PortalSaoFrancisco.com.br

As doutoras

França Júnior

PERSONAGENS

MANUEL PRAXEDES - 55 anos
DOUTOR PEREIRA - 25 anos
BACHAREL MARTINS - 28 anos
GREGÓRIO, doente
MARIA PRAXEDES - 58 anos
DOUTORA LUÍSA PRAXEDES - 24 anos
BACHARELA CARLOTA DE AGUIAR - 23 anos
EULÁLIA, criada - 50 anos
DIRETORA DO GRÊMIO FEMINIL SACERDOTISAS DE EUTERPE
PRIMEIRA DOENTE
SEGUNDA DOENTE
TERCEIRA DOENTE
Sócias do Grêmio, banda de música, povo, etc.

Rio de Janeiro - Atualidade.
1887

ATO PRIMEIRO

Uma sala elegantemente mobiliada.

CENA I

MANUEL PRAXEDES, EULÁLIA, MARIA PRAXEDES e DOUTORA PRAXEDES

MANUEL PRAXEDES (Entrando pela porta da direita de calça e colete pretos, gravata branca, em mangas de camisa e segurando a casaca.) - Eulália! Eulália!

MARIA (Falando dentro.) - Oh! Eulália?

EULÁLIA (Entrando apressada.) - O que é, meu amo? Esta casa hoje está impossível, não sei para onde me virar.

MANUEL - Onde meteste a minha escova de roupa? Que horas são? Onde está a senhora? O carro já veio?

LUÍSA (Falando dentro.) - Eulália!

EULÁLIA - Lá está a outra a chamar-me! Jesus, fico doida!

MANUEL - O que direi eu então? O dia da formatura de minha filha.

MARIA (Dentro.) - Eulália!

MANUEL (Segurando a mão de Eulália que quer sair.) - A Luísa, lembras-te? Aquela criança que ainda ontem saltava no meu colo em fraldinhas de camisa, com as bochechas rosadas!

EULÁLIA - Pois não me hei de lembrar, meu amo! Parece-me que estou a vê-la a dizer adeus à gente com os dedinhos miúdos, assim (Imita.) Ai! que gracinha!

MANUEL - Pois bem. (Caindo num choro convulso.) - Aquela criancinha, Eulália, é hoje a Doutora Luísa Praxedes, formada em ciências médicas e cirúrgicas pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. (Mudando de tom.) Vai buscar a escova.

MARIA (Entrando de vestido decotado e flores na cabeça, a Eulália.) - Pois eu estou lá dentro a chamar-te há mais de meia hora...

EULÁLIA - O culpado foi meu amo.

MARIA - Vai ver o que quer a Luisinha. (Eulália sai.)

CENA II
OS MESMOS, menos EULÁLIA

MANUEL - Luisinha! Luisinha!... A senhora é incorrigível.

MARIA - Como acha então o senhor que devo tratar a minha filha?

MANUEL - A Doutora Luísa Praxedes. A doutora, sim, senhora! A mim parece-me também um sonho; mas é o título a que ela tem direito, que foi ganho à custa do seu trabalho e que é uma honra para a família e para a sociedade.

MARIA - Havemos de ver em que dá tudo isto.

MANUEL - Há de dar em alguma coisa que a senhora com as suas vistas curtas não pode enxergar. (Vestindo a casaca.) Onde diabo está a manga desta casaca?

MARIA - Tens adiantado muito com as tuas vistas largas.

MANUEL (Sem conseguir vestir a casaca.) - Maldita manga...

MARIA - Em todas as empresas em que te meteste tens dado com os burros nágua. Logo que nos casamos montaste uma grande fábrica de papel.

MANUEL - E não era uma boa idéia?

MARIA - Segundo os teus cálculos; mas o papel que fizeste foi tão ordinário que nem para embrulho o quiseram.

MANUEL - Fui infeliz, fui. Mas quem é que não erra? Afianço-te porém, que se eu conseguisse fazer ali alguma coisa, estava hoje com um fortunão.

MARIA - Tão grande como o que ganhaste com a exploração de mariscos, na linha de bondes para o Morro do Nheco, na iluminação de Valença à luz elétrica.

MANUEL - Isto prova, senhora, que sou um homem do progresso, que amo a minha pátria, que quero vê-la prosperar, engrandecer. (Sem encontrar a manga.) Que diabo, não me dirás onde é que se meteu esta manga? (Maria ajuda-o a vestir a casaca.) E a prova do meu patriotismo está nesta menina, laureada hoje com um título.

MARIA - Bem contra a minha vontade.

MANUEL - Bem contra a sua vontade, compreende-se; porque a senhora foi criada em uma casinha de rótula e janela na rua do Aljube...

MARIA - Onde recebi a educação a mais brilhante que se poderia ter naquele tempo. O que Luisinha, ou antes, o que a Doutora Luísa Praxedes sabe de francês, de inglês, de desenho e sobretudo de música, deve-o a esta sua criada. Parece-me que não te casaste com uma analfabeta!

MANUEL - Sim, mas tudo quanto sabes foi aprendido no tempo das bananas a três por dois, do toque do Aragão, das vilegiaturas em Mataporcos, das toalhas de crivo, do junco do pedestre... Tempos em que o Rio de Janeiro era iluminado a azeite de peixe.

MARIA - Mas em que as mulheres não se lembravam de ser doutoras e limitavam-se ao nobre e verdadeiro papel de mães de família.

MANUEL - Já tardava que não viesses com o chavão... a mãe de família. É sempre a figura de retórica já muito cheia de bolor com que o carrancismo pretende esmagar no nascedouro as aspirações grandiosas da emancipação do sexo feminino.

MARIA - É por estas e outras que tudo chegou ao estado de desorganização em que vivemos.

MANUEL - Isto que a senhora chama desorganização...

MARIA - É a ordem, talvez?

MANUEL - Não é a ordem ainda, mas é a evolução da qual muito naturalmente ela há de surgir. O papel da mulher de hoje não é o da de ontem. Aquelas criaturas que viviam em casa trancadas a sete chaves, pálidas, anêmicas, de perna inchada, feitorando as costuras das negrinhas, começam por honra nossa, a ser substituídas pela verdadeira companheira do homem, colaborando com ele no progresso da grande civilização moderna. Nós, os homens, temos a política, a espada, as letras, as artes, as ciências, a indústria... Por que razão seres organizados como nós, mais inteligentes até do que nós, haviam de se mover eternamente no acanhado círculo de ferro do dedal e da agulha?

MARIA - Porque basta-nos o amor.

MANUEL - Mas a prova, senhora, de que o amor está no programa de vida da mulher moderna, é o casamento de nossa filha, hoje, no dia de seu grau, com o Doutor Pereira, seu colega de banco na Academia.

MARIA - E entra, por acaso, o amor na união de Luísa com este homem?

MANUEL - Certamente.

MARIA - Olha, Praxedes, podes gastar toda a tua retórica, mas nunca me convencerás de que o Doutor Pereira e Luísa se amem! Acompanho-os há 6 anos nas aulas, no anfiteatro, nos hospitais, nos exames.

MANUEL - E que tem isto?

MARIA - Nunca nos lábios daquelas duas criaturas ouvi a palavra amor. Sempre entre eles, como que a separá-los, a medicina, a cirurgia, a terapêutica, o diagnóstico, a hematose, a diátese, a idiossincrasia, a cefalalgia, os emolientes, os tônicos, a patologia e toda esta série de nomes arrevesados que me ficaram no ouvido à força de ouvi-los repetir constantemente. Esse sentimento que faz de dois corações um só!...

MANUEL - Aí vem a pieguice.

MARIA - Sim, esta pieguice sublime nunca poderia nascer e desenvolver-se naquele meio infecto de moléstias hediondas ou diante do sangue coagulado de órgãos putrefatos expostos em indecente nudez.

MANUEL - Bravo! No fim de contas, parece-me que em vez de uma, tenho duas doutoras em casa. Falta-te só o grau.

MARIA - O que me falta sei eu, é a energia bastante para não ter consentido que as coisas chegassem a este ponto. (Vai a sair.)

MANUEL - Mas, vem cá Maria Praxedes, pensas tu, porventura, que os casamentos hoje fazem-se como foi feito o nosso?

MARIA - Os casamentos, em todos os tempos, são feitos do mesmo modo.

MANUEL - O namoro de passar pela porta, piscar o olho; levar com a janela na cara, a loja do barbeiro da esquina como centro de operações, o bilhete cheirando a almíscar, os olhos requebrados, o descante de violão: meu bem, meu amor, minhas candongas.. tudo isso acabou... O que há presentemente...

MARIA - É o pedido entre o diagnóstico de um catarro crônico e a aplicação de um vesicatório ou de uma cataplasma de linhaça... Já sei, já sei.

MANUEL - O que há presentemente é o casamento-contrato, isto é, o casamento propriamente dito como ele deve ser. O móvel de dois seres que se ligam é a conveniência.

MARIA - Então confessas com todo o cinismo que o casamento de Luísa...

MANUEL - Confesso...

MARIA - Mas onde está a fortuna do Doutor Pereira? Os pais são pobres... Forma-se hoje.

MANUEL - E a senhora sem querer compreender nada, a confundir tudo! O casamento de conveniência, sob o ponto de vista da evolução atual.

MARIA - Já tardava a evolução...

MANUEL - Quer ou não quer ouvir-me?

MARIA - Fale.

MANUEL - O casamento de conveniência, sob o ponto de vista da evolução atual, não é o casamento de dinheiro. O homem sem ofício nem benefício que se liga a uma mulher de fortuna para viver à custa do que ela tem, deveria ser expulso da comunhão civilizada. O verdadeiro casamento de conveniência que é a aspiração da Idéia Nova e de que a minha filha vai ser o exemplo edificante, consiste na união de dois seres, tendo cada um o mesmo modo de vida, a mesma profissão. O marido trabalha, a mulher trabalha.

MARIA - É uma sociedade comercial.

MANUEL - Sim, mas vê o alcance enorme desta sociedade. Não é só a formação do pecúlio do casal, mas muito principalmente o desenvolvimento das classes, a seleção delas. O marido médico, a mulher médica... todos os filhos médicos. .. O marido advogado, a mulher advogada...

MARIA - Toda a prole bacharela em direito.

MANUEL - Justamente. O pintor ligar-se-á à pintora e desta união sairá uma família de pintores. Não vês o que a imprensa costuma dizer quando trata de um sujeito que faz alguma obra de arte importante? - "É um artista de raça!" Pois bem, esta frase vai deixar de ser doravante uma figura de retórica. Vamos ter médicos de raça, advogados de raça, a sociedade enfim toda de raça, desenvolvida e aperfeiçoada nos diversos ramos da sua vasta atividade. Compreendeste agora o alcance filosófico, político, moral e social deste casamento? Eis porque estou aqui radiante de alegria, cheio de emoções, quase doido.

MARIA - Podes tirar o "quase".

CENA III
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA - A menina já está prontinha, meus amos.

MANUEL - A menina, não, Eulália.

EULÁLIA - Desculpe-me, meu amo, a Senhora Doutora Luísa Praxedes já pôs aquela vestimenta. Como é que se chama aquilo?

MANUEL - Beca.

EULÁLIA - Está muito engraçada! Ai! que reinação! Eu sempre punha-lhe uma anquinha ou um puff: para armar mais a saia.

MANUEL - Ela está contente, Eulália?

EULÁLIA - Muitíssimo, meu amo. Assim que eu lhe vesti a tal seca...

MANUEL - Não é seca, é beca.

EULÁLIA - Como é mesmo?

MANUEL - Beca.

EULÁLIA - Olhem só o diabo do nome, beca! Pois assim que lhe vesti aquilo começou a passear de um lado para outro, no quarto... Assim, olhe... (Imita.) muito séria. Parecia, mal comparando, o taverneiro ali da esquina, quando põe a casaca e a comenda.

MARIA - Está bem, está bem. Em vez de estar aí contando histórias é melhor que vá tratar do arranjo da casa.

EULÁLIA - Do arranjo da casa! Ora esta. Pois quem é que tem tratado disso até agora senão eu?

MARIA - Não responda, Eulália, vá.

EULÁLIA - Hei de responder, sim senhora. Estou aqui desde que cheguei da terra, há 25 anos e creio que a patroa não pode ter razão de queixa de mim.

MARIA - Certamente.

EULÁLIA - Enquanto a senhora andava o dia inteiro no meio da rua acompanhando a menina por toda a parte, eu ficava aqui a pé firme, como um cão de fila guardando-lhe a casa e a bolsa. A bolsa, sim senhora, porque se não fosse a Eulália dos Prazeres da Conceição de Maria, filha da Engrácia da Porcalhota e do Manuel Tibúrcio, que Deus haja, a senhora era depenada por toda essa súcia de criados que entravam numa semana com as mãos abanando e saíam na outra levando tudo quanto pilhavam.

MANUEL - Tens razão, Eulália.

EULÁLIA - Que tenho razão, sei eu! Meu amo, não sabe da missa nem a metade.

MANUEL - Vai buscar a escova.

EULÁLIA - Olhe, quer ver como eu puxava pela fisiolostria da inteligência como diz o Antônio da venda, para não ser embaçada pelos tais criaditos?

MARIA - É a história do açúcar? Já a conheço de cor e salteada.

MANUEL - Vai buscar a escova.

EULÁLIA - E não era bem lembrada? Eles roubavam o açúcar, o que fazia eu?... Apanhava uma mosca, (Fazendo menção de quem apanha uma mosca.) abria o açucareiro, zás... (Menção de atirar.) e tampava-o com todo o cuidado. De vez em quando ia verificar se a mosca ainda lá estava... Não é bem lembrado, meu amo? Aprendi isto na casa de um visconde no Porto.

MANUEL - Está bem, vai buscar a escova.

EULÁLIA - Na manteiga também não me passavam a perna. Fazia-lhe em cima com a faca uma porção de rabiscos. (Batem à porta.)

MANUEL - Estão batendo. Vai ver quem é. (Eulália sai. Para Maria.) Eu vou lá dentro escovar-me. Esta maldita rapariga quando começa a falar... (Sai.)

CENA IV
EULÁLIA, MARIA e o DOUTOR PEREIRA

EULÁLIA (Rindo.) - Ah! Ah! Ah!

MARIA - O que é isto, Eulália, estás doida?

EULÁLIA - Ah! Ah! Ah!

MARIA - Quem está aí?

EULÁLIA - O Senhor Doutor Pereira de saias. Ah! Ah! Ah!... Minha ama não imagina como está engraçado! Olhe, aí está ele. (O Doutor Pereira entra.) Ah! Ah! Ah!...

MARIA - Eulália, passa para dentro.

DR. PEREIRA (A Eulália.) - Não me conhecias?

EULÁLIA - Pois eu podia imaginar que era o noivo da menina! Ah! que reinação! Ah! Ah! Ah!

MARIA (Empurrando Eulália para dentro.) - Está bem, vai para dentro. (Eulália sai.)

CENA V
MARIA, DOUTOR PEREIRA e LUÍSA

DR. PEREIRA (Com alguns folhetos.) - O Doutor Martins ainda não veio?

MARIA - Ainda não.

DR. PEREIRA - A cerimônia do grau está marcada para o meio-dia...

MARIA - Devem ser 9 horas apenas. Aí vem Luísa.

DR. PEREIRA (A Luísa que entra e apertando-lhe a mão.) - Colega!

LUÍSA (Apertando a mão a Pereira.) - Colega!

MARIA (Á parte; imitando-os.) - Colega! Colega!... E ali estão dois noivos!

LUÍSA - Que folhetos são esses?

DR. PEREIRA - São exemplares da minha tese que pretendo distribuir por alguns amigos que vão assistir ao grau.

LUÍSA - Ah! é verdade! Sabe que esta noite fui chamada para ver um doente de febre amarela.

DR. PEREIRA - Caso grave?

LUÍSA - Gravíssimo. Termômetro a 41 graus, ansiedade epigástrica e todo o aparato para romperem-se as hemorragias; compreende o colega a dificuldade de uma terapêutica apropriada para debelar-se o mal cuja patogenia é ainda desconhecida.

DR. PEREIRA - Patogenia desconhecida! Pois a colega não tem notícia do cryptococus xantogenicus...

LUÍSA - O cryptococus... o cryptococus...

MARIA (À parte.) - Parece incrível! Isto contado ninguém acredita.

DR. PEREIRA - O cryptococus sim; revelado pelo microscópico nos luminosos trabalhos do Doutor Freire. Não sei como se possa ignorar os efeitos da vacinação pela cultura atenuada.

LUÍSA - Mas quem lhe disse que eu ignoro?

DR. PEREIRA - Pelo menos a colega...

LUÍSA - O que eu sustento, com os conhecimentos profundos que tenho da matéria é que esta teoria microbiana, tratando-se de febre amarela, pode ser quando muito uma aspiração do futuro.

DR. PEREIRA - Uma aspiração do futuro, quando o presente nos está demonstrando todos os dias a verdade!

LUÍSA - Ora! colega!... Leia os trabalhos de Stemberg, de Gibier e convença-se de que na clínica mais vale a sintomatologia do que teorias abstratas.

DR. PEREIRA - Abstratas, não; tenha paciência.

LUÍSA - Abstratas sim; porque não receberam a sanção das autoridades da nossa ciência.

DR. PEREIRA - Mas foram aplaudidas pela Sociedade Dosimétrica de Paris.

LUÍSA - Não foram tal.

DR. PEREIRA - Foram, sim, senhora.

LUÍSA - Não foram.

DR. PEREIRA - Foram.

MARIA (Colocando-se entre eles.) - Não acham que este cryptococus xantogenicus, na sua qualidade de micróbio, pode infeccionar dois corações que daqui a pouco terão de se unir à face da igreja e que aí deverão aparecer sem rancores, sem azedumes, ungidos de mística poesia?

LUÍSA - Aí vem mamãe com a sua poesia.

DR. PEREIRA - Os nossos corações, Senhora Dona Maria Praxedes, não têm rancores nem azedumes. Estamos apenas discutindo um ponto de ciência.

MARIA (Para os dois.) - Então amam-se deveras?

OS DOIS - Certamente.

MARIA - É um amor singular.

LUÍSA - Não é como o de Julieta e Romeu, com balcão, escada de corda, cantos de cotovia.

DR. PEREIRA - Está visto!

MARIA - Pois olhem, meus filhos, eu tinha até aqui a ingenuidade de acreditar que aos 20 anos o coração é como o cálice perfumado de um lírio...

LUÍSA - O coração, mamãe, é um músculo oco que tem as suas funções próprias como o baço, o fígado, os rins e outras vísceras do organismo.

CENA VI
OS MESMOS, BACHAREL MARTINS e CARLOTA

MARTINS (Cumprimentando a todos.) - Cheguei talvez um pouco tarde?

DR. PEREIRA - O meu amigo chega sempre em tempo.

MARTINS - Hão de permitir-me que lhes apresente a Senhora Dona Carlota de Aguiar, estudante do 5° ano da Faculdade de Direito de São Paulo e futura bacharela em Direito.

CARLOTA (Apertando a mão de Dona Maria e do Doutor Pereira.) - Apresento à ilustre doutora a curvatura de meus respeitos. (Apertam-se as mãos.)

LUÍSA - Já a conhecia muito de nome como um dos mais brilhantes talentos da moderna geração.

CARLOTA - E o que direi eu da mulher duas vezes ilustre pela inteligência e pela coragem titânica com que acaba de abater a muralha ciclópica dos preconceitos tacanhos? Vossa Excelência é o alfa desta conquista sociológica que veio desfraldar aos ventos sul-americanos a bandeira imaculada da nossa redenção.

MARTINS (Para Maria Praxedes.) - Fala admiravelmente bem.

MARIA - É uma canária!

MARTINS - Que talento!

MARIA - Está-se vendo que é de força!

LUÍSA - Entretanto o passo que acabo de dar tem sido por tal forma comentado pela opinião...

CARLOTA - Não creia, minha senhora! Vossa Excelência está subpedânea no conceito público.

DR. PEREIRA - Eu assim o entendo.

CARLOTA - A minha situação é que se vai tornando um amálgama acéfalo, incongruente e esfacelado de lutas de direito, com pequenos interesses masculinos.

LUÍSA - Como assim?

CARLOTA - Ainda não recebi a investidura do meu grau, ainda não tive a posse do tibi quo que e já o magnânimo Instituto dos Advogados levanta a questão de nós mulheres podermos exercer a advocacia e os demais cargos inerentes ao bacharelado em Direito.

LUÍSA - Parece incrível!

CARLOTA - Não se admire, doutora, não se admire. Já em Nicéia reuniu-se um concílio para decidir se a mulher devia ou não fazer parte do gênero humano. Tentaram expelir-nos do posto que ocupamos na escala zoológica e pretendem agora com miseráveis subterfúgios de retórica e uma lógica anacrônica tirar-nos o talher a que temos direito na opípara mesa do banquete social.

LUÍSA - Como eles receiam a nossa concorrência.

CARLOTA - Em todos os pontos da atividade humana, ilustre doutora! Mas havemos de conquistar-lhes paulatinamente o másculo reduto.

CENA VII
OS MESMOS e MANUEL PRAXEDES

MANUEL (Entrando e vendo Luísa de beca.) - Luísa! De beca!... Minha filha! (Vai desmaiar.)

LUÍSA (Indo agarrá-lo.) - Papai, o que tem?!

MARIA (Segurando-o.) - Manuel Praxedes! Manuel Praxedes!

CARLOTA - Que lividez marmórea!

MARIA (Gritando.) - Eulália! Eulália!

LUÍSA - E melhor deitá-lo, deitá-lo já em decúbito dorsal.

CENA VIII
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA (Entrando.) - Ai! o meu rico amo! O que é que ele tem, senhora?

MARIA - Traz lá de dentro qualquer coisa... água, vinagre...

EULÁLIA - Vou correndo. (Sai.)

MARIA - O que é isto, minha filha, um ataque?

LUÍSA - Não, minha mãe, uma simples lipotimia.

DR. PEREIRA (Tomando o pulso e examinando as pupilas de Manuel.) - Perdão, parece-me coisa mais grave. Vejo todos os sintomas de uma síncope cardíaca.

LUÍSA - Não se diagnostica por suposições. A patologia do coração, colega, é uma coisa hoje conhecida!

MARIA - Mas pelo amor de Deus, minha filha, deixa-te de discussões e trata de salvar teu pai. Manuel Praxedes! Manuel Praxedes!

CENA IX
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA (Trazendo um vidro de galheteiro e uma monngue.) - Cá está o vinagre e a água. (Maria põe o vidro de vinagre no nariz de Manuel.) O verdadeiro, minha ama, é atirar-lhe com o moringue de água à cara... Olhe que a água é um santo remédio para estas maleitas. Conheci uma senhora lá no Porto que teve um desses tremeliques e note-se que não era coisa cá de pouco mais ou menos, porque a mulher tinha cada olho esbugalhado deste tamanho e berrava que parecia mal comparando, um boi, com perdão dos senhores que me ouvem.

MANUEL (Abrindo os olhos.) - Onde estou? O que foi isto? (Abraçando Luísa.) Luísa, minha filha, esta emoção me mata. (Maria dá o vidro a Eulália.)

EULÁLIA (Cheirando o vidro.) - Ai! que reinação! Ah! Ah! Ah!

MARIA - O que é isto, Eulália?

EULÁLIA - Em vez de vinagre, senhora, trouxe azeite... Ah! Ah! Ah! (Sai correndo.)

CENA X
OS MESMOS menos EULÁLIA

LUÍSA (Apresentando Carlota.) - A Senhora Dona Carlota de Aguiar, estudante do 5° ano da Faculdade de Direito de São Paulo.

MANUEL - A futura bacharela em Direito de que os jornais se têm ocupado! Oh! quanto folgo em conhecê-la. (Ouve-se o som da música e foguetes.)

CENA XI
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA - Patrão!... Patrão!... Ai está à porta um bonde embandeirado, com música e uma porção de gente que grita: - Viva a Doutora Luísa Praxedes! Viva a Doutora Luísa Praxedes!...

MANUEL - Uma manifestação!... Ainda esta emoção!... Meu coração!... Que aflição!...

EULÁLIA - Vou buscar azeite, minha ama?

MARIA (A Manuel.) - Outro desmaio?

CENA XII

OS MESMOS e a DIRETORA do GRÊMIO FEMININO SACERDOTISAS DE EUTERPE

DIRETORA (Entrando acompanhada pela banda de música de raparigas em cujo estandarte se vê a seguinte inscrição: G. M. Sacerdotisas de Euterpe.) - A gratidão, senhora, é a moeda dos pobres. A sociedade musical Grêmio Sacerdotisas de Euterpe deixaria de cumprir com o mais sagrado dos deveres, se não viesse hoje, no dia em que se realizam os vossos sonhos dourados, dar-vos um público testemunho do quanto vos deve pelos serviços que generosamente tendes prestado a cada uma de nós, (Praxedes limpa as lágrimas.) na epidemia que desgraçadamente está assolando esta cidade. (Entregando a Luísa um rolo de papel.) Aceitai, portanto, ilustre doutora, como homenagem ao vosso brilhante talento (Praxedes soluça.) e às qualidades morais que vos ornam, o diploma de sócia benemérita da nossa modesta associação. (Manuel soluça.) Viva a Doutora Luísa Praxedes!

TODOS - Viva! (Toca a música.)

LUÍSA - Não tenho, infelizmente, recursos oratórios para responder à manifestação com que acabo de ser surpreendida e que assaz me penhora. Peço à Senhora Doutora Carlota de Aguiar que com o seu verbo eloqüente seja a intérprete dos meus sentimentos.

DR. PEREIRA e MARTINS - Muito bem!

CARLOTA - Minhas senhoras! (Conserta a garganta.) Flutua-me no cérebro um ponto de interrogação: estará a mulher destinada nos últimos estertores do século que finda a devassar os arcanos de todas as atividades que lhe têm sido roubadas pelo monopólio sacrílego das aspirações e vaidades masculinas? Aquela que neste momento tão indignamente represento...

TODOS - Não apoiado.

CARLOTA - Vós, as congregadas da harmonia, e eu, a mais humilde paladina desta conquista santa de direitos, poderemos responder à fatídica interrogação? Sim! A mulher caminha, a mulher conquista, a mulher vencerá. Um viva pois, à Doutora Luísa Praxedes que simboliza a consubstanciação da vitória brilhante do...

TODOS (Menos Luísa e Maria.) - Viva. (Música.)

MANUEL (A todos.) - Vindo assistir ao grau de minha filha, eu vos convido também, meus senhores e minhas senhoras, para que abrilhanteis com a vossa presença a cerimônia do casamento que terá lugar logo depois daquele ato na Igreja de São José.

A DIRETORA - Viva a Doutora Luísa Praxedes!

TODOS (Menos Luísa.) - Viva!

(Toca a música e desfilam todos saindo pelo fundo.)

(Cai o pano.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

voltar 1234avançar