É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me a redigir uma história! Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei o meu saco. É um bom saco. É um saco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo saco! E apesar disso, juro que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com o saco cheio. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras! Como dizia, pois, é cousa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecio as belezas da Santa Bíblia e gozo com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me a redigir uma história! Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei o meu saco. É um bom saco. É um saco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo saco! E apesar disso, juro que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com o saco cheio. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras! Como dizia, pois, é cousa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecio as belezas da Santa Bíblia e gozo com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, - 1 os meus companheiros, o Barão Cúrtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, “o Capitão John”) pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado para umas semanas, com os meus achaques na perna.
(Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. É duro que depois de um homem matar, no decurso da sua honrada carreira, quarenta e cinco leões, seja justamente o último, o quadragésimo sexto que o file e use dele como de tabaco que se masca. É duro! Quebra a rotina, a estimável rotina - e para mim, pessoa de ordem, qualquer surpresa me sabe pior do que fel).
Em terceiro lugar, além de encher os meus ócios, componho esta história para meu filho Henrique, que está em Londres, interno no Hospital de S. Bartolomeu, estudando Medicina. É uma maneira de lhe mandar uma longuíssima carta que o entretenha e que o prenda. Serviço de doentes, numa enfermaria abafada e lôbrega, deve pesar intoleravelmente. Mesmo o retalhar cadáveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e tédio; e assim esta história, onde tudo há menos tédio, vai, por uns dias, levar ao meu rapaz uma saudável e alegre sensação de aventuras, de viagens, de força e de vida livre. E enfim, como última razão, escrevo esta crônica, por ser, sem dúvida, a mais extraordinária que conheço - na realidade ou na fábula. Digo “extraordinária” mesmo para os leitores profissionais de romances - apesar de nela não haver mulheres, além da pobre Fulata. Há Gagula, sim. Mas esse monstro tinha cem anos, pouca forma humana, e não sensibiliza. Em todas estas duzentas páginas, realmente, não passa uma saia. E todavia, assim escasso como é nas graças do feminino, não creio que exista um caso mais raro e mais cativante.
A única vez que tive de fazer publicamente uma narração foi diante dos magistrados, no Natal, quando depus como testemunha sobre a morte dos nossos serviçais Quiva e Venvogel.
Por essa ocasião comecei assim, muito dignamente, com aprovação de todos, com louvores do periódico de Durban: - “Eu, Alão Quartelmar, residente em Durban, no Natal, gentleman, declaro e juro que...” - Não me parece, porém, que seja esta a adequada maneira de principiar um livro. Além disso, posso eu afirmar, em tipo de imprensa, que “sou um gentleman? O que é um gentleman? O que é ser gentleman? Conheço aqui cafres* us que o são; e conheço cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anéis de armas nos dedos, que o não são. Eu, pelo menos, nasci gentleman - apesar de me ter volvido depois num pobre e simples caçador de elefantes. Ora, se nessa carreira e nos acasos que ela me trouxe, permaneci sempre gentleman, não me compete a mim avaliar. Deus sabe que, com valente esforço, procurei conservar-me gentleman - como nascera.
Nota:(*) Cafre = Antigo nome dado à parte da África habitada por não muçulmanos, a Cafraria; sinônimo de indivíduo rude, bárbaro e ignorante. (A.H.S.) - 2 Tenho morto, é certo, muito homem; mas estas duas mãos, bem haja a minha fortuna, estão puras de sangue inútil. Matei para que me não matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como sagrados depósitos que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este princípio; e conto que o bom Deus, um dia, me dirá lá em cima - “Fizeste bem, Quartelmar!” Este mundo, meus amigos, é áspero de atravessar; e os destinos violentos impõem-se por vezes com uma lógica inexorável. Aqui estou eu, homem ordeiro, tímido, bonacheirão, que, constantemente, desde criança, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca roubei. Uma ocasião, é verdade, abalei com quatro vacas que pertenciam a um cafre. Mas o cafre tinha-me rapinado sordidamente – e desde então essas quatro vacas trago-as sempre na consciência. Só quatro vacas. Pois têm-me pesado mais que uma manada de gado! Foi há dezoito meses, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens que deviam ser meus companheiros nesta aventura singular à terra dos cacuanas. Nesse outono, eu andara numa grande batida aos elefantes, para lá do distrito de Bamanguato. Tudo nessa expedição me correu mal, e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas; larguei para as minas de diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei o carrão e o gado, debandei os caçadores, e tomei a diligência para o Cabo. Ao fim de uma semana, no Cabo, descobri que o hotel me roubava infamemente; além disso já vira todas as curiosidades, desde o novo Jardim Botânico que há de certamente conferir grandes benefícios à cidade, até ao novo Palácio do Parlamento que, tenho a certeza, não há de conferir benefícios nenhuns; de sorte que decidi voltar para o Natal pelo Dunkeld, pequeno vapor costeiro que estava nas docas à espera do paquete de Inglaterra, o Edimburgh Castle. Tomei passagem, e fui para bordo. Nessa tarde chegou o Edimburgh Castle; os passageiros que trazia para o Natal transbordaram para o Dunkeld, e levantamos ferro ao pôr do sol.
Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o Dunkeld, havia dois que me despertaram logo certo interesse. Um deles, um homenzarrão de perto de trinta e cinco anos, tinha os ombros mais cheios e os braços mais musculosos que eu até aí encontrara, mesmo em estátuas. Além disso, cabelos ondeados e cor de ouro; barbas ondeadas e cor de ouro; feições aquilinas e de corte altivo; olhos pardos, cheios de firmeza e de honestidade. Varão esplêndido que me fez pensar nos antigos dinamarqueses. Para dizer a verdade, dinamarqueses só conheci um, moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras; mas lembro-me de ter admirado um quadro, os Antigos Dinamarqueses, em que havia homens assim, de grandes barbas amarelas e olhos claros, bebendo num bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam à boca. Este cavalheiro (vim a saber depois) era um inglês, um fidalgo, um baronet. Chamava-se Cúrtis – o Barão Cúrtis. E o que me feriu mais foi ele parecer-se extremamente com alguém, que eu encontrara no interior, para além de Bamanguato. Quem?... Não me podia lembrar.
O sujeito que vinha com ele pertencia a um tipo absolutamente diferente, baixo, reforçado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo pelas suas maneiras que tínhamos ali um oficial de marinha; e verifiquei depois, com efeito, que era um primeiro tenente da Armada Real, reformado em capitão-tenente, e por nome John Good. Este impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguém mais escarolado, mais escanhoado, mais engomado, mais envernizado! Usava no olho direito um - 3 vidro, sem aro, sem cordel, e tão fixo que parecia natural como a pálpebra. Nem um só momento o surpreendi sem aquele vidro, e cheguei mesmo a pensar que dormia com ele cravado na órbita. Só muito tarde descobri que à noite o metia no bolso das calças - no mesmo bolso em que guardava a dentadura postiça, a mais bela, a mais perfeita dentadura que me recordo de ter contemplado, mesmo em anúncios de dentistas. E o capitão, destas, possuía duas! Apenas nos fizemos ao largo, começou o mau tempo. Brisa forte, névoa úmida e fria. Depois cada solavanco (o Dunkeld, barco de fundo chato, não levava carga) que não se podia arriscar uma passada confortável na tolda. De sorte que me recolhi para junto da máquina, onde fazia um calorzinho sereno, e ali fiquei olhando para o pêndulo, que marcava, com desvios largos, o ângulo de balanço do Dunkeld.
- Pêndulo errado - rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da noite que caía.
Olhei. Era o oficial de marinha.
- Errado, hem?... Acha? - perguntei.
- Acho o quê?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pêndulo, não se tornava mais a levantar... Aqui está o que eu acho. Mas é sempre assim, com estes capitães de marinha mercante...
Felizmente, nesse instante, tocou a sineta do jantar, com imenso alivio meu - porque se há, sob a cúpula dos céus, uma cousa temerosa, é a loquacidade de um oficial da marinha de guerra, desabafando sobre a inépcia dos oficiais da marinha mercante. Pior do que essa cousa temerosa - só a cousa inversa! O Capitão John e eu descemos juntos para o salão. O Barão Cúrtis já lá estava, no topo da mesa, à direita do comandante do Dunkeld. John acomodou-se ao lado do seu companheiro; eu defronte, onde havia dois talheres desocupados. Logo depois da sopa o comandante, com a lamentável mania dos homens de mar, começou a falar de caça. Primeiramente de caça miúda, de condores e de abutres. Depois passou a elefantes.
- Ah! comandante (exclamou ao lado um patrício meu, de Durban), para elefantes temos presente uma grande autoridade... Se há homem em África que entenda de elefantes, é aqui o nosso companheiro e amigo Alão Quartelmar.
Por acaso, nesse momento, eu pousara os olhos no Barão Cúrtis; e notei que o meu nome, assim pregoado com a minha profissão, lhe causara emoção e surpresa. John cravou também em mim o seu vidro, com uma curiosidade que faiscava. Por fim o barão inclinou-se, através da mesa, e numa voz grave e funda, bem própria do robusto peito de onde saía: - Peço perdão - disse - mas é porventura ao Senhor Alão Quartelmar que me estou agora dirigindo? - A ele próprio.
O homenzarrão passou a mão pelas barbas, - e distintamente, muito distintamente, o ouvi murmurar: “Ainda bem!” Não se passou mais nada até ao doce. Mas fiquei ruminando aquele espanto e aquele “ainda bem!” Depois do café, enchia o meu cachimbo para subir à tolda, quando o barão, com os seus modos sérios e lentos, se adiantou para mim, e me convidou “a passar ao seu beliche, tomar um grogue, e conversar...” Aceitei. O barão ocupava um camarote - 4 de tolda, o melhor do Dunkeld, espaçoso, arejado, com um sofá, espelhos, e duas largas cadeiras de verga. O Capitão John viera também. Todos três nos sentamos, acendendo os cachimbos, enquanto o moço corria pelos grogues.
Houve primeiramente um silêncio. Outro criado entrou, a acender o candeeiro. Por fim, apareceram os grogues.
O Barão Cúrtis, então, passou a mão pelas barbas, nesse jeito que lhe era costumado, e voltando-se bruscamente: - Diga-me uma cousa, Senhor Quartelmar... Aqui há dois anos, por este tempo, esteve num sítio chamado Bamanguato, ao norte do Transval. Não é verdade? - Perfeitamente - respondi eu, pasmado de que aquele cavalheiro se achasse, no seu condado, em Inglaterra, tão bem informado das jornadas que eu fazia no sul da África! - A negócio, hem? - acudiu o Capitão John.
- Sim, senhor, a negócio. Levei uma carregação de fazendas, acampei fora da feitoria, e lá fiquei até liquidar.
O barão conservou, durante um momento, pregados em mim os seus olhos cinzentos e largos. Pareceu-me que havia neles ansiedade e temor.
- E diga-me, encontrou aí, em Bamanguato, um homem chamado Neville? - Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a descansar o gado antes de meter para o norte. Aqui há meses recebi eu uma carta de um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito desse sujeito... Respondi como pude...
- Bem sei! - atalhou o barão. - Li a sua resposta. Dizia o Senhor Quartelmar que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no princípio de maio, num carrão, com um serviçal e um caçador cafre chamado Jim, tencionando puxar até Iniati, última estação na terra dos matabeles, para de lá seguir a pé, depois de vender o carrão. O Senhor Quartelmar acrescentava que o carrão decerto o vendera ele, porque seis meses depois vira-o em poder de um português. Esse português não se lembrava bem do nome do homem a quem o comprara. Sabia só que era um branco, e que se metera para o mato com um cafre...
- É verdade - murmurei eu.
Houve outro silêncio, que eu enchi com um sorvo ao grogue. Por fim o barão prosseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e ansiosos: - O Senhor Quartelmar não sabe quais fossem as razões que levavam assim esse sujeito Neville para o norte?... Não sabe qual era o fim da jornada? - Ouvi alguma cousa a esse respeito - murmurei.
E calei-me prudentemente, porque nos íamos avizinhando de um ponto em que, por motivos antigos e graves, eu não desejava bulir.
O barão voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar. O outro, por entre a fumaraça do cachimbo, baixou a cabeça num sim mudo. Então o meu homenzarrão, decidido, abriu os braços, desabafou: - Senhor Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidência! Vou-lhe mesmo pedir o seu conselho, e talvez o seu auxílio... O agente que me remeteu a sua carta afiançou-me que eu podia confiar absolutamente no Senhor Quartelmar, que é um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado como nenhum em toda a colônia do Natal.
- 5 Dei um sorvo tremendo ao conhaque, para esconder o meu embaraço - porque sou extremamente modesto.
- Senhor Quartelmar - concluiu o barão - esse sujeito chamado Neville era meu irmão.
- Ah! - exclamei.
Com efeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o barão se parecia! Era com esse Neville. Somente o outro tinha menos corpo, e a barba escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma decisão.
- Era meu irmão - continuou o barão. - Meu irmão mais novo, e único. Até aqui há cinco anos, vivemos sempre juntos. Depois um dia, desgraçadamente, tivemos uma questão, uma terrível questão. E para lhe dizer a verdade toda, Senhor Quartelmar, eu comportei-me para com meu irmão da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do despeito, da cólera, é certo...Mas, em suma, comportei-me injustamente.
- Cruelmente - murmurou do lado o Capitão John, que fumava com os olhos cerrados.
- Cruelmente, com efeito. Como o Senhor Quartelmar sabe, em Inglaterra, quando um homem morre sem testamento e não tem senão bens de raiz, tudo passa para o filho mais velho. Ora sucedeu que meu pai morreu exatamente quando meu irmão Jorge e eu estávamos assim de mal. Herdei tudo; e meu irmão, que não tinha profissão, nem habilitações, ficou sem real. O meu dever, está claro, era criar-lhe uma situação independente. É o que todos os dias se faz em Inglaterra, nesses casos. Mas por esse tempo a nossa questão estava em carne viva. Eu não lhe ofereci nada. Ele também, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim ficamos, de longe; eu rico e ele pobre... Peço perdão de o fatigar com estes detalhes, Senhor Quartelmar, mas preciso pôr as cousas bem claras... Não é verdade, John? - Escrupulosamente claras! - acudiu o outro. - De resto o nosso amigo Quartelmar guarda para si esta história...
- Pudera! - exclamei.
- Pois bem - continuou o barão - meu irmão possuía de seu, nessa época, umas duzentas ou trezentas libras. Um belo dia, agarra nesta miséria, toma o nome de Neville, e abala para África a tentar fortuna! Eu só o soube mais tarde, meses depois dele ter embarcado. Passaram três anos. Notícias dele, nenhumas. Comecei a andar inquieto. Escrevi-lhe. Naturalmente as minhas cartas não lhe chegaram. E eu cada dia mais aflito! Para o Senhor Quartelmar compreender tudo bem, deve saber que, desde pequeno, desde o berço meu irmão foi a forte e grande afeição da minha vida. E, por outro lado, a nossa questão, assim amarga e áspera por sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de quê? De uma mulher cujo nome já quase me esqueceu. E meu pobre irmão, coitado, se ainda é vivo, não se lembrará mais do que eu. Ora aqui tem! E já por isto o Senhor Quartelmar compreende...
- Perfeitamente, perfeitamente...
- Pois bem, descobrir meu irmão passou a ser a minha idéia constante, dia e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquisas. Um dos resultados, o mais importante, foi a sua carta, Senhor Quartelmar. Importante porque me dava a certeza que, meses antes, meu irmão estava na África, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente, continuar as pesquisas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, não têm o interesse de coração; é com o coração justamente que eu conto, com a perspicácia, a inspiração especial que ele às vezes possui. De resto sempre tencionei visitar as nossas colônias da África... E aqui tem o Senhor Quartelmar a minha história. O mais extraordinário, é que o tivéssemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irmão vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia dirigir apenas chegasse ao Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou, pronto para tudo, com o meu velho amigo, o Capitão John, companheiro fiel de muitos anos, que teve a dedicação de me acompanhar.
O outro encolheu os ombros, sorrindo, com a sua esplêndida dentadura.
- Não havia neste momento nada interessante a fazer na velha Europa!... Gasta, insipidíssima, a velha Europa! Depois, reenchendo o cachimbo, acrescentou muito sério: - E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos trazem à África, e o interesse que nos prende a esse homem chamado Neville, espero da sua lealdade que não terá dúvida em nos dizer tudo o que sabe, ou tudo o que ouviu, a respeito dele. Hem? Impressionado, respondi: - Não tenho dúvida, por ser questão de sentimento.
Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mão, e comecei, muito devagar, para tudo pôr bem claro e bem exato: - Aqui está o que ouvi a respeito desse cavalheiro Neville.
E isto, que me lembre, nunca, até ao dia de hoje, o disse a ninguém. Ouvi que esse cavalheiro fora para o interior à busca das minas de Salomão.
Os dois homens olharam para mim, com assombro: - As minas de Salomão‘? Que minas?... Onde são? - Onde são, não sei. Sei apenas onde dizem que estão.
Aqui há anos vi de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas milhas de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguém (quero dizer, homem branco) que o atravessasse, a não ser um, noutras eras. Porque toda esta história vem muito de trás, de há séculos! Eu não tenho dúvida em a contar, mas com uma condição: é que os cavalheiros não a hão de transmitir sem minha autorização. Tenho para isso razões, e fortes. Estão os cavalheiros de acordo? - Com certeza! Narrei então, longamente, tudo o que sabia, história ou fábula, sobre as minas de Salomão. Foi há trinta anos que pela primeira vez ouvi falar destas minas a um caçador de elefantes, um homem muito sério, muito indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas através da África, tradições e lendas singularmente curiosas. Tinha-me eu encontrado com ele na terra dos matabeles, numa das minhas primeiras expedições ao interior, à busca do elefante e do marfim. Chamava-se Evans. Era um dos melhores caçadores da África. Foi estupidamente morto por um búfalo, e está enterrado junto às quedas do Zambeze.
Pois uma noite, sentados à fogueira, no mato, sucedeu mencionar eu a esse Evans umas construções extraordinárias com que casualmente dera, andando à caça do koodoo por aquela região que forma hoje o distrito de Lidenburgo no Transval. Essas obras foram depois encontradas, e aproveitadas até, pela gente que veio trabalhar as minas de ouro. Mas e ninguém (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era uma estrada enorme, magnífica, cortada na rocha viva, levando a uma galeria sem fim, metida pela terra dentro, toda de tijolo, e com grandes pedregulhos de minério de ouro empilhados à entrada. Obra extraordinária! E a raça que a fizera - desaparecera, sem deixar um nome, nem outro vestígio de si, além daquela galeria, que revelavam um grande saber, uma grande indústria e uma grande força! - Curioso! - murmurou Evans. - Mas conheço melhor! E contou-me então que no interior, muito no interior, descobrira ele uma cidade antiquíssima, toda em ruínas, que tinha a certeza de ser Ofir, a famosa Ofir da Bíblia. Lembro-me bem a impressão e o assombro com que eu escutei a história dessa cidade fenícia perdida no sertão da África, com os seus restos de palácios, de piscinas, de templos, de colunas derrocadas!... Mas depois Evans ficara calado, cismando. De repente diz: - Tu já ouviste falar das serras de Suliman, umas grandes serras que ficam para além do território de Machuculumbe, a noroeste? - Não, nunca ouvi.
- Pois, meu rapaz, aí é que Salomão verdadeiramente tinha as suas minas, as suas minas de diamantes! - Como se sabe? - Como se sabe!? Tem graça! Sabe-se perfeitamente. O que é Suliman senão uma corrupção de Salomão? O nome das serras, realmente, sempre foi serras de Salomão. Além disso, uma feiticeira do distrito de Manica, uma velha de mais de cem anos, contou-me tudo... Isto é, contou-me que para lá das serras vive um povo que é da raça dos zulus, e fala um dialeto zulu; mas como força e corpulência, e coragem, vale mais que os zulus. Pois nesse povo há videntes, grandes feiticeiros, que de geração em geração, têm trazido o segredo de uma mina prodigiosa, que foi de um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje está cheia de pedras brancas que reluzem... De sorte que não há dúvida nenhuma.
Para mim havia toda a dúvida. As ruínas de Ofir interessavam-me, como da nossa crença e da Bíblia; mas das minas de pedras brancas que reluzem, conhecidas em segredo por feiticeiros zulus, teria certamente rido se não fora o respeito devido a um caçador tão digno como Evans. De madrugada Evans partiu a acabar tristemente nas pontas de um búfalo. E não pensei mais em Salomão, nem nas suas minas de diamantes.
Aqui há vinte anos porém, num encontro muito singular que tive no distrito de Manica, de novo ouvi falar das minas de Salomão, e de um modo que para sempre me devia impressionar. Era num sítio chamado a “aringa de Sitanda”.
Não há pior em toda a África. Fruta nenhuma, caça nenhuma, tudo seco, tudo triste - e os pretos vendem os ossos de um frango por fazenda que vale uma vaca.
Apanhei lá um ataque de febre, e estava fraquíssimo, enfastiadíssimo, quando me apareceu um dia um português de Lourenço Marques, acompanhado por um serviçal mestiço. Entre os portugueses de Lourenço Marques - há sofrível e há péssimo. Mas este era dos melhores que eu vira - um homem muito alto e muito magro, de belos olhos negros, os bigodes já grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram pensar nos velhos fidalgos portugueses que aqui vieram há séculos e de que tanto se lê nas histórias.
Conversamos bastante nessa noite, porque ele falava um bocado de mau inglês, eu um bocado de mau português; e soube que se chamava José Silveira, e que possuía uma fazenda ao pé da cidade, em Lourenço Marques.
Na manhã seguinte, cedo, antes de partir com o mestiço, acordou-me para se despedir, de chapéu na mão, cortês e grave, como os antigos, os que tinham Dom.
- Até mais ver, camarada! - Boa viagem! Até mais ver! O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que rebrilhavam. Depois acrescentou muito sério: - Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica deste mundo! E pode contar, camarada, que não me hei de esquecer de si! Nem ri. Estava debilitado para rir. Fiquei estirado na manta olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabeça alta e cheia de esperança, se metia pelo mato dentro.
Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no chão defronte da barraca, rilhando a última perna de um desses frangos que os pretos me vendiam por chita do valor de uma vaca, e pasmando para o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto - quando de repente avistei, escura sobre a vermelhidão do poente, numa elevação do terreno, a figura de um homem que era certamente europeu porque trazia um casacão comprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos nele, o homem oscila, cai de bruços e começa a arrastar-se pelo chão, lentamente! Com um esforço desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo cômoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos meus caçadores que acudisse. E quando ele voltou, amparando o homem nos braços - quem hei de eu ver? O José Silveira! José Silveira - eu vira antes o seu miserável esqueleto, com todos os ossos rompendo para fora da pele, mais seca que pergaminho e amarela como gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara, à maneira de dois bugalhos de sangue. E o cabelo que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo branco como uma bela estriga de linho.
- Água! - gemeu ele. - Água, pelas cinco chagas de Cristo! O infeliz tinha os beiços horrivelmente estalados, e entre eles a língua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe água com leite, de que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi necessário arrancar-lhe a vasilha. Depois caiu de costas, rompeu a delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de Suliman, os diamantes e o deserto! Levei-o para dentro da tenda; e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite sossegou. Eu, esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz, dou com ele (forma sinistra!) de joelhos, à porta da barraca, de olhos cravados para o longe, para o deserto! Nesse instante, um raio de sol que nascia frechou através do vasto descampado, e foi bater ao fundo, a cem milhas de nós, o pico mais alto das serras de Suliman. O homem soltou um grito, atirou desesperadamente para diante dos dois braços de esqueleto: - Lá estão elas, Santo Deus, lá estão elas!... E dizer que não pude lá chegar! Parecem tão perto! Logo ali, uns passos mais... E agora acabou-se, estou perdido, ninguém mais pode lá ir! De repente, emudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, face lívida e como esgazeada por uma idéia brusca.
- Ó camarada, onde está você?... Já o não distingo, vai-me a fugir a vista! - Estou aqui; sossegue, homem.
- Tenho tempo para sossegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a morrer. Você tem sido bom comigo, camarada... E para que havia eu de levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguém se aproveita! Talvez você lá possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto que matou o meu pobre criado, que me está a matar a mim...Começou então a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou por fim uma espécie de bolsa de tabaco, já velha, apertada com uma correia. Estava tão fraco que as suas pobres mãos nem puderam desfazer o nó. Fez-me um gesto, um gesto exausto, para que eu o desatasse. Dentro havia um farrapo de linho amarelado, com linhas escritas, num tom antiquíssimo, de cor de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel dobrado.
- O papel - murmurou ele numa voz que se extinguia - é a cópia do que está escrito no trapo. Levou-me anos a decifrar, a entender... Foi um antepassado meu, um dos primeiros portugueses que vieram a Lourenço Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acolá naquelas serras. Chamava-se D. José da Silveira, e já lá vão trezentos anos...
Um escravo que ia com ele, e que ficara a esperar, do lado de cá do monte, vendo que o amo não voltava, procurou-o; foi dar com ele morto, e trouxe para Lourenço Marques o bocado de linho que tinha letras. Desde então ficou guardado na nossa família. Há trezentos anos! E ninguém pensou em o decifrar até que eu me meti nisso... Custou-me a vida. Mas talvez outro consiga. Talvez outro chegue lá, às malditas serras! Será então o homem mais rico deste mundo! O mais rico, o mais rico! Tente você, camarada... Não dê o papel a ninguém! Vá você! As últimas palavras saíram como um débil sopro. Caiu de costas, recomeçou a delirar. Daí a uma hora tudo acabou. Deus tenha a sua alma em descanso! Morreu serenamente, sem esforço e sem dor. Por minhas mãos o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do peito. Ao menos assim não darão com ele os chacais. Foi ao pé da cova, onde o desgraçado jazia, que examinei o documento. Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado de uma fralda de camisa e do tamanho de um palmo. No topo tinha os traços de um mapa, ou de um roteiro, rapidamente e toscamente lançados.
Era pouco mais ou menos isto: Por baixo vinham linhas escritas, numa letra muito antiga e cor de ferrugem. Para mim eram ininteligíveis. Mas o papel continha a decifração, e dizia assim: “Estou morrendo de fome, numa cova da banda norte de um destes montes a que dei o nome de “Seios de Sabá”, no que fica mais a sul. Sou D. José da Silveira, e escrevo isto no ano de 1590, com um pedaço de osso, num farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui voltar, reparar neste escrito, e o levar para Lourenço Marques, que o meu amigo (aqui um nome ilegível), logo pela primeira nau que passar para o Reino, mande estas cousas ao conhecimento de El-Rei, para que Ele remeta uma armada a Lourenço Marques, com um troço de gente, que se conseguir atravessar o deserto, vencer os cacuanas que são valentes, e desfazer os seus feitiços (devem vir muitos missionários) tornarão Sua Alteza o mais rico Rei da Cristandade. Com meus próprios olhos vi os diamantes sem conta amontoados num subterrâneo que era o depósito dos tesouros de Salomão, e que fica por trás de uma figura da Morte. Mas por traição de Gagula, a feiticeira dos cacuanas, nada pude trazer, apenas a vida! Quem vier, siga o mapa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sabá, o esquerdo, até chegar ao cimo, de onde verá logo, para o lado norte, a grande calçada feita por Salomão. Daí siga sempre, e em três dias de marcha encontrará a aringa do rei. Quem quer que venha que mate Gagula. Rezem pelo descanso da minha alma. Que El-Rei Nosso Senhor seja logo avisado. Adeus a todos nesta vida!” Tal era o extraordinário documento que textualmente li ao Barão Cúrtis e ao capitão, porque trazia sempre comigo (e ainda trago) uma tradução dele, em inglês, na carteira.
Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por fim o capitão, com o leve suspiro de quem repousa de uma prolongada emoção, bebeu um trago de grogue - e mais sereno: - O nosso amigo, o Senhor Quartelmar, não nos tem estado a intrujar? Meti com força o papel na algibeira, e, erguendo-me, repliquei secamente: - Se os cavalheiros assim pensam, não me resta mais nada senão desejar-lhes muito boas noites! O barão acudiu, pousando-me no ombro a sua larga mão: - Pelo amor de Deus, Senhor Quartelmar! Nem John nem eu duvidamos da sua veracidade. Mas, enfim, tenho ouvido dizer que aqui na colônia é cousa corrente e bem aceita troçar um pouco os que chegam, os novatos da África... E depois essa história é tão extraordinária! Insisti, ainda ofendido: - O original escrito pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o em Durban! Será a primeira cousa que lhes hei de mostrar em chegando!... Não há uma palavra...
O barão atalhou, gravemente! - Toda a palavra do Senhor Quartelmar é cousa séria, e como tal a tomamos.
Durante um momento ficamos calados. Eu serenei. Por fim o barão, que dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante de mim: - E meu irmão? Confio soube o Senhor Quartelmar que meu irmão tentou também essa jornada às minas? Narrei então o que me sucedera com esse sujeito Neville, quando estávamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu não o conhecia; nem então começamos relações, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia perfeitamente o serviçal que o acompanhava, um chamado Jim. Era um bechuana, excelente caçador - e, para bechuana, esperto, consideravelmente esperto! Na manhã em que Neville devia meter-se para o sertão, vi Jim, ao pé do meu carrão, cortando folhas de tabaco.
- Para onde é essa jornada, Jim? - perguntei eu, sem curiosidade, só para mostrar interesse ao rapaz. - Ides a elefantes? Jim mostrou os dentes todos, num riso vivo: - Não, patrão. Vamos a cousa melhor que marfim.
- Melhor que marfim!? Ouro? - Melhor que ouro! - murmurou ele, arreganhando mais a dentuça.
Calei-me, porque não convinha à minha dignidade de patrão e de branco revelar curiosidade diante de um bechuana.
Confesso, porém, que fiquei intrigado. Daí a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas por ali se quedou, rondando, coçando devagar os cotovelos, à espera, com os olhos em mim. Não dei atenção.
- Ó patrão! - murmurou ele, numa ânsia de desabafar.
Permaneci indiferente, por dignidade. Ele tornou: - Ó patrão! - Que é, homem? - Vamos à procura de diamantes, patrão! - atirou-me ele ao ouvido.
- Diamantes!? Boa! Então ides para o lado oposto. Devíeis meter direito ao sul, para as Diamanteiras. O bechuana baixou mais a voz: - Ó patrão! Já ouviu falar das serras de Suliman? Pois lá é que estão os diamantes. O patrão nunca ouviu? - Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim.
- Não é tolice, patrão. Eu conheci uma mulher que veio de lá, com um filho, e que vivia no Natal. Morreu há anos, o filho por lá anda. E foi ela que me disse tudo. Há lá diamantes! - Olha, Jim, o que te digo é que teu amo vai dar de comer aos abutres, que andam por lá esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens nos ossos, também vai daqui direitinha aos abutres! O homem teve outro riso fino: - A gente tem de morrer, e eu não desgosto de experimentar terras novas. O elefante por aqui já não rende. O bechuana cá vai para os diamantes, e o bechuana vai cantando! - Pois quando a morte te agarrar pelas goelas, veremos então se ainda canta o bechuana! Jim abalou. Daí a meia hora o carrão do Senhor Neville posse em marcha para o norte. Mas não rodara ainda dez jardas, quando Jim voltou para trás, a correr.
- Adeus, patrão! - exclamou. - Não me quis ir de todo sem lhe dizer adeus, porque me parece que o patrão tem razão, e que nunca mais cá voltamos! - Ouve cá, Jim, teu amo vai com efeito às serras de Suliman, ou tudo isso é patranha? O bechuana jurou que não contava patranhas. O amo ia realmente em demanda das serras e das minas que estavam para além. Ainda na véspera o amo dissera que, para tentar fortuna na África, tanto montava ir em cata de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque no torrão tudo havia. Assim ele ia aos diamantes, que era o mais rápido para enriquecer - ou para morrer.
Refleti um momento.
- Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas hás de prometer que não lhas entregas senão em chegando a Iniati! Iniati ficava daí a umas quarentas léguas. O bechuana prometeu.
Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lápis estas linhas: “Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sabá, o esquerdo, até chegar ao cimo, de onde verá logo, para o lado norte, a grande calçada feita por Salomão”.
- Bem! Ora, agora, Jim, quando deres este papel a teu amo, dize-lhe que lho manda quem sabe, e que siga bem a indicação! Mas ouviste? Só lho dás quando chegares a Iniati; que eu não quero que ele me volte para trás e me venha fazer perguntas! Entendeste? Então abala, madraço, que o carrão come caminho! Jim agarrou o bilhete e largou a correr. Daí a pouco o carrão sumiu-se por trás das colinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a respeito desse sujeito Neville.
Mal eu acabara, o barão, sem hesitar, e com perfeita simplicidade, disse: - Senhor Quartelmar, vim à África procurar meu irmão. Desde que alguém o viu, pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim mesmo é marchar também para esse lado. Pode ser que o encontre; ou que venha a saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou que não volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu dever, desde que me impus esta tarefa, é tomar o caminho que meu irmão tomou. E agora pergunto eu: quer o Senhor Quartelmar vir comigo? Também não hesitei. Foi logo, de golpe: - Muitíssimo obrigado, senhor barão! Se tentássemos atravessar as cordilheiras de Suliman, ficávamos lá como os dois Silveiras. Eis a minha cândida convicção. Ora há em Londres um pobre rapaz que anda nos seus estudos, que é meu filho, e que me não tem senão a mim neste mundo. E por ele, se não já por mim, não me convém por ora morrer. Em todo o caso agradeço a sua lembrança. É de amigo! O barão voltou-se para o seu companheiro, com um ar profundamente desconsolado, e que quase comovia naquele homem tão robusto e tão nobre. O outro murmurou: - “É pena, grande pena!” - Senhor Quartelmar! - exclamou então o barão. - Quando me meto numa empresa, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma grande fortuna, e necessito do seu auxílio.
O Senhor Quartelmar pode, portanto, pedir-me o que quiser pelos seus serviços, já não digo dentro do razoável, mas dentro do possível. Além disso, apenas chegarmos a Durban, vamos a um tabelião, e eu obrigo-me, por uma escritura, a continuar a educação de seu filho, no caso de lhe acontecer a si um desastre, ou a deixar-lhe uma independência, no caso de eu estourar também. Vê que estou pronto a tudo. Ainda mais. Se, por acaso, descobríssemos os diamantes, metade deles ficariam pertencendo ao Senhor Quartelmar, outra metade ao Capitão John. É verdade que nenhum de nós acredita nos diamantes, e, portanto, esta vantagem conta como zero. Mas podemos aplicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que encontrarmos. Finalmente, escuso de dizer que todas as despesas da expedição correm por minha conta. Creio que não posso fazer mais.
Eu olhava para ele, deslumbrado: - Barão, essa proposta é a mais generosa que tenho recebido na minha vida! Mas também, que diabo, a empresa seria a mais arriscada em que me tenho metido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe darei a resposta. Por hoje ficamos aqui.
- Ficamos aqui por hoje! - acudiu o capitão, erguendo-se, e respirando com alivio.
Com efeito era tarde. Dei as boas noites aos dois cavalheiros; e no meu beliche, até a madrugada, sonhei com o antigo D. José da Silveira, com El-Rei Salomão, e com montões de pedras que reluziam no fundo de uma caverna.