aos grande frios. Além disso, não deve estar na vizinhança de pântanos; pois deve-se temer que fosse pestilencial e mal-são um lugar onde o vento da manhã possa trazer os vapores que o sol, erguendo-se, tivesse atraído do hálito infecto e venenoso dos animais que são gerados nos pântanos. Da mesma forma, uma cidade construída na margem do mar, e exposta ao meio-dia ou ao poente, não pode ser sadia (...)

Existe aqui a idéia de que o ar pode trazer doenças. É claro que Hipócrates também afirmava isso, mas em outro sentido. Na concepção hipocrática, o ar pode produzir epidemias quando há um desequilíbrio de calor, frio, umidade e secura, que atuam sobre os humores corporais. Em Vitruvius, a idéia é diferente. Ele se refere a vapores venenosos que poderiam ser produzidos nos pântanos, pelos animais lá gerados, e que poderiam produzir a peste (ou seja, epidemias).

Idéias ainda mais próximas das nossas são sugeridas por outros autores romanos do início da era cristã. Marcus Varro sugeriu que nos pântanos "crescem certos animais tão pequenos, que não podem ser captados pelos olhos, que através do ar entram pelas narinas ou pela boca e produzem graves doenças". E o escritor Lucius Columella, ao falar sobre as atividades do campo, sugere que os mosquitos podem transmitir doenças:

Não devem existir pântanos perto das casas, ou de estradas públicas, pois eles sempre emitem venenos [vírus] nocivos no calor, e geram animais armados com aguilhões, que voam em torno de nós em enxames densos.

Eles [os pântanos] também produzem da lama e do lixo fermentado, a peste venenosa das serpentes e cobras d'água, quando elas ficam privadas da umidade do inverno. E por isso são adquiridas doenças ocultas, cujas causas nem os médicos conseguem compreender.

Desde a antiguidade, os astrólogos estudavam a posição dos astros celestes durante o nascimento das crianças, para determinar suas características e prever seu futuro.
Desde a antiguidade, os astrólogos estudavam a posição dos astros celestes durante o nascimento das crianças, para determinar suas características e prever seu futuro.

Guiados por seu bom senso, os romanos deram grande importância a cuidados sanitários e de higiene. Havia um sistema de esgotos na cidade de Roma que não foi ultrapassado por qualquer sistema semelhante no mundo todo, até o século XIX .

Os esgotos eram levados em condutos subterrâneos até um local, a cloaca maxima, onde eram lançados no rio Tibre. Além de privadas nas casas, havia sanitários públicos, alguns deles muito luxuosos, todos equipados com água corrente.

As casas mais ricas eram providas de banheiras; além disso, existiam muitos balneários públicos, como os banhos de Caracalla, capazes de acomodar mil e seiscentas pessoas de cada vez, ou os de Diocleciano, com três mil quartos de banho. Isso mostra que o asseio era uma prática generalizada, em Roma.

Esta gravura do século XV ilustra uma suspeita já levantada pelos antigos romanos: a possível influência das moscas na transmissão de doenças.
Esta gravura do século XV ilustra uma suspeita já levantada pelos antigos romanos: a possível influência das moscas na transmissão de doenças.

Para proporcionar água destinada ao consumo e à limpeza, a cidade de Roma era provida de 14 grandes aquedutos que traziam água de fontes distantes através de condutos subterrâneos ou suspensos. No início da era cristã, eles proporcionavam à cidade cerca de 200 milhões de litros de água por dia. Os romanos implantavam também sistemas de água e esgoto nas principais regiões que conquistavam. Existe um aqueduto em Nîmes, na França, que é utilizado até hoje, dois mil anos depois de sua construção.

Conhecemos muitos detalhes sobre os aquedutos romanos graças à descrição feita pelo engenheiro Sextus Julius Frontinus (século I da era cristã). Ele conta que desde a fundação de Roma até o ano 441 do calendário romano (312 antes da era cristã), os romanos se contentavam em utilizar a água do rio Tibre, de poços e fontes.

Em 312 A. C. foi construído o primeiro aqueduto, chamado "Apia", totalmente subterrâneo, com extensão de 11.190 passos (cerca de 10 km). Quarenta anos depois foi construído o segundo aqueduto subterrâneo, com 40 km de extensão, chamado "Anio velho". Aos poucos foram sendo contruídos outros condutos subterrâneos ou suspensos sobre arcadas, trazendo água de distâncias superiores a 50 km. O "novo Anio" tinha 2.000 metros de condutos suspensos, chegando à altura de 30 metros (igual à de um prédio de dez andares). Foram obras fantásticas de engenharia, para a época.

A água era coletada de vários locais e classificada por fiscais, que destinavam as águas do aqueduto "Márcia" apenas para ser bebida; outras eram utilizadas tanto para alimentação quanto limpeza. Seis dos aquedutos levavam a água até piscinas cobertas, onde se deixava que o limo se depositasse, antes de distribuir a água pela cidade, através de encanamentos. As águas trazidas pelo "velho Anio" tornaram-se muito impuras e, no início da era cristã, eram utilizadas apenas para rega de jardins e usos mais sujos da cidade.

Todos os cuidados com a água, esgoto, asseio pessoal e limpeza da cidade certamente contribuiram muito para preservar os romanos de doenças. É difícil saber, no entanto, até que ponto eles estavam conscientes dos benefícios dessas medidas para a saúde, e até que ponto eram guiados apenas por considerações estéticas (beleza, limpeza, cheiro agradável, etc.).

Dois aquedutos construídos pelos romanos, há 20 séculos: um em Pont du Gard (França), utilizado até hoje e outro nas proximidades de Roma.
Dois aquedutos construídos pelos romanos, há 20 séculos: um em Pont du Gard (França), utilizado até hoje e outro nas proximidades de Roma.

Talvez a maior contribuição romana para a compreensão das epidemias e doenças transmissíveis tenha sido dada pelo filósofo Lucretius. Esse filósofo, do primeiro século da era cristã, escreveu uma obra em versos, denominada "De rerum natura", onde expõe a teoria atomística antiga. O atomismo era uma filosofia materialista, que não aceitava a existência de qualquer coisa além de átomos e do espaço vazio. A própria alma e os deuses deveriam ser meras combinações de átomos. Não existe lugar, nessa filosofia, para a religião, a magia, a superstição.

Contágio

Por outro lado, o atomismo admite a existência de coisas invisíveis. Os próprios átomos são invisíveis, porém reais e materiais. Lucretius dedica uma grande parte do seu livro para mostrar que não é absurdo aceitar-se a existência de coisas materiais invisíveis. Não vemos, por exemplo, nada em volta de um ímã, mas deve existir alguma coisa em volta dele que produz o efeito de atração do ferro. Não vemos a água que se evapora de um tecido colocado ao sol, mas essa água certamente continua a existir, dividida em inúmeras partículas invisíveis. E Lucretius fornece muitos outros exemplos semelhantes.

Dentro da teoria atomista, torna-se possível introduzir causas naturais invisíveis que podem produzir doenças. No espaço celeste, existiriam todos os tipos de átomos, que se movem ao acaso. Eles colidem uns com os outros, podendo se prender uns aos outros. Através de combinações dos átomos, podem ser gerados todos os tipos de coisas, ao acaso. Algumas delas podem ser "sementes" que se desenvolvem e produzem coisas úteis ao homem; outras, podem ser daninhas. Lucretius utiliza esse tipo de idéia para explicar o surgimento das epidemias:

E agora explicarei qual é a razão das doenças e de que causas pode surgir de repente a força da doença e trazer a destruição mortal à raça dos humanos e às tropas dos animais brutos. Em primeiro lugar, eu mostrei que há sementes de muitas coisas úteis à nossa vida; e por outro lado muitas outras que voam trazendo doença e morte. Quando estas, por acaso, se juntam e perturbam o céu, o ar se torna doentio. E toda a força da doença e dessa pestilência vêm, ou de fora através do céu sob a forma de nuvens e neblina, ou então se agregam e sobem da terra, quando ela se embebeu de líquido e apodreceu, atingida por chuvas e sol intempestivos.

Embora, mais uma vez, o ar seja considerado o veículo das doenças, as epidemias não seriam causadas simplesmente por calor, frio, umidade e secura: haveria certas "sementes" de doenças no ar, provenientes do céu ou da própria terra.

Lucretius concebe diferentes tipos de sementes de doenças. Ele comenta sobre as diferenças de climas e de pessoas nas diversas partes do globo, e afirma que existem doenças específicas de certos lugares:

Existe a doença do elefante que é produzida às margens das correntes do Nilo no meio do Egito e em nenhum outro lugar. Em Atica, os pés são atacados; e nas terras Aqueanas, os olhos. E assim diferentes lugares são daninhos a diferentes partes e membros. As variações do ar ocasionam isso.

Essa concepção é bem diferente da de Hipócrates e seus seguidores. Logo em seguida, ele explica com mais detalhe o modo como surgem as epidemias:

Portanto, quando uma parte do céu inadequada para nós se coloca em movimento, e um ar maligno começa a avançar, rasteja vagarosamente sob a forma de vapores e nuvem e traz a desordem a tudo em sua linha de ataque e faz com que tudo mude. E quando por fim atinge nosso céu, ele a corrompe também e a faz semelhante a si e inadequada para nós. Esse novo poder pestilencial cai assim imediatamente sobre as águas ou penetra profundamente nos grãos ou em outros alimentos do homem; ou então sua força se mantém suspensa no próprio ar, e quando inalamos dela esse ar misturado, absorvemos em nosso corpo, ao mesmo tempo, essas coisas.

De forma semelhante, a peste geralmente cai também sobre o gado e destempera os carneiros. E não faz diferença se viajamos para lugares desfavoráveis a nós e mudamos a atmosfera que nos envolve, ou se a natureza fora de nós escolhe nos trazer um céu corrompido ou alguma coisa a que não estamos acostumados, e que é capaz de nos atacar logo que chega.

Apesar de considerar as epidemias como causadas por uma mudança do ar, Lucretius reconhece a existência da passagem da doença de uma pessoa para outra. Ele descreve a grande peste de Atenas e aponta que os corpos jaziam empilhados, sem serem sepultados, mas que as aves de rapina e os animais não se aproximavam deles, ou, se os comiam, logo caiam mortos. Havia portanto algo nos mortos que podia causar a morte. E os sãos podiam adquirir a doença dos doentes:

Eles não cessavam de pegar o contágio da doença devoradora um do outro, assim como os rebanhos lanudos e os bois. E isso, sobretudo, empilhava mortos sobre mortos. Quando alguém fugia de seus próprios familiares doentes, essa negligência mortal logo os punia por seu amor excessivo à vida e medo da morte por uma morte maligna e terrível, abandonado por sua vez, esquecido de qualquer ajuda. Mas aqueles que ficavam estavam prontos a prestar asssitência, iam-se pelo contágio e pela fadiga (...).

Aparecem, assim, em Lucretius, algumas idéias sobre a transmissão da doença de uma pessoa a outra. Ele utiliza a palavra "contágio" para se referir a essa transmissão. O contágio é, em Lucrécio, simplesmente alguma influência que passa pelo contato de uma coisa com outra . Coerente com a doutrina atomista, ele supõe que é algo material que produz a doença. Não existe a proposta de que seja algo vivo, nem que essa causa da doença se reproduza dentro dos que são atingidos por ela. No entanto, como ele fala sobre as "sementes" ou "germes" das doenças, pode ser que ele admitisse a idéia de pequenos organismos vivos.

Outros termos importantes passaram a ser utilizados nessa época, como "infecção" e "contaminação". Essas palavras não possuíam significado médico, inicialmente. "Infectar" significava primitivamente tingir, colorir, impregnar com alguma substância visível. O ar infectado seria, portanto, uma atmosfera colorida, tingida ou impregnada por algo visível (vapores, bruma, poeira); mas daí veio, por analogia, a concepção de que o ar carregado de substâncias ou germes nocivos estaria também infectado, mesmo se essas coisas fossem invisíveis. Por fim, quando alguma causa patológica entra e impregna uma pessoa, também se passou a falar sobre a infecção dessa pessoa.
A palavra "contaminar", por sua vez, vem do latim contaminare, que significa sujar, poluir, misturar uma impureza. Por analogia, a palavra passou também a significar sujar moralmente, corromper, desonrar. Essa palavra tem um significado amplo de transmitir uma impureza, tanto no sentido religioso, quanto ético, quanto material. Uma pessoa contaminada pela impureza deve ser evitada, pois a impureza é algo que se transmite de uma pessoa para outra. As idéias de contaminação e de contágio são portanto bastante semelhantes e relacionadas.

Lucretius e outros romanos - em geral, pessoas que não eram médicos - deram importantes contribuições à compreensão das epidemias e do contágio. Escapando à tradição hipocrática, eles foram capazes de sugerir novas idéias, incompatíveis com a teoria dos humores, que apontavam para meios de transmissão de doenças. As idéias do atomista Lucretius são especialmente importantes, pois ele fala sobre influências invisíveis, dando ao mesmo tempo a essas causas a interpretação puramente materialista, sem qualquer conotação sobrenatural, como no conceito religioso ou mágico de contágio.

Na época, as idéias de Lucretius não tiveram grande repercussão. No entanto, mais de mil anos depois, a redescoberta de suas obras irá levar ao ressurgimento do conceito de contágio através de sementes materiais invisíveis.