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PESSOA E O FADO: UM DEPOIMENTO DE 1929

No seu número de 14 de Abril de 1929, publicou o «Notícias Ilustrado», revista semanal editada pelo «Diário de Notícias» e dirigida por Leitão de Barros, uma vasta recolha de documentos e depoimentos sobre o fado. Leite de Vasconcellos, Campos Monteiro, António Botto, Augusto de Santa Rita, Teixeira de Pascoaes, Stuart Carvalhaes, e muitos outros (como Almada ou Jorge Barradas que colaboraram com desenhos) vieram alimentar a já acesa polémica que, por essa altura, envolvia o assunto.

Fernando Pessoa apareceu, também, com uma deliciosa declaração «mensageira» que, pairando acima de defensores e de atacantes, põe em prática a sua habitual argumentação cortante e paradoxal. Ei-la:

«Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre, e a canção dos povos alegres é triste.

O Fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter forças para o desejar.

As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.

O fado é o cansaço de alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e que também o abandonou.

No fado os Deuses regressam, legítimos e longínquos. É, esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.

Fonte: www.instituto-camoes.pt