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O Conde d'Abranhos

Eça de Queiroz

NOTAS BIOGRÁFICAS POR Z. ZAGALO.

À EX.ma SRª CONDESSA D'ABRANHOS

Minha Senhora: – Tive, durante quinze anos, a honra tão invejada de ser o secretário particular de seu Ex.mo Marido, Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos, e consumo-me, desde o dia da sua morte, no desejo de glorificar a memória deste varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo.

V. Exª, Srª Condessa, ergue-lhe neste momento, no cemitério dos Prazeres, um mausoléu comemorativo, onde o cinzel do escultor Craveiro faz reviver a nobre figura do Conde.

Respeitosamente me arrojo, Srª Condessa, a imitar o piedoso acto de V. Exª, e neste livro – como o artista esculpiu no mármore o seu invólucro físico – eu pretendo reconstituir o seu ser moral. A estátua é assim completada pela biografia: na pedra, as gerações contemporâneas poderão contemplar a grandeza da sua atitude e a expressão do seu rosto; no livro, admirarlhe- ão a elevação do espírito e a rectidão da alma.

E quem melhor do que eu poderia tornar conhecido este português histórico – eu, a quem ele fez a confidência das suas crenças, da sua filosofia tão profundamente religiosa, da sua alta ambição, do seu puro amor da Pátria, da sua vasta ciência política? Eu, que tenho presente a sua correspondência, – cuidadosamente arquivada no copiador – os seus manuscritos, os rascunhos dos seus discursos, naquela letra larga e ampla que apresentava similitude com a sua alma; eu, que tive o piedoso cuidado durante quinze anos, de recolher as menores palavras que saíam dos seus lábios – ai! que a anemia ia adelgaçando tão cruelmente – e, apenas entrava no meu quarto andar da Rua do Carvalho, – ninho doméstico que a sua generosidade me permitiu adquirir – escrevia as conversas que, à hora do chá, ou mais tarde no seu escritório, me enlevavam de admiração.

Eu fui a testemunha da sua vida. Outros o viram em S. Bento, nas Secretarias, no Paço, no Grémio, – mas só eu o vi, perdoe-me V. Exª, Srª Condessa, a familiar expressão – em chinelos e de «robe-de-chambre».

Todos conhecem o grande homem. Eu, conheço o homem. Eu – e V. Exª, de quem ele me dizia, pouco antes de morrer, no momento em que lhe dava a colher de bromureto de potássio: –«Zagalo amigo, ao fim da experiência de oito anos de casamento, a Lulu (porque nos momentos de expansão comigo, era este o nome que ele lhe dava, Srª Condessa – pois que, ordinariamen te, aos inferiores dizia, a Condessa, e aos seus iguais, a D. Catarina) a Lulu, amigo Zagalo, tem sido mais que uma esposa, tem sido «um bálsamo». Referia-se o ilustre marido de V. Exª às circunstâncias dolorosas do seu primeiro casamento, a que ele se costumava, referir, chamando-lhe «uma chaga».

Tais são os motivos, Srª Condessa – o desejo de lhe erguer um monumento espiritual e o meu conhecimento íntimo da sua vida – que me levam, depois de demorada reflexão, a escrever esta biografia do Conde d'Abranhos.

Eu conheço – ainda que as minhas tentativas literárias têm recebido do país um acolhimento remunerador – que me escasseiam as qualidades de Estilo e de Critica, para escrever a história complexa deste grande homem: seria necessário, para bem o pintar, um Plutarco, ou, nos tempos mais modernos, um Victor Cousin (que ele tanto admirava), ou ainda, contemporaneamente, um Herculano, um Rebelo, um Castilho – um desses astros que se destacam no céu da nossa Pátria, com uma luz de serenidade eterna. Eu sei, além disso, não serem necessárias apoteoses biográficas para que o pais reconheça o homem que perdeu no Conde d'Abranhos. A dor de toda a Lisboa devia ser bem grata à sua alma. Sim, Srª Condessa, devia ser bem grato ao seu espírito imortal, já arrebatado à serenidade dos eleitos, ver, cá em baixo, nesta Capital que ele amava, nestas ruas que ele tão bem conhecia, a imponente cerimónia do seu préstito fúnebre: o camarista que representava S. M. El-Rei; o presidente do conselho que, apesar da firmeza da sua vontade de ferro, não podia conter as lágrimas que lhe humedeciam as pálpebras; a deputação dos meninos do Asilo de S.

Cristóvão, por quem ele tomava um interesse tão delicado e a quem chamava, com aquela graça que nas horas felizes era o encanto da sua conversa, – «os meus pintainhos»; a deputação das duas casas do Parlamento, levando à frente o orador da maioria, o poeta maravilhoso dos «Sonhos e Enleios», que me disse estas palavras memoráveis que ficarão na História: – «Vimos em nome da Viúva...» – E como eu lhe perguntava, admirado: – «Em nome da Srª Condessa?» – «Não – respondeu o poeta – em nome da Tribuna, viúva do Génio!» – E enfim, fechando o préstito, vinte carruagens particulares, vinte e cinco da companhia e algumas de praça – entre as quais notei com admiração alguns operários da Sociedade «Probidade Cristã», que ele tanto ajudara a formar, e que vinham pagar um tributo derradeiro ao homem que, mais que nenhum em Portugal, amou, protegeu e educou o operário! Ali vinham, quatro numa tipóia, nos seus casacos dos domingos, as lágrimas nos olhos, a fé no peito, levar com saudade à sepultura aquele que um dia exclamara na Câmara dos Deputados (sessão de 15 de Agosto, «Diário do Governo» nº 2758): – «Não podemos dar ao operário o pão na terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança!» E quem negará aí que não seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade das classes trabalhadoras? Mas não foram estas as únicas demonstrações de luto social. A Imprensa – a que ele se orgulhava de pertencer, e a que chamava, com tanta elevação, o «porta-voz do progresso» – dedicou-lhe páginas que, pela unanimidade do sentimento, e até, se me é permitido descer a estes detalhes, o tipo grande dos artigos, entre tarjas negras, lembravam os funerais de um Rei.

As musas mesmo o choraram, e quem esquecerá essa jóia da poesia portuguesa, que dedicou à sua morte o nosso grande lírico, o autor melodioso dos «Cânticos e Suspiros»? Ah! Srª Condessa, recitemos ambos, na nossa dor comum, esta estrofe, digna dos Hugos, dos Passos e dos Leais: Teu corpo desce à terra escura e fria...

Terra de Portugal. Treva sombria Te cobre e te devora! Mas não perecerá teu génio altivo, E surges para a História redivivo como da Noite a Aurora...

A música mesmo (para que todas as Artes se reunissem no coro de prantos) lá lhe vai dar o seu tributo, nessa inspirada com posição–eA Civilização» – valsa dedicada à memória do ilustre Conde d'Abranhos, pelo padre Abílio Figueira! Era tempo, pois, Srª Condessa, que eu, que nessa grande explosão de dor me conservei taciturno e retraído (devendo dizer-se que o severo ataque de fígado que então me prostrou, resultante das longas noites de vigília à cabeceira do grande enfermo, me forçou a um silêncio involuntário) – venha enfim depor sobre o seu túmulo esta memória humilde.

A Ele, Srª Condessa, devo tudo. O pão do corpo e o pão da alma, me deu ele com generosidade larga e fidalga. Nunca o esquecerei. Por vezes, quando me via (sobretudo.4 depois da bronquite de que padeci no Inverno de 1870) um pouco pálido ou debilitado, ele próprio ia ao armário do seu escritório e por sua mão me servia de um, às vezes dois cálices de vinho do Porto de 1815. Nos dias em que tinha gente a jantar, nunca se esquecia de mandar guardar alguma sobremesa para eu levar a meus filhos, que lhe devem, além desta lembrança mimosa, a educação sólida e cristã de que gozam e que os habilitará, espero, a entrar um dia, com justo mérito, nas Repartições do Estado.

Mas, Srª Condessa – eu sou feliz em o poder dizer bem alto – o que acima de tudo devo ao Conde d'Abranhos, é ter-me ele refeito um ser moral. Eu, que na mocidade, sob a influência perniciosa de leituras inconvenientes e de camaradagens fúteis, partilhava as ideias que a sociedade condena, fui transformado pelo seu exemplo, pelos seus conselhos, pela sua eloquência e pela sua protecção. Sim, Srª Condessa, seu ilustre marido encontrou-me pobre, e portanto repastando-me de leituras perniciosamente democráticas, e acompanhando com moços de talento, é certo, mas inteiramente devorados pelos estragos de unia filosofia materialista e de uma sociologia anárquica; empregando-me como seu secretário particular, com um ordenado suficiente às neces-sidades de minha família (eu casara então com a minha angélica Madalena), o Conde d'Abranhos deu-me os meios materiais de me tornar um conservador convicto, um defensor fervoroso das instituições, um amigo da ordem. Pondo-me ao abrigo da pobreza, digo-o bem alto, pôs-me ao abrigo da depravação intelectual, moral e social.

E de V. Exª, Srª Condessa, que direi, que o não tenham dito na terra os pobres de que V. Ex.» cura os males e afasta a necessidade, e no Céu, os anjos de quem V. Ex.» é seguramente predilecta – e decerto futura companheira? Permita-me pois, Srª Condessa, que ponha aos pés de V. Exª este trabalho, no qual consignei a primeira fase da carreira admirável do Conde d'Abranhos, essa ascensão vertiginosa às culminâncias do poder, de modesto filho de Pena fiel a ministro ilustre, e onde deixei o que na minha alma existe de melhor, de mais nobre, de mais duradouro – a minha respeitosa admiração pela grande figura do Conde d'Abranhos.

Sou de V. Exª o mais humilde criado Z. Z.

Ex-secretário do Ex.mo Sr. Conde d'Abranhos, sócio honorário do Grémio Recreativo do Rio Grande do Sul.

108 – Rua do Carvalho Lisboa – 1º de Janeiro de 1879.

O CONDE D'ABRANHOS ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal.

A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente Sentiu o tenro ser...

como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe.

O parto foi singularmente feliz, e, aludindo a esta circunstância, o Conde muitas vezes me dizia, que, segundo o seu velho amigo Dr. Flores, a facilidade em nascer era o indício misterioso de um destino fácil e de imprevistas fortunas. Todos os homens providenciais – Napoleão I, o nosso Santo Papa Pio IX, o grande estadista Fonseca Magalhães, nasceram – como dizia o Conde com chiste – «com uma perna às costas!» A fortuna começa-lhes no ventre maternal: a porta da vida abre-se-lhes a dois batentes, mostrando-lhes uma sequência de épocas gloriosas, como salões festivos. Outros têm de arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de Inverno. Providenciais antíteses da Sorte! E o parto da mãe do Conde foi tão feliz, que, meia hora depois das primeiras dores, o pequeno Alípio foi trazido triunfantemente para a sala. A comadre sentara-se casualmente diante do presépio, e os dois meninos – o que havia de ser um homem, e o que fora um Deus – sorriamse à claridade das velas festivas do Natal, ambos nuzinhos, ambos ao colo, enquanto de fora, lançados vivamente, vinham os repiques do sino, através dos flocos de neve! Tocante quadro; e poucos conheço – se atendermos à glória do Conde d'Abranhos – que mais mereçam ser lançados na tela ou esculpidos no mármore.

Os pais do Conde, é geralmente sabido, eram pobres. Mas a origem da sua família não só é plebeia – como afectavam supor os seus adversários de ideias – mas, bem estudada, revela uma origem tão nobre como a das melhores casas do norte de Portugal.

Os Abranhos são originários de Amarante e aliados, pelas mulheres, à ilustre casa de Noronha. Em 1758, D. Jacinta Ana de Sobral Vieira Alcoforado e Noronha, viúva do capitãomor Teles Azurara, senhora já avançada em anos, mas ainda de aspecto imponente, casara com Manuel Abranhos, que, pelas suas formas atléticas e beleza viril, era chamado o Apolo de Amarante. Manuel Abranhos não era decerto um fidalgo, mas é inteiramente inexacto o dizerse, como se imprimiu na Revolução de Setembro, então na oposição, que era um carniceiro: estas insinuações pérfidas desonram as grandes lutas intelectuais da política! D. Jacinta Ana concebera por ele uma dessas paixões, como aquelas que a poesia Alípio Severo Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino..6 tem celebrado, e, apesar da renitência dos parentes – que faz lembrar a dos Capuletos, pai e irmão da doce Julieta (tanto as famílias históricas se assemelham nos grandes sentimentos que as agitam) – D. Jacinta apoderou-se do belo Abranhos, e o casamento foi celebrado (recordo-o a título de curiosidade histórica) pelo padre Vicente Tardinho, reitor de Varzelhe, que depois tanto se celebrizou num processo retumbante.

Já então, digamo-lo de passagem, sob a influência dessa vaga aragem revolucionária que soprava de França, tinha principiado esta longa perseguição ao clero, que um dia devia tomar proporções que de certo modo lembram as perseguições de Diocleciano.

O casamento, escrevo-o com dor, não foi feliz. Não possuo os documentos necessários para decidir a quem pertence a responsabilidade das desinteligências crescentes, mas é certo que o belo Apolo que, como dizia com um chiste adorável o Conde, «frequentava muito o seu colega Baco», espancava tão imprevistamente D. Jacinta, que obrigou muita vez esta dama a refugiar-se em casa dos seus parentes, levando apenas sob as suas formas, que tinham conservado uma grande majestade aristocrática, um saiote de flanela! Apesar, porém, destas violências, a paixão de D. Jacinta, que eu respeitosamente comparo à mulher de Putifar ou às Fedras da lenda antiga, trazia-a de novo, submissa e amorosa, à casa comum e ao leito conjugal, até que um dia, (e aqui textualmente copio uma carta, existente no arquivo da família e escrita por Segismundo de Noronha, irmão da dama espancada): «...a sova foi tão forte, que vimos a mana Jacinta entrar-nos pelo portão da casa em camisa e tendo nos ombros nódoas tão roxas e dilatadas, que o padre Simões, o nosso bom capelão, as comparou, com o devido respeito, às nódoas roxas nos ombros do Redentor depois de 12 horas de Via Dolorosa».

A família Noronha exigiu uma reparação. D. Jacinta veio viver com seus irmãos, e cinco meses depois deu à luz um menino que, por se julgar que não sobreviveria, foi à pressa baptizado pelo capelão Simões, com o nome poético de Florido. Sobreviveu, porém, felizmente. E aqui encontro um facto que, por respeito às duas famílias Abranhos e Noronhas, não cerco de comentários; é ele igualmente justificável e condenável. Biógrafos irreverentes e temerários poderiam talvez emitir uma opinião nítida, cortante, definitiva: eu abstenho-me, e assim deve fazer todo o historiador honesto, sempre que se trate de factos em que duas famílias, ambas ilustres, ambas históricas, tenham um conflito de interesses: a ordem social repousa nestas respeitosas reticências.

O facto é este na sua nudez histórica: o menino Floridozinho foi lançado à roda.

Um irmão, porém – e aqui dou amplamente saída ao meu desejo de glorificar os Abranhos – um irmão, porém, de Apolo (que Apolo a esse tempo desaparecera de Amarante) reclamou Florido, adoptou-o, educou-o, e foi recompensado desta nobre dedicação, porque Florido Abranhos foi um espelho de virtudes e uma flor de honradez. É talvez aqui a ocasião de destruir outro erro que tende a introduzir-se na História: o irmão de Apolo, tio de Florido, sem estar decerto numa alta situação social, não era todavia, como perfidamente insinuou em tempos a Gazeta de Portugal, um padeiro. Como dizia o Conde com grande elevação moral, estas pesquisas miúdas, mesquinhas, na intimidade familiar de um homem de Estado, são singularmente odiosas.

Florido, que pelo lado materno era um Noronha, casou em Penafiel, e a sua vida teve a tranquilidade límpida de um belo rio de águas claras que corre entre margens de serenidade idílica. Viveu, amou, trabalhou...

Et sa vieillesse fut comme le soir d'un beau jour...

Teve dois filhos – uma menina que herdou a beleza de seu avô Apoio, e um rapaz.7 que foi António Abranhos, o pai feliz que na noite de Natal de 1826, diante da pompa do Menino Jesus no seu presépio iluminado, apertou nos braços o seu filho único – Alípio Severo de Noronha Abranhos, futuro Conde d'Abranhos.

O Conde, portanto, é da família dos Noronhas – e dos Noronhas que direi que o não saiba a Pátria? O seu nome está na História pelos altos feitos e na Legenda pelos poéticos amores.

Não vos lembrais da nobre canção: Aldina na alta torre Alta torre d'Algeciras, Chora de noite e de dia Que condenou-a seu pai A não ter mais alegria...

Levai-lhe os prantos, oh! rios, Nuvens, levai-lhe os suspiros...

Aldina é uma Noronha. Da torre de Algeciras restam vestígios – todo um lanço de alvenaria, evidentemente do século XIII, descoberto ultimamente pelo nosso distinto arqueólogo Macedo Garção, que ofereceu à família Noronha uma formosa fotografia da ruína.

Outra Noronha foi de grande beleza e ilustrou o seu nome e o da sua raça, partilhando o leito do nosso Rei D. Afonso V.

D. Violante de Noronha, de uma beleza clássica que lhe mereceu o nome de Juno (nesta família, a beleza das mulheres iguala a bravura dos homens) recebeu o mesmo alto favor do nosso senhor Rei D. Pedro II.

Dos varões desta casa citarei Fernando de Noronha, tão cioso da sua raça que um dia, entrando no momento em que um criado repelia com força seu filho Afonso que num inocente brinquedo lhe arrepelava os cabelos, mandou decepar a mão direita ao lacaio.

Estes actos inspiravam um terror salutar e ainda que nos nossos tempos mais doces poderiam ser desaprovados e o júri decerto mandaria o seu autor para a costa de África, eram todavia necessários nessa época gloriosa da monarquia, para manter as classes nos justos limites indicados pela Providência.

Citarei também Camilo de Noronha, que, já neste século foi notável como toureiro e varredor de feiras. A sua destreza no jogo de pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e destroçava a multidão, atirando homens por terra como uma criança que derrota um regimento de soldadinhos de chumbo. Contam-se dele deliciosas anedotas. Na Covilhã, por exemplo, tinha um cavalo adestrado que escoiceava, mal o alegre Camilo de Noronha assobiava.

Costumava aproximá-lo de fidalgos e senhoras (mas sobretudo de plebeus)... Um assobio rápido, um coice imprevisto, e o indivíduo ou a dama eram levados em braços, no meio da hilaridade que entre os seus amigos causavam sempre tais façanhas. Sem inteiramente aprovar estas distracções violentas, não se pode, todavia, deixar de reconhecer que há em tais actos uma plenitude de seiva, de vida animal e de força que agrada em jovens fidalgos.

Estas migalhas de História, apanhadas ao acaso, pintam a traços largos a feição desta família ilustre. Os Noronhas usam sobre o campo de prata três castelos de ouro e este mote: In Chistro spes meu (em Cristo a minha esperança), sublime divisa, a melhor, a mais nobre. E foi esta a divisa do Conde d'Abranhos, até que, por decreto do 1º de Janeiro de 1860, S. M. lhe concedeu o título de Conde. Tomou então este outro mote: Ex corde pro rege (do coração pelo Rei!) Estas palavras, partindo de um homem que não era um cortesão e até então não mostrara especial dedicação pelo Monarca, parecem-me exemplo alto e resplandecente de reconhecimento, neste século de ingratidões endurecidas e lealdades frouxas.

Foi sempre para mim um motivo de assombro que durante a sua infância, Alípio Abranhos não tivesse – como Napoleão, Chateaubriand ou Lord Byron – revelado a sua futura elevação de espírito e de carácter por alguma dessas estranhas precocidades que são como as faíscas inesperadas que saem de um fogo ainda incubado. Os seus primeiros anos são sem relevo e inteiramente incaracterísticos. Ele mesmo o reconhecia com modéstia, quando dizia, sorrindo: «–Como toda a gente, apanhei ninhos e fiz papagaios de papel...

É certo que o meio em que se passou a sua mocidade não oferecia ocasião a que se revelassem os seus gostos inatos e se acentuassem as suas tendências. Estou bem certo que se tivesse sido educado numa dessas velhas casas morgadas, onde gerações letradas formavam ricas e sábias bibliotecas, veríamos o pequeno Alípio deixar os ninhos e os papagaios, para se ir esconder nalgum recanto da silenciosa livraria, e ali, folhear os antigos romances de cavalaria, ou, o que era mais natural à feição nativa do seu espírito, ler, compreendendo-os mal, os filósofos do passado. E porém sabido que seu pai – e não creio ofender a sua memória revelando-o – tinha um pequeno e honesto estabelecimento de alfaiate, e as únicas publicações que decerto ali se veriam entre os cortes de pano, seriam os volumes do antigo Espelho da Moda. Eu creio, porém, que esta falta de vida intelectual foi singularmente favorável ao seu desenvolvimento físico. Não tendo livros que o prendessem em casa, Alípio passava os seus dias pelas hortas e pelos quintais, crescendo em plena natureza, crestado pelo Sol, batido dos largos ares, e, como dizia um poeta antigo, mamando à farta nos peitos de Cíbele.

Foi esta forte educação rural que lhe deu aquelas cores sadias, aquele porte erecto, que destacavam com um tão edificante relevo entre os bustos anémicos e as faces amareladas da raça lisboeta. E a esta primitiva comunicação com a Natureza que ele deveu o seu espírito recto e tão bem ponderado, amando em tudo a ordem, o equilíbrio, a formosa disposição das hierarquias. Mens sana in corpore sano: que eu por mim tenho que as ideias falsas, anárquicas, são o resultado das organizações debilitadas. As cidades modernas, com as suas ruas mal arejadas, os seus quintos andares abafados, o seu rumor trovejante de fábricas e de veículos, a luz crua do gás, a alimentação insa-lubre, formam estas gerações pálidas, nervosas, agitadas por um desejo histérico de novidade, de artifício, de desordem e de violência. E esta a origem do espírito revolucionário. O homem que, pelo contrário, habita os campos, que respira o ar dos largos prados, repousa a vista na vasta linha do horizonte, na serenidade silenciosa das aldeias, ganha, num corpo forte, um espírito calmo: odeia a agitação; está naturalmente preparado para respeitar a Autoridade, os Princípios sólidos, a Ordem, toda a ordenação harmónica e bela do Estado.

Tenho, porém, a certeza de que o Conde, com a sua grande modéstia, não exprimia inteiramente a verdade quando atribuía aos ninhos e aos papagaios o privilégio de lhe absorverem todo o interesse! Não! Já então naquele espírito de criança deviam passar ideias, ainda indefinidas mas fortemente marcadas de originalidade: soltando aos ares os seus papagaios, é de crer que pensasse na eterna aspiração da alma para os cimos azulados da graça; e, ao contemplar ovos de pintassilgo, fofamente dispostos no fundo de um ninho muito quente e muito tenro, decerto lhe devia passar na alma a ideia eterna.9 da instituição da família. Um dia mesmo, ao contar-lhe estas suposições que me tinham atravessado o espírito: – Qual história! – respondeu com bondade o Conde. – Isso são coisas da sua imaginação de poeta. Eu era um cavalão, aqui onde me vê!... Não nego, porém, que desde novo, fui inclinadote a agitar questões sociais!...

E quando eu vejo, hoje, moços saídos das escolas, sem experiência da vida, do Estado, da Administração, quererem reformar a Sociedade, como me parece admirável a modéstia deste homem notável, que classificava assim o seu grande génio filosófico: – inclinadote a agitar questões sociais!...

Assim, pois, crescia o jovem Alípio Abranhos, quando – do que depende o destino dos homens e muitas vezes a sorte das nações! – sua tia Amália veio a Penafiel consultar um dentista americano, então famoso em todo o Norte.

Esta senhora providencial (em que reaparecia a singular beleza do Apolo de Amarante) casara em nova com um proprietário rico de Amarante, e viúva, sem filhos, vivia em isolamento na sua Quinta dos Miguéis.

Naturalmente, em Penafiel, a tia Amália viu frequentemente seu sobrinho Alípio, e bem depressa a graça, a vivacidade, a esperteza do pequeno cativaram a tia, que, secretamente infeliz por não ter filhos, se vira até então obrigada a empregar o seu fundo de afeição maternal nas aves domésticas e nos diversos animais da sua quinta. Alípio era como um filho inesperado que lhe aparecia «a meio do caminho da sua vida» (Dante).

Não é hoje segredo para ninguém que o Conde d'Abranhos preparava um volume de Memórias Intimas, quando o acometeu a doença. E dessas notas interrompidas, truncadas, que eu transcrevo o seguinte parágrafo, relativo a este período decisivo da sua carreira: «Minha tia Amália concebera o plano – abençoado plano! – de me levar para a Quinta dos Miguéis, e mandar-me dar uma educação que me habilitasse a tomar na sociedade a posição elevada que naturalmente me pertencia pela minha bisavó paterna: numa palavra, fazer de mim um Noronha, digno dos Noronhas.

Abriu-se a este respeito com meu pai, que acedeu prontamente, deslumbrado pela perspectiva de me ver possuidor de uma educação que os seus meios de fortuna não lhe permitiriam darme.

A sua vontade, porém, encontrou formidáveis escolhos nas lágrimas de minha mãe.

Separar-se do filho que ela criara ao seu peito, parecia-lhe tão doloroso como uma amputação.

Lembra-me vagamente de a ver abraçada a mim, dizendo, banhada em rios de lágrimas: Ó Lipinho, que te querem levar! Ai, Lipinho, que querem fazer de ti um doutor! Mas meu pai, com o seu bom-senso, minha tia, com as suas promessas, venceram essa resistência, igual à da leoa a que impudente caçador quer arrebatar os filhos, e numa manhã de Agosto – como recordo o opulento Sol nascente, cravando o mundo das suas flechas de ouro! – parti com minha tia Amália para a pitoresca Quinta dos Miguéis, onde me decorreram a infância e a puberdade, primeiro nos infantis brinquedos, mais tarde em úteis estudos. E nunca revisitei a Quinta dos Miguéis, sem uma profunda saudade desses anos descuidosos, e sem ir ao pequeno cemitério, – onde minha tia Amália repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de floridos goivos – ajoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no silêncio da tarde, pela alma simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas da nossa sábia Universidade.» Página admirável! – em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro, seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se, e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade grave, num colorido tão delicado de paisagem! Na Quinta dos Miguéis se passou a mocidade do Conde d'Abranhos. Ali estudou a gramática e o latim, sob a direcção do abade de Serzedelo, velho de raras virtudes cristãs. Ali passou as suas férias de formatura.

Eu tive a honra de o acompanhar, quando o Conde foi tratar da sua eleição a Amarante, numa visita à Quinta dos Miguéis. Do portão, uma rua plantada de loureiros conduz à casa de habitação, baixa, sólida, coberta de um dos lados por uma formosa trepadeira, atulhada de rosinhas brancas. Um lanço de escadas de pedra, ornado de velhos vasos azuis, leva ao salão, grande, pintado de oca, com cortinas vermelhas e brancas, e nas paredes litografias das batalhas de Napoleão. Tudo é simples, patriarcal e grave. O Conde mostrou-me o seu quarto e o rebordo da janela onde, em pequeno, pendurava gaiolas de grilos, com a sua folhinha verde de alface. Dali descobre-se a estrada, no traçado do antigo caminho, onde o Conde (segundo ele próprio me contou) via com inveja passar as liteiras que levavam a Braga e ao Porto os fidalgos das vizinhanças. Já então, um sentimento vago – pressentimento do seu alto destino ou simples aspiração de um espírito distinto para os centros letrados e inteligentes – o levava constantemente a desejar a existência das grandes cidades.

Ao fundo da quinta foge um pequeno regato, muito claro, muito pausado, cujo rumor tem a tristeza das águas mansas que correm entre ervas altas; as margens são cobertas de salgueiros; na Primavera os rouxinóis enchem de ninhos aquele lugar assombrado e terno.

Como a noite que passei na quinta era muito calma, fomos depois de jantar, passear junto ao Ribeiral, que é o nome daquele canto de paisagem elegíaca, e nunca esquecerei a bela confidência com que ali me honrou o Conde.

– V. Exª – tinha eu observado – devia, muitas vezes, durante as férias, vir passear aqui e sentir-se inspirado...

O Conde, que por causa da frescura da noite se estava cuidadosamente agasalhando no seu cachené, parou e disse, com aquele gesto grave que tanto impressionava a Câmara: – Não o conte em Lisboa, Zagalinho, mas uma noite, aqui compus versos! Eu não me atrevia a pedir-lhe que mos recitasse, mas, sem dúvida, a claridade da Lua no meu rosto revelou um desejo tão intenso de os ouvir, que o Conde, sempre bom, me tomou o braço e disse: – Era uma noite de apetite: eu andava aqui a passear, a pensar, fumando o meu charuto, – que a tia Amália tinha horror ao fumo do tabaco –quando, de repente, a Lua ergueu-se por detrás dos salgueiros e um rouxinol pôs-se a cantar... e sem saber como, fiz uma quadra. Não a repita! Lembra-me perfeitamente: Deus existe! Tudo o prova, Tanto tu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde Onde canta o rouxinol! Não pude conter um bravo, respeitoso mas sentido.

– O pensamento é bonito, mas não o diga em Lisboa, Zagalinho. Se os jornais soubessem que fiz versos... Que gostinho para a oposição...

Eu exclamei, rindo: – Que gostinho para a oposição, mas que glória para o ministério...

Ele acrescentou:.

– Enfim, são rapaziadas. Todos nós, mais ou menos, em rapazes, fomos poetas e republicanos... Antes isso que andar a beberricar genebra nos botequins e frequentar meretrizes... Mas quando se entra na verdadeira vida política, é necessário pôr de lado esses sentimentos ternos...

Eu então citei, com respeito, alguns dos nossos homens de estado, que foram, são ainda, poetas de alta imaginação.

– Pois sim... – interrompeu o Conde. – Mas lá têm o seu lugar marcado na formação do Ministério... Um poeta não pode ser Ministro do Reino, mas pode muito bem ser Ministro da Marinha.

Grande verdade política! Quando entrámos, eu atrevi-me a pedir a S. Exª que escrevesse aquela formosa quadra no álbum de minha esposa, que trouxera comigo, esperando obter, no Porto e em Braga, autógrafos de alguns poetas e prosadores das províncias do Norte.

O Conde tomou o álbum, sorrindo, e retirou-se para o seu aposento. Qual não foi, na manhã seguinte, a minha alegria, quando ele mo restituiu, e li ao abrir a página: Deus existe! Tudo o prova, Tanto tu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde Onde canta o rouxinol! Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há senão ilusão e vaidade...

Conde d'Abrunhos.

Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu génio.

Se eu me detive neste incidente íntimo de uma existência histórica, foi para mostrar que o Conde não era um homem destituído de sentimento poético e de imaginação idealista.

Naquele cérebro todo ocupado de legislação, de reformas, de economia política, de debates parlamentares, tinha havido um momento, na sua mocidade, em que florescera, como uma violeta isolada mas fresca, a flor delicada do sentimentalismo. E quis também provar que a poesia não é inteiramente unia arte subalterna e própria de espíritos efeminados, pois que um homem de tão robusto génio prático não desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem romântica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filosófico. Estou certo de que os poetas contemporâneos, os Hugos épicos, os delicados Tennysons, os Campoamores de humorística melancolia, se orgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma vez feriu a lira, fê-lo com tal originalidade, vigor e elevação, que esse simples verso isolado sobe mais alto no céu da Arte do que muitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados ou dos Baudelaires histéricos: Deus existe! Tudo o prova, Tanto tu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde Onde canta o rouxinol! Não farei uma narração detalhada da mocidade estudiosa do Conde. Este estudo não é propriamente uma biografia em que deva seguir, ano a ano, a carreira intelectual do seu vasto espírito. São simples apontamentos, quadros destacados de uma nobre carreira, que servirão para que um mais alto engenho (na frase enérgica do Épico) reconstrua, com suficiente relevo, esta soberba figura histórica.

Desde os onze anos, pois, Alípio Abranhos viveu na companhia de sua tia Amália, e a não ser nas férias do segundo ano, em que a doença da mãe o chamou imperiosamente a Penafiel, não tornou a ver seus pais.

Compreender-se-á facilmente que o jovem Alípio, tendo penetrado num meio mais elevado, habituado no Porto, onde estudara parte dos preparatórios, e depois em Coimbra, às convivências eruditas, cultivadas, educadas, se achava extremamente deslocado na companhia pobre e iletrada de seu pai. Quando, durante anos, se tem vivido pela imaginação com os heróis da História e do Romance, quando se tem o ouvido habituado à nobre linguagem dos Cíceros, dos Titos Lívios, quando se tem acostumado o espírito aos interesses da Ciência, da Lógica e da Metafísica –não é fácil suportar-se a conversação de pessoas que só se preocupam com pequenos interesses locais e «mexericos de vila pobre».

Depois das largas salas e dos vastos horizontes da Quinta dos Miguéis, a pequena casa do pai, com o chão atravancado de retalhos de fazenda e o ar abafado do cheiro acre dos estrugidos, a pequena vila escura, onde os vizinhos vão de noite despejar as imundícies, causavam aos costumes fidalgos daquele Noronha uma repulsa instintiva.

Já então revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habitações tapetadas, pelo serviço harmonioso de lacaios disciplinados. A pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta vez, mais tarde, quando ele subia o Chiado pelo meu braço, eu me vi forçado a afastar com dureza os pobres, que à porta do Baltresqui, ou da Casa Havanesa, vinham, sob o pretexto de filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola; o Conde, se os via muito perto, «ficava todo o dia enjoado». Todavia a sua caridade é bem conhecida, e o Asilo de S.

Cristóvão, a que em parte deveu o seu título, aí está como um atestado glorioso da sua magnanimidade.

Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública devia estar naturalmente toda nas mãos de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.

Isto fazia necessariamente que parte da população «tiritasse de frio e rabeasse de fome». Era certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o sofrimento, lamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e discernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos, regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo apresentado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir perturbar com a expressão da sua face magra e com a narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade. «Isole-se o pobre!» dizia ele um dia na Câmara dos Deputados, sintetizando o seu magnífico projecto para a criação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga, onde.13 seriam acolhidos os miseráveis. Para conseguir a admissão, deveriam provar serem de maior idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias subversivas que, pela greve e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem, em dia de miséria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse). Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blasfemar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc., seria dada a cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos.

Mas, dir-se-á, o Estado, então sustenta-os de graça? Não, – poderia exclamar triunfantemente o Conde, mostrando as páginas admiráveis do seu regulamento, em que se estabelecia, com um profundo sentimento dos deveres do cidadão para com a cidade, que todo o pobre admitido seria forçado a uma considerável soma de trabalho, segundo as suas aptidões. O mais útil parágrafo, a meu ver, é aquele que determina que grupos de pobres sejam forçados a calçar as ruas, colocar as canalizações de gás, trabalhar em monumentos públicos, etc. Tais serviços, todos em favor da Câmara Municipal, obrigá-la- iam a concorrer para a despesa desta instituição, aliviando assim o Estado de uma grande parte dos gastos.

Uma vez admitidos, os recolhidos perderiam o direito de sair – a não ser que provassem que iriam dali ser empregados, de tal sorte que não lhes fosse possível recair nos acasos da miséria.

Em nenhuma legislação humana conheço instituição tão justa, tão eficaz, tão profundamente cristã, tão beneficamente social. E mesmo muito preferível ao Work-House inglês: ali, o pobre conserva uma soma de independência que lhe faz supor a existência de uma soma de direitos: considera-se ainda um cidadão, tem pretensões ao respeito, à igualdade, à consideração: desobedece, revolta-se, foge do Work-House, recai no deboche, na fome, na desordem, no vício. Aqui, não: o pobre fica prisioneiro da caridade! Perde o direito de ter fome. E as classes dirigentes, tendo a certeza de que os seus pobres lá estão, bem aferrolhados, com uma razoável enxerga e um caldo diário, podem dormir descansadas, sem receio de perturbações da ordem ou de revoltas do pauperismo.

Infelizmente este projecto tão perfeito, de que todos os jornais sérios falaram com palavras de comovida admiração, nunca conseguiu passar nas Câmaras. Motivos mesquinhamente governamentais impediram uma tão bela instituição de resolver o grande problema da miséria, pois é com estas sábias medidas que ela se arranca do seio da sociedade, e não com as vossas reformas hipócritas, sofistas da revolução social! Foi esta instintiva repulsão pela pobreza, pelas maneiras rudes, pelas instalações incómodas, que impediu Alípio, desde que gozava na Quinta dos Miguéis as vantagens da educação e os regalos da riqueza, de visitar amiúde a casa modesta de seus pais. li porém uma calúnia dizerse – como o disseram certos panfletos indecorosos – que o Conde, já rico, já ministro, renegara a sua família.

É para mim uma honra, vir hoje, perante Portugal, explicar, destruir esse erro voluntário e hostil.

Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai. Encontrou nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos. As negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas. Tenho nas mãos toda essa correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma previdência geniais. Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate. Isto era.14 naturalmente inaceitável. Como o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde reluzisse a tabuleta «Abranhos, Alfaiate». Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um adversário que lhe poderia responder: – «Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda! Era impossível esta permanente tortura moral. E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática poderiam ter lugar num livro correcto): – Se não queres que eu possua um estabelecimento do ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos «dos azeites e vinagres». (Esta expressão é dele).

O Conde recusou com indignação. Realmente a exigência é curiosa. Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria! Absurdo! Se o Conde, como ele dizia, não fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia. Mas como Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria? – com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento. Em nome dos interesses superiores do Estado, devia repelir aquela proposta. Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos? Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa, com a condição de nunca aparecer aos jantares ou às soirées. O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra e os meus sentimentos. Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não! Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate. Mas nem por isso deixo de ser tão homem de bem como tu.

Homem de bem! Não o era decerto, dando, pela sua ingrata obstinação, motivo a que – se um dia se soubesse, como se soube, este incidente – o Conde fosse insultado na imprensa e escarnecido na Câmara! Esta resposta do pai desgostou muito o Conde; mas com uma bondade quase sobre-humana, escreveu-lhe novamente, remetendo-lhe 200$000 réis, e afiançando-lhe que se algum dia, por falta de trabalho ou doença, se encontrasse em necessidade, o avisasse logo, pois que, apesar da sua carta ofensiva, nunca ele, como filho cristão, perderia o respeito que lhe devia! A esta carta tão nobre, tão filial, o velho alfaiate respondeu devolvendo a letra, nas dobras de um papel onde havia uma palavra única: – M....! – Não transcrevo a palavra (que de resto a inteligência dos que me lêem logo compreenderá) porque me respeito, e nunca ponho nos meus livros essas obscenidades que se permitiu escrever o visionário autor dos Miseráveis, esse épico enfático de uma democracia estéril! M....! Essa palavra foi para o Conde o desgosto grave da sua vida. Era evidente.15 que seu pai, perdendo o respeito próprio, propendia para a obscenidade! Boa razão tivera ele, pois, em não o admitir em sua casa, no convívio da sociedade mais raffinée de Portugal! Deste incidente da vida do Conde, que mais direi que o não saiba o País? É conhecido hoje (tanto o escândalo popularizou o episódio) que, obstinando-se na sua ingratidão, o alfaiate morreu pobre, sem nunca ter escrito a seu filho, que só o soube quando o velho se tinha enterrado. Mas o Sr. Carvalhosa, o deputado da oposição por Penafiel, com essa perfídia que inspira o despeito político, apenas teve conhecimento de que o velho expirava na miséria, apressou-se com pompa, com evidência, a ir-lhe a casa, levar-lhe um médico e enterrá-lo à sua custa. Para quê? Para que se pudesse imprimir nos jornais da oposição – que o Sr.

Ministro deixara morrer o pai numa mansarda infecta e que fora o deputado da oposição quem, por misericórdia, lhe chegara aos lábios a última malga de caldo! Eu vi o Conde chorar na intimidade da sua livraria. Lágrimas de raiva, que para outras não havia lugar. Aquela morte isolada, obscura, silenciosa, numa miséria voluntária, – era a vingança do pai! Deixava-lhe aquela vergonha permanente. Quem sabe mesmo se o alfaiate não teria combinado com a oposição toda aquela lúgubre cena, a enxerga, a aparição do Carvalhosa, a tumba de esmola! – Ai, Zagalo – disse-me o Conde abraçando-me – o maior erro da minha vida foi nascer de semelhante pai! E foi! Por isso o Conde, na sua severa justiça, deixou que o corpo do alfaiate repousasse na vala onde o levara a tumba de misericórdia.

Diante de Deus, como ele dizia, considerava-se filho de sua tia. E a ela, filialmente, elevara aquele belo monumento onde o Anjo chora sobre uma coluna truncada que sustenta um livro, símbolo da educação que facultara ao Conde, e uma pequena bolsa, emblema da fortuna em terras que por testamento lhe deixara.

Mas estas digressões necessárias (pois que, repito, eu não conto na sua disposição cronológica os episódios de tão ilustre existência, mas apenas dou, a traços largos, as feições essenciais da sua fisionomia histórica) trouxeram-me aos anos, não distantes, em que o Conde d'Abranhos viu, por assim dizer, Portugal a seus pés.

Volte pois o leitor comigo a essa formosa estrada do Porto, onde, numa liteira, acompanhado pelo procurador de sua tia, vai o nosso Alípio em direcção a Coimbra.

Os sete anos que aí viveu foram serenos e graves.

Muitas vezes o Conde me disse que a Universidade lhe fizera uma impressão profunda, não tanto como edifício – ainda que seja imponente aquele monumento no alto do monte, severo e isolado, como uma imutável fortaleza de vetusta ciência – mas sobretudo como Instituição. Eu confesso não ser talvez competente para avaliar estas questões de Ensino e de Educação. A pobreza de meus pais não me permitiu a honra vantajosa de ser bacharel, mas tendo convivido com tantos homens ilustres, eu sou como aquele antigo fabricante de ídolos, que, à força de viver entre eles, guardava nas mãos e na túnica alguma coisa do seu dourado. Além disso, neste assunto, como em todos, sigo, por admiração muda e reconhecimento correcto, as ideias e opiniões do Conde d'Abranhos.

A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz. A primeira, naturalmente, sendo o cérebro, governa; a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre e paga a primeira.

Dois mundos – como diz o nosso poeta Gavião – que se não podem confundir e que, vivendo à parte, com fins diferentes, caminham paralelamente na civilização, um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica. Bacharéis são os políticos, os oradores, os poetas, e, por adopção tácita, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores.

Futricas são os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates... O Bacharel, tendo a consciência da sua superioridade intelectual, da autoridade que ela lhe confere, dispõe do mundo; ao Futrica resta produzir, pagar para que o Bacharel possa viver, e rezar ao Ser Divino para que proteja o Bacharel.

O Bacharel, sendo o Espírito, deve impedir que o Futrica, que é apenas a Matéria, aspire a viver como ele, a pensar como ele, e, sobretudo, a governar como ele. Deve mantê-lo portanto no seu trabalho subalterno, que é o seu destino providencial. E isto porque um sabe e o outro ignora.

Esta ideia de divisão em duas classes é salutar, porque assim, educados nela, os que saem da Universidade não correm o perigo de serem contaminados pela ideia contrária – ideia absurda, ateia, destruidora da harmonia universal – de que o futrica pode saber tanto como sabe o bacharel. Não, não pode: logo as inteligências são desiguais, e assim fica destruído esse princípio pernicioso da igualdade das inteligências, base funesta de um socialismo perverso.

Como pode realmente o homem que todo o dia trabalhou no seu tear, e à noite, depois do caldo de couves, dormiu do sono brutal da fadiga física, participar do governo da coisa pública – como esse outro homem que conhece as línguas, tem os princípios da Introdução aos três remos, estudou o Direito Romano, se penetrou do Direito Canónico, leu os poetas do século, discutiu as leis no Parlamento, fez administração nas Secretarias? Irrisão? Outra vantagem da Universidade é a organização dos seus estudos. O Conde considerava-a admirável e a melhor garantia da Ideia Conservadora. E aqui copio textualmente o relatório que acompanha o seu notável Projecto de Reforma do Ensino: «Têm alguns espíritos ávidos de inovação, ainda que no fundo sinceramente afeiçoados aos princípios conservadores, sustentado que o sistema da Sebenta (como na sua jovial linguagem lhe chama a mocidade estudiosa) é antiquado. Eu considero, porém, a Sebenta como a mais admirável disciplina para os espíritos moços. O estudante, habituando-se, durante cinco anos, a decorar todas as noites, palavra por palavra, parágrafos que há quarenta anos permanecem imutáveis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o hábito salutar de aceitar sem discussão e com obediência as ideias preconcebidas, os princípios adoptados, os dogmas provados, as instituições reconhecidas. Perde a funesta tendência – que tanto mal produz – de querer indagar a razão das coisas, examinar a verdade dos factos; perde, enfim, o hábito deplorável de exercer o livre-exame, que não serve senão para ir fazer um processo científico a venerandas instituições, que são a base da sociedade. O livre-exame é o princípio da revolução. A ordem o que é? – A aceitação das ideias adoptadas. Se se acostuma a mocidade a não receber nenhuma ideia dos seus mestres sem verificar se é exacta, corre-se o perigo de a ver, mais tarde, não aceitar nenhuma instituição do seu país sem se certificar se é justa.

Teríamos então o espírito da revolução, que termina pelas catástrofes sociais! Hoje, destruído o regime absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia, é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, discutir, verificar, criticar, comparar, pôr em dúvida? O hábito de decorar a Sebenta produz mais tarde o hábito de aceitar a Carta. A Sebenta é a pedra angular da Carta! O Bacharel é o gérmen do.Constitucional.» Conheço na filosofia contemporânea – sem mesmo exceptuar os livros dos Thiers, dos Guizots, dos Bastiats, dos Pagès – poucas páginas tão profundas. A frase é tersa, viril, nobre, bem ponderada; a argumentação é sã e cerrada, inexpugnável; a ideia tem a solenidade severa de um dogma. Nobre página! E pensar que aquele que a escreveu não escreverá outra, e repousa sob o pedestal da sua estátua, com as mãos em cruz, na terra bruta! Não menos maravilhoso parecia ao Conde o sistema das relações entre o estudante e o lente.

O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social.

O jovem Abranhos bem depressa mostrou, em Coimbra, o seu profundo amor da Disciplina e da Ordem.

O lente de Direito Natural era então o velho Dr. Pascoal; já muito míope, a sua veneranda ciência, os seus achaques, os seus serviços de decano, inspiravam a todos os que admiram estes vetustos sábios encanecidos nos comentários de vetustos compêndios, uma admiração simpática.

Havia, porém, nesse curso (a recordação recente das guerras civis de algum modo o explica) temperamentos rebeldes e perniciosos, que, por o ancião pertencer a uma velha família Miguelista, procuravam como dizia o Conde, achincalhar a prelecção. Foi assim que uma ocasião, de repente, de entre os bancos, um morcego solta o voo, e estonteado pela luz, esvoaça furiosamente, vai bater nos vidros, vai bater nas paredes, vai bater, finalmente, no rosto venerável do Dr. Pascoal. O velho grita, o archeiro corre... Mas, como diz o nosso grande poeta, autor dos Cânticos do Céu: Quem sabe donde vem a aragem fresca? Quem sabe donde vem o voo d'ave? Quem sabe de onde vinha o morcego? No dia seguinte, tinha justamente o venerando doutor aberto a pauta – quando outro morcego, maior, mais negro, começa a esvoaçar furiosamente pela aula! O respeitável Dr. Pascoal fechou a pauta, saiu da aula, todo trémulo, todo branco...

Alípio, porém, vira o condiscípulo indigno que soltara os morcegos, e ali mesmo, na geral, decidiu, por amor da disciplina violada e do professorado ultrajado, acusá-lo ao decano. Mas como repugnava ao seu carácter leal ir, de viva voz, a casa do Dr. Pascoal, denunciar o condiscípulo, redigiu uma carta anónima com estas palavras: O vilão que arrojou o morcego às faces de V. Ex.ª perturbou o recinto escolar, é o nº 89! Era um certo Adriano Cravilho, que – posto que de uma inteligência notável e de.18 um temperamento honesto – tinha, como se diz em Coimbra, «o furor de fazer partidas».

Uma semana depois, condenado por um processo secreto e sumário, era riscado da Universidade perpetuamente. O respeitável Dr. Pascoal, porém, ficara tão reconhecido ao «anónimo» que lhe revelara o autor do malefício, que costumava dizer no conselho da faculdade, que, se soubesse quem era, «pespegava-lhe um accessit no fim do ano. Porque enfim, colegas, livrou a aula de um malvado!» Estas palavras, espalhadas, impressionaram Alípio. O seu acto apareceu-lhe revestido de uma importância inesperada; examinando-o, descobria-lhe a nobreza, via-o como um verdadeiro serviço feito à Ciência, à Disciplina, à Ordem, ao princípio autoritário. E considerava que se é justifi-cado o pudor que nos faz ocultar o serviço feito a um amigo, há uma falsa modéstia em esconder um benefício prestado à sociedade. Pode esquivar-se ao reconhecimento quem salva um homem – não quem salva um princípio! E dias antes dos actos, dirigiu-se a casa do Dr. Pascoal, e escrevendo diante dele as palavras textuais da carta anónima, convidou-o a comparar as letras, provando ao venerável professor que era ele, Alípio Abranhos, quem prestara aquele serviço tão marcante à Disciplina.

– Pois faz favor de deixar o seu nome... faz favor de deixar o seu nome – exclamou o ancião, que estava na idade em que a memória é como tela gasta, que, repuxada, se esgaça.

Alípio deixou o seu nome – e no fim do ano recebia o 1º accessit.

Teve ainda o 1º accessit no segundo ano –ano em que ele, justamente, dedicou a sua dissertação sobre o Direito das Gentes ao Dr. Capelo, conhecido pela redundância dos seus períodos, com esta dedicatória: «Ao Deus da Eloquência, Ex.mo Dr. Capelo, of. d. c. Alípio Abranhos, discípulo deslumbrado».

Teve uma distinção no terceiro ano – ano, exactamente, em que (segundo vejo nas suas notas) a tia Amália lhe aumentou a mesada, o que habilitou Alípio a fazer presentes delicados a D. Rosalinda Carreira, que a calúnia então apontava como concubina do seu lente de Direito Civil.

No quarto ano recebeu enfim o segundo prémio – para o que concorreu uma sabatina em que, argumentando com o lente, o sofista Dr. Abreu, e enleado por um sofisma complexo, lhe lançou estas belas palavras: «não sei o que hei-de responder; a luta é desigual: eu só tenho por mim o estudo e V. Exª, tem o génio!» No quinto ano, ignoro que recompensa recebeu a sua fecunda aplicação.

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