Quando à tardinha rumorejam brisas
Roubando o aroma das agrestes flores,
E doce e grave, nas viçosas matas,
Mais triste canto o sabiá desata,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me de ti, por que tu’alma
É o sol de minh’alma e de meu gênio;
E neste exílio que infernal me cerca,
Mísera planta, desfaleço e morro
Ao frio toque de hibernal geada!
* * *
Quando das franjas do Ocidente róseo
Um raio ainda me clareia o cárcere,
E um tom suave de tristeza e luzes
Mistura o dia à palidez da noite,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me de ti, porque teu seio
Guarda um tesouro de piedade santa,
E nesse instante que o pesar duplica
Faltam-me as vozes de teus lábios meigos
E o doce orvalho de amorosos olhos!
* * *
Quando nas bordas de meu leito escuro
Fatais espectros de pavor se cruzam,
E exausto, e lívido, eu procuro embalde
O grato sono que meus olhos deixa,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me de ti, porque saudosa
Sonho-te a imagem soluçando ao longe,
E a fronte curva, e umedecidas pálpebras,
Meu nome dizes ao tufão que passa,
À brisa doida que te morde as tranças!
* * *
Quando meu corpo se debate em febre,
E a lava ardente nas artérias corre...
Quando cruenta, de funéreos risos,
Pressinto a morte levantar-se perto,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me de ti que és minha vida,
Último alívio neste mundo insano,
Anjo da guarda que à minh’alma aflita
Pudera as trevas espancar com as asas,
Lavar-lhe as manchas num Jordão de lágrimas!
* * *
Ai! tudo os homens entre nós quebraram:
A paz, o riso, as esperanças áureas;
Mas de teu peito me arrancar não podem,
Nem a minh’alma desprender da tua!...
Eu lembro-me de ti!...
Fonte: www.dominiopublico.gov.br