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CONTÁGIO

CAPÍTULO 5: O PERÍODO MEDIEVAL

A BAIXA IDADE MÉDIA

Após a queda do império romano, a Europa não desenvolveu nenhuma outra grande nação, durante séculos. O cristianismo se torna a única força que tenta unificar todos os povos europeus.

A fase inicial da Idade Média, na Europa, apresentou uma decadência geral de todos os conhecimentos. Após Galeno, não são conhecidos grandes autores médicos. No século IV, Oribasius de Bizâncio (325-403) escreve uma grande enciclopédia médica, em grego, sem acrescentar muita coisa a Galeno e outros autores antigos.

Apesar do desinteresse geral pelo estudo e pelo conhecimento erudito, alguns autores conservaram a tradição greco-romana. Um dos mais importantes foi Isidoro de Sevilha, que viveu aproximadamente entre os anos 570 e 636. Isidoro procurou compilar todo tipo de conhecimento, escrevendo uma espécie de enciclopédia. Entre muitos outros assuntos, ele tratou também da Medicina.

Isidoro se baseia principalmente em Galeno. Ele expõe e defende a doutrina dos quatro humores, sendo a saúde uma proporção harmoniosa entre as qualidades. Apesar dessa base teórica, Isidoro aceita a existência de contágio - provavelmente, baseando-se no conhecimento popular. Por exemplo, ao descrever a hidrofobia, ele afirma:

Hidrofobia quer dizer medo da água, pois os gregos chamavam a água de "hudor", medo de "phobos" (...). Ela surge ou pela mordida de um cão raivoso, ou por causa da espuma que cai do ar ao chão. Se um homem ou animal a tocar, ele imediatamente se tornará demente ou também ficará raivoso.

Ou seja: o contato direto (pela mordida) ou indireto (pela saliva espumante) pode transmitir a doença. Mas como poderia uma harmonia entre os humores ser quebrada por um contato com a saliva do cão raivoso? É difícil conciliar o fato, de conhecimento popular, com a teoria.

Ao falar da peste, Isidoro também admite o contágio:

A praga [pestilentia] é um contágio que, ao atingir uma pessoa, se espalha rapidamente para várias outras. Ela surge do ar corrompido [corrupto aëre], e penetrando nas vísceras se estabelece nelas. Embora esta doença geralmente surja por potências aéreas, no entanto ela nunca pode surgir sem a vontade do Todo Poderoso Deus.

Nota-se aqui idéias semelhantes às de Lucretius, embora menos elaboradas.

Houve, no período medieval, um grande aumento da lepra, na Europa. Sabia-se que essa enfermidade era contagiosa, e os leprosos eram banidos da sociedade. Somente podiam se aproximar de outras pessoas tocando matracas, para que todos pudessem reconhecê-los e prevenir-se do contágio.

A influência do cristianismo na Medicina, durante essa fase, foi negativa. Ressurgiu fortemente a idéia de que a doença era o fruto do pecado. A possessão pelos demônios e a feitiçaria também eram aceitas como causas de enfermidades. Assim sendo, o tratamento principal era pelo arrependimento, pela oração, sacrifícios, etc. O uso de remédios se torna secundário, e deveria ser acompanhado pela oração, como esta, recomendada pelo médico cristão Aetius de Amida (século VI): "Que o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, dê a este medicamento o poder."

Nos mosteiros medievais, os doentes eram tratados com orações e remédios.
Nos mosteiros medievais, os doentes eram tratados com orações e remédios.

Nesse período - e especialmente no século VII - surge o culto popular aos santos curadores. Cosme e Damião, dois irmãos cristãos que haviam sido mártires na Sicília, tornam-se importantes santos médicos. Posteriormente, São Sebastião e São Roque são invocados contra a praga . As peregrinações ou o contato com objetos sagrados são considerados como excelentes para produzir curas de doenças graves.

Os textos médicos medievais europeus, até o século IX, são em geral compilações simplificadas, tiradas em geral de fontes gregas. Alguns são simples listas de drogas e suas indicações. Torna-se cada vez mais rara a leitura das obras originais de Hipócrates ou Galeno, nessa época.

A Medicina, como profissão, praticamente desaparece. O povo mantém certo conhecimento popular de uso de ervas, aliado a práticas de magia das curandeiras. Quando esses recursos não bastam, recorre-se aos mosteiros, onde os religiosos mantinham assistência espiritual e médica aos doentes. É uma época em que predomina, portanto, a Medicina monástica.

Vários mosteiros foram criados especificamente para dar apoio aos doentes. Um deles foi o de Monte Cassino, na Itália, fundado em 529. Os monges tinham a obrigação de estudar as versões latinas simplificadas de Hipócrates e de Galeno, e estudar a obra sobre remédios de Dioscorides. Os monges copiavam os textos clássicos, para preservá-los e para vendê-los a outros mosteiros. Em outros locais da Espanha, França, Irlanda e Alemanha, surgiram outros mosteiros médicos semelhantes. Alguns formaram grandes bibliotecas, como o mosteiro de S. Gall, na Suiça, que tinha seis mil livros médicos, no século IX.

De um modo geral, o interesse principal dos mosteiros continuava a ser a religião, mas em alguns casos o estudo da Medicina deve ter se tornado excessivamente importante. Assim, em 1130, o concílio de Clermont proibiu a prática da Medicina aos monges, pois ela os distraia das obrigações principais.

MEDICINA ÁRABE

Ao mesmo tempo em que se desenvolvia na Europa a Medicina monástica, formava-se e espalhava-se pelo mundo a grande civilização islâmica.

O islamismo se inicia no século VII. Data de 622 a fuga de Muhammad (Maomé) para Meca. Esse movimento religioso se espalha com enorme velocidade e força, conquistando grande parte do mundo em menos de dois séculos. O domínio árabe se estendeu por todo o norte da África e, para leste, pelo Oriente Médio, Mesopotâmia, Pérsia e norte da Índia. A oeste, os árabes penetraram na península ibérica e tomaram a maior parte do território onde atualmente estão Portugal e Espanha.

No século IX, há dois grandes centros políticos, religiosos e culturais do mundo árabe: Bagdá (da antiga Pérsia) ao leste, com uma população de 800.000 pessoas; e Córdova (na atual Espanha), a oeste, com 500.000 habitantes. A unidade dessa vasta civilização era proporcionada pela religião islâmica e pelo idioma árabe.

A cultura médica dos árabes era, inicialmente, do mesmo tipo que estudamos em outras civilizações: de tipo religioso e mágico. Os escritos do início do islamismo mostram que se dava grande valor a amuletos, talismãs e fórmulas mágicas, na cura de doenças.

Gradualmente, no entanto, a civilização árabe se transforma. Durante sua expansão para leste e oeste, os árabes entram em contato com a tradição grega e helenística, egípcia, mesopotâmica e indiana. Surge um grande interesse pelo estudo dessas tradições - especialmente pelo pensamento grego. As mais importantes obras antigas são traduzidas e comentadas pelos árabes e passam a circular pelo mundo islâmico. O idioma árabe se torna, na época, o idioma científico e filosófico mundial.

O estudo e a reflexão sobre o pensamento antigo levaram a um rápido florescimento da cultura árabe. No campo da Medicina, logo surgem não só comentários sobre Hipócrates e Galeno, mas também trabalhos originais.

Este desenho árabe mostra a utilização de ferros em brasa para cauterizar as feridas dos leprosos, na Idade Média.
Este desenho árabe mostra a utilização de ferros em brasa para cauterizar as feridas dos leprosos, na Idade Média.

Na Pérsia, destacam-se Rhazes e Avicena. Rhazes ou Al Rhazi (860-932) nasceu perto do lugar onde agora é Teeran. Escreveu sobre varíola e malária.

Introduziu na Medicina o álcool e a tintura de mercúrio. Avicena ou Ibn Sina (980-1063) escreveu uma famosa obra: o "Qanun" ou "Canon", que serviu de base à Medicina durante séculos.

No ocidente árabe - em Córdova - os mais importantes autores médicos são de um período posterior: Averroes ou Ibn Ruschd (1126-98) e seu estudante, o judeu Moses Maimonides (1135-1204). Ambos foram eminentes filósofos, fortemente influenciados pelo pensamento de Aristóteles.

De um modo geral, os pensadores árabes respeitavam e seguiam as autoridades clássicas. Tinham um bom conhecimento de plantas e remédios, mas davam pouca importância à anatomia e cirurgia.

Vamos dar uma amostra da Medicina árabe, através de alguns trechos do "Canon" de Avicena. Ao discutir as febre pestilenciais, Avicena as associa à transformação e apodrecimento do ar e da água. Nesse sentido, suas idéias se assemelham às dos autores romanos que mencionamos anteriormente.

A água não apodrece, segundo Avicena, por sua própria natureza simples, mas sim apenas quando está misturada a corpos terrestres malignos, que a permeiam e que admitem as qualidades ruins. Da mesma forma, o ar não apodrece segundo sua própria disposição simples, mas apenas quando se misturam a ele certos vapores malignos.

Esta é a causa dos ventos que trazem para os lugares bons, fumaças malignas de lugares longínquos, nos quais existe água estagnada ou de pântanos, alterada pela podridão; ou na qual existem corpos de cadáveres corrompidos, das lutas; ou corpos não sepultados nem incinerados de mortos pela peste (...)

Certas causas desconhecidas também poderiam trazer das profundezas da terra para fora a podridão, que se espalharia pela água e pelo ar. De um modo geral, Avicena afirma que as pestes surgem pelo ar úmido e turvo, sendo mais raras no tempo seco - exceto o cólera, que ele afirma se multiplicar exatamente quando o ar está seco.

Dessa forma, segundo Avicena, o clima interfere no surgimento das doenças pestilenciais, apenas de um modo indireto. A causa não é o próprio estado seco ou úmido, frio ou seco. Isso apenas contribui para o surgimento e difusão da podridão, que seria a verdadeira causa das enfermidades.

Referindo-se à tradição dos hebreus, Avicena indica que vários fenômenos naturais servem para se prever o surgimento da peste: a grande multiplicação de rãs, o surgimento de muitos répteis a partir da podridão, o surgimento de ratos e outros animais subterrâneos sobre a terra, a fuga de pássaros abandonando seus ovos no ninho, e gado caminhando como se estivesse embriagado.

A causa primeira de todas essas doenças, segundo Avicena, vem dos astros e de suas formas. Sempre surgem essas doenças quando há certas configurações celestes e existem as disposições terrestres adequadas. Os sinais celestes principais seriam o surgimento de halos em volta do Sol e da Lua; aparição de fogos no céu; estrelas cadentes e cometas.

Gravura de Avicena
Gravura de Avicena

E quando se fazem as virtudes necessárias dos agentes celestes, e as virtudes passivas terrestres, pela forte umidificação do ar, elevam-se para ele vapores e fumaças, que nele se espalham, e o putrefazem com fraco calor.

Avicena dá vários detalhes sobre os sinais atmosféricos da peste, para cada uma das estações. Como a doença é trazida por substâncias putrefatas misturadas no ar, um sinal importante é que a atmosfera fica turva, enevoada ou enfumaçada - por exemplo, frio com pó e sem chuvas. Se no verão faz frio de noite, e durante o dia um calor forte e sufocante, estando o ar conturbado, pode-se esperar o surgimento da peste, febres pestilenciais, varíola e enfermidades semelhantes.

O ar putrefato é inalado e, segundo Avicena, atinge o coração e daí se espalha por todo o corpo, podendo também se comunicar a outras pessoas:

E quando o ar está deste modo, atinge o coração, no qual corrompe a estrutura do espírito que nele está, e putrefaz toda a umidade que o circunda, (...) e espalha pelo corpo sua causa de fluidez, fazendo a febre pestilencial. E ela se comunica a muitos homens, que possuam em si mesmos a propriedade preparatória. Pois se existe o agente, mas o paciente não está preparado, não ocorrem a ação e o efeito.

É interessante como Avicena tenta explicar a predisposição ao contágio. Aqui, ele faz intervir a teoria dos humores: o corpo está preparado para a doença se estiver cheio de humores maus, ou se estiver debilitado (por exemplo, pelo excesso de atividades sexuais), ou mesmo se os seus poros estiverem dilatados por banhos quentes.

Ao discutir a cura das febres pestilenciais, Avicena indica a necessidade de "secar" o corpo, ou seja, diminuir sua umidade. A justificativa parece ser a de que toda putrefação só ocorre na presença de umidade e portanto, diminuindo a umidade, diminui-se a possibilidade de que as substâncias do corpo apodreçam. Inicialmente, ele indica que se deve produzir a evacuação do ventre. Se surgir nesse processo alguma matéria sanguínea, isso indicaria a necessidade de sangria. Se surgirem outros humores, seria necessário produzir novas evacuações.

A prevenção das pestes parte do mesmo princípio. Deve-se extrair do corpo toda umidade supérflua. Para isso, é necessário restringir as bebidas, os alimentos e os banhos. Recomenda fortemente o uso de vinagre nos alimentos, para impedir sua putrefação. Além disso, recomenda a administração dos antigos antídotos: teriaga e mitridata.

Além de cuidados médicos com o próprio doente, Avicena indica que é necessário "refrigerar" sua casa, e corrigir o ar. A "refrigeração" da casa consiste em utilizar substâncias consideradas "frias". Ele indica o uso de água de rosas, sândalo, cânfora, limão, água de romãs, vinagre e outras substâncias aromáticas.

Segundo Avicena, a correção do ar pestilencial é útil tanto para os sãos quanto para os enfermos. Consiste em produzir bons odores, impedindo sua putrefação com qualquer coisa disponível - aloé, âmbar, almíscar, láudano, cipreste, louro, etc. Recomenda aspergir a casa com vinagre, e fazer fumigações com sândalo, cânfora, mirra e outras substâncias.

De um modo geral, as recomendações de Avicena são coerentes com a idéia de que as pestes são trazidas pela putrefação. No entanto, como foi indicado acima, ele também indica o uso de antídotos (como a teriaga) para proteger contra a peste. Isso parece indicar uma mistura de duas idéias: a da putrefação e a de venenos. Na verdade, para Avicena, as duas idéias estão intimamente relacionadas. Pode-se verificar isso estudando, por exemplo, sua descrição sobre a raiva.

Segundo Avicena, os cães, macacos e outros animais podem se tornar raivosos "quando sua constituição se transforma em um predomínio da bílis negra maligna, venenosa". Essa transformação se dá por causa do ar, de alimentos ou da água. O calor excessivo pode endurecer seus humores, produzindo a raiva no outono; ou então, o frio excessivo pode congelar seu sangue, no inverno, produzindo também a raiva pela produção de bílis negra. Porém, a raiva também poderia surgir quando o animal comesse outros animais mortos em decomposição, ou bebesse água podre, pois isso levaria seus humores a se transformarem em bílis negra putrefata.

Portanto, a putrefação produz também venenos, e por isso a indicação de antídotos nas pestes é coerente, de acordo com as concepções de Avicena.
Percebe-se em Avicena um conhecimento e uso da teoria hipocrática e galênica dos humores, acrescentando no entanto muito elementos novos.

O RENASCIMENTO CULTURAL DA IDADE MÉDIA

A partir dos séculos XI e XII, os europeus iniciam a tradução de muitos textos antigos, conservados pelos árabes, e de obras árabes originais, para o latim. O "Canon" de Avicena, por exemplo, foi traduzido por Gerard de Cremona (1140-1187), em Toledo (Espanha). Através dos árabes, os europeus redescobriram Hipócrates, Galeno, Aristóteles e muitos outros autores que já não eram mais lidos.

Foi principalmente por causa dessa influência que ressurgiu o interesse pelo estudo, na Europa. No século XII, são criadas as primeiras universidades: Paris, em 1110; Bolonha, em 1113; Oxford, em 1167; Montpellier, em 1181; Pádua, em 1222. Nas universidades, os estudos médicos seguiam principalmente as obras de Galeno e de Avicena.

Os médicos formados pelas universidades, nesse período, eram poucos. Em Paris, eram apenas 6 em 1296, e 32 em 1395, para uma população de cerca de 250.000 pessoas. A prática médica continuava na mão de leigos.

Ao mesmo tempo, surgem escolas médicas desvinculadas tanto dos mosteiros quando das universidades, como a famosa escola de Salerno, criada no século XII.

A escola de Salerno produziu, no século XIII, uma obra em versos sobre a manutenção da saúde, que se tornou muito popular, difundindo-se por toda a Europa. Essa obra se chamava "Regimen sanitatis Salernitanum" . Esse livro constitui uma boa amostra da Medicina européia da alta Idade Média.