Fenômeno do período de guerra e apresentando-se como um protesto contra a civilização que provocara o conflito, o Dadaísmo surge em Zurich, 1916, durante a primeira manifestação dadá. "Estávamos indignados com os sofrimentos e o aviltamento do ser humano,- escreve um dos criadores do movimento - e enquanto ao longe troavam os canhões na carnificina, nós cantávamos, pintávamos, colávamos e fazíamos poesia a mais não poder."
O ponto de encontro dos vanguardistas é o Cabaré Voltaire, uma espécie de café literário, "onde todas as noites se processa uma orgia de poemas, canções e danças". A pouco metros dali, curiosamente, mora o exilado russo Lênin, que no ano seguinte comandaria a Revolução Soviética. A principal figura do movimento, o romeno Tristan Tzara faz então a leitura do Manifesto do senhor Antipirina e estabelece a negação mais radical das tradições artísticas do Ocidente, em todos os tempos. Outros escritores recitam os seu textos, interrompendo-os com gritos, soluços, cacarejos e cantos bizarros. De quando em quando, um desses artistas ofende os espectadores com pesados insultos e a platéia geralmente reage com indignação
Há várias interpretações para o sentido da palavra dadá, mas todas, de certa forma, remetem para a idéia de uma palavra infantil, pré-lógica, mágica e incompreensível. Uma palavra que cai como uma luva para essa vanguarda cujo objetivo único é a destruição. Na verdade, ao rejeitar as formas culturais padronizadas e propor o aniquilamento da linguagem literária e mesmo da linguagem social, os dadaístas mergulham no impasse total: a exemplo da vida, a arte não possui qualquer significado. Este niilismo antecipa o desespero cínico em que mergulhariam muitos artistas, no transcurso do século XX, conforme podemos verificar no fragmento de um dos tantos manifestos do movimento:
Nada de pintores, nada de literatos, nada de músicos, nada de escultores, nada de religiões, nada de republicanos, nada de realistas, nada de imperialistas, nada de anarquistas, nada de socialistas, nada de bolcheviques, nada de políticos, nada de proletários, nada de democratas, nada de burgueses, nada de aristocracia, nada de exércitos, nada de polícia, nada de pátrias, enfim, basta de todas essas imbecilidades, não mais nada, não mais nada. NADA,NADA, NADA.
Pegue um jornal Pegue uma tesoura Escolha um artigo do jornal na dimensão que você quer dar ao seu poema Recorte o artigo Depois recorte alguns palavras do artigo e as ponha numa pequena bolsa Sacuda-a suavemente Tire em seguida cada palavra uma após outra Copie honestamente na ordem em que saíram da bolsa E o poema estará pronto e parecido com você E você será um poeta de original, fascinante sensibilidade, ainda que a plebe não o compreenda.
A recusa de todas as manifestações da civilização moderna, da lógica à possibilidade de comunicação da linguagem, e acima de tudo a rebelião contra os valores artísticos europeus levam o Dadaísmo a ser uma espécie de grito romântico contra a sordidez do mundo. Um grito desesperado, destruidor e de efêmera duração pois em 1921 o movimento se dissolve.
A síntese da incomunicabilidade dadaísta é a Canção Dadá do próprio Tristan Tzara:
a canção de um dadaísta que tinha dadá no coração cansava demasiado seu motor que tinha dadá no coração
o ascensor levava um rei pesado frágil e autônomo cortou seu grande braço direito o enviou ao papa em roma
Fonte: educaterra.terra.com.br