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As Farpas (Junho a Julho 1882)

Eça de Queiroz

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder, da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON

SUMMARIO

A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot, Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua para o outro.

* * * * * Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é a ideia.

* * * * * Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que constitue a nacionalidade de um povo.

Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...

Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada, n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

* * * * * Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de categorias diversas.

Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para esse fim.

Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de terra.

Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista, e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.

Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da Baixa.

Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje desprestigiada e choca.

Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si dissidencias acrimoniosas de detalhe.

Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar, engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas, desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha, desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o que seja, deram o nome de _eterna essência._ Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras, com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo d'ella.

Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem muitas vezes a alliança da familia.

* * * * * Passemos á politica.

N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.

Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica, Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias, davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades, absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes, representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e para ahi é que elles não vão.

Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como estéril.

Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores, consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam, principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos de cabellos tingidos.

Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados, fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados, castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional, lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela separação dos interesses operou a separação das energias.

É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o effeito de si proprio.

Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa affirmação em evidencia de facto.

Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se chama--_a questão da fazenda_.

Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado, começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos tem os outros dois! A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam, por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que passou no estado de consolidação para o saco de traz.

A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar de saco, ella cresce.

Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará, collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.

No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha ligado aos progressos da industria.

Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga dos governados para o despreso convicto dos que governam.

* * * * * Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada á protuberancia de cada calo.

Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa, de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada, o interesse.

Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das transacções entre o homem e o infinito? Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas determinadas pela constituição do meio.

Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque, corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda correlativamente as sympathias dos individuos.

Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença, enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes: --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio, elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira, decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o _stylo furriel dos batalhões da carta_.

Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos do publico? Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos insubmissos e o grupo dos domesticados.

Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta, para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa, e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas paginas de poema, de romance ou d'historia.

A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis barrigas, todas postiças.

Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados da Baixa.

Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha, tremem-lhes as pernas, e acocoram.

Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal, Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica, nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é cynico.

Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras, retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos incivis do gado vacum.

O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos, que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais profundas as nossas dissidencias estheticas.

Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.

Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem, rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas, que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._ Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça! * * * * * De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a cohesão da ideia portugueza.

N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam como gotas d'oleo n'um papel passento.

No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía do repositório.

De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

* * * * * Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da patria não movido de premio vil_.

Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado, no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve eslas linhas.

Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas, ainda que immodestamente, o registam.

Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião, este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o desprezo dos seus similhantes.

As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.

Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um carcere.

Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr verdades em evidencia.

Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_ pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É preciso uma broca.

As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica, indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se uma vez participantes no movimento do seu tempo.

Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario, publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu durante trez dias com trez noites.

--É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos nossos reis e nas estalagens.

A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem; reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos, os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar pela gargalhada as mandibulas do publico.

Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito, cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para cohesão social do espirito portuguez.

Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma poesia eterna.

A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de energia e de revivescencia patriotica.

Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e cobarde.

Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte pbrase: _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a philosophia da representação nacional portugueza no presente momento historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara aguarda as determinações do governo.» A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

* * * * * Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões parecia poder-se deduzir: _Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além do muito que já brilhava pela inanidade.

_Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

_Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica assim como a ordem social e a ordem economica.

* * * * * Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria: _Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

_Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações, elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

_Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

* * * * * Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido d'essas soluções? * * * * * Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.

Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar um _troca-tintas,_ apenas.

N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro ventos do seculo.

Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia, Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a especie de contacto com o movimento social ou com os interesses intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma pudicicia de vestal velha.

Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias geraes.

Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de Melpomone.

* * * * * Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros dentro.--Truz truz truz! --Quem é? --Está em casa o governo? --Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.

ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as, explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as, estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem explique as coisas! Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram, desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de Serpa.

* * * * * Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o congresso das associações confederadas.

Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga, para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um symptoma culminante e preciossimo.

Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe canonisado pelo enthusiasmo popular.

* * * * * O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva, foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa: dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da maquina politica.

Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo, depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento em que principiaria a ser necessaria.» Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.

E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das sociedades.

Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve: «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são simplesmente os servos d'aquelles homens.» Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por Spencer.

Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por simples trabalhadores.

O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_ calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro, eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.

Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado? Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.

Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador Napoleão.

O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em produzir trabalho.

Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um modesto professor como Adão Smith.

Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e da fauna do mundo moderno.

Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós da _Declaração dos direitos do homem_? Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade de trabalho.

A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

Na Europa já não ha d'isso.

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