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A Lotação dos Bondes

França Júnior

Pesonagens

Camilo Correa, 26 anos
Ramiro Martins, 50 anos
Elvira Martins, sua filha, 18 anos
Joaquim Pimenta, 40 anos
Josefa Pimenta, sua mulher, 25 anos

Tenentes do Diabo:

Vitorino
Gonzaga
Ernesto
Carneiro
Magalhães

Um criado do hotel

Cenário

A cena passa-se no Hotel de Londres. Época - Atualidade.

Ato único

O teatro representa uma sala do Hotel de Londres no Jardim Botânico.

Cena I

Personagens: VITORINO, ERNESTO, GONZAGA, MAGALHÃES e CARNEIRO (Que comem sentados ao redor de uma mesa.)

VITORINO - Vivam os Tenentes do Diabo!

TODOS - Hip! Hip! Urrah!

ERNESTO - Tu gritas mais do que comes, meu caro amigo.

Toma o exemplo do Magalhães, que come sem gritar.

GONZAGA (Batendo no ombro de Magalhães.) - Éum excelente garfo!

CARNEIRO (Levantando-se.) - Meus senhores, quem devora por este modo merece a consideração e respeito de seus consócios. Eu proponho que o Magalhães seja promovido a capitão do Diabo.

TODOS - Apoiado!

CARNEIRO - Não deve marcar passo em tenente quem ocupa sempre um lugar de honra em nossos passeios, atacando com valor inexcedível as sopeiras e as terrinas e realizando as mais bem combinadas operações de queixo.

ERNESTO - É um Moltke!

CARNEIRO - Vejam: ele acaba de plantar o estandarte da vitória sobre o esqueleto deste peru.

MAGALHÃES - Por falar em peru, passa-me aquele frango de cabidela.

VITORINO - Já não há mais.

MAGALHÃES (Batendo no prato.) - Garçom! Garçom! (Aparece o criado.)

ERNESTO - Frango de cabidela a um. (O criado vai a sair.)

CARNEIRO (Chamando o criado.) - Venha cá, traga para quatro.

MAGALHÃES - Dizes muito bem: eu só, valho por quatro de vocês. (O criado sai, volta depois com o prato pedido.)

CARNEIRO - Não contesto.

MAGALHÃES - E provo-o já.

VITORINO - Vejamos.

MAGALHÃES - Qual é o fim do nosso passeio hoje ao Jardim Botânico?

ERNESTO - Divertirmo-nos.

GONZAGA - Um pretexto para te ver comer.

MAGALHÃES - Não sejam modestos; estamos em família e podemos dizer que nós, os Tenentes do Diabo, só de diabos temos o nome quando, dominados pelos mais belos sentimentos, saímos pelas ruas a implorar do generoso povo fluminense o óbolo da caridade em favor dos desgraçados e oprimidos.

GONZAGA - Bonito, seu Magalhães.

MAGALHÃES - Não vimos aqui hoje esmolar para as vítimas da epidemia de Buenos Aires? Pois bem, abram as sacolas e eu aposto aquele frango de cabidela em como nenhum de vocês será capaz de realizar até ao fim do dia o que eu tenho conseguido até agora.

ERNESTO (Tirando dinheiro do saco.) - Eu já arranjei dez cartões de bondes.

VITORINO - Eu tenho mil e oitocentos.

MAGALHÃES - Eu lhes apresento dez de cinco e quatro cartões da Ferry.

CARNEIRO - Decididamente eu expiraria de bom grado nos braços da epidemia para deixar a viúva amparada por um protetor da tua ordem.

GONZAGA - À saúde do Magalhães.

VITORINO - Falemos em tese. Pela segunda vez - à saúde dos Tenentes do Diabo, e há de ser cantada.

TODOS (Menos Magalhães que come durante o canto que se segue.) - Apoiado!

CARNEIRO - Canto eu. (Canta.)

Em prazeres e folias
Corre a vida venturosa;
Este mundo desgraçado
E daquele que mais goza!

Eia, pois, rapaziada,
Toca a rir, toca a folgar,
Não devemos nesta vida
Duras penas suportar.

CORO (Com acompanhamento de copos.)

Em prazeres e folia
Corre a vida venturosa,
Este mundo desgraçado
E daquele que mais goza.

CARNEIRO -

Somos praças do diabo,
Mas a Deus idolatramos,
Pois as lágrimas da viúva
Com prazer nós enxugamos.

Eia, pois, rapaziada,
Das garrafas demos cabo;
Viva a tropa caridosa
Dos Tenentes do Diabo.

CORO

Eia, pois, rapaziada,
Das garrafas demos cabo,
Viva a tropa caridosa,
Dos Tenentes do Diabo.

Todos - Bravo! Bravo!

Cena II

Personagens: OS MESMOS e o CRIADO

CRIADO - Acaba de chegar um bonde. Quem quiser ir para a cidade, ande depressa, antes que se complete a lotação.

CARNEIRO (Indo à janela. Todos deixam a mesa.) - Já não há lugar; está cheio como a barriga do Magalhães! Ficaram três famílias a ver navios, com umas caras tão desconsoladas...

VITORINO - Aproveitemos aquele grupo. A coleta ali deve ser rendosa.

Tonos - Vamos. (Saem, levando Magalhães um pão consigo.)

Cena III

Personagens: O CRIADO, CAMILO, ELVIRA e JOSEFA

CRIADO (Examinando a mesa.) - Irra! Se o tal sujeito fica aqui mais meia hora, era capaz de devorar os guardanapos!

CAMILO (Entrando com Elvira e Josefa.) - Não se assustem, minhas senhoras, Vossas Excelências têm a seu lado um cavalheiro.

ELVIRA (Aflita.) - A esta hora anda papai à minha procura. Como não estará mamãe aflita! Logo no dia de seus anos!

CAMILO - Sossegue, minha senhora.

JOSEFA - E meu marido, minha Nossa Senhora das Candeias! Antes eu tivesse ficado em Minas. Eu bem não queria vir ao Brasil.

CAMILO - Vossa Excelência é mineira?

JOSEFA - Sim, senhor; nasci na freguesia da Meia Pataca. CAMILO - É por conseguinte meia pataqueira?

JOSEFA - No que tenho muita honra. Chamo-me Josefa Pimenta, estou casada há dois meses com o Senhor Joaquim Pimenta que tem dois filhos do primeiro matrimônio, chamados Cazuza Pimenta e Manduca Pimenta.

CAMILO (À parte.) - Safa! Que pimenteira! Esta família é um molho!

ELVIRA - Onde estará, papai, meu Deus?!

CAMILO - Não imagina Vossa Excelência o favor com que bendigo este feliz incidente.

CRIADO - Os senhores querem alguma coisa?

CAMILO - Vai-te embora, deixa-nos em paz. (O criado sai.)

Cena IV

Personagens: OS MESMOS menos o CRIADO

CAMILO - Vou marcar na minha folhinha este venturoso domingo.

ELVIRA - E o senhor a gracejar em uma situação destas!

CAMILO - O que tem esta situação? Quer que chore? Não estamos um ao lado do outro?

ELVIRA - O coração bem estava me dizendo que eu não devia ir à cidade. Saio de casa a fim de comprar na rua do Ouvidor um presente para dar à mamãe...

CAMILO - E quis a minha boa estrela que seu pai, ao chegar, às três horas da tarde, na rua Gonçalves Dias, no meio da lufa-lufa do povo que ali se apinha à espera de bondes, tomasse o carro do Jardim Botânico pelo das Laranjeiras, que investisse para ele, que Vossa Excelência, mais ligeira, alcançasse um lugar e que ele ficasse na plataforma, sendo daí enxotado pelo urbano, por estar fora da lotação. Nada mais natural. Vossa Excelência não deu por isso; o bonde partiu e eis-me a seu lado, fruindo esta ventura que me esperava. (Vai à janela.)

JOSEFA (Desce.) - Ah! Minha Nossa Senhora das Candeias, que lembrança desgraçada teve aquele homem em querer por força vir visitar hoje a comadre. O senhor não avalia em que assados me vi. Deram-me tamanho futicão no vestido que descoseram-me todo o franzido, perdi o chapéu, romperam-me o chale, estive entalada na porta do carro dois minutos sem poder tomar respiração, puseram-me enfim mais arrepiada do que uma galinha no choco. Sento-me furiosa, parte o bonde e quando procuro pelo Senhor Pimenta...

CAMILO - Tinha ficado também, graças à lotação.

JOSEFA - O senhor não me explicará que história é esta de lotação?

CAMILO - A lotação, minha senhora, é uma medida empregada pela polícia, para que ninguém venha incomodado dentro dos bondes.

JOSEFA - Pois olhe, mais incomodada do que eu vim é impossível! Lá na Meia Pataca não há lotação e a gente anda como quer. Onde está meu marido? O senhor compreende, estou casada com o Pimenta apenas há dois meses...

CAMILO - Devem ter tido uma lua de mel muito ardida.

ELVIRA - Leve-nos para a casa, senhor; iremos com esta senhora e eu explicarei tudo a meu pal.

CAMILO - Tenha paciência; havemos de jantar juntos. Vou chamar o criado e mandar preparar o que houver de mais esquisito. (Canta.)

Bem unidos
Jantaremos,
Quão felizes
Não seremos.

Teu talher
Junto do meu!
O meu rosto
Junto do teu!

Que ventura
Vou gozar!
Que mais posso
Desejar?

ELVIRA -

Minha mãe,
Pobre coitada,
Deve estar
Angustiada.

JOSEFA -

E o Pimenta
Lá ficou,
Sem saber
Aonde estou.

CAMILO -

Não se zangue,
Deixe estar,
Nós havemos
De o encontrar.

ELVIRA - (TODOS)

Minha mãe, etc...

JOSEFA - (TODOS)

E o Pimenta, etc...

CAMILO - (TODOS)

Não se zangue, etc...

CAMILO (Gritando para dentro.) - Garçom! Garçom!

ELVIRA - Vou partir sozinha no primeiro bonde.

CAMILO - Não consinto. (Aparece o criado.) Garçom, prepara naquela sala um jantar para três.

JOSEFA (Para o criado.) - Oh! Seu garçom, o senhor podia me fazer um obséquio? Estou toda descosida, se houvesse lá dentro uma agulha...

CAMILO - Vá com ele, minha senhora, e fale lá dentro com a madama, que há de encontrar tudo quanto precisa. (Saem Josefa e o criado.)

Cena V

Personagens: CAMILO e ELVIRA

CAMILO - Estamos sós. Que ventura! Querida Elvira.

ELVIRA - Meu Deus! O senhor causa-me medo. Por que me olha assim?

CAMILO - Por que te olho assim?! Pergunta à brisa por que cicia medrosa em noites estreladas no recatado turíbulo das flores; pergunta à vaga por que desfaz-se na branca areia em alvos risos de espuma; ao humilde passarinho por que exala saudosos trinos quando a aurora derrama róseos prantos de luz sobre a campina verdejante; ao desgraçado por que sorri em horas de esperança. Por que te olho assim?! E que eu bebo a vida em teus olhos negros e quisera exalar o último suspiro aspirando a teu lado o grato perfume dessas tranças de ébano.

ELVIRA - Mas o senhor nunca me falou por este modo.

CAMILO - Que querias que te dissesse se temos estado juntos apenas cinco minutos e se o único consolo que me resta é passar todas as tardes por tua casa e ver-te à janela?

ELVIRA - No que tem feito muito mal, porque a vizinhança tem hoje as vistas em cima de nós e segundo me consta já tenho sido até assunto de conversação no açougue da esquina.

CAMILO - O que devo fazer então? Queres que não passe mais por tua porta?

ELVIRA - Não digo isso... Mas o senhor bem sabe que quando as coisas chegam a um certo ponto... Por que ainda não falou com papai?

CAMILO - Mas se eu não conheço teu pai, nem nunca o vi, como hei de sem mais nem menos, sem uma apresentação sequer, entrar-lhe pela casa adentro, e pedir-lhe a tua mão?

ELVIRA - Eu já lhe contei tudo.

CAMILO - Deveras? Então teu pai me conhece?

ELVIRA - Não o conhece pessoalmente, mas creia que tem as melhores informações a seu respeito!

CAMILO - E quem lhas deu?

ELVIRA - Esta sua criada.

CAMILO - Oh! Quanto sou feliz! Dou-te minha palavra que amanhã envergarei a casaca preta, calçarei um par de luvas brancas e... (Gritam de dentro: - Vivam os Tenentes do Diabo!).

ELVIRA - O que é isto?

CAMILO - Esconda-se depressa ali.

ELVIRA - Não; vou-me embora.

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