A interação nuclear é independente da carga elétrica,
isto é, atua igualmente entre prótons (interação
p-p), entre nêutrons (interação n-n) e entre prótons
e nêutrons (interação p-n). A estabilidade do dêuteron,
o núcleo com um nêutron e um próton, permite concluir
que existe interação nuclear entre nêutrons e prótons.
O número de nêutrons cresce mais rapidamente que o número
de prótons para núcleos estáveis não muito pequenos,
como pode ser visto na tabela dos núcleos conhecidos. Isto permite
concluir que existe interação nuclear entre nêutrons.
Com o crescimento do número de prótons, cresce o efeito antiestabilizante
da repulsão coulombiana. Esse crescimento só pode ser contrabalançado
pelo crescimento do efeito estabilizante da interação nuclear.
Como cada núcleon interage apenas com um número limitado de
outros núcleons, o excesso de nêutrons só pode contribuir
para o crescimento do efeito estabilizante se existe interação
nuclear entre nêutrons. Para núcleos estáveis pequenos,
o número de nêutrons cresce junto com o número de prótons,
como pode ser visto na tabela dos núcleos conhecidos. Este fato mais
a existência de interação nuclear entre nêutrons
permite concluir que existe interação nuclear também
entre prótons e com a mesma intensidade. Se não existisse interação
nuclear entre prótons ou se a interação nuclear entre
nêutrons fosse mais intensa do que a interação nuclear
entre prótons, os núcleos estáveis pequenos deveriam
conter um número maior de nêutrons do que de prótons e
não um número aproximadamente igual de nêutrons e prótons
como, realmente, acontece.
A independência da carga nas interações nucleares é,
também, corroborada pelo fato de que os resultados dos experimentos
de espalhamento de prótons pelo núcleo são idênticos
aos resultados dos experimentos de espalhamento de nêutrons.
A interação nuclear depende da orientação dos spins dos núcleons relativamente à reta que passa pelos núcleons.
Com o passar do tempo e na ausência de uma teoria detalhada para descrever a estrutura nuclear, vários modelos foram desenvolvidos, cada qual correlacionando os dados experimentais de um conjunto mais ou menos limitado de fenômenos nucleares. Entre os modelos formulados estão o modelo de gás de Fermi, o modelo uniforme, o modelo de partícula a, o modelo da gota líquida e o modelo nuclear de camadas. Com o modelo da gota líquida, em particular, foi desenvolvida a seguinte fórmula semi-empírica para o cálculo da energia de ligação nuclear:
E = aV A - aC Z ( Z - 1 ) A-1/3 - aS A2/3 - aR ( A - 2Z )2 A-1 + aPI A-1
onde um dos possíveis conjuntos de valores (em MeV) para as constantesaV, aC, aS, aR e aPI, obtidos por ajustes de curvas experimentais, é:
| aV = 14,0 | aC = 0,584 | aS = 13,1 | aR = 19,4 | aPI = 135 |
|---|
com
= +1 para núcleos par-par (Z par e N par),
= 0 para núcleos par-ímpar (Z par e N ímpar ou Z ímpar
e N par) e d = -1 para núcleos ímpar-ímpar (Z ímpar
e N ímpar).
O primeiro termo do lado direto da expressão dada corresponde ao termo de volume, proporcional ao número de núcleons A, e está associado ao fato de ser mais ou menos constante a energia de ligação por núcleon ou, o que dá no mesmo, ao fato de que cada núcleon interage apenas com um número limitado e fixo de outros núcleons.
O segundo termo corresponde ao termo coulombiano, associado à repulsão eletrostática entre os prótons do núcleo, e aparece com o sinal negativo porque o efeito de repulsão tende a diminuir a energia de ligação. Como os prótons interagem aos pares, esse termo é proporcional ao número de pares de prótons do núcleo, Z ( Z - 1 ), e como a interação é tanto menor quanto maior a distância entre os prótons, esse termo é inversamente proporcional ao raio do núcleo, ou seja, inversamente proporcional a A1/3.
O terceiro termo corresponde ao termo de superfície e está associado ao número de núcleons da superfície do núcleo. Se os núcleons do interior do núcleo interagem com um dado número de outros núcleons, os núcleons da superfície interagem, em média, com a metade desse número. Como se considerou, no primeiro termo, que todos os núcleons interagem com igual número de outros núcleons, deve-se descontar um termo proporcional ao número de núcleons da superfície ou à área da superfície, ou seja, ao quadrado do raio, A2/3.
O quarto termo corresponde ao termo de simetria. Para um dado valor de A, existe um valor de Z que corresponde ao núcleo mais estável. Para núcleos pequenos, onde o efeito da repulsão coulombiana é pequeno, esse valor é Z = A / 2 ou 2Z = A. Assim, na ausência da repulsão coulombiana, valores de A diferentes de 2Z levam a menor estabilidade, ou seja, a um valor menor para a energia de ligação nuclear e esse efeito é representado, então, por ( A - 2Z )2. O quadrado serve para garantir que tanto e excesso de nêutrons quanto o excesso de prótons levem a uma menor estabilidade. Finalmente, o quinto e último termo, que corresponde ao seguinte efeito. Dos núcleos estáveis, aqueles com número par de prótons e nêutrons são os mais abundantes e, presumivelmente, os mais estáveis. Núcleos com número ímpar de prótons e nêutrons são os menos estáveis.
A fórmula semi-empírica da energia de ligação
nuclear permite, entre outras coisas, a discussão da estabilidade dos
núcleos isóbaros e do decaimento b. Como primeiro exemplo, sejam
os seguintes núcleos isóbaros com número de massa A =
73 (ímpar): zinco, gálio, germânio, arsênico e selênio,
cujas energias de ligação (em MeV) aparecem na tabela a seguir
onde aparecem, também, os correspondentes valores absolutos (em MeV)
dos vários termos da fórmula semi-empírica da energia
de ligação.
| Elemento | 73Zn30 | 73Ga31 | 73Ge32 | 73As33 | 73Se34 |
| aV A | 1022,000 | 1022,000 | 1022,000 | 1022,000 | 1022,000 |
| aC Z ( Z - 1 ) A-1/3 | 121,579 | 129,964 | 138,628 | 147,572 | 156,795 |
| aS A2/3 | 228,818 | 228,818 | 228,818 | 228,818 | 228,818 |
| aR ( A - 2Z ) 2 A-1 | 44,912 | 32,156 | 21,526 | 13,022 | 6,644 |
| aPI A-1 | 0,000 | 0,000 | 0,000 | 0,000 | 0,000 |
| E | 626,691 | 631,062 | 633,028 | 632,588 | 629,743 |
O gráfico da energia de ligação em função
de Z é uma parábola. O núcleo germânio 73 é
o mais estável porque tem a maior energia de ligação
e aparece mais próximo do vértice da parábola. Os isóbaros
com energia de ligação menor aparecem nos ramos da parábola
e podem decair por emissão de um elétron (decaimento
-),
por emissão de um pósitron (decaimento
+)
ou por captura eletrônica (captura K). Os isóbaros com número
atômico menor que o número atômico do isóbaro mais
estável (ramo esquerdo) decaem por emissão de um elétron
(decaimento
-):

73Zn30
73Ga31
73Ge32 (estável)
Em termos dos núcleons, o decaimento b- é a transformação de um nêutron num próton, com a emissão de um elétron e um antineutrino:
n ---> p + e- + n
*
Analogamente, os isóbaros com número atômico maior que
o número atômico do isóbaro mais estável (ramo
direito) decaem por emissão de um pósitron (decaimento
+)
ou por captura K ou por ambos:
73Se34
73As33
73Ge32 (estável)
Em termos dos núcleons, o decaimento b+ é a transformação de um próton num nêutron, com a emissão de um pósitron e um neutrino:
p ---> n + e+ + ![]()
A captura eletrônica é a captura, pelo núcleo atômico, de um elétron orbital. Se um elétron da camada K é capturado, o processo é chamado captura K. Elétrons de outras camadas podem ser capturados, mas com probabilidades menores. Em termos elementares, a captura eletrônica fica:
p + e- ---> n +
Para isóbaros com número de massa A par, a discussão é um pouco diferente por causa do termo par-ímpar da fórmula semi-empírica da energia de ligação. Esse termo é positivo para núcleos par-par e negativo para núcleos ímpar-ímpar, de modo que existem duas parábolas. Como exemplo, sejam os seguintes núcleos isóbaros com A = 64 (par): cobalto,níquel, cobre, zinco e gálio, cujas energias de ligação (em MeV) aparecem na tabela a seguir, onde aparecem, também, os correspondentes valores absolutos (em Mev) dos vários termos da fórmula semi-empírica da energia de ligação.
| Elemento | 64Co27 | 64Ni28 | 64Cu29 | 64Zn30 | 64Ga31 |
| aV A | 896,000 | 896,000 | 896,000 | 896,000 | 896,000 |
| aC Z ( Z - 1 ) A-1/3 | 102,492 | 110,376 | 118,552 | 127,020 | 140,306 |
| aS A2/3 | 209,600 | 209,600 | 209,600 | 209,600 | 209,600 |
| aR ( A - 2Z ) 2 A-1 | 30,313 | 19,400 | 10,913 | 4,850 | 1,213 |
| aPI A-1 | (-) 2,109 | (+) 2,109 | (-) 2,109 | (+) 2,109 | (-) 2,109 |
| E | 551,486 | 558,733 | 554,826 | 556,639 | 542,772 |
A curva inferior corresponde aos núcleos ímpar-ímpar
e a curva superior, aos núcleos par-par. Portanto, os primeiros são
instáveis em relação aos segundos. Pela curva correspondente
aos núcleos par-par pode-se observar que existem dois isóbaros
estáveis com números atômicos diferindo por duas unidades.
Os núcleos com Z menor do que o Z do estado mais estável decaem
por emissão de elétron (decaimento
-)
e os núcleos com Z maior que o Z de um dos núcleos mais estáveis
decaem por emissão de pósitron (decaimento
+),
captura K ou ambos. O isóbaro mais próximo do vértice
da parábola ímpar-ímpar pode decair por
-,
+
ou captura K.

A massa de um núcleo com Z prótons e ( A - Z ) nêutrons é dada por:
Mz,a = Zmp + ( A - Z )mn - E / c2
onde mp e mN são, respectivamente, as massas do próton e do nêutron. Com a fórmula acima para a energia de ligação, vem:
Mz,a = Zmp + ( A - Z )mn - ( 1 / c2 ) [ aV A - aC Z ( Z - 1 ) A-1/3 - aS A2/3 - aR ( A - 2Z )2 A-1 + aPI A-1 ]

Com o espectrômetro de massa determina-se massas atômicas com
grande precisão permitindo, inclusive, distinguir as massas dos isótopos
de um mesmo elemento. E descontando-se a massa dos elétrons, determina-se,
então, as massas dos núcleos correspondentes. No espectrômetro
esquematizado, uma fonte produz íons com carga elétrica Ze (positiva)
e massa M e velocidades variadas. Os íons entram numa região
com um campo elétrico uniforme e um campo magnético também
uniforme, perpendiculares entre si, constituindo um filtro de velocidade.
Desprezando-se a força peso, sobre os íons atuam uma força
elétrica e uma força magnética de mesma direção
e sentidos contrários, com módulos dados, respectivamente, por
ZeE e ZevB. Atravessam o filtro apenas os íons para os quais a força
magnética e a força elétrica se cancelam mutuamente,
isto é, íons com velocidade bem determinada, de módulo
v tal que:
ZeE = ZevB
ou:
v = E / B
Saindo do filtro, esses íons entram numa região onde existe apenas o campo magnético uniforme, de forma que percorrem trajetórias circulares de raio R sob o efeito da força magnética, que faz o papel de força centrípeta. Assim:
Mv2 / R = ZevB
Das duas últimas expressões vem:
M = ZeRB2 / E
Como se conhece a valor absoluto da carga do elétron, e, e o valor de Z, e se mede R, B e E, essa expressão permite determinar M, a massa dos íons.

A câmara de bolhas permite visualizar as trajetórias das partículas emitidas pelos materiais radioativos. A câmara de bolhas consiste de uma cavidade cujo volume pode ser controlado por um pistão. Na cavidade existe certa substância em parte no estado líquido e em parte no estado de vapor e um gás. No equilíbrio, o gás fica saturado de vapor. A quantidade de vapor que pode se misturar ao gás em questão no equilíbrio depende da temperatura da mistura. Se esta temperatura diminui rapidamente, o gás, antes saturado, fica, agora, supersaturado, e parte do vapor passa ao estado líquido, condensando-se em pequenas gotas. A condensação do vapor em gotas é mais provável ao redor de partículas, que funcionam como centros de condensação. Em particular, partículas ionizadas são ótimos centros de condensação. As gotículas podem ser observadas ou fotografadas a medida em que vão se formando iluminando-se a cavidade por uma janela. Uma partícula ionizada movendo-se através da cavidade deixa um rastro de gotículas e, desse modo, fica marcada sua trajetória.
Quando o pistão é abaixado rapidamente, o volume da cavidade
aumenta também rapidamente, a mistura de gás e vapor se expande
adiabaticamente, sua temperatura diminui, o gás fica supersaturado
e o vapor fica pronto para se condensar em gotículas. Se uma amostra
de material radioativo é colocada na cavidade, aparecem, provenientes
dela, feixes de partículas
e
e de fótons
.
Os íons produzidos por estas partículas e fótons é
que funcionam como centros de condensação. A capacidade de produzir
íons depende, em grande parte, da massa da partícula e da sua
carga.
As partículas
produzem mais íons. As partículas
,
no seu movimento através da cavidade, interagem praticamente apenas
com os elétrons dos átomos que constituem as moléculas
do gás e do vapor presentes. Por isso e porque sua massa é muito
maior que a massa dos elétrons, as partículas a mantêm
trajetórias retilíneas.
As partículas
interagem também apenas com os elétrons dos átomos que
constituem as moléculas do gás e do vapor e como as massas são
comparáveis, as partículas
têm muito maior probabilidade de sofrer desvios do que as partículas
.
A maior parte dos núcleos são instáveis, ou seja, as
respectivas combinações de prótons e nêutrons não
originam configurações nucleares estáveis. Esses núcleos,
chamados radioativos, se transformam pela emissão de partículas
a, elétrons, pósitrons, neutrinos e radiação eletromagnética
(fótons
).
Na tabela de núcleos, cada núcleo é representado por um ponto (pequeno quadrado). Por exemplo, o urânio 238 é representado pelo ponto correspondente a 92 no eixo horizontal (eixo do número de prótons ou número atômico, Z) e 238 - 92 = 146 no eixo vertical (eixo do número de nêutrons, N). Os núcleos associados aos pontos de uma mesma coluna são os isótopos do elemento com o número atômico correspondente. Os núcleos associados aos pontos da reta marcada Z = N são aqueles para os quais o número de prótons é igual ao número de nêutrons. Alguns núcleos estáveis pequenos têm Z = N.
Uma característica importante dos núcleos é a sua razão N / Z. Para o hidrogênio 2 (Z = 1) e o hélio 4 (Z = 2), N / Z = 1, para o ferro 56 (Z = 26), N / Z = 30 / 26 = 1,16 e para o bismuto 209 (Z = 83), N / Z = 126 / 83 = 1,25. Todos são núcleos estáveis. Com o aumento do número atômico dos núcleos estáveis, aumenta o valor da razão N / Z. A curva que marca a tendência dos pontos associados aos núcleos estáveis é chamada curva de estabilidade. A inclinação dessa curva representa a razão N / Z. De modo geral, os núcleos radioativos tendem a decair produzindo núcleos estáveis, isto é, núcleos associados a pontos fora da curva de estabilidade tendem a se transformar em núcleos associados a pontos na curva de estabilidade.
Núcleos radioativos associados a pontos localizados abaixo e à
esquerda da curva de estabilidade têm razões N / Z muito grandes
para serem estáveis. Esses núcleos, como o núcleo da
prata 111 (Z = 47), por exemplo, têm excesso de nêutrons. O ponto
associado ao núcleo filho vai estar mais perto da curva de estabilidade
se o núcleo da prata 111 emitir um elétron, reduzindo o número
de nêutrons e aumentando o número de prótons [decaimento
].
Com uma probabilidade muito pequena pode acontecer diretamente a emissão
de um nêutron, como no caso do kriptônio 87:
87Kr36 ---> 86Kr36 + n
Núcleos radioativos associados a pontos localizados acima e à
direita da curva de estabilidade têm razões N / Z muito pequenas
para serem estáveis. Esses núcleos têm excesso de prótons
e tendem a decair emitindo uma partícula
[decaimento
]
ou um pósitron [decaimento
].
Núcleos grandes, como o urânio 235 e o urânio 238, têm
maior probabilidade de ajustar a razão N / Z reduzindo o número
de nêutrons e o número de prótons ao mesmo tempo, ou seja,
emitindo partículas
.
Núcleos menores tendem a aumentar o número de nêutrons
e reduzir o número de prótons ao mesmo tempo e o fazem emitindo
pósitrons.
No decaimento a, o núcleo pai emite uma partícula a, ou seja, um núcleo de hélio 4, ou seja, 4He2, composto de dois prótons e dois nêutrons. Assim, quando um núcleo emite uma dessas partículas, seu número atômico diminui de duas unidades e o seu número de massa, de quatro unidades:
AXZ ---> A - 4YZ - 2 + 4He2
ou:
AXZ ---> A - 4YZ - 2 + a
O núcleo AXZ é chamado núcleo pai e o núcleo A - 4YZ - 2 é chamado núcleo filho. Por exemplo:
232U92 ---> 228Th90 + 4He2
Os núcleos emissores de partícula a são, principalmente,
aqueles com grande número de massa, onde a repulsão coulombiana
entre os prótons é muito grande. O mesmo tipo de núcleo
pode emitir partículas a com diferentes energias porque o núcleo
filho pode estar no estado fundamental ou em um estado excitado. Se o núcleo
filho está em um estado excitado ele passa, posteriormente, ao estado
fundamental, por emissão de radiação eletromagnética
(radiação
).
Assim, o decaimento a pode ser acompanhado de decaimento
.
Normalmente as partículas a podem ser bloqueadas por uma folha de papel.
A energia liberada no decaimento a pode ser calculada pela seguinte expressão, que vem diretamente do princípio de conservação da energia:
Q = [ MX - MY - ma ] c2
onde MX, MY e ma são, respectivamente, as massas
do núcleo pai, do núcleo filho e da partícula
.
Para a reação de decaimento do urânio 232 dada acima,
como:
MU = 232,1095 u
MTh = 228,0998 u
maa = 4,0026 u
e:
uc = 931, 4815 MeV
vem:
Q = [ 232,1095 - 228,0998 - 4,0026 ] ( 931,4815 MeV ) = 6,6135 MeV
O valor positivo para a energia liberada significa que o processo pode ocorrer
espontaneamente. Esta energia fica distribuída entre o núcleo
filho e a partícula a em proporções diferentes. Para
calcular estas proporções, suponha-se o núcleo pai em
repouso no momento do decaimento e o núcleo filho no seu estado fundamental.
Então, o princípio de conservação da energia fornece:
Q = KY + Ka
onde:
KY = ½ MY vY2 e Ka = ½ ma va2
O princípio de conservação da quantidade de movimento fornece:
MY vY = ma va
Isolando vY desta expressão e colocando na outra, vem:
Q = Ka [ ma / MY + 1 ]
e daí:
Ka = QMY / [ ma + MY ]
E desta expressão, com va da expressão da conservação da quantidade de movimento, segue-se que:
KY = Qma / [ ma + MY ]
Assim, as energias cinéticas da partícula a e do núcleo filho são inversamente proporcionais às respectivas massas. Isso fica mais claro dividindo-se uma pela outra as expressões acima, resultando Ka / KY = MY / ma. Portanto, para a reação de decaimento do urânio 232 dada acima, as energias cinéticas da partícula a e do núcleo filho, ficam:
Ka = ( 6,6135 MeV )( 228,0998 u ) / [ 228,0998 u + 4,0026 u ] = 6,4995 MeV
e
KTh = ( 6,6135 MeV ) ( 4,0026 u ) / [ 228,0998 u + 4,0026 u ] = 0,1140 MeV
Nenhum núcleo decai espontaneamente com emissão de prótons, nêutrons, dêuterons ou qualquer outro tipo de grupo de núcleons porque os correspondentes valores de Q são negativos. Por exemplo, para o processo:
232U92 ---> 231U92 + n
com:
MU232 = 232,1095 u
MU231 = 231,1082 u
mn = 1,0087 u
vem:
Q = [ 232,1095 - 231,1082 - 1,0087 ] ( 931,4556 MeV ) = - 6,8928 MeV
Portanto, o urânio 232 é estável em relação ao decaimento pela emissão de um nêutron. As desintegrações mencionadas acima só podem ocorrer com o fornecimento de energia para o núcleo pai para levá-lo a um estado excitado. Esse tipo de processo é o que mais propriamente se chama de reação nuclear.
Decaimento ![]()
Quando o número de nêutrons é grande comparado ao número de prótons, o núcleo correspondente pode ser instável e o número de nêutrons pode ser diminuído pela transformação de um nêutron num próton. Essa transformação é acompanhada da emissão de um elétron e de um anti-neutrino:
n ---> p + e- +
*
O núcleo filho tem o mesmo número de massa que o núcleo pai, mas um número atômico com uma unidade a mais:
AXZ ---> AYZ + 1 + e-
+
*
Exemplo:
14C6 ---> 14N7 + e-
+
*
Um nêutron livre, isto é, não pertencente a qualquer
núcleo, decai segundo a equação n ---> p + e- +
*
com uma meia vida de cerca de 12 minutos.
Quando o número de prótons é relativamente grande comparado ao número de nêutrons, o núcleo correspondente pode ser instável e o número de prótons pode ser diminuído pela transformação de um próton num nêutron. Essa transformação é acompanhada da emissão de um pósitron (partícula idêntica ao elétron, exceto pela carga, que é positiva) e de um neutrino:
p ---> n + e+ + ![]()
O núcleo filho tem o mesmo número de massa que o núcleo pai, mas um número atômico com uma unidade a menos:
AXZ ---> AYZ - 1 + e+
+ ![]()
Exemplo:
11C6 ---> 11B5 + e+
+ ![]()
O núcleo filho resultante do decaimento
pode estar no estado fundamental ou num estado excitado. Neste último
caso, o processo é seguido de decaimento
.
Uma característica interessante do decaimento
é
que os elétrons e antineutrinos ou os pósitrons e neutrinos
são emitidos com um espectro contínuo de energia, ou seja, cada
tipo de partícula pode ter um valor de energia dentro de certo intervalo
que vai de zero até um valor máximo compatível com o
princípio de conservação da energia. Quanto maior a energia
do elétron (pósitron) emitido, menor a energia do antineutrino
(neutrino) emitido. Quando o elétron (pósitron) tem a energia
máxima, não existe antineutrino (neutrino) emitido. Em processos
de dois corpos, como o decaimento a, os princípios de conservação
da energia e da quantidade de movimento exigem que, no referencial do centro
de massa, onde o núcleo pai está em repouso, a energia liberada
seja dividida entre o núcleo filho e a única partícula
emitida numa proporção fixa.
Os elétrons e pósitrons associados ao decaimento
,
em sua grande maioria, podem ser bloqueados por uma lâmina de alumínio
de cerca de 6 mm de espessura.
Os elétrons das camadas mais internas dos átomos podem se aproximar bastante do núcleo. Em particular, a camada K, que é a mais interna. Um próton do núcleo pode capturar um desses elétrons e o processo se chama captura eletrônica. Se o elétron capturado estava na camada K, o processo é chamado captura K. O resultado é a substituição de um próton do núcleo por um nêutron:
AAXZ + e- ---> AYZ -
1 + ![]()
ou, em termos elementares:
p + e- ---> n + ![]()
A captura eletrônica é seguida pela emissão de radiação
eletromagnética (raios x) pelo núcleo filho, resultante da passagem
de um dos elétrons das camadas mais externas à lacuna da camada
interior deixada pelo elétron capturado. O efeito da captura eletrônica
é a mudança de um próton em um nêutron e nesse
sentido o seu efeito sobre o núcleo é idêntico ao efeito
produzido pela emissão
+.
Exemplo:
48V23 + e- ---> 48Ti22
+ ![]()
48V23 ---> 48Ti22+ e+
+ ![]()
O vanádio 48 se transforma em titânio 48 algumas vezes por
captura K e algumas vezes por decaimento
+.

O decaimento g é a emissão de radiação eletromagnética com freqüências muito elevadas, na porção do espectro eletromagnético correspondente aos raios g, causada por um rearranjo dos prótons em um núcleo. Pode acontecer, por exemplo, quando um núcleo sofre decaimento a ou b, deixando o núcleo filho em um estado excitado. Este, então, ao passar ao estado fundamental, emite radiação g. De modo geral, o núcleo filho permanece no estado excitado, antes de emitir o fóton, por cerca de 10-12 segundos. Um fóton g tem massa (de repouso) nula e carga também nula, de modo que a emissão de um fóton g por um núcleo não tem efeito sobre o seu número atômico nem sobre o seu número de massa. Os fótons g emitidos por núcleos radioativos têm energias entre 10-3 a 1 MeV e podem ser bloqueados por uma lâmina de chumbo com vários centímetros de espessura.