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Como se Fazia um Deputado

França Júnior

Ato Primeiro

O teatro representa o terreiro da Fazenda do Riacho Fundo. À esquerda, vê-se a varanda da casa com janelas e portas, que dão para a cena: à direita, árvores; ao fundo, morros com plantações de café.

Cena I

Major Limoeiro e Domingos

(Ao subir o pano, estão em cena escravos e escravas da fazenda, com foices e enxadas.)

Coro
Oh! Que dia de pagode
Na fazenda de sinhô!
Sinhozinho chega hoje
Com a carta de doutô!
Nas senzalas satisfeitos,
Aguardente beberemos,
E, à noite, no terreiro
O batuque dançaremos.

Domingos
Com crioulas e mulatas,
No feroz sapateado,
Hei de em casa de meu branco,
Trazer tudo num cortado.

Ninguém bula com Domingos,
Que não é de brincadeira;
Quando solta uma umbigada,
Quando puxa uma fieira.

Coro
Oh! Que dia de pagode, etc.,etc.

(Dançam todos.)

Limoeiro - (Que durante a cena esfrega as mãos satisfeito, na varanda.) Esquenta, rapaziada! Vá o pagode arriba! Não quero ninguém aqui na pasmaceira! (Descendo à cena; a Domingos.) Logo que sinhozinho apontar no capão do meio ataquem a foguetaria.

Domingos - Sim, sinhô. Está tudo na orde.

Limoeiro Onde colocaste a girândola?
Domingos Na encruzilhada, sim sinhô, do lado da tranqueira.Chii!!! Vosmecê não imagina como está tudo bonito! Tem arco de bambu; coqueiro da banda daqui; coqueiro da banda dali. Caminho está todo capinado e folha de caneta é mato!
Limoeiro És um Tebas.

Domingos Um escravo de meu sinhô.

Limoeiro E então, essa gente do Pau Grande bem ou não vem?
Domingos Falei ontem com o seu tenente-coroné, sim sinhô, dei o recado de meu sinhô, e ele disse-me que havia de vir com sinhá Dona Perpétua e com sinhá moça Rosinha.

Limoeiro Já deviam estar cá. O rapaz não tarda. Retirem-se a seus postos. Hoje e amanhã não se pega na enxada. Brinquem, durmam, dancem, façam o que quiserem. Mas fiquem sabendo, desde já, que o que tomar carraspana leva uma tunda mestra.

Domingos Viva sinhô moço Henrique!
Limoeiro Viva!
Domingos Dobrem a língua; digam: viva sinhô moço doutô!
Os negros Viva sinhô doutô! (Saem com Domingos.)

Cena II

Limoeiro, só.

Limoeiro Até que enfim! Aí vem o rapaz formado, com uma brilhante carreira na frente, e pronto para dar sota e basto (se não for tolo) nesta freguesia, onde a maior capacidade, depois do tenente-coronel Chico Bento com seus latinórios, é este seu criado, que mal sabe ler e escrever, mas que tem ronha como trinta. O rapaz, se quiser ser alguma coisa, há de aprender na minha escola.

Cena III

Os mesmos, Domingos, o Tenente-Coronel, Chico Bento, Dona Perpétua, Rosinha, Uma Criada, com um crioulinho ao colo; e um Pajem fardado com uma caixa de folha debaixo do braço.

Domingos (Correndo com um foguete e um tição de fogo na mão.) Pararam cinco burros na porteira do curral! É a gente do Pau Grande!
Limoeiro Veio a família toda. Manda que entrem para cá. (Domingos sai.)
Chico Bento (Entrando com Dona Perpétua, Rosinha, a crioula e o pajem.) Ora viva o nosso Major Sebastião! (Apertando-lhe a mão.) Salutis pluribus interesse te valerius.

Limoeiro Valério, não senhor, Sebastião Limoeiro, um seu criado. Como vai esta Sé Velha? (Cumprimenta a Rosinha e a Perpétua.)
Chico Bento O rapaz já veio?
Perpétua Estou ansiosa por vê-lo. (Para Rosinha.) Endireita este corpo, sinhá. Nunca vi coisa assim! Não tem jeito para nada!
Rosinha Mamãe já principia? Se eu soubesse não tinha vindo, está sempre em cima da gente, fucte, fucte, só cutucando.

Perpétua Vejam só como está este chapéu! (Admirada.) O que é que tu tens nesta barriga?
Rosinha (Com arrebatamento.) Uê! Eu sei lá! Foi aquela coisa, que meu padrinho trouxe da cidade.

Perpétua (Admirada.) As anquinhas! Ora vocês estão vendo? Senhor major, dê-me licença que entre, para arranjar esta menina.

Limoeiro Essa é boa! Sem cerimônia (1), Dona Perpétua! Entre por aí afora. (Perpétua, Rosinha, a criada e a pajem entram para casa.)

Cena IV

Limoeiro e Chico Bento

Chico Bento Finalmente o pequeno tomou juízo! Agora o que é preciso é muito tino e prudência nos negócios da freguesia. Libertis decuplis et anima nostri in duvido essis. Isto vai mal, meu major... As eleições estão a bater à porta...

Limoeiro E não temos ainda um candidato.

Chico Bento Lá quanto a isto, é o que não falta.

Limoeiro Dizem por aí que o governo já designou o bicho.

Chico Bento Há de ser quem quiser este seu criado Matias.

Limoeiro Apoiado, meu tenente-coronel.

Chico Bento Pensam, porventura, (2) que hei de consentir que os liberais assaltem a urna a baionetas, como fizeram, há quatro anos, na freguesia do Rabicho? Há de se agüentar no balanço!
Limoeiro Perdão, meu tenente-coronel, foram os conservadores que, desrespeitando o voto livre e as garantias constitucionais...

Chico Bento Foram os liberais que, violando o princípio das liberdades públicas...

Limoeiro Discutamos no terreno dos princípios.

Chico Bento É para aí que o desafio. Veja o que fez o Barnabé Antunes em sessenta e cinco.

Limoeiro Sim. O que foi que ele fez?
Chico Bento Nada mais, nada menos que mandar processar o Antônio Caipora, influência legítima, só para arredá-lo da eleição.

Limoeiro Ora! Ora!
Chico Bento Toda a freguesia sabe do fato.

Limoeiro E o que era o Barnabé Antunes? Conservador.

Chico Bento Está enganado. O Barnabé Antunes era liberal.

Limoeiro Enganado está o tenente-coronel. O Barnabé Antunes era liberal em sessenta e dois, virou casaca em sessenta e três, e foi juiz de paz com o Partido Conservador.

Chico Bento Desta maneira não se pode discutir.

Limoeiro E o que me diz do Ambrósio da Silveira? Era porventura alguma coisa?
Chico Bento Foi liberal.

Limoeiro Nunca! (Ouve-se ruído de uma girândola.) Chegou o rapaz!

Cena V

Os mesmos, Perpétua, Rosinha e depois Domingos, Henrique e os negros.


Perpétua (Descendo da varanda com Rosinha.) Que foguetada é esta, major? Parece-me que vem a casa abaixo!
Limoeiro (Com alegria.) É o meu Henrique, é o meu doutor!
Negros (Dentro.) Viva sinhô moço doutô!
Limoeiro Viva!
Perpétua (A Rosinha) Endireita este pescoço, menina!
Rosinha Oh! Homem! Que maçada! O pescoço é meu, posso fazer dele o que quiser.

Chico Bento (Indo ao fundo.) Aí vem ele! (Diversas pessoas correm à varanda da casa e aí se postam.)

Coro (Dentro.)
Dos nossos braços valentes
Unidos em doce amor,
Façamos forte cadeira
Prá conduzir o doutor.

(Entram Domingos e os negros, carregando Henrique.)

Coro
Os seus escravos, meu branco
Que vos amam com ardor
Aqui trazem satisfeitos
Da casa o doce penhor.

Henrique (Saltando ao chão, e abraçando Limoeiro.) Meu tio!
Limoeiro Meu filho... Sim, por que tu és meu filho, o filho das minhas entranhas.

Chico Bento (Levando o lenço aos olhos.) Estas cenas de família chocam-me extraordinariamente. Beatus ventris qui te portavis!
Limoeiro (Reparando em Henrique.) Mas que diabo é isto! Estás magro! Para que estudaste tanto, rapaz?
Henrique Não atribua a minha magreza ao estudo. Mas sim às saudades que me devoravam, longe de vosmecê e destes campos, que me são tão caros.

Rosinha (Vendo o estojo do diploma , que Henrique deve trazer a tiracolo.) Uê, mamãe! Que canudo tamanho é aquele que ele tem?
Perpétua Que te importas tu com o canudo?
Limoeiro Quero te apresentar aos nossos amigos do Pau grande. Aposto que já te não lembras do Coronel Chico bento?
Henrique Muito, muito. Passei dias agradabilíssimos em sua fazenda. Como vai a sua senhora? A sua menina já deve estar moça!
Chico Bento Olha, aqui está uma e lá está outra. Ambos orentis etats arcados dos ambos
Henrique (A Perpétua.) Minha senhora... (Apertando-lhe a mão a Chico Bento.) Ainda está bem sacudida!
Chico Bento E eu que o diga.

Perpétua ( A Rosinha.) Que moço amável!
Rosinha ( A Perpétua.) Pois eu não acho, enquanto não souber o que é que ele tem dentro daquele canudo.

Henrique (Para Limoeiro.) E quem é esta interessante mocinha?
Limoeiro Pois não conheces? Ora, não conhecerás tu outra coisa! (Rosinha esconde-se atrás de Perpétua.)
Perpétua É minha filha. ( Para Rosinha baixo.) Passa para a frente, menina. Que modos são estes?!
Henrique ( Procurando vê-la.) É um rosto encantador.

Chico Bento - Dizem todos que é o retrato do pai.

Perpétua ( Baixo a Rosinha) Passa para a frente, menina!
Rosinha Não quero, está.

Limoeiro (A Domingos.) Logo que escurecer, venham colocar as lanternas na varanda, acendam as fogueiras, e batuquem à grande.

Domingos Sim, sinhô.

Coro
Vamos, vamos, sem demora,
As lanternas preparar;
Pois está chegada a hora
Do batuque começar.


Oh que dia de pagode
Na fazenda de sinhô!
Sinhozinho já chegou
Com a carta de doutô!

Limoeiro (Aos negros, que saem com Domingos.) Vão rapazes. ( para Henrique.) O que é que trazes nesta folha?
Henrique - A minha carta de bacharel, (Tira dos ombros e dá-lha.) a qual dedico-lhe, em prova dos muitos sacrifícios que tem feito pela minha felicidade.

Limoeiro Obrigado, meu filho. (Abre a caixa, tira a carta e examina-a.)
Perpétua Agora já sabe o que é?
Rosinha Nunca vi carta daquele tamanha! Olhe, mamãe, tem uma fita e uma coisa dependurada até embaixo!
Limoeiro (Esfregando a carta entre os dedos.) Isto não é papel.

Chico Bento É pergaminho.

Perpétua (Também examinando a carta.) O que é pergaminho?
Chico Bento É um papel feito de couro.

Rosinha (Para Perpétua.) Mas não é couro de burro, mamãe?
Limoeiro Quem há de dizer que é com este couro, que se têm formado os homens mais importantes deste país! (Entrega a carta a Henrique.) Minhas senhoras, tomem conta da casa; vão lá para dentro e dirijam aquilo como se estivessem em sua fazenda. (Para Henrique.) Quanto a ti, deves estar estafado da viagem, apesar de que vieste montado no Diamante, que é o primeiro burro destas dez léguas em redor. Vai mudar de roupa.

Henrique (A Chico Bento.) Se me dá licença...

Chico Bento Essa é boa! (Saem Henrique, Perpétua e Rosinha.)

Cena VI

Limoeiro e Chico Bento

Limoeiro Então o que diz do nosso doutor?
Chico Bento Não é de todo desajeitado.

Limoeiro Desajeitado! É um rapaz de talento!
Chico Bento - E diga-me cá uma coisa: a respeito de política, quais são as idéias dele?
Limoeiro Tocou o tenente-coronel justamente no ponto que eu queria ferir.

Chico Bento - Omnibus tulit puntos, quis miscuit util et dolcet.

Limoeiro (Gritando.) Olá de dentro? Tragam duas cadeiras. O negócio é importante, devemos discutir com toda a calma.

Chico Bento - Estou às ordens. (Entra um negro e põe as duas cadeiras em cena.) Tem a palavra o suplicante. (Sentam-se.)
Limoeiro Tenente-coronel, cartas na mesa e jogo franco. É preciso arrumar o rapaz; e não há negócio, neste país, como a política. Pela política cheguei a major e comendador, e o meu amigo a tenente-coronel e a inspetor da instrução pública cá da freguesia.

Chico Bento Pela política, não, porque estava o partido contrário no poder; foi pelos meus merecimentos.

Limoeiro Seja como for, fato é que, apesar de estar o meu partido de cima, o tenente-coronel é e será sempre a primeira influência do lugar. Mas vamos ao caso. Como sabe, tenho algumas patacas, não tanto quanto se diz...

Chico Bento - Oxalá que eu tivesse só a metade do que possui o major.

Limoeiro Ouro é o que ouro vale. Se a sorte não presenteou-o com uma grande fortuna, tem-lhe dado, todavia, honras, considerações e amigos. Eu represento o dinheiro; o tenente-coronel a influência. O meu partido está escangalhado, e é preciso olhar seriamente para o futuro de Henrique, antes que a reforma eleitoral nos venha por aí.

Chico Bento Quer então que...

Limoeiro Que o tome sob a sua proteção quanto antes, apresentando-o seu candidato do peito nas próximas eleições.

Chico Bento Essis modus in rebus.

Limoeiro Deixemo-nos de latinórios. O rapaz é meu herdeiro universal, casa com a sua menina, e assim conciliam-se as coisas da melhor maneira possível.

Chico Bento (Com alegria concentrada.) Confesso ao major que nunca pensei em tal; uma vez, porém, que este negócio lhe apraz...

Limoeiro É um negócio, diz muito bem; porque, no fim de contas, estes casamentos por amor dão sempre em água de barrela. O tenente-coronel compreende... Eu sou liberal... o meu amigo conservador...

Chico Bento Já atinei! Já atinei! Quando o Partido Conservador estiver no poder...

Limoeiro Temos o governo em casa. E quando o Partido Liberal subir...

Chico Bento Não nos saiu o governo de casa.

Limoeiro (Batendo na coxa de Chico Bento.) Maganão.

Chico Bento - (Batendo-lhe no ombro.) Vivório! E se se formar um terceiro partido? ... Sim, porque devemos prevenir todas as hipóteses...

Limoeiro Ora, ora... Então o rapaz é algum bobo?! Encaixa-se no terceiro partido, e ainda continuaremos com o governo em casa. O tenente-coronel já não foi progressista, no tempo da Liga?
Chico Bento Nunca. Sempre protestei contra aquele estado de coisas; ajudei o governo, é verdade, mas no mesmo caso está também o major, que foi feito comendador naquela ocasião.

Limoeiro É verdade, não o nego; mudei de idéias por altas conveniências sociais. Olhe, meu amigo, se o virar casaca fosse crime, as cadeias do Brasil seriam pequenas para conter o inúmeros criminosos que por aí andam.

Chico Bento Vejo que o major é homem de vistas largas.

Limoeiro E eu vejo que o tenente-coronel não me fica atrás.

Chico Bento Então casamos os pequenos...

Limoeiro Casam-se os nossos interesses...

Chico Bento Et coetera e tal...

Limoeiro Pontinhos... (Vendo Henrique.) Aí vem o rapaz, deixe-me só com ele.

Chico Bento - Fiam voluntatis tue. Vou mudas estas botas. (Sai.)

Cena VII

Limoeiro e Henrique


Henrique Como se está bem aqui! Disse um escritor que a vida da roça arredonda a barriga e estreita o cérebro. Que amargo epigrama contra esta natureza grandiosa! Eu sinto-me aqui poeta.

Limoeiro Toma tenência, rapaz. Isto de poesia não dá para o prato, e é preciso que te ocupes com alguma coisa séria.

Henrique Veja, meu tio, como está aquele horizonte; o sol deita-se em brilhantes coxins de ouro e púrpura, e a viração, embalsamada pelo perfume das flores, convida a alma aos mais poéticos sonhos de amor.

Limoeiro Está bom, está bom. Esquece estes sonhos de amor, que no fim de contas, são sempre sonhos, e vamos tratar da realidade. Vira-te para cá. Deixa o sol, que tens muito para ver, e responde-me ao que te vou perguntar.

Henrique Estou às suas ordens
Limoeiro Que carreira pretendes seguir?
Henrique Tenho muitas diante de mim ... a magistratura...

Limoeiro Podes limpar as mãos à parede.

Henrique A advocacia, a diplomacia, a carreira administrativa...

Limoeiro E esqueceste a principal, aquela que pode elevar-te às mais altas posições em um abrir e fechar de olhos.

Henrique O jornalismo?
Limoeiro A política, rapaz, a política! Olha, para ser juiz municipal, é preciso um ano de prática; para seres juiz de direito tens de fazer um quatriênio; andarás a correr montes e vales por todo este Brasil, sujeito aos caprichos de quanto potentado e mandão há por aí, e sempre com a sela na barriga! Quando chegares a desembargador, estarás velho, pobre, cheio de achaques, e sem esperança de subir ao Supremo Tribunal de Justiça. Considera agora a política. Para deputado não é preciso Ter prática de coisa alguma. Começas logo legislando para o juiz municipal, para o juiz de direito, para o desembargador, para o ministro do Supremo Tribunal de Justiça, para mim, que sou quase teu pai, para o Brasil inteiro, em suma.

Henrique Mas para isso é preciso...

Limoeiro Não é preciso coisa alguma. Desejo somente que me digas quais são as tuas opiniões políticas.

Henrique Foi coisa em que nunca pensei.

Limoeiro Pois olha, é mais político do que eu pensava. É preciso, porém, que adotes um partido, seja ele qual for. Escolhe.

Henrique Neste caso serei do partido de meu tio.

Limoeiro E por que não serás conservador?
Henrique Não se me dá de sê-lo, se for de seu agrado.

Limoeiro Bravo! Pois fica sabendo que serás ambas as coisas.

Henrique Mas isto é uma indignidade!
Limoeiro Indignidade é ser uma coisa só!

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