Quando o gênio de Deus em santo arrojo
Batendo as sombras atirou no espaço
A hipérbole da luz,
E a matéria disforme que boiava
Sem destino e sem rumo, abriu a senda
Que à perfeição conduz;
Os querubins calaram-se escutando
A ode universal que retumbava
Aos pés do Criador;
E a natureza virgem dilatou-se,
E os mundos abalaram-se rugindo:
- Somos livres, Senhor!
As gerações ergueram-se no tempo:
De cada idéia levantou-se um povo,
De cada povo a lei!...
As eras sucederam-se confusas;
Mas o canto divino orientava
Das multidões a grei.
E ora entre névoas, ora entre fulgores,
Como a lua formosa em céu nublado,
A liberdade andava,
E a cada passo a trânsfuga celeste
Um rasto imenso de grilhões partidos
Como o raio deixava!...
Mas tu, risonha plaga americana,
Ilha de amor nos mares do mistério,
Dormias a sorrir,
Tão linda como o cisne de alvas penas,
Tão pura como a virgem balouçada
Nos sonhos do porvir!
Do vulto horrendo do voraz abutre
A sombra intensa não toldou-te as faces,
Nem manchou-te, é mentira!
Anjo de asas de luz! não foste escrava!
Criança! inda era cedo, o canto eterno
Dormia-te na lira!
Dormia! mas o hábito de Deus
Rugia-te nas fibras, inflamado
Como o vulcão no mar!
As nações esperavam-te ansiosas,
E no forum dos povos avultava
Vazio o teu lugar!
Apareceste enfim, mas não liberta,
Que nunca foste escrava, apenas débil,
Sem forças, vacilante;
Se assim não é, onde estarão teus ferros?
Onde o pó das prisões que derribaste?
Onde o jugo infamante?
É neste altar de esplêndido futuro,
Berço de outrora, trono do presente,
Que beijamos-te as plantas,
E ao perfume do incenso, ao som dos hinos,
Adoramos em ti, da liberdade
As glórias sacrossantas.
Filha augusta de Deus! Rosa banhada
Da Redenção nas lágrimas ardentes!
Mãe das raças opressas!
Pomba sagrada que rompendo as nuvens
Trazes ao lenho errante o verde ramo
Ungido de promessas;
Liberdade gentil, mil vezes salve!
Salve! sem peias devassando os ares,
Espancando os bulcões!
Salve! nos paços de opulentos sátrapas!
Salve! na choça humilde do operário!
Salve até nas prisões!
Fonte: www.dominiopublico.gov.br