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Cancioneiro

Fernando Pessoa

Nota Preliminar
1.

Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno depercepção: ao mesmo tempo que tempos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundoexterior num determinado momento da nossa percepção.

2.

Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não sórepresentável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito.

E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

3.

Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de
chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na ausência da amada o sol não brilha", e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecçãode
duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

Abat-Jour
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.

No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei ... Era dia
E longe de aqui...

Quanto me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...

Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é sério, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.

Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...

E súbito encontro Deus.

A Grande Esfinge do Egito
A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...

Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops ...

De repente paro...

Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...

Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste
candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com
a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...

A minha vida é um barco abandonado
A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.

Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado ?
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

A morte chega cedo
A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Andei léguas de sombra
Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.

Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.

Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.

Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical.

A alcova
Desce não se por onde
Até não me encontrar.

Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.

Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.

Na alma meu corpo pesa-me.

Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

Ao longe, ao luar
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.

Aqui onde se espera
Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
-Sossego, só sossego-
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
-Sossego, só sossego-
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
-Sossego, só sossego -
Como no exílio um rei,
Gozando da ventura
- Sossego, só sossego -
De não ter a amargura
De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

Que mais quer quem descansa
- Sossego, só sossego -
Da dor e da esperança,
Que ter a negação
- Sossego, só sossego -
De todo o coração ?
As horas pela alameda
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...

E ouve-se no ar a expirar -
A expirar mas nunca expira -
Uma flauta que delira,
Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila
Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir...

As minhas Ansiedades
As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo.

Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exata.

Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.

Assim, sem nada feito e o por fazer
Assim, sem nada feito e o por fazer
Mal pensado, ou sonhado sem pensar,
Vejo os meus dias nulos decorrer,
E o cansaço de nada me aumentar.

Perdura, sim, como uma mocidade
Que a si mesma se sobrevive, a esperança,
Mas a mesma esperança o tédio invade,
E a mesma falsa mocidade cansa.

Tênue passar das horas sem proveito,
Leve correr dos dias sem ação,
Como a quem com saúde jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razão.

Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueço de querer,
E a tarde exterior seu tédio verte
Sobre quem nada fez e nada quere.

Inútil vida, posta a um canto e ida
Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,
Obra solentemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar!
As tuas mãos terminam em segredo
As tuas mãos terminam em segredo.

Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,
Será o haver cais num mar distante...

Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante !
Às vezes entre a tormenta
Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.

E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.

E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.

Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.

Sofremos? Os versos pecam.

Mentimos? Os versos falham.

E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.

Atravessa esta paisagem o meu sonho
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...

Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...

O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...

Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse
desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele
porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(?) Azul ou verde ou roxo
Azul, ou verde, ou roxo quando o sol
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero (?), casual (?) ou mol(e),
É uma vez abismo e outra espelho.

Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.

Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.

Só o mar às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.

Mas sonho... O mar é água, é água nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.

Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vasante, a murmurar.

Quem sabe o que é a alma ? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.

Quanto em terra ou em nada nunca esquece.

Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
O sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.

Capitães, contramestres - todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia
Acaso vos chamou de igonotas flautas
A vaga e impossível melodia.

Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?
Qeum atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância ou quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais sutil também
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.

Se assim é e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar
Fazei-me livre, enfim , de o ignorar.

Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir , como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
Baladas de uma outra terra
Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...

Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...

E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...

E sao fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...

Toadas afastadas, irreais, de baladas...

Ais...

Bate a luz no cimo...

Bate a luz no cimo
Da montanha, vê...

Sem querer eu cismo
Mas não sei em quê....

Não sei que perdi
Ou que não achei...

Vida que vivi,
Que mal eu a amei !...

Hoje quero tanto
Que o não posso ter,
De manhã há o pranto
E ao anoitecer...

Tomara eu ter jeito
Para ser feliz...

Como o mundo é estreito,
E o pouco que eu quis !
Vai morrendo a luz
No alto da montanha...

Como um rio a flux
A minha alma banha,
Mas não me acarinha,
Não me acalma nada...

Pobre criancinha
Perdida na estrada !...

Brilha uma Voz na Noute...

Brilha uma voz na noute
De dentro de Fora ouvi-a...

Ó Universo, eu sou-te...

Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idéia e de nome
Em mim, e a voz:Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...

Mero eco demim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.

Canção
Silfos ou gnomos tocam?...

Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...

Mal oiço e quase choro.

Por que choro não sei.

Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

Cansa Sentir Quando se Pensa
Cansa sentir quando se pensa.

No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.

E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.

Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)
Cerca de grandes muros quem te sonhas
Conselho
Cerca de grandes muros quem te sonhas.

Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.

Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.

Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

Cessa o teu canto!
Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Com que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.

Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas cantar.

E a melodia
Que não havia.

Se agora a lembro,
Faz-me chorar.

Chove. É dia de Natal
Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.

Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.

Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.

Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.

Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.

Chove. Nada em mim sente...

Chove ? Nenhuma chuva cai...

Chove ? Nenhuma chuva cai...

Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.

Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.

Há sempre escuro dentro de mim.

Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...

Começa a ir ser dia
Começa a ir ser dia,
O céu negro começa,
Numa menor negrura
Da sua noite escura,
A Ter uma cor fria
Onde a negrura cessa.

Um negro azul-cinzento
Emerge vagamente
De onde o oriente dorme
Seu tardo sono informe,
E há um frio sem vento
Que se ouve e mal se sente.

Mas eu, o mal-dormido,
Não sinto noite ou frio,
Nem sinto vir o dia
Da solidão vazia.

Só sinto o indefinido
Do coração vazio.

Em vão o dia chega
Quem não dorme, a quem
Não tem que ter razão
Dentro do coração,
Que quando vive nega
E quando ama não tem.

Em vão, em vão, e o céu
Azula-se de verde
Acinzentadamente.

Que é isto que a minha alma sente ?
Nem isto, não, nem eu,
Na noite que se perde.

Como a noite é longa !
Como a noite é longa !
Toda a noite é assim...

Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.

Vem p'r'ao pé de mim...

Amei tanta coisa...

Hoje nada existe.

Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...

Como estou esquecido !
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo ?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

Como inútil taça cheia
Como inútil taça cheia
Que ninguém ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu coração sem tristeza.

Sonhos de mágoa figura
Só para Ter que sentir
E assim não tem a amargura
Que se temeu a fingir.

Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.

Como uma voz de fonte que cessasse
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), p'ra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
P'ra o mistério, silêncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...

E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

Conta a lenda que dormia
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Contemplo o lago mudo
Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.

Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.

Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
Contemplo o que não vejo
Contemplo o que não vejo.

É tarde, é quase escuro.

E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.

Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.

Não sinto, não sou triste.

Mas triste é o que estou.

Dá a surpresa de ser
Dá a surpresa de ser.

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?
Da minha idéia do mundo
Da minha idéia do mundo
Caí...

Vácuo além do profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...

Escada absoluta sem degraus...

Visão que se não pode ver...

Além-Deus ! Além-Deus! Negra calma...

Clarão do Desconhecido...

Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...

De onde é quase o horizonte
De onde é quase o horizonte
Sobe uma névoa ligeira
E afaga o pequeno monte
Que pára na dianteira.

E com braços de farrapo
Quase invisíveis e frios,
Faz cair seu ser de trapo
Sobre os contornos macios.

Um pouco de alto medito
A névoa só com a ver.

A vida? Não acredito.

A crença? Não sei viver.

De quem é o olhar
De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos ?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando ?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo -
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora-
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua-
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.

E assim a hora passa
Metafisicamente.

Ditosos a quem acena
Marinha
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida !
São felizes : têm pena...

Eu sofro sem pena a vida.

Dôo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...

E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.

Dizem que finjo ou minto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
Écomo que um terraço
Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê !
Dizem?
Dizem?
Esquecem.

Não dizem ?
Disseram.

Fazem?
Fatal.

Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar ?
Tudo é
Sonhar.

Dobre
Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.

Dorme enquanto eu velo...

Dorme enquanto eu velo...

Deixa-me sonhar...

Nada em mim é risonho.

Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.

Os meus desejos são cansaços.

Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...

Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.

Dorme sobre o meu seio
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...

No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.

Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.

Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.

O 'spaço negro é mudo.

Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.

Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...

No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.

Do vale à montanha
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte, cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Pr casas, por prados,
Por Quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.

Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.

Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.

É brando o dia, brando o vento
É brando o dia, brando o vento
É brando o sol e brando o céu.

Assim fosse meu pensamento !
Assim fosse eu, assim fosse eu !
Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...

Ser eu assim ser eu assim !
Ah, o mundo é quanto nós trazemos.

Existe tudo porque existo.

Há porque vemos.

E tudo é isto, tudo é isto !
Ela canta, pobre ceifeira
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando !
Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro ! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !
Ela ia, tranqüila pastorinha
Ela ia, tranqüila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.

Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

"Em longes terras hás de ser rainha
Um dia lhe disseram, mas em vão...

Seu vulto perde-se na escuridão...

Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora _
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...

Elas são vaporosas
Minuete Invisível
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...

Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...

Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...

Passam e agitam a brisa...

Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...

Passam nos ritmos da sombra...

Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...

Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar ...

Em Busca da Beleza
Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria idéia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia da Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

Em horas inda louras, lindas
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna !
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos....

Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.

Emissário de um rei desconhecido
Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou.

Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há ! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...

Já viram Deus as minhas sensações...

Em plena vida e violência
Em plena vida e violência
De desejo e ambição,
De repente uma sonolência
Cai sobre a minha ausência.

Desce ao meu próprio coração.

Será que a mente, já desperta
Da noção falsa de viver,
Vê que, pela janela aberta,
Há uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer ?
ALÉM-DEUS
I) Abismo
II) Passou
III) A Voz de Deus
IV) A Queda
V) Braço sem Corpo Brandindo um Gládio
I) Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.

Tudo de repente é oco -
Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...

E súbito encontro Deus.

II) Passou
Passou, fora de Quando,
De Porquê, e de Passando...,
Turbilhão de Ignorado,
Sem ter turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...

O Universo é o seu rasto...

Deus é a sua sombra...

III) A Voz de Deus
Brilha uma voz na noute...

De dentro de Fora ouvi-a...

Ó Universo, eu sou-te...

Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idéia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...

Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que para Deus me afundo.

IV) A Queda
Da minha idéia do mundo
Caí...

Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...

Escada absoluta sem degraus...

Visão que se não pode ver...

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...

Clarão de Desconhecido...

Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...

V) Braço sem Corpo Brandindo um Gládio
( Entre a árvore e o vê-la )
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...

Entre o que digo e o que calo
Existo te; que me vê?
Erro ombal elevado
Está pomba, ou de lado?
[1913?] ter rasgado dos pendõ cessar dos clarins na t a,< ta ficou : como uma cheia vão que o Rei louco otilde;es
Trouxe ao eacute;lio, sem idéia.

e;gua que mão i eu r> Tudo morreu, sem razões.

A noite cobre o campo, que o Destino
Com a abandonado.

Só no luar que nasce os pend&oti
'Strela campo desolado
Uma derr cut gnotos.

Entre o luar e a folhagem
Entre o luar e a folhagem o sossego e br> Entre o ser noite e hav > Passa um segredo.

minha alma na passagem.

tem lugar, não tem ve

Atrai e dói.< gue-o meu ser em liberdade.

alegria o traz ?
O que sou dele rri é nem faz.

no e sonho,
Entre mim e o br> É o quem eu me suponho um rio sem fim.

po gens,
Diversas mais al& > Naquelas vá s
Que todo o >

Chego habito
A casa que hoje sou Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e No que me liga Dorme onde o rio cor
Eros e Psique
assim vêdes, meu Irm& e as verdades que vos foram da no Grau de
Ne , e aquelas que vos foram dadas n epto Menor, são, ain opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Aacute;trio Na Ordem Templ a D Portugal)
Conta a lenda que dormia
Uma Princ a
A q ; despertaria
Um Infante, que viria
De além do ada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
e, já libertado,
e o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

a, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E ronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante il;ado,
Sem ntuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela orado,
a para ele é ninguém.

Mas cada um stino
Ela dormindo en Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir /p>

E, se bem que s br> Tud da fora,
E falso, ele vem se E vencendo estrada e muro,
a onde em sono ela mora,
E, in o q br> À cabeça, em maresia,
Erg e;o, e encontra hera,
ue ele mesmo era
A Princesa que

Obs.: Publicado pela pr n Presença, números 41-42, Coi e
1934. Acerca da epí cabeça este poema diz o próprio br> interrogação levantada te;tico A. Casais Monteiro, em carta ute;ltimo:
A citação, afe ao meu poema "Eros e Psique", de raduzido, pois o
Ri ; em latim) do Ritual do Terceiro m Templária de Por indica simplesmente - o fato - que me foi permitido folhe Rituais dos três
imeiros graus dessa Ordem, extinta, ou c;ncia desde cerca de . S não estivesse em dormência e;o citaria o trecho do pois se não devem
r (indicando a orig de Rituais que estão em trab [In VO/II.]
utono mora m&aacut uteiros
E põe um ro ribeiros...

Hóstia de assombro a alma, e as...

onteceu-me esta paisagem, fad De sepulcr ute;aco... Trigueiros
cut face, e os derra Tons do poente segredam nas arcadas.

No c uuml;estrando a lucidez
spasmo apagado em ódio irc;nsia
P&ot de ilhas vistas do conv&eacu No meu cansaço perdid elos
do outono é um funeral d r> ela estrada da minha dis ia...

Esta espécie de loucura
écie de loucura
Que é pouco cha o e;o do pensamento,
bra na cidade.

Mas em mi sei o que h&aacut ia para quem é
eliz dia para quem é
O igual do dia, ode ser
m azul do cé ute Com que viver
se que estão
s quedos
haver no coraç&at E em seus segre Mas vejo qu sta Igual do dia

h, a ironia
De s tir a terra e o cé Tão belo ser
Quem de si sente que perdeu ão dura
ais do que a so ento
Tua fresc Persiste no meu pensamento

N& perdi
sou Só ó flor, t Onde n& senão a t acute;u.

um momento
Foi um momento
que pousaste
Sobre o meu bra&cced Num movimento
cansaço
Q o,
A tua mão
etir

Senti ou n&a > Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer m a
Fixa e corpórea
sas A mão que teve
sentido
Incompreendido.

Mas tão de leve !... Tudo isto é nada,
strada
Como é a vid Há muita coisa
Incompreendida...

u se quando
A tua r> Senti pousando
'Sobre o m l;o,
E um pouco, um pouco, No coração,
atilde;o houve um ritmo
aço ?
Como Sem o querer,
ocasses
Para di Qualquer mistério, Que ti

Assim a bri os diz
Sem o saber
a i Coisa feliz.

Fosse eu apenas, não se mo
Fosse eu ape e;o sei onde ou como,
Uma c te sem viver,
Noite de Vi nhe Entre as sirtes d o assomo....

ada maliciosa ou incerto Fadado houvesse e;o r> Meu intuito gl a com Ter
A vor o único pomo...

Fosse eu uma met&aacu mente
crita nalgum livro insubsistente
eta antigo, de alma em outras gamas,
s doente, e , num crepúsculo de espadas,
ntre bandeiras desfraldadas
Na ma tarde de um império em cha

Fresta

Em meus curos
Em que em mim não h guém,
E tudo n&e muros
Quanto a vida dá ou tem,
De sou aterrado,
Vejo o long&iacu zonte
Cheio de sol posto ou Revivo, existo, conheço,
seja ilusão
O exterior em que dil;o,
mais quero nem peço.

ego ccedil;ão.

Fúria nas t o
Fúria nas trevas o vento
N m de alongar,
Não h&aa eu r> Senão não poder

Parece que a alma tem
reva onde sopre a crescer
Uma loucura qu querer compreender.

as to
Sem se poder libertar

Estou preso ao meu pensa Como o vento preso ao ar.

>

Quem me roubou a minha dor E só a vida me deixou po Quem, entre o incêndio da alma em que o ser p deixou só no fogo e no torpor Quem fez a fantasi a,
Negando murchecendo a flor ?
N m ou o Fado, e a fantasia siga

em me dispôs para o que n&a des Quem me fadou para o e;o conheço
Na teia do guém tece ?
e a onho que me odiava
acute; a vida em que me ;o,
"Onde ade a cor se trava ?"
Leal
Sangra, sinistr s o edil;o.

Se s anéis irreversíveis s&a > desgraça, a tristeza, a sol o.<

Oito luas fat espaço.

ta, Apolo em seu rega& A Saturn A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito il; p>

o , sangrando lasso.

ute;teis oito luas da l Quando a cintura tríplice d Solidão e des e amargura !
oite sem fim um rastro brota,
ígios de malign a : É a lua além cute;lgida e ignota.

Grandes mistérios hab O limiar do meu se r onde hesitam
Grandes p&aacu e fitam
Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo,
Como nos sonho ute

Hesito se sondo e cismo,
E à é cataclismo
O limiar onde está.

ntão despert
Inda que em dia tristonho;
iar é medonho
E todo passo é uma cruz.

Gui ute; a razão
Guia-me a só a razão

Não me deram mais guia.

a-me em vão ?
Só ela m >

Tivesse quem criou
O mundo deseja Q e o ,
Ter-me-ia outro criado.

Deu-me olhos para ver.

Olho dito.

Como ousarei dizer:
<<Ce bendito >> ?
Como olhar, lde Deus me deu, para ver
a além da visã Olhar d .

Se ver é ,
Pensar um descaminho,
erdade e caminho.

Ilumina-se a Igrej ro Ilumina-se a igreja po chuva deste dia,
E cada vela que se acende &ea ch na vidraça...

Aleg r a e ela é o templo estar aceso,
vidraças da igreja vistas de for o som da chuva ouvido ro ...

O esplendor do alt te; o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão s lha do altar...

Soa o can latino e vento a sacudir-m edil;a
E sente-se chiar a &a fato de haver coro...

A missa é um automó a
Através dos fié oelham em hoje ser um dia triste p>

Súbito v em esplendor maior
A fest l e o ruído da chuva absorve tud Até só se ouvir a e água perder-se ao long om de rod oacute;vel...

< E apagam-se as luzes da igreja< que cessa ...

alo

Quem te disse ess > Que raras deusas têm esc > uele amor cheio de crenç > Que é ve acute; se é segredado?...

Quem te disse t&ati ? N&atild utro, porque não sabia.

Mas quem roçou da abelo
E te disse ao ouvido o ? pôs dito, porque o direi,
Que o sup to, porque o só fin os que nem sei Seja o que f que levemente,
ido vagamente atento,
T sse presente
não passa do meu pensamento
ue anseia e que não sente?
um sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu dis A frase eterna, imerecida e louca -
A q esperam da ledice
Com que o Olimpo se apo Isto
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente Com a imaginação.

&ati coração.

Tudo ou passo,
O que me falha ou finda,
bre ainda.

Essa coisa é e; linda.

Por isso e io
Do que não est& p& Livre do meu e Sério do ;o é.

Sentir? Sinta quem lê!

Ai que p N&ati r um dever,
ivr r> E nã > Ler & cedil;ada,
Es e; nada.

Sol doira
tura
bem ou mal,
ccedil;ão original E a brisa, essa, De tão naturalm al, Como o tempo não tem pressa

Livros são is pintados com tinta.

Estudar &e oisa em que está indist A distinç&at nada e coisa nenhum Quanto é melhor, quanto há br Esperar por D.Seba ;o, Quer venha ou não !< acute; a poesia, a bondade e as dan&

r do mundo são as crianç s, músi e o sol, que peca
quando, em vez de criar, sec

Mais que i É Jesus Cristo, Nem con sse biblioteca...

digas nada!
Nem me e
Há tanta em er
E tudo se entender -
etade
De senti .

N& as nada
Deixa esquecer
alvez que amanhã
outr r> Digas que foi v&atil Toda essa viagem
; onde quis
Se rada...

i fui feliz
N&at as

Não: n& iga Não: n&atil na Supor o que dirá
tua boca velada
&Ea o já
&Eacu o m Do que o dirias.

O que és n&ati grave; flor
Das frase .

&Eacu do que tu.

lde;o digas nada: sê!
aça do corpo nu
s&i vê.

O Andaime
O u hei sonhado
Q s f br> Ah, quanto do meu pass Foi só a vida me De um futuro imaginado!
; beira do rio
Sossego se ati

Este seu c o ida vivida em vão.

A 'sp'rança cança!
ejo jo?
E uma bol cedil;a
So minha 's'prança,
que o meu desejo.

Ondas do rio, t&at es< Que não sois ondas Horas, dias, anos, Passam - verduras ou neves
Q so .

Gastei tudo que n& ha.

Sou mais velho do que s

A ilusão, que me mant Só no palco era rainha:
e, e o reino acabou.

Leve aac tas,
Gulosas da margem ida,
Qu edil;as sonolentas
De esperan&ccedi as!
Que sonhos o sonho e a vida Que fiz de mim? Encontrei-me
est ; perdido.

Impaciente deixei-me
omo a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Q r ter que ser,
Leva não só lembr as Mortas, porque hão de morrer.

Sou morto futuro.

Só um sonh mim -
O sonho atrasado e obscuro
vera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
ido do mar!
Ao que não serei lega Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

O Maestro Sacode a Batuta
O maestro sacode a ba A lânguida e triste a m&ua rom

Lembra-me a minha infância, a > Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O de c& de, e do outro lado
Um cavalo azul a corr ckey amarelo ...

Prossegue a música, ha infância
De repen e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, o de;o verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

teatro é o meu quintal, a minha infânc Está em todos os lugares e a bola vem a tocar m&uacu Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
estida de cão verde tornando-se jockey amarelo... (Tão rápida gira a bola entre mim e os m&u ..)
Atiro-a de encontra à minha inf a e Atravessa o teatro todo que est&aac s pés
A brincar com u relo. e um cão verde
E zul que aparece por cima do Do meu quintal... E a m ca las
À minha ia... E o muro do quintal &e de gestos
ta e rotaçõ s d s verdes
E cavalos keys amarelos ...

o o teatro é um muro bra ute;sica
Por onde um c& erd aacute;s de minha saudade
a minha infância, cavalo jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da dir esquerda,
h&a te;rvores e entre os ramos da copa
Com o tocar música,
nde há filas de b ja ei
E o homem da loja sorr emórias da minha i a...

E ica cessa como um muro q
A ous a em cima da fuga dum muro,
urva-se, sorrindo, com uma ca abeça,
Bola br desaparece pelas costas >

O cute;i não é
O que há no cora&c lde Mas essas coisas lindas

S formas sem forma
Qu em > As possa conhecer
Ou o a

São como za
Fosse árvore e, br> Caíssem suas re o vestígio e a bruma.

velha música!
Pobre velh ;si Não sei por que agrado e de lágrimas
r p

Recordo outro ouvir-te,
atilde;o sei se te ouvi
Ness f&a > Que me lembra em ti.

que ânsia tão raiva
aqu
E eu era feliz? N&ati r> Fui-o outrora agora.

Põe-me as mãos no /p>

P&ot mãos nos ombros...

Beija-me na fronte...< Minha vida é r> A minha alma insont

Eu nã uê,
Me venho,
Sou o ser que v&ecir circ; tudo estranho.

Põe a tua mão Tudo é ilus&at

Sonhar & ecirc;-lo.

Sonho. Não sei ste momento.

< Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento, Pare Sinto que não sei.

Nada quero nem tenho nem reco

Não tenho s /p>

Lapso eci e ilusões,
Fantasmas me contêm.

ão de ninguém. Sorriso audí lha Sorriso audíve as< Não és ma sa ali
Se e
Quem primeiro ue O primeiro a sorrir ri.

e não olhar
ara has sente
O so passar
Tudo é isf .

olhar, de estar olhando
nde não olha, volto os os dois falando
e n nversou
ba il;ou?
Sentimento
Tenho mento
Que é freq&u ers De que sou sentimen Mas reconheço, ao r> Que tudo is pensamento,
Que n sen p>

Temos, todos que vivemos, &Ea ue é dividida
Ent ira e a errada.

Nos saberá explicar;
mos de maneira
qu m
É a que t sar

Teus olhos

Teus olhos m Dormem, sonham esquece

Nã e prossigo.

< já, de triste,
ta p>

Creio que nunca o > tão tua que és.

p> has-me de repente
stante impreciso
Com um olhar ausente.

um sorriso.

a fal

Co ou > acute;s a pensar,
acute; ão sorrindo.

Até que n os de fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.

os depois ntenso amento
A criança loura
Jaz no meio da rua.

Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.

Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.

Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?
Vaga, no azul amplo solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.

O meu passado não volta.

Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.

Entra mais na alma da alma.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br