Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de
Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire
de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
— Tu não te vais vestir, Luísa?
— Logo.
Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Noticias, no seu roupão
de manhã de fazenda preta, bordado a soutachet com largos botões
de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco
do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina,
de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras;
com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento
lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações
escarlates.
Tinham acabado de almoçar.
A sala esteirada, alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o
seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo; fazia um grande
calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar
nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido
e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia
desejos de sesta, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé
d’água; nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretone azulado,
os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se
por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar
mal derretido, enchia toda a sala dum rumor dormente.
Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de
chita, sem colete, o jaquetão de flanela azul aberto, os olhos no teto,
pôs-se a pensar na sua jornada ao Alentejo. Era engenheiro de minas,
no dia seguinte devia partir para Beja, para Évora, mais para o sul
até São Domingos; e aquela jornada, em julho, contrariava-o
como uma interrupção, afligia-o como uma injustiça. Que
maçada por um verão daqueles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto
dum cavalo de aluguer, por esses descampados do Alentejo que não acabam
nunca, cobertos dum rastolho escuro, abafados num sol baço, onde os
moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido,
ouvindo em redor, na escuridão da noite tórrida, grunhir as
varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janelas, passar no
ar o bafo quente das queimadas! E só!
Tinha estado até então no ministério, em comissão.
Era a primeira vez que se separava de Luísa; e perdia-se já
em saudades daquela salinha, que ele mesmo ajudara a forrar de papel novo
nas vésperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite,
os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!
E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando,
com uma ternura, naqueles móveis íntimos, que eram do tempo
da manhã; o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas
muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho
painel a óleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas
se percebiam, num fundo lascado, os tons avermelhados de cobre dum bojo de
caçarola e os rosados desbotados dum molho de rabanetes! Defronte,
na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido à moda de
1830, tinha a fisionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual;
e sobre a sua casaca abotoada reluzia a comenda de Nossa Senhora da Conceição.
Fora um antigo empregado do Ministério da Fazenda, muito divertido,
grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã afirmava-lhe
“que o retrato só lhe faltava falar”. Vivera sempre naquela
casa com sua mãe. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz
afilado, muito apreensiva; bebia ao jantar água quente; e ao voltar
um dia do lausperene da Graça morrera de repente, sem um ai!
Fisicamente, Jorge nunca se parecem com ela. Fora sempre robusto, de hábitos
viris. Tinha os dentes admiráveis de seu pai, os seus ombros fortes.
De sua mãe herdara a placidez, o gênio manso. Quando era estudante
na Politécnica, às oito horas recolhia-se, acendia o seu candeeiro
de latão, abria os seus compêndios. Não freqüentava
botequins nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente,
ia ver uma rapariguita costureira, a Eufrásia, que vivia ao Borratem,
e nos dias em que o Brasileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia
Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era enjeitada te no
seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado duma pontinha de
febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lho. Ele nunca fora sentimental:
os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter
amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseirão, burguês: Jorge
ria; não lhe faltava um botão nas camisas, era muito escarolado,
admirava Luis Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dívidas,
e sentia-se feliz.
Quando sua mãe morreu, porém, começou a achar-se só:
era no inverno, e o seu quarto nas traseiras da casa, ao sul, um pouco desamparado,
recebia as rajadas de vento na sua prolongação uivada e triste;
sobretudo à noite, quando estava debruçado sobre o compêndio,
os pés no capacho, vinham-lhe melancolias lânguidas: estirava
os braços com o peito cheio dum desejo; quereria enlaçar uma
cinta fina e doce, ouvir na casa o frou-frou dum vestido! Decidiu casar. Conheceu
Luísa, no verão, à noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos
seus cabelos louros, pela sua maneira de andar, pelos seus belos olhos castanhos
muito grandes. No inverno seguinte, foi despachado, e casou. Sebastião,
o seu íntimo amigo, o bom Sebastião, o Sebastiarrão,
tinha dito, com uma oscilação grave da cabeça, esfregando
vagarosamente as mãos:
-- Casou no ar! casou um bocado no ar!
Mas Luísa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa; tinha cuidados
muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho,
como um passarinho amiga do ninho e das cadeias do macho: e aquele serzinho
louro e meigo veio dar à sua casa um encanto seno.
É um anjinho cheio de dignidade! — dizia então Sebastião,
o bom Sebastião, com a sua voz profunda de basso.
– Estavam casados havia três anos. Que bom que tinha sido! Ele
próprio melhorara; achava-se mais inteligente, mais alegre... E recordando
aquela existência fácil e doce, soprava o fumo do charuto, a
perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida
como no seu jaquetão de flanela!
– Ah! — fez Luísa de repente, toda admirada para o jornal,
sorrindo.
– Que é?
— É o primo Basílio que chega!
E leu alto, logo:
“Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o Sr. Basílio de Brito, bem conhecido na nossa sociedade. S. Exa que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de S. Exa que são numerosos”.
— E são! — disse Luísa, muito convencida.
— Estimo, coitado! — fez Jorge, fumando, anediando a barba com
a palma da mão. — E vem com fortuna, hein?
– Parece.
Olhou os anúncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir
uma das portadas da janela.
— Oh Jorge, que calor que vai lá fora, santo Deus! -. Batia as
pálpebras sob a irradiação da luz crua e branca.
A sala, nas traseiras da casa, dava para um terreno vago cercado dum tabuado
baixo, cheio de ervas altas e duma vegetação de acaso; aqui,
ali, naquela verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas
do sol perpendicular; e uma velha figueira-brava, isolada no meio do terreno,
estendia a sua grossa folhagem imóvel, que, na brancura da luz, tinha
os tons escuros do bronze. Para além eram as traseiras de outras casas,
com varandas, roupas secando em canas, muros brancos de quintais, árvores
esguias. Uma vaga poeira embaciava, tomava espesso o ar luminoso.
-- Caem os pássaros! — disse ela cerrando a janela. — Olha
tu pelo Alentejo. agora!
Veio encostar-se à voltaire de Jorge, passou-lhe lentamente a mão
sobre o cabelo preto e anelado. Jorge olhou-a, triste já da separação:
os dois primeiros botões do seu roupão estavam desapertados;
via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da
camisa: muito castamente Jorge abotoou-lhos.
-- E os meus coletes brancos? — disse.
-- Devem estar prontos.
Para se certificar chamou Juliana.
Houve um ruído domingueiro de saias engomadas. Juliana entrou, arranjando
nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitíssimo
magra. As feições, miúdas, espremidas, tinham a amarelidão
de tons baços das doenças de coração. Os olhos
grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade,
raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho. Usava
uma cuia de retrós imitando tranças, que lhe fazia a cabeça
enorme. Tinha um tic nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto
da roda, rufado pela goma das salas — mostrava um pé pequeno,
bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.
Os coletes não estavam prontos, disse com uma voz muito lisboeta, não
tivera tempo de os meterem goma.
— Tanto lhe recomendei, Juliana! — disse Luísa. —
Bem, vá. Veja como se arranja! Os coletes hão de ficar à
noite na mala!
E apenas ela saiu:
— Estou a tomar ódio a esta criatura, Jorge!
Há dois meses que a tinha em casa e não se pudera acostumar
à sua fealdade, aos seus trejeitos, à maneira aflautada de dizer
chapiéu, tisoiras, de arrastar um pouco os rr, ao ruído dos
seus tacões que tinham laminazinhas de metal: ao domingo, a cuia, o
pretensioso do pé, as luvas de pelica preta arrepiavam-lhe os nervos.
— Que antipática!
Jorge ria:
— Coitada, é uma pobre de Cristo! — Depois, que engomadeira
admirável! No ministério examinavam com espanto os seus peitilhos!
— O Julião diz bem: eu não ando engomado, ando esmaltado!
Não é simpática, não, mas é asseada, é
apropositada...
E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças
de flanela:
— E, enfim, minha filha, a maneira como ela se portou na doença
da tia Virgínia... Foi um anjo para ela! — Repetiu com solenidade:
De dia, de noite, foi um anjo para ela! Estamos-lhe em dívida, minha
filha! — E começou a enrolar um cigarro com a fisionomia muito
séria.
Luísa, calada, fazia saltar com a pontinha da chinela a orla do roupão;
e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, pôs-se a
dizer:
-- Mas enfim, se eu me embirro com ela, não me importa, posso bem mandá-la
embora.
Jorge parou, e raspando um fósforo na sola do sapato:
-- Se eu consentir, minha rica... É que é uma questão
de gratidão, para mim!
Ficaram calados. O cuco cantou meio-dia.
-- Bem, vou à vida — disse Jorge. Chegou-se ao pé dela,
tomou-lhe a cabeça entre as mãos.
-- Viborazinha! — murmurou, fitando-a muito meigamente.
Ela riu. Ergueu para ele os seus magníficos olhos castanhos, luminosos
e meigos. Jorge enterneceu-se, pôs-lhe sobre as pálpebras dois
beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho com uma meiguice:
-- Queres alguma coisa de fora, amor?
Que não viesse muito tarde.
Ia deixar uns bilhetes, ia numa tipóia, era um pulo...
E saiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barítono:
Dio dell‘oro,
Del mondo, Signor
La la ra, la ra.
Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria
estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida,
perfumada, e adormecer! Ou numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se,
ouvindo música! Sacudiu a chinelinha: esteve a olhar muito amorosamente
o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa
infinidade de coisinhas: — em meias de seda que queria comprar, no farnel
que faria a Jorge para a jornada, em três guardanapos que a lavadeira
perdera...
Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço,
foi buscar ao aparador, por detrás duma compota, um livro um pouco
enxovalhado, veio estender-se na voltaire, quase deitada e, com o gesto acariciador
e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a ler, toda interessada.
Era a Dama das Camélias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura,
na Baixa, ao mês. Em solteira, aos dezoito anos, entusiasmara-se por
Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num daqueles
castelos escoceses, que têm sobre as ogivas os brasões do clian,
mobilados com arcas góticas e troféus de armas, forrados de
largas tapeçarias, onde estão bordadas legendas heróicas,
que o vento do lago agita e faz viver: e amara Ervandalo, Morton e lvanhoé,
temos e graves, tendo sobre o gorro a pena de águia presa ao lado pelo
cardo da Escócia de esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno
que a cativava, Paris, as suas mobílias, as suas sentimentalidades.
Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. de Camors e os homens ideais apareciam-lhe
de gravata branca, nas ombreiras das salas de baile, com um magnetismo no
olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana
que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz dava-lhe uma
melancolia enevoada; via-a alta e magra, com o seu longo xale de caxemira,
e os olhos negros cheios de avidez da paixão e dos ardores da tísica;
nos nomes mesmo do livro — Júlia Duprat, Armando, Prudência,
achava o sabor poético duma vida intensamente amorosa; e todo aquele
destino se agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes,
aflições de dinheiro, e dias de melancolia no findo dum coupé
quando nas avenidas do Bois, sob um céu pardo e elegante, silenciosamente
caem as primeiras neves.
— Até logo, Zizi — gritou Jorge do corredor, ao sair.
— Olha!
Ele veio com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.
— Não apareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns
bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela Madame
François que me mande o chapéu. Escuta.
— Que mais, bom Deus?
— Ah! não! Era para ires ao livreiro que me mande mais romances...
Mas está fechado!
Foi com duas lágrimas a tremer-lhe nas pálpebras que acabou
as páginas da Dama das Camélias. E estendida na voltaire, com
o livro caído no regaço fazendo recuar a película das
unhas, pôs-se a cantar baixinho, com ternura, a ária final da
Traviata:
Addio, del Passato...”
Lembrou-lhe de repente a notícia do jornal, a chegada do primo Basílio...
Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. — Fora
o seu primeiro namoro, o primo Basílio! Tinha ela então dezoito
anos! Ninguém o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...
De resto fora uma criancice: ela mesmo, às vezes, ria, recordando as
pieguices ternas de então, certas lágrimas exageradas! Devia
estar mudado, o primo Basílio. Lembrava-se bem dele — alto, delgado,
um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um
jeito de meter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar
o dinheiro e as chaves! Aquilo começam em Sintra, por grandes partidas
de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Colares.
Basílio tinha chegado então da Inglaterra: vinha muito bife,
usava gravatas escarlates passadas num anel de ouro, fatos de flanela branca,
espantava Sintra! Era na sala debaixo pintada a oca, que tinha um ar antigo
e morgado; uma grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre
três degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romãzeiras, onde
ele apanhava flores escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos
de camélias fazia ruazinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam,
tremiam na água do tanque; duas rolas, numa gaiola de vime, arrulhavam
docemente; — e no silêncio aldeão da quinta, o ruído
seco das bolas de bilhar tinha um tom aristocrático.
Depois, vieram todos os episódios clássicos dos amores lisboetas
passados em Sintra: os passeios em Sitiais ao luar, devagar, sobre a relva
pálida, com grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o
vale, as areias ao longe, cheias duma luz saudosa, idealizadora e branca;
as sestas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante
das águas que vão de pedra em pedra; as tardes na várzea
de Colares, remando num velho bote, sobre a água escura da sombra dos
freixos, — e que risadas quando iam encalhar nas ervagens altas, e o
seu chapéu de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!
Sempre gostam muito de Sinta! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos
do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!
Tinham muita liberdade, ela e o primo Basílio. A mamã, coitadinha,
toda cismática, com reumatismo, egoísta, deixava-os, sorria,
dormitava: Basílio era rico então, chamava-lhe tia Jojó,
trazia-lhe cartuchos de doce...
Veio o inverno e aquele amor foi-se abrigar ria velha sala forrada de papel
sangue-de-boi da Rua da Madalena. Que bons serões ali! A mamã
ressonava baixo, com os pés embrulhados numa manta, o volume da Biblioteca
das Damas caído sobre o regaço. E eles, muito chegados, muito
felizes no sofá! O sofá! Quantas recordações!
era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro,
bordada por ela, amores-perfeitos amarelos e roxos sobre um fundo negro. Um
dia veio o final. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos &
Brito, faliu. A casa de Almada, a quinta de Colares foram vendidas.
Basílio estava pobre, partiu para o Brasil. Que saudades! Passou os
primeiros dias sentada no sofá querido, soluçando baixo, com
a fotografia dele entre as mãos. Vieram então os sobressaltos
das cartas esperadas, os recados impacientes ao escritório da Companhia
quando os paquetes tardavam...
Passou um ano. Uma manhã, depois dum grande silêncio de Basílio,
recebeu da Bahia uma longa carta que começava: “Tenho pensado
muito e entendo que devemos considerar a nossa inclinação como
uma criancice...”
Desmaiou logo. Basílio afetava muita dor em duas laudas cheias de explicações:
que estava ainda pobre; que teria que lutar muito antes de ter para dois;
o clima era horrível; não a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe
minha “pomba” e assinava o seu nome todo, com uma firma complicada.
Viveu triste durante meses. Era no inverno; e sentada à janela, por
dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desiludida,
pensava no convento, seguindo com um olhar melancólico os guarda-chuvas
gotejantes que passavam sob as cordas de água; ou sentando-se ao plano,
ao anoitecer, cantava Soares de Passos:
Ai! adeus, acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado,..
ou o final da Traviata, ou o fado do Vimioso, muito triste, que ele lhe ensinara.
Mas então o catarro da mamã agravou-se; vieram os sustos, as
noites veladas. Na convalescença foram para Belas: ligou-se ali muito
com as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre coladas
uma á outra, com um passinho trotado e seco, como um casal de galgos.
O que riam, Jesus! O que falavam dos homens! Um tenente de artilharia tinha-se
apaixonado por ela. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, Ao Lírio de Belas:
Sobre a encosta da colina
Cresce o lírio virginal..
Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.
Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cores. E um dia, tendo
achado numa gaveta uma fotografia que logo ao principio Basílio lhe
mandara da Bahia, de calça branca e chapéu panamá, fitou-a,
encolhendo os ombros:
— E o que eu me ralei por esta figura! Que tola!
Tinham passado três anos quando conheceu Jorge. Ao princípio
não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu
que era a primeira barba, fina, rente, muito macia decerto; começou
a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé
dele como uma fraqueza, uma dependência e uma quebreira, uma vontade
de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, confortável,
sem receio de nada. Que sensação quando ele lhe disse: Vamos
casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios,
sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate, Jorge tinha-lhe
tomado a mão: ela sentia o calor daquela palma larga penetrá-la,
tomar posse dela: disse que sim, ficou como idiota e sentia debaixo do vestido
de merino dilatarem-se docemente os seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria,
que descanso para a mamã!
Casaram às oito horas, numa manhã de nevoeiro. Foi necessário
acender luz para lhe pôr a coroa e o véu de tule. Todo aquele
dia lhe aparecia como enevoado, sem contornos, á maneira dum sonho
antigo —onde destacava a cara balofa e amarelada do padre e a figura
medonha duma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão
colérica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da Igreja,
Jorge comovido distribuía patacos. Os sapatos de cetim apertavam-na.
Sentira-se enjoada da madrugada, fora necessário fazer-lhe chá
verde muito forte. E tão cansada à noite naquela casa nova,
depois de desfazer os seus baús! —Quando Jorge apagou a vela
com um sopro trêmulo, os luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos
olhos.
Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre; pôs-se a adora-lo.
Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas coisas, mexia-lhe
no cabelo, na roupa, nas pistolas, nos papéis. Olhava muito para os
maridos das outras, comparava, tinha orgulho nele. Jorge envolvia-a em delicadezas
de amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito dengueiro. E sempre
de bom humor, com muita graça: mas nas coisas da sua profissão
ou do seu brio tinha severidades exageradas e punha então nas palavras,
nos modos uma solenidade carrancuda. Uma amiga dela, romanesca, que via em
tudo dramas, tinha-lhe dito: “É homem para te dar uma punhalada”.
Ela, que não conhecia ainda o temperamento plácido de Jorge
acreditou, e isso mesmo criou uma exaltação no seu amor por
ele. Era o seu tudo, – a sua força, o seu fim, o seu destino,
a sua religião, o seu homem! — Pôs-se a pensar o que teria
sucedido se tivesse casado com o primo Basílio. Que desgraça,
hein! Onde estaria? Perdia-se em suposições de outros destinos,
que se desenrolavam como panos de teatros: via-se no Brasil, entre coqueiros,
embalada numa rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!
— Está ali a Sra D. Leopoldina — veio dizer Juliana.
Luísa ergueu-se surpreendida:
— Hein? a Sra D. Leopoldina? para que mandou entrar?
Pôs-se a abotoar à pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge
soubesse! Ele que lhe tinha dito tantas vezes que a não queria em casa!”
Mas se já estava na sala, agora, coitada!
— Está bom, diga-lhe que já vou.
Era sua íntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da
Madalena, e estudado no mesmo colégio, à Patriarcal, na Rira
Pessoa, a coxa. Leopoldina era a filha única do Visconde de Quebrais,
o devasso, o caquético, que fora pajem de D. Miguel. Tinha feito um
casamento infeliz com um João de Noronha, empregado da Alfândega.
Chamavam-lhe a “Quebrais”; chamavam-lhe também a “Pão
e Queijo”.
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Jorge odiava-a.
E dissera muitas vezes a Luísa: tudo, menos a Leopoldina!
Leopoldina tinha então vinte e sete anos. Não era alta, mas
passava por ser a mulher mais bem-feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos
muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica,
sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em
alvo: é uma estátua, é uma Vênus! Tinha ombros
de modelo, duma redondeza descaída e cheia: sentia-se nos seus selos,
mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas
metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados
vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era
um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda;
na pele, muito tina, dum trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos
de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, duma negrura intensa, afogados
num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.
Luísa veio para ela com os braços abertos, beijaram-se muito.
E Leopoldina, sentada no sofá, enrolando devagarinho a seda clara do
guarda-sol, começou a queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada,
com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ela feito? Achava-a mais gorda.
Como era um pouco curta de vista, para se afirmar piscava ligeiramente os
olhos, descerrando os beiços gordinhos, dum vermelho cálido.
— A felicidade dá tudo, até boas cores! — disse,
sorrindo.
O que a trazia era perguntar-lhe a morada da francesa que lhe fazia os chapéus.
E há tanto tempo que a não via, já tinha saudades, também!
— Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.
E deixou-se cair sobre a almofada do sofá, encalmada, com um sorriso
aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.
Luísa disse-lhe a morada da francesa, gabou-lha: era barateira e tinha
bom gosto. Como a sala estava escura, foi entreabrir um pouco as portadas
da janela. Os estofos das cadeiras e as bambinelas eram de reps verde-escuro;
o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e naquela
decoração sombria destacavam muito — as molduras douradas
e pesadas de duas gravuras (a Medéia de Delacroit e a Mártir
de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos volumes
do Dante de G. Doré, e entre as janelas o oval dum espelho onde se
refletia um napolitano de biscuit que, na console, dançava a tarantela.
Por cima do sofá pendia o retrato da mãe de Jorge, a óleo.
Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado
e seco: uma das mãos, dum lívido morto, pousava nos joelhos
sobrecarregada de anéis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas
dum mantelete de cetim; e aquela figura longa, macilenta, com grandes olhos
carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas
copiosamente quebradas deixando ver para além céus azulados
e redondezas de arvoredos.
— E teu marido? — perguntou Luísa, vindo sentar-se muito
junto de Leopoldina.
— Como sempre. Pouco divertido — respondeu, rindo, E, com ar sério,
a testa um pouco franzida: — Sabes que acabei com o Mendonça?
— Luísa fez-se ligeiramente vermelha.
— Sim?
Leopoldina deu logo detalhes.
Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensações,
da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luísa; e
na sua necessidade de fazer confidências, de gozar a admiração
dela, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões deles, as maneiras
de amar, os tics, a roupa, com grandes exagerações! Aquilo era
sempre muito picante, cochichado ao canto dum sofá entre risinhos:
Luísa costumava escutar, toda interessada, as maçãs do
rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava
tão curioso!
— Desta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica
filha! -- exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.
Luísa nu.
-- Tu enganas-te quase sempre!
Era verdade! Era infeliz!
-- Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de
cada vez me sai uma maçada.
E picando o tapete com a ponta da sombrinha:
-- Mas se um dia aceno!
-- Vê se acertas — disse Luísa. — Já é
tempo!
Às vezes na sua consciência achava Leopoldina “indecente”;
mas tinha um fraco por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que
quase lhe inspirava uma atração física. Depois desculpava-a;
era tão infeliz com o marido! Ia atrás da paixão, coitada!
E aquela grande palavra, faiscante e misteriosa, donde a felicidade escorre
como a água duma taça muito cheia, satisfazia Luísa como
uma justificação suficiente: quase lhe parecia unia heroína;
e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa
e difícil, de episódios excitantes. Só não gostava
de certo cheiro de tabaco misturado de feno, que trazia sempre nos vestidos.
Leopoldina fumava.
— E que fez ele, o Mendonça?
Leopoldina encolheu os ombros, com um, grande tédio.
— Escreveu-me uma carta muito tola, que afinal bem considerado era melhor
que acabasse tudo, porque não estava para se meter em camisa de onze
varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.
Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma cartelinha, chaves,
uma caixinha de pó-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price,
Falou então do circo. — Uma sensaboria. O melhor era um rapaz
que trabalhava no trapézio. Lindo rapaz, bem-feito, uma perfeição!
E de repente:
— Então teu primo Basílio chega?
-- Assim li hoje no Diário de Notícias. Fiquei pasmada!
— Ah! outra coisa que te queda perguntar antes que me esqueça.
Com que guarneceste tu aquele teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer
um assim.
Tinha-o guarnecido de azul também, um azul mais escuro. - Vem ver.
Vem cá dentro.
Entraram no quarto. Luísa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos.
Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones dum azul pálido.
Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador,
alto, estava entre as duas janelas, sob um dossel de renda grossa, muito ornado
de frascos facetados. Entre as bambinelas, em mesas redondas de pé-de-galo,
plantas espessas, begônias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua
folhagem rica e forte em vasos de barro vermelho vidrado.
Aqueles arranjos confortáveis lembraram decerto a Leopoldina felicidades
tranqüilas. Pôs-se a dizer devagar, olhando em roda:
— E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, bem? Fazes bem, filha,
tu é que fazes bem!
Foi defronte do toucador aplicar pó-de-arroz no pescoço, nas
faces:
— Tu é que fazes bem! — repetia. — Mas vá
lá uma mulher prender-se a um homem como o meu!
Sentou-se na causeuse com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituais
sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoísta!
— Acreditarás que há tempos para cá, senão
estou em casa às quatro horas, não espera, põe-se à
mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre
a cuspir nas esteiras... O quarto dele – nós temos dois quartos,
como tu sabes — é um chiqueiro!
Luísa disse com severidade:
--- Que horror! A culpa também é tua.
— Minha! — e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos,
mais negros. — Não me faltava mais nada senão ocupar-me
do quarto do homem!
Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia
no mundo!
— Nem ciúmes tem, o bruto!
Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o colar e o broche:
— A senhora sempre quer que engome os coletes todos?
— Todos, já lhe disse. Hão de ficar à noite na
inala antes de se ir deitar.
— Que mala? Quem parte? — perguntou Leopoldina.
— O Jorge. Vai às minas, ao Alentejo.
— Então estás só, posso vir ver-te! Ainda bem!
E sentou-se logo ao pé dela, com um olhar que se fizera doce.
— É que tenho tanto que contar! Se tu soubesses, filha!
— O quê? Outra paixão? fez Luísa rindo.
A face de Leopoldina tornou-se grave.
Não era pra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha
vindo.
Sentira-se tão só, tão nervosa! – Vou até
à Luísa, vou palrar um bocado!
E com a voz mais baixa, quase solene:
-- Desta vez é sério, Luísa! — Deu os detalhes.
Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! É poeta! — Dizia
apalavra com devoção, prolongando o som das sílabas.
— É poeta!
Desapertou devagar dois botões do comete, tirou do seio um papel dobrado.
Eram versos.
E muito chegada para Luísa, com as narinas dilatadas pela delícia
da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:
A TI
Farol da Guia, 5 de junho.
Quando cismo à hora do poente
Sobre os rochedos onde brame o mar.,.
Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ela, Leopoldina, visão radiosa que deslizas leve, nas águas dormentes, nas vermelhidões do ocaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, dum sentimentalismo reles, com um ar tísico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que não era “nos esplendores das salas” ou nos “bailes febricitantes” que gostava de a ver: era ali, naqueles rochedos,
Onde todos os dias ao sol posto
Eu vejo adormecer o mar gigante.
-- Que bonito, hein!
Ficaram caladas, com uma comoçãozinha.
Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:
-- Farol da Guia, 5 de junho!
Mas o relógio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo,
atarantada, meteu o poema no seio.
Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro punha-se à
mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais estúpida!
-- Adeus. Até breve, não? — E agora que Jorge ia para
fora, havia de vir muito. — Adeus. Então a francesa, Rua do Ouro,
por cima do estanque?
Luísa foi com ela até ao patamar. Leopoldina já no fundo
da escada ainda parou, gritou:
— Sempre te parece que guarneça o vestido de azul, hein?
Luísa debruçou-se sobre o corrimão:
— Eu assim fiz, é o melhor...
— Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque?
— Sim. Rua do Ouro, Adeus. — E com um gritinho: Porta direita,
Madame François.
Jorge voltou às cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala
a um canto:
— Já sei que tiveste cá uma visita.
Luísa voltou-se, um pouco corada. Estava diante do toucador já
penteada com um vestido de linho branco guarnecido de rendas.
Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandara-a entrar... Ficara
mais contrariada! Era por causa da adresse da francesa dos chapéus.
Tinha-se demorado dez minutos. — Quem te disse?
— Foi a Juliana: que a Sra D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.
— Toda a tarde! que tolice! esteve dez minutos, se tanto!
Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se à janela, pôs-se a sacudir
as duras folhas duma begônia malhada dum vermelho doente, com uma baba
prateada. Assobiava baixo; e parecia todo ocupado em conchegar um botão
de amarílis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino
coração assustado.
Luísa ia passando o seu medalhão de ouro numa longa fita de
veludo preto: tinha uma ternura nas mãos, estava vermelha.
— O calor tem-lhes feito mal... — disse,
Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi à outra janela,
bateu com os dedos nas folhas elásticas duma Makoama de tons verdes
e sangüíneos, e, alargando impacientemente o colarinho como um
homem sufocado:
-- Ouve lá, e necessário que deixes por uma vez de receber essa
criatura. E necessário acabar por uma vez!
Luísa fez-se escarlate.
-- É por causa de ti! é por causa dos vizinhos! é por
causa da decência!
-- Mas foi a Juliana... — balbuciou Luísa.
-- Mandasse-a sair outra vez. Que estavas fora! Que estavas na China! Que
estavas doente.
Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:
-- Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebrais!
E a Pão e Queijo! É uma vergonha!
Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode
caído, que escrevia comédias para o Ginásio! O Santos
Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um gingão
desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar numa boquilha! O
Pedro Câmara, o bonito! O Mendonça dos calos! Tutti quanti!
E encolhendo os ombros, desabrido:
-- Como se eu não percebesse que ela esteve aqui! Só pelo cheiro!
Este horrível cheiro de feno! Vocês foram criadas juntas, etc.,
tudo isso é muito bom. Hás de desculpar, mas se a encontro na
escada, corro-a! Corro-a!
Parou um momento, e comovido:
-- Ora, vamos, Luísa, confessa. Tenho ou não razão? Luísa
punha os brincos, ao espelho, atarantada:
-- Tens — disse.
— Ah! bem!
E saiu, furioso.
Luísa ficou imóvel. Uma lagrimazinha redonda, clara, rolava-lhe
pela asa do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquela Juliana! Aquela bisbilhoteira!
De má! Para fazer cizânia!?
Veio-lhe então uma cólera. Foi ao quarto dos engomados, atirou
com a porta:
-- Para que foi você dizer quem esteve ou quem deixou de estar?
Juliana, muito surpreendida, pousou o ferro:
-- Pensei que não era segredo, minha senhora.
-- Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E
para que mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não
recebo Sra D. Leopoldina?
-- A senhora nunca me disse nada — replicou, toda ofendida, cheia de
verdade.
-- Mente! Cale-se!
Voltou-lhe as costas; veio para o quarto muito nervosa, foi encostar-se à
vidraça.
O sol desapareceu; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento;
pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam abertas
as varandas onde em vasos vermelhos se minava alguma velha planta miserável,
manjericão ou cravo; ouvia-se no teclado melancólico dum piano
a Oração de uma Virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo
vadio do domingo; e na sua janela, defronte, as quatro filhas do Teixeira
Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito riçados, as olheiras pisadas,
passavam a sua tarde de dia santo olhando para a rua, para o ar, para as janelas
vizinhas, cochichando se viam passar um homem - ou debruçadas, com
uma atenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da
calçada.
Jorge tinha razão, coitado! pensava Luísa. Mas, também,
que podia ela fazer? já não ia á casa de Leopoldina,
tirara o seu retrato do álbum da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe
a repugnância de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só
a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E enfim, depois dela
estar na sala não a havia de ir empurrar pela escada abaixo!
Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, apareceu então
ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, pôs-se
a voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um sorriso triste
de dentes brancos — e a Casta Diva, com uma sonoridade metálica
e seca, muito tremida, espalhou-se pela rua.
Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de matemática, veio encostar
logo aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de quarentona
farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta dum segundo andar, debruçou-se
a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o
aspecto desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as mãos
transparentes o robe de chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se
entre as bambinelas de cassa.
Na rua, a estanqueira chegou-se à porta, vestida de luto, estendendo
o seu carão viúvo, os braços cruzados obre o xale tingido
de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo,
veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas
secas, a cara oleosa e enfarruscada, com três pequenos meio nus, quase
negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita.
E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua;
a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima
dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por
trás das costas, debaixo das abas do seu casaco de cetim branco; o
calcanhar sujo da meia saia-lhe para fora da chinela bordada a miçanga;
e fazia roncar o seu pigarro crônico de um modo despeitado. Detestava
os reis e os padres. O estado das coisas públicas enfurecia-o. Assobiava
freqüentemente a Maria da Fonte, e mostrava-se nas suas palavras, nas
suas atitudes, um patriota exasperado.
O homem do realejo tirou o seu largo chapéu desabado e, tocando sempre,
ia-o estendendo em redor para as janelas, com um olhar necessitado. As Azevedos
tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma
moeda de cobre; mas interrogou-o: quis decerto saber de que país era,
por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.
Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo
passeio, as botas empoeiradas: mulheres de xale, vindas da hortas, traziam
ao colo as crianças adormecidas da caminhada e do calor; velhos plácidos,
de calça branca, o chapéu na mão, gozavam a frescura,
dando um giro no bairro: pelas janelas bocejava-se: o céu tomava uma
cor azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a distância
o fim de alguma festa de igreja, e o domingo terminava, com uma serenidade
cansada e triste.
-- Luísa — disse a voz de Jorge.
Ela voltou-se com um vago — hein?
-- Vamos jantar, filha, são sete horas.
No meio do quarto tomou-a pela cinta — e falando-lhe baixo junto à
face:
-- Tu zangaste-te há bocado?
-- Não! tu tens razão. Conheço que tens razão.
-- Ah! — fez ele comum tom vitorioso, muito satisfeito. — Está
claro,
Quem melhor conselheiro e bom amigo
Que o marido que a alma m’escolheu?
E com uma ternura grave:
-- Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta que
é uma dor de alma ver entrar essa mulher aqui, com o cheiro do feno,
do cigano e do resto... Ma, di questo non parleremo più, o donna mia!
À sopa!
CAPÍTULO 2
Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião,
uma cavaqueira, na saia, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa.
Vinham apenas os íntimos. “O Engenheiro”, como se dizia
na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se.
Era um pouco a estudante. Luísa fazia croché, Jorge cachimbava.
O primeiro a chegar era Juiião Zuzarte, um parente muito afastado de
Jorge e seu antigo condiscípulo nos primeiros anos da Politécnica.
Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos
sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente,
estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos,
pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do
seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vinténs, do seu
paletó coçado de alamares; e entalado na sua vida mesquinha,
via os outros, os medíocres, os superficiais, furar, subir, instalar-se
à larga na prosperidade! “Falta de chance”, dizia. Podia
ter aceitado um partido da Câmara numa vila da província, com
pulso livre, ter uma casa sua, a sua criação no quintal. Mas
tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua ciência,
e não se queria ir enterrar numa terriola adormecida e lúgubre,
com três ruas onde os porcos fossam. Toda a província o aterrava:
via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléia, morrendo
de caquexia. Por isso não “arredava pé”; e esperava,
com a tenacidade do plebeu sôfrego, uma clientela rica, uma cadeira
na Escola, um coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha
certeza do seu direito a estas felicidades, e como elas tardavam a chegar
ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se
prolongavam mais os seus silêncios hostis, roendo as unhas; e, nos dias
melhores, não cessava de ter ditos secos, tiradas azedas — em
que a sua voz desagradável caia como um gume gelado.
Luísa não gostava dele: achava-lhe um ar nordeste, detestava
o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas
que mostravam o elástico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe,
porque Jorge admirava-o, dizia sempre dele: Tem muito espírito! Tem
muito talento! Grande homem!
Como vinha mais cedo ia à sala de jantar, tomava a sua chávena
de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador
e para as toilettes frescas de Luísa. Aquele parente, um medíocre,
que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no
ministério, com alguns contos de réis em inscrições
— parecia-lhe uma injustiça e pesava-lhe como uma humilhação.
Mas afetava estimá-lo; ia sempre às noites, aos domingos; escondia
então as suas preocupações, cavaqueava, tinha pilhérias,
— metendo a cada momento os dedos pelos seus cabelos compridos, secos
e cheios de caspa.
Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha
logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
Tinha cinqüenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia
e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas
transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente
anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça
e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor,
luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da
boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos
de uma pena muito fma. Fora a íntima amiga da mãe de Luísa,
e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga,
dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota,
muito da Encarnação.
Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa,
perguntava-lhe baixo, com inquietação:
— Vem?
— O Conselheiro? Vem.
Luísa sabia-o. Porque o Conselheiro, o Conselheiro Acácio, nunca
vinha aos chás de D. Luísa, como ele dizia, sem ter ido na véspera
ao Ministério das Obras Públicas procurar Jorge, declarar-lhe
com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:
— Jorge, meu amigo, amanhã lá irei pedir à sua
boa esposa a minha chávena de chá.
Ordinariamente acrescentava:
— E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro,
os meus respeitos a S. Exª. Os meus respeitos a esse formoso talento!
E saía pisando com solenidade os corredores enxovalhados.
Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco
com aquela chama. Luísa dizia: Ora! é uma caturrice dela! Viam-na
corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado,
irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma
doença e desmoralizando como um vício. Todos os seus ardores
até aí tinham sido inutilizados. Amara um oficial de lanceiros
que morrera, e apenas conservava o seu daguerreótipo. Depois apaixonara-se
muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhança, e vira-o casar.
Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe
por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado
na sala de jantar. A pessoa do Conselheiro viera de repente, um dia, pegar
fogo àqueles desejos, sobrepostos como combustíveis antigos.
Acácio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade,
arregalava grandes olhos para a sua eloqüência, achava-o numa “linda
posição”. O Conselheiro era a sua ambição
e o seu vício! Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação
demorada a estonteava como um vinho forte; era a calva. Sempre tivera o gosto
perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito
inflamara-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do Conselheiro,
larga, redonda, polida, brilhante às luzes, uma transpiraçao
ansiosa umedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade
absurda, ávida de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe
as formas, amassá-la, penetrar-se dela! Mas disfarçava, punha-se
a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejavalhe
nas roscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações,
impunha-se penitências de muitas coroas à Virgem; mas apenas
as orações findavam, começava o temperamento a latejar.
E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadelos lascivos e as melancolias
do histerismo velho. A indiferença do Conselheiro irritava-a mais:
nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o comovia!
Era para com ela glacial e polido. Tinham-se às vezes encontrado a
sós, à parte, no vão favorável de uma janela,
no isolamento mal alumiado de um canto do sofá, — mas apenas
ela fazia uma demonstração sentimental, ele erguia-se bruscamente,
afastava-se, severo e pudico. Um dia ela julgara perceber que, por trás
das suas lunetas escuras, o Conselheiro lhe deitava de revés um olhar
apreciador para a abundância do seio; fora mais clara, mais urgente,
falara em paixão, disse-lhe baixo: — Acácio!... Mas ele
com um gesto gelou-a — e de pé, grave:
— Minha senhora,
As neves que na fronte se acumulam
Terminam por cair no coração...