PortalSaoFrancisco.com.br
Fale Conosco    Indique o Portal             

Vida de Antero de Quental

Eça de Queiroz

UM GÉNIO QUE ERA UM SANTO

I

Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio,.

atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.

A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.

Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII - mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades.

O homem com efeito cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura, e

 

 

 

 

 

 

 

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo: - É o Antero!...

Deus conversava com Garrett. Depois, se bem me lembro, conversava com Platão e com Marco Aurélio. Todo o Céu era uma radiante academia. Os santos mais ilustres, os Agostinhos. os Ambrósios, os Jerónimos, permaneciam fora, pelos pátios divinos, sumidos numa névoa subalterna, como plebe imprópria a penetrar no concilio dos filósofos edos poetas. Mas o escravo Epicteto aparecia, ainda coberto das cicatrizes do látego e dos ferros - e Deus estendia ao escravo Epitecto a sua vasta mão direita, donde se esfarelava o barro com que ele fabrica os astros...

 

 

 

 

 

 

Então, perante este Céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida.

Intimidade, porém, com aquele que eu depois chamava «Santo Antero», só verdadeiramente começou na manhã em que o visitei, com muita curiosidade e muita timidez, na sua casa do Largo de São João. Era o hereditário quarto da velha Coimbra, com as portas rudemente besuntadas de azul, o tecto alto de madeira fusca, e a cal das paredes riscada por todas as cabeças de lumes-prontos que em cinquenta anos ali se tinham raspado, com preguiça, para acender a torcida de azeite, à hora triste em que toca a «cabra». A um canto um leito de ferro, num alinho rígido. Diante da janela a banca de Coimbra dos meus tempos, tábua de pinho sobre quatro pés toscos, onde uma Bíblia, um Virgílio, o caderno de papel, o maço de cigarros, pousavam numa ordem curta e árida. E no meio desta quietação das coisas, e de todo o azul e todo o ouro da manhã de Maio que entravam pelas janelas, Antero, batendo com grossos sapatos o soalho mal aplainado, parecia um leão, cheio de desordem interior e de sanha. O «olá!» que me atirou foi perfeitamente rugido.

Que dor ou que afronta lhe eriçavam assim a juba loura? Abrira um gavetão, e tirava de dentro cartas, papéis, ferozmente, como se arrancasse entranhas. Num arremesso empurrou para a mesa uma pobre cadeira caduca onde se abateu com amargura - e começou então a destruir as cartas e os papéis de um modo estranho, que me maravilhou. Dobrava cada folha ao meio, esmeradamente: depois, violento e certeiro, ainda a dobrava em quarto; depois com uma atenção sombria, ainda a dobrava em oitavo. Sob a unha raivosa achatava as dobras: - e, empunhando uma faca como um ferro de vingança e morte, cortava os papéis finamente, fazendo com dois golpes pequenos maços bem enquadrados, que ia amontoando numa resma nítida e fofa. E todo este lento, paciente trabalho de precisão e simetria, o continuava com um modo revolto e trágico. Fascinado, surdi do vão da janela onde me refugiara, e parando a borda da mesa: - Oh Antero, quanta ordem você tem na destruição! Ele dardejou sobre mim dois olhares devoradores.

Depois considerou, ainda enrugado, a pilha acertada dos papéis cortados, e um sorriso, aquele sorriso de Antero que era como um sol nascente, iluminou, fez toda clara e rósea a sua boa face onde havia um não sei quê de filósofo de Alexandria e de piloto do Báltico: - O ritmo - murmurou - é necessário mesmo no delírio.

E com efeito, naquela alma estética, sempre as angústias mais desordenadas se moldaram em formas perfeitas.

II

Foi isto, creio eu, em 1862 ou 1863. Antero já publicara a «Beatrice», talvez mesmo o «Fiat Lux»; - e todos conheciam, ainda manuscritas, as «Odes Modernas».

Nesse tempo ele era em Coimbra, e nos domínios da inteligência, o Príncipe da Mocidade. E com razão - porque ninguém resumia com mais brilho os defeitos e as qualidades daquela, geração, rebelde a todo o ensino tradicional, e que penetrava no mundo do pensamento com audácia, inventividade, fumegante imaginação, amorosa fé, impaciência de todo o método, e uma energia arquejante que a cada encruzilhada cansava.

Coimbra vivia então numa grande actividade, ou antes num grande tumulto mental. Pelos caminhos de ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Cada manhã trazia a sua revelação, como um Sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos reis; e Balzac, com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Por, e Heine, e creio já que Darwin, e quantos outros! Naquela geração nervosa, sensível e pálida como a de Musset (por ter sido talvez como essa concebida durante as guerras civis) todas estas maravilhas caíam à maneira de achas numa fogueira, fazendo uma vasta crepitação e uma vasta fumaraça! E ao mesmo tempo nos chegavam, por cima dos Pirenéus moralmente arrasados, largos entusiasmos europeus que logo adoptávamos como nossos e próprios, o culto de Garibaldi e da Itália redimida, a violenta compaixão da Polónia. retalhada, o amor à Irlanda, a verde Erin, a esmeralda céltica, mãe dos santos e dos bardos. pisada pelo Saxónio!...

Nesse mundo novo que o Norte nos arremessava aos pacotes, fazíamos por vezes achados bem singulares: - e ainda recordo o meu deslumbramento quando descobri esta imensa novidade - a Bíblia! Mas a nossa descoberta suprema foi a da Humanidade. Coimbra de repente teve a visão e a consciência adorável da Humanidade. Que encanto e que orgulho! Começámos logo a amar a Humanidade, como há pouco, no ultra-romantismo, se amara Elvira, vestida de cassa branca ao luar. Por todos os botequins de Coimbra não se celebrou mais senão essa rainha de força e graça, a Humanidade. E como num meridional de vinte anos, lírico de raiz, todo o amor se exala em canto - não houve moço que não planeasse um grande poema cíclico para imortalizar a Humanidade. O do meu vizinho era a «Lira» - uma desmedida lira de ouro enchendo os espaços, e cada corda encarnando uma idade humana, onde os imensos dedos de Deus, alternadamente, desferiam sons de glória e sons de martírio. Do meu poema não recordo nem o tema nem o título, e apenas que deveria abrir por uma tremenda invocação à Índia, aos Árias, à sua marcha sublime desde Gau até Septa- Sindhu!... Não éramos todavia inteiramente desregrados e vãos - porque se o fim de toda a cultura humana consiste em compreender a humanidade, já é um louvável começo discorrer sobre ela em poemas mesmo pueris. E outro bom sinal do despertar do espírito filosófico era a nossa preocupação ansiosa das origens. Conhecer os princípios das civilizações primitivas constituía então, em Coimbra, um distintivo de superioridade e elegância intelectual. Os Vedas, o Maabarata, o Zendavestá, os Edas, os Niebelungen, eram os livros sobre que nos precipitávamos com a gula tumultuosa da mocidade que devora, aqui, além, um trecho mais vistoso, sem ter a paciência de senutrir com método. Formoso tempo, todavia, esse, em que eu, ignorante, mas amando religiosamente a ciência dos outros, perguntava a um camarada, com os olhos esbugalhados de respeito e santa inveja: - «O menino, já conheces bem a Caldeia?» E nem por isso éramos menos alegres e fantasistas. O nosso mote, como a nossa vida, todo se encerrava naqueles dois belos versos:

 

 

 

 

 

 

 

E em cada estrela plantávamos uma tenda, onde dormíamos e sonhávamos um instante, para logo a erguer, galopar para outra clara estrela, porque éramos verdadeiramente, por natureza, ciganos do ideal. Mas o ideal nunca o dispensávamos, e nem as sardinhas assadas das tias Camelas nos saberiam bem se não lhes juntássemos, como um sal divino, migalhas de metafísica e de estética; A pândega mesmo era idealista. Ao segundo ou terceiro decilitro de carrascão rompiam os versos. O ar de Coimbra, de noite, andava todo fremente de versos. Por entre os ramos dos choupos, mal se via com a névoa das nossas quimeras... Outra das ocupações espirituais a que nos entregávamos, era interpelar Deus. Não o deixávamos sossegar no seu adormecido infinito. Ás horas mais inconvenientes, às três, quatro da madrugada, sobre a Ponte Velha, no Penedo da Saudade, berrávamos por Ele, só pelo prazer transcendente de atirar um pouco do nosso ser para as alturas, quando não fosse senão em berros.

Com um intenso poder de idealização revestíamos todos os entes, os mais triviais, de beleza ou de grandeza, de poesia ou de terror, no desejo inconsciente de que a realidade correspondesse ao nosso sonho. Inventávamos génios - de quantas tricanas fizemos Ofélias! Antero, ainda nos últimos anos, se lamentava por ter conservado este vicio imaginativo de criar fantasmas, por nós gerados para gastar sobre eles a abundância do nosso entusiasmo, ou sobre eles cevar santas indignações. O pobre Napoleão III foi para essa nossa Coimbra um Nero, um Anticristo: tal escolasta, destro em argumentar, tomava logo as proporções augustas de um S. Tomás de Aquino, que nos deslumbrava: o bom Castilho passou por um opressor das inteligências, de cujas mãos caía a treva sobre o mundo, e que estorvava o caminhar dos tempos! Mas nada pinta melhor este engano de espírito do que a admiração, o espanto, inspirados por certo lente de Teologia, ainda moço, de face chupada e amarela, a quem nós atribuíamos um patética revolta contra os dogmas, não sei que sublimidade herética, e estranhas práticas de misticismo sensual. Era um teólogo de costumes quietos, que lia Balmes e sofria do fígado. Pois corria pelos cenáculos que este padre sombrio, todas as noites, colocava uma Bíblia aberta sobre os seios nus da sua amante, e à luz de uma tocha se repastava das amarguras do «Eclesiastes»! E todos nós acreditávamos com inveja nesta Bíblia, nestes seios, nesta tocha... Assim era essa geração.

Em torno dela, negra e dura como uma muralha, pesando, dando sobre as almas, estava a Universidade. Por toda essa Coimbra, de tão lavados e doces ares, do Salgueiral até Celas, se erguia ela, com as suas formas diferentes de comprimir, escurecer as almas: - o seu autoritarismo anulando toda a liberdade e resistência moral; o seu favoritismo, deprimindo, acostumando o homem a temer, a disfarçar, a vergar a espinha; o seu literalismo, representado na horrenda sebenta, na exigência do ipsis verbis, para quem toda a criação intelectual é daninha; o seu foro, tão anacrónico como as velhas alabardas dos verdeais que o mantinham; a sua negra torre, donde partiam, ressuscitando o precetto da Roma jesuítica do século XVIII, as badaladas da «cabra» por entre o voo dos morcegos; a sua «chamada», espalhando nos espíritos o terror disciplinar de quartel; os seus lentes crassos e crúzios, os seus Britos e os seus Neivas, o praxismo poeirento dos seus Pais Novos, e a rija penedia dos seus Penedos! A Universidade, que em todas as nações é para os estudantes uma Alma Mater, a mãe criadora, por quem sempre se conserva através da vida um amor filial, era para nós uma madrasta amarga, carrancuda, rabugenta, de quem todo o espírito digno se desejava libertar, rapidamente, desde que lhe tivesse arrancado pela astúcia, pela empenhoca, pela sujeição à «sebenta», esse grau que o Estado, seu cúmplice, tornava a chave das carreiras.

Verdadeira chave dos campos, no dizer francês, abrindo para a independência, para a vida e para a beleza das coisas naturais. No meio de tal Universidade, geração como a nossa só podia ter uma atitude - a de permanente rebelião. Com efeito, em quatro anos, fizemos, se bem me recordo, três revoluções, com todos os seus lances clássicos, manifestos ao Pais, pedradas e vozearias, uma pistola ferrugenta debaixo de cada capa, e as imagens dos reitores queimadas entre as danças selváticas. A Universidade era, com efeito, uma grande escola de revolução: - e pela experiência da sua tirania aprenderíamos a detestar todos os tiranos, a irmanar com todos os escravos. O nosso entusiasmo pela Polónia nascia de nos sentirmos oprimidos como ela por um czar de borla e capelo, que se chamava Basílio. Aqueles de nós que hoje leiam uma História da Vida e da Sociedade em Roma, nos fins do século XVIII, quando toda a cultura livre era vedada, e a banalidade tinha a estima do Governo por ser uma condição da docilidade, e os melhores bens se obtinham pela intriga e o favoritismo, e se educava o homem para a baixeza, e a independência se arrancava como erva venenosa, e a policia intervinha até na maneira de atar a gravata, e não se permitia aos cidadãos andar fora de casa depois das Avé-Marias - julga ver a escura imagem da vida universitária há trinta anos, quando se impunha ao estudante, com a batina de padre, a regra canónica do Gesu. E era por nos sentirmos envolvidos numa opressão teocrática, que, além de pendermos para o jacobinismo, tendíamos, por puro acinte de rebeldia, para o ateísmo. De sorte que a Universidade, ultraconservadora e ultra-católica, era não só uma escola de revolução política, mas uma escola de impiedade moral.

Antero resumiu, com desusado brilho, o tipo do académico revolucionário e racionalista: e daí começou a sua popularidade - e a sua lenda. Não recordo, nem sei se é histórica, essa temerária noite, em que ele, durante uma trovoada, e de relógio na mão, intimou Deus a que o partisse com um raio, dentro de sete minutos, no caso de existir. Desconfio do altivo episódio. Antero não tinha relógio; a sua exegese era já muito fina para assim confundir as maneiras de Jeová com as de Júpiter: - e, se lançou o desafio satânico, foi rindo alegremente do excesso da sua fantasia. Mas é certo que ele se afirmou sempre como o grão-capitão das nossas revoltas, desde aquela que derrubou o bom tirano Basílio, até à que nos levou para o Porto, uma noite, entre archotes, ganindo a «Marselhesa».

Todos os «Manifestos ao País», que a tradição nos impunha no começo destas sedições, saiam da pena de Antero: - porque já ele era, além da melhor ideia da Academia, o seu melhor verbo. E enfim foi ele ainda que se rebelou contra outro e bem estranho despotismo, o da Literatura Oficial, na tão famosa e tão verbosa Questão Coimbrã, já não é fácil, depois de tantos séculos, relembrar os motivos dogmáticos por que se esgadanharam as duas literaturas rivais, de Coimbra e de Lisboa... O velho Castilho, contra quem se ergueram então tantas lanças e tantos folhetos, não se petrificara realmente numa forma literária que pusesse estorvo à delgada corrente do espírito novo. Fora, é verdade, trovador e bardo; mas renovara o naturalismo clássico com as suas traduções de Virgílio; e passara para a nossa língua Molière, um dos mais nobres avós da família psicóloga. Todas estas almas diversas (é certo) as moldava dentro de uma vernaculidade arcádica que as deformava: mas a sua arte de escrever era polida, e houve dignidade e beleza no seu prolongado amor das Letras e das Humanidades. (Seriam hoje úteis, entre nós, um ou dois Castilhos.) Em todo o caso, relativamente a Antero de Quental e a Teófilo Braga, o vetusto árcade mostrou intolerância e malignidade, deprimindo e escarnecendo dois escritores moços, portadores de uma ideia e de uma expressão próprias, só porque eles as produziam sem primeiramente, de cabeça curva, terem pedido o selo e o visto para os seus livros à Mesa Censória, instalada sob a seca olaia do seco cantor da «Primavera».

O protesto de Antero foi portanto moral, não literário.

A sua faiscante carta «Bom Senso e Bom Gosto» continuava, nos domínios do pensamento, a guerra por ele encetada contra todos os tiranetes, e pedagogos, e reitores obsoletos, e gendarmes espirituais, com que topava ao penetrar, homem livre, no mundo que queria ser livre. Para Teófilo Braga, essa luta coimbrã foi essencialmente uma reivindicação do espírito crítico; para os outros panfletários, todos literatos ou aliteratados, uma afirmação de retórica;-para Antero, de todo alheio ao literatismo, um esforço da consciência e da liberdade. Por isso o seu ataque sobretudo nos impressionou, não só pelo brilho superior da sua ironia, mas pela sua tendência moral, e pela quantidade de revolução que continha aquela altiva troça ao déspota do purismo e do léxico. Castilho, armado da sua férula, e tendo a pretensão de dar com ela palmatoadas nas almas, aparecia aos nossos olhos.

criadores de fantasmas, como um verdadeiro monstro: Antero, crivando de setas de ouro os flancos vernáculos do monstro, foi para nós como um sagitário libertador. Eu digo «nós», uso este plural de casta nobre, unicamente porque nos simul in Garlandia fuimus, nos mesmos bancos nos sentámos, sob o mesmo luar devaneámos. De resto, eu era meramente um actor do Teatro Académico (pai nobre), e rondava em torno destas revoluções, destas campanhas, destas filosofias, destas heroicidades ou pseudoheroicidades, como aquele lendário moço de confeiteiro que assistiu à tomada da Bastilha com o seu cesto de pastéis enfiado no braço, e quando a derradeira porta da fortaleza feudal cedeu, e a velha França findou, deu um jeito ao cesto leve, e seguiu, assobiando a «Royale», a distribuir os seus pastéis.

Mas era um devoto (o termo não é excessivo) do poeta das «Odes Modernas». Todos, desde então, esperámos dele a renovação de um mundo, do nosso pequeno mundo, para nós imenso - e imenso na verdade, porque uma simples alma é um vasto mundo, e a sua renovação, no sentido da justiça ou da bondade, uma vasta obra. Antero era não só um chefe - mas um Messias. Tudo nele o marcava para essa missão, com um relevo cativante: até a bondade iniciadora do seu sorriso, até aquela grenha cor de ouro fulvo, que flamejava por cima das multidões. E havia já com efeito hábitos messiânicos nesse bando de discípulos que o acompanhavam através de Coimbra, de capa solta, enlevados na sua palavra. Essa luminosa palavra de Antero era uma das suas magníficas forças de atracção. Ninguém jamais possuiu um Verbo de tanta solidez. harmonia, finura e brilho. Todo o século XVIII considerou como um dos maiores regalos da inteligência, o ouvir Diderot conversando. Foi um dos encantos no nosso tempo ouvir conversar Antero. Em Coimbra a sua veia vibrava em pleno esplendor. Era uma lira, a lira divina de sete cordas, em que não interessava e deslumbrava menos que as outras a corda de bronze do sarcasmo. Sarcasmo que nada encerrava de triste ou de amargo, como o de um Quevedo. Antero, mesmo troçando e amaldiçoando, era um ateniense: e à sua ironia convinha, mais que a de nenhum outro ironista, o nobre epíteto homérico de alada. Os seus ditos abriam, através da sua geração, grandes sulcos luminosos - e puros.

Mas sobretudo se impunha pela sua autoridade moral.

Antero era então, como sempre foi, um refulgente espelho de sinceridade e rectidão. De nascença a sua alma viera toda limpa e branca, e quando Deus a recebeu, encontroua decerto tão limpa e branca como lha entregara. Nunca, através da vida, tomou um caminho escuro ou oblíquo: com a face levantada, como um sol, rompia a passos direitos e sonoros: - e, se topava com um desses muros que constantemente se erguem nas estradas humanas, ou o demolia ou retrocedia, mas nunca condescendeu em o ladear com astúcia, mesmo quando para além reluzisse o tesouro que a sua ideia ou o seu sentimento apeteciam.

Antero foi um carácter heroicamente Integro. E não se necessitava, para lho reconhecer, uma longa e penetrante intimidade: - a sua lealdade magnífica resplandecia toda nos seus olhos claros, como uma luz santa às portas de um sacrário. O granito, o cristal, tudo o que é límpido, tudo o que é sólido, eram menos límpidos e sólidos que a sua amizade Apesar de algum cepticismo e muita ironia, tropeçou simplesmente em grossos enganos, porque o espírito translúcido não previa, nunca se lembrava do dolo e da falsidade. Naquele erudito pessimista houve sempre um inocente. A justiça era nele ingénita. Assim era a verdade.

Que dizer da sua bondade? Por um constante aperfeiçoamento, ela chegou, nos últimos tempos, a ser perfeita. Mas já na idade ligeira e romanesca de Coimbra era imensa - e se manifestava por uma alegria magnânima. O «claro riso dos heróis», que Michelet raramente encontrou na História e que o arrebatava, foi o riso de Antero. Riso generoso do ser que ama todos os seres, e que, pelo menos dentro desse amor, acha que o mundo é óptimo, e se sente soberbamente optimista e doce. Ele teve a caridade nos anos em que, por se não conhecerem ainda as misérias do coração e do mundo, nunca se é caridoso: - e nele foi natural e simples, não como a da mocidade neo-evangélica (que, agora, por Paris e Londres, languidamente ensina o Bem), sugada, ou antes decorada, na «Vida de S. Francisco de Assis». Nessas mesmas pugnas, nessas derrocações de Bastilhas em que parecia feroz, a sua bondade andava toda inquieta enquanto a sua cólera trabalhava. Como o sagitário antigo, apenas despedia do grande arco a grande frecha, atirava largamente um passo para diante - mas era já com o desejo de ir curar a ferida que o seu dardo rasgara.

Quando, depois do encerramento tão bruto das Conferências do Casino, ele esmagou o considerável marquês de Ávila sob aquela «Carta» de tão alegre, picante e patrício desdém, soube, por um amigo, que o pobre marquês se magoara até se lhe humedecerem os olhos com uma acerada alusão à origem do seu nome de Ávila. Antero angustiado, com os olhos também húmidos, correu à «Revolução de Setembro» a gritar «errei! errei!», e a imprimir uma retractação apiedada que consolasse o velho...

Toda esta alma de santo morava, para tornar o homem mais estranhamente cativante, num corpo de Alcides. Antero foi, na sua mocidade, um magnífico varão.

Airoso e leve, marchava léguas, em rijas caminhadas que se alongavam até à mata do Buçaco: com a mão seca e fina, de velha raça, levantava pesos que me faziam gemer a mim, ranger todo, só de o contemplar na façanha: jogando o sabre para se adestrar, tinha ímpetos de Roldão, os amigos rolavam pelas escadas, ante o seu imenso sabre de pau, como mouros desbaratados: - e em brigas que fossem justas o seu murro era triunfal. Conservou mesmo até à idade filosófica este murro fácil: e ainda recordo uma noite na Rua do Ouro, em que um homem carrancudo, barbudo, alto e rústico como um campanário, o pisou, brutalmente, e passou, em brutal silêncio... O murro de Antero foi tão vivo e certo, que teve de apanhar o imenso homem do lajedo em que rolara, de lhe limpar a lama da rabona, e de o amparar até uma botica, onde lhe comprou arnica, o consolou, citando Golias e outros gigantes vencidos. No Garrano, nas Camelas, um prato com três dúzias de sardinhas e uma canada do «tinto» não o assustavam, nem lhe pesavam. Pelo contrário! Depois, em face da Lua, na Ponte ou pelo Choupal, as suas cabriolas pelos céus da metafísica eram mais fulgentes e destras.

III

Já porém, no meio destas qualidades esplêndidas que lhe garantiam uma vida forte, e superiormente feliz, existia um fermento de dor. Bem se descobre ele em alguns dos sonetos desses anos, que são (como todos os seus sonetos) sublimes notas postas à margem de uma alma que se interroga, Já então o ditoso Antero, tão prodigamente dotado por Deus, se considerava um filho abandonado de Deus: já o mundo lhe parece perder a cor, e ele próprio a perde também, devendo para sempre ficar pálido e triste: e a beleza que então lhe aparece não a goza plenamente, porque ela lhe lembra outra, transcendente e de mais puros gozos. O seu presente é uma atormentada aspiração ao futuro-mas o que é o futuro, senão sombra movediça e mentirosa? Ele, tão seguido, tão amado, erguido como chefe por uma mocidade feita à sua imagem, já se sente solitário entre turbas vãs: e os braços, que a sorte lhe deu tão fortes e movidos por uma alma tão alta, já se prepara para os cruzar com melancolia.

Todavia, em volta dele, esse era o tempo de um optimismo universal. Nas duas. grandes nações pensantes, que o inspiravam, triunfava o optimismo - lírico em França, filosófico na Alemanha, mas em ambas rosado e risonho.

Todos os hegelianistas prussianos eram, creio eu, optimistas: - e Pelletan, para cá do Reno, convidava o homem, tornado omnisciente e omnipotente pelo progresso, a afirmar soberbamente, e cantando, a sua realeza sobre os Céus. Decerto já existiam desiludidos: mas era ainda o antigo desiludido do século XVIII, o Candide, depois de reconhecer que no mundo a melhor ocupação, a única que não resulta em logro, consiste em plantar quietas saladas num murado e frondoso quintal.

Ainda então não safra da sua hospedaria de Frankfurt o bom Schopenhauer, bem penteado, de calças cor de flor de alecrim, para tirar das mãos de Candide a enxada e o regador, e lhe provar que a sabedoria realmente consiste em entrar num convento de trapistas, ou, como um yoghi hindu, em jazer rigidamente sob a mangueira de Lovelane, meditando a inanidade e o mal das coisas. Ninguém então, do Reno para cá, lera ainda Schopenhauer. E um no seu quarto de Frankfurt, metodicamente, tomando o seu chocolate, outro em Coimbra, atormentadamente, porque é poeta e meridional, chegando ao mesmo resumo, num raciocinado, no outro soluçado:

Que sempre o mal pior é ter nascido!

Daqui provinham certos modos de Antero ainda então inexplicáveis - dias de tristeza e esparsa cólera, um querer e não querer entrechocados, entusiasmos que logo escarnecia, bocados de vida que deixava sumir em fumo, e esses apetites de solidão, esses períodos de trapismo artificial em que desaparecia, se embrenhava sozinho pelas espessuras do Buçaco. O espírito de sociabilidade, é certo, sempre nele triunfava; e também essa alegria, de raízes vivazes, subsistente sob as névoas do mais denso desalento, e que mesmo depois, nos piores dias, reaparecia - apenas ele se encontrasse entre camaradas de espírito congénere, e crepitasse o lume das controvérsias.

Mas, já nesse tempo de Coimbra, Antero, por momentos, ante a face mais florida de mocidade e saúde, pensava na caveira.

Pessimismo, sobretudo nos seus começos, não vai sem inacção; - e a inacção é verdadeiramente a sua primeira e ligeira forma. Se tudo no mundo conduz a desilusão e poeira - como se podem considerar, sem riso e sem compaixão, esses rijos esforços que cuidam revolver mundos, quando estão meramente remexendo fumo? Daí, essas indiferenças, desprendimentos, bruscas desistências da energia, que, da parte de Antero, surpreendiam e contristavam os seus amigos. Durante a grande Questão Coimbrã, quando mais ressoante rolava a briga contra a Tróia literária de Castilho, ele, o nosso invencível Aquiles - um dia desaparece... Era um abandono, pactuara o herói secretamente com Príamo? Assim o pensaram os Acaios fanáticos. Não! abalara para a Figueira, com saudades da solidão e do mar. Que importância podia ter essa rixa de literaturas e vaidades para quem, desde os dezoito anos e dos primeiros versos, viera sempre desdenhando alegremente a superstição da glória e das letras? De resto todo o esforço em Antero era acompanhado pelo sentimento secreto e divertido da sua inanidade; - e a ironia nele andava sempre ao lado da acção, soltando o seu assobio malicioso. Para quê, meus amigos? tudo é fumo e em fumo se espalha!... Esta universal desilusão, este escuro e mudo Nada para onde correm, como para um mar, todos os desejos humanos, não era todavia afirmada por Antero com amargura - antes com uma resignação risonha. «O Amor e o Bem (ensina ele então, ou parece ensinar) não se realizam nesta vida contingente e escrava, e só na outra, na absoluta, quando o espírito atinja perfeição e liberdade... No entanto, amigos, vamos aceitando as aparências imperfeitas deste mundo onde há bosques, roseiras, artes delicadas, e as mulheres entreabrem amorosamente a sua porta, e um curto heroísmo por vezes enobrece as cidades, e até se pode colher um fugitivo gozo com um cesto de laranjas e uma guitarra, de tarde, num barco, por este Mondego acima...» Assim este homem, em cuja alma iam enegrecendo as nuvens de uma áspera tormenta intelectual, era ainda para todos, nesses tempos de Coimbra, «da encantada e fantástica Coimbra» de então, um viçoso camarada, cheio de exuberância e fantasia, apaixonado e luminoso, nobre e amigo dos homens, embebendo os olhos francos na beleza das coisas, e tumultuosamente esperando que da revolução e da filosofia altos bens viessem à Terra. Do negro fermento de desilusão e dor, que ele trazia já dentro da alma, só conheciam alguns amigos, a quem ele lia os seus sonetos confessionais, e que ficavam espantados escutando a confissão, e contemplando o homem que a confessava. Desse poeta de face ardente e veia rutilante, todo idealização, todo paixão, metafísico e batalhador, bem se podia esperar uma epopeia, o apostolado de uma religião, longas aventuras sonoras - nunca a passiva dor de um budista aspirando palidamente ao Não-Ser.

E a sua vida, com efeito, desde que saiu dessa «encantada e quase fantástica Coimbra», foi toda de movimento e de força. Antero anda então ansiosamente procurando um emprego para a sua grande alma. Viaja pela Europa Ocidental, ou antes passeia através dela os seus sonhos de liberdade e de justiça, para encontrar algures um mundo que lhes seja congénere e onde os possa plantar e cultivar com magnificência. Atravessa o Atlântico, por puro desejo de espaço e liberdade, num pequeno yacht; e durante semanas de tormenta trabalha descalço na manobra, ou, metido no seu beliche, que as ondas alagam, embrulhado num oleado, relê o «D.

Quixote», com um interesse e uma paixão renovadas, talvez por sentir que nessa grande história da Ilusão está lendo a sua história. Percorre a costa da América, até à Nova Escócia; e aí, um domingo, tem uma visão que nunca esquece, a de uma cidade puritana (Halifax ou Lunenberg), silenciosa, como adormecida no Senhor, toda de tijolo corde- rosa sob um céu cor de pérola, com fundas avenidas mais pensativas que as dos Elísios, onde os namorados passeiam, numa mudez de sombras, de dedos enlaçados, de pálpebras baixas, respirando sem outro desejo a flor da sua emoção. Quantas vezes Antero me contava dessa piedosa e suave cidade, e do longo apetite que ela repentinamente lhe dera de quietação eterna! Ao cabo dos grossos mares atlânticos, Deus talvez lha mostrou como um prenúncio do seu destino: uma grande tormenta, depois um grande descanso - e um descanso a que Deus não era alheio.

Enfim Antero volta a Lisboa, encontra o Cenáculo, Encontra o nosso querido e absurdo Cenáculo instalado na Travessa do Guarda-Mor, rente a um quarto onde habitavam dois cónegos, e sobre uma loja em que se agasalhavam, como no curral de Belém, uma vaca e um burrinho. Entre essas testemunhas do Evangelho e esses dignitários da Igreja, rugia e flamejava a nossa escandalosa fornalha de revolução, de metafísica, de satanismo, de anarquia, de boémia feroz. J. Batalha Reis era o dono do aposento temeroso, e Via Láctea, galego ilustre, o seu servo. Via Láctea dormia pendurado, como um paio, da chaminé da cozinha. As suas ocupações não consistiam em escovar ou varrer. A Via Láctea fora confiada a missão transcendente de espreitar a passagem da Ideia ao longo do rio do Espírito, para nos avisar, e nós corrermos e a prendermos na rede rutilante do Verbo. Durante dois anos, cada dia, a horas de sol e a horas de treva, empurrámos nós com fragor a porta da cozinha, e berrámos em ânsia: «Via Láctea! Via Láctea! viste enfim a Ideia Pura boiando na corrente espiritual?...» E durante dois anos Via Láctea, de dentro da chaminé ou de sobre a tampa de um caixote, imutavelmente rosnou com uma dignidade triste: Num bi nada. Aí Antero apareceu numa fria manhã - e foi aclamado. Naquela viela de Lisboa ressuscitou então, por um momento, a «encantada e quase fantástica Coimbra» de que ele sempre conservara uma saudade romântica.

Antero, porém, que desembarcara em Lisboa, como um apóstolo do socialismo, a trazer a palavra aos gentílicos, em breve nos converteu a uma vida mais alta e fecunda.

Nós fôramos até aí no Cenáculo uns quatro ou cinco demónios, cheios de incoerência e de turbulência, fazendo um tal alarido lírico-filosófico que por vezes, de noite, os dois cónegos estremunhados rompiam a berrar, o burro por baixo zurrava desoladamente, e no céu, sobre os telhados fronteiros, a Lua parava, enfiada. Mas toda a nossa alma se ia nesse alarido, e o vento vão da boémia a levava, para onde leva as almas descuidadas e as folhas de louro secas... Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andávamos a compor uma ópera bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonámos essa obra de escandaloso delírio - e começámos à noite a estudar Proudhon, nos três tomos da «Justiça e a Revolução na Igreja», quietos à banca, com os pés em capachos, como bons estudantes. Via Láctea começou a varrer. E do Cenáculo, donde, antes da vinda de Antero (que foi como a vinda do rei Artur à confusa terra de Gales), nada poderia ter nascido além de chalaça, versos satânicos, noitadas curtidas a vinho de Torres, e farrapos de filosofia fácil, nasceram, mirable dictu, as Conferências do Casino, aurora de um mundo novo, mundo puro e novo que depois, ó dor, creio que envelheceu e apodreceu...

De resto o Cenáculo estava nas vésperas de se dispersar - porque a cada um de nós, bruscamente (nessa mesma esquina da Travessa do Guarda-Mor) aparecera a Vida, enrugada, de dedo ameaçador, a avisar que ela não é musa ou ninfa que se trate com ligeireza, indiferença, e cantando. Assim aquele cavaleiro que uma noite em Paris, no Pont-Neuf, surgiu ante o senhor D. Gil, do solar de Vouzela, lhe deteve os passos que corriam ao pecado e lhe gritou brandindo a lança: - «Homem, para trás, para o Senhor!» Nós vimos a lança; e saudosamente entre nós murmurámos: - «Irmãos, não mais cavalgadas sobre o dorso macio da quimera, é tempo de irmos a concursos..

Fomos a concursos. Antero, esse, encontrara Oliveira Martins, que era um pensador, e José Fontana, que era um agita. dor; e ardentemente penetrara no Movimento Socialista, então iniciado em Lisboa com os fervores e os segredos poéticos de uma religião. Simultaneamente propagava a união ibérica, fundava sociedades operárias, instalava a Associação Internacional, lançava panfletos, conspirava, apostolava... Era, como ele dizia, «um pequeno Lassale». E, como Lassale, já invadido por um vago malestar, no meio da popularidade que o começava a cercar - e a sufocar.

Eu não fui testemunha dessa sua vida militante. Por meu turno partira, a percorrer os mundos deste mundo, dos velhíssimos aos novíssimos, da magoada Jerusalém à estridente Chicago. Longe, porém, soube que Antero se afastara inesperadamente da actividade revolucionária.

Porquê? Abalara ele, como durante as grossas guerras coimbrãs, para a Figueira, com saudades dos areais e do mar? Não - harmonizara simplesmente a sua conduta e a sua natureza. O elemento natural do espírito de Antero era a abstracção filosófica, e só dentro dela respirava e vivia plenamente. Além disso, descendente de uma muito velha família, já ilustre na corte, de Afonso V, ele nunca se desembaraçara de certas hereditariedades de raça e de casta, e conservava, sob a sua vasta humanidade, um não sei quê de antiquado e de estreitamente fidalgo. Enfim, era um superfino artista... Como direi? O artista, o fidalgo, o filósofo, que em Antero coexistiam, não se entenderam bem com a plebe operária. Sempre sincero, lavou as suas mãos, e proclamou que só os Proletários eram competentes para exprimir o pensamento e reivindicar o direito dos Proletários. E amando ainda os homens, mas desistindo de os conduzir a Canaã, subiu com passos desafogados para a sua alta torre bem-amada, a torre da metafísica.

Quando, volvidos dois ou três anos, regressei a Lisboa, encontrei o meu amigo estirado numa cama, no quarto mais remoto de uma casa remota, quase numa trapeira, para que não lhe chegassem os ruídos da cidade, morbidamente intoleráveis à sua supersensibilidade nervosa. Ali, em solidão e imobilidade, Antero estava travando com o seu pensamento uma luta, de que os Sonetos, de 1874 a 1880, são a notação magnífica e dolorosa.

E o seu pensamento em breve o arrastara a um pessimismo negro, repassado de desespero. A certeza de morrer levara Antero a indagar mais fundamente a razão de viver: - e, por mais que aprofundasse a existência, ela só lhe aparecia como uma tortura gratuita, confusa, inútil.

Pedia ele então à inteligência a explicação da existência. E a sua inteligência, como ele depois contava, toda penetrada do naturalismo, que era a atmosfera onde se desenvolvera, só lhe oferecia a solução naturalista - só lhe podia afirmar que a vida, na sua forma empírica, é a luta obscura de forças obscuras. E na sua forma filosófica e intelectual? Apenas a contemplação egoísta dessas lutas instintivas. Não há pois senão vácuo, confusão e inutilidade universais! É certo que rompe através da neve estéril, revelando as fecundidades subjacentes da terra, surge por vezes do fundo da consciência e espalha por toda ela o seu perfume tímido... Mas não nos prendamos já a essa falsa esperança, porque a flor murchará, apenas entreaberta, e o seu perfume no vácuo universal será disperso!

voltar 12avançar