O teatro representa um quarto com uma porta ao fundo e portas laterais. À direita e à esquerda camas; no fundo uma estante com livros em desordem, um cabide com roupa; sapatos velhos espalhados, duas canastras ao lado do cabide, uma mesa com papéis e livros, etc.
Félix e Silveira
(Ao subir do pano Silveira e Félix dormem nas camas embrulhadas em cobertores encarnados. Batem três vezes na porta do fundo.)
Félix (Acordando sobressaltado.) Hein?
Silveira (Pondo a cabeça fora do cobertor.) Bata com a cabeça.
Félix Insensato, o que fazes? É um credor!
Silveira Um credor! Pois já amanheceu?! (Batem outra vez: baixo.) Bate, grandíssimo patife.
Félix Ora isto é incrível! Vir um cadáver assombrar um homem ao romper da aurora!
Feliciano (De dentro.) Abram a porta.
Silveira (Escondendo-se no cobertor.) Salve-se quem puder! (Feliciano empurra a porta e entra; Félix, levantando-se, esconde-se atrás da cama.)
Feliciano Pois ainda dormem! (Puxando o cobertor de Silveira.) Que escândalo! (Olhando para a direita vê a cabeça de Félix fora da cama.) Com os diabos o que fazes debaixo da cama?
Félix Feliciano, há certas graças que não têm graça.
Feliciano Pelo quê? (Rindo-se.) Ah! Já sei: tomaram-me sem dúvida por algum credor, por um inglês?
Silveira Por um inglês?
Feliciano Já vejo que ainda não leram Balzac. Pois saibam que o espirituoso autor da Comédia Humana apelida de ingleses a essa raça desapiedada que nos persegue por todo a parte. Depois da questão anglo-brasileira, creio que não pode haver um epíteto mais apropriado para designar um credor. Os ingleses são inimigos terríveis e um credor, a meu ver, é o mais furibundo dos nossos inimigos. (Rindo-se.) Tomaram-me por um inglês!
Silveira Quando se tem o espírito sobressaltado...
Feliciano Sei o que é isso. Eu também venho tocado de casa. Acredita-me, Silveira: eu sou um homem infeliz. Às vezes tenho ímpetos de perguntar ao cano de uma pistola os segredos da eternidade. Esses ingleses hão de ser a causa da minha morte!
Silveira E da morte do Brasil inteiro! As coisas não vão bem.
Feliciano Mas tu não te levantas? São onze horas e um quarto.
Félix Onze e um quarto? Ainda é muito cedo. (Volta-se para o outro lado.)
Feliciano Decididamente não pretendem sair hoje de casa?
Silveira Não sabes, insensato, que hoje é o dia 15 do mês? O dia 1º e o dia 15 de cada mês são dias fatais para um pobre estudante! As ruas estão calçadas de credores!
Félix Chi!...Andam por aí assanhados!
Feliciano A quem o dizes. Na rua de São Gonçalo fui abordado por quatro. Um deles era coxo; mas a fatalidade, que protege os verdugos, deparou-me um maçante no momento em que eu dobrava um beco para esconder-me no corredor de uma casa. Imaginem vocês a minha situação: entre um maçante e um inglês. A vitória do segundo foi inevitável! O homem mediu-me de alto a baixo com a gravidade de um súdito da rainha Vitória e entregou-me a conta. Creio que tive uma vertigem. Quando tornei a mim, já não tinha uns inocentes dez mil réis, que me restavam da mesada.
Silveira E julgas-te infeliz por teres encontrado um credor coxo? Pois olha, caro Feliciano, eu tenho tido credores com todos os defeitos: coxos, corcundas, surdos, anões...nunca viste o recrutamento na aldeia? E para coroar a obra, tenho ultimamente um caolho cujo nome há de ser gravado em letras de ouro nos anais da história. É um diabo em figura de homem com o dom da ubiqüidade: encontro-o em todos os lugares. Se nos bailes, de braço com alguma encantadora menina, eu me transporto ao céu numa nuvem de poesia, a figura sinistra de um sujeito que discute com outro sobre a carestia dos gêneros alimentícios embarga-me a voz na garganta e eu fujo aterrado da sala; é o Teixeira. (Chama-se Teixeira.) Nos teatros, quando toda a platéia manifesta a sua expansão por uma chuva de palmas e bravos, eu, semelhante a um herói de melodrama, procuro com a velocidade de um raio a porta da rua, é ainda o Teixeira. Nos cafés, nos botequins, nas igrejas... Enfim, por toda a parte o Teixeira, sempre o Teixeira!... Se algum dia tiveres um credor caolho (ouve este conselho que é de uma pessoa experimentada) quando o avistares toma-lhe sempre o lado do olho arruinado; nunca lhe tomes a frente, porque o credor que só tem um olho, vê mais com ele do que veria com os dois.
Félix (Sonhando.) Sim, meu anjo...Hei de adorar-te...
Silveira E pode sonhar este desalmado na manhã do dia 15! (Puxando o cobertor e gritando-lhe no ouvido.) Acorda, bruto!
Félix (Sobressaltado.) Hein?! Quem me chamou? Bárbaros! Acordaram-me no meio de um sonho vaporoso. (Canta.)
Sonhei que Ieda vieste
Junto a meu leito cantar,
Um canto que me dizia:
Bardo, não sabes amar.
Julguei-me por momentos um outro D. Juan ao lado da divina Haidéia sob a safira do belo céu da Grécia. Seus olhos negros e úmidos procuravam as regiões sublimes donde tinham desertado; seus cabelos brincavam em ondas sobre o colo cetinoso...Oh! Mas agora me lembro: o que sonhei antes foi horrível! Sonhei que meu tio, o desalmado Luís de Castro, tivera a infeliz idéia de vir visitar-me a São Paulo, e que praguejava a meu lado com um possesso: Isto é comportamento?! O senhor é um dissipador! é um caloteiro! É um ladrão! (creio que ouvi a palavra ladrão -) Os meus pressentimentos nunca falham, Silveira.
Silveira Tudo isso é muito bonito, meu caro; mas até o presente não há ainda dinheiro para o almoço.
Félix Dinheiro, metal vil! O que é o dinheiro?
Silveira É aquilo com que se compra o almoço.
Félix E onde está a sublime instituição do crédito? Não crês no crédito? Não crês na Providência? (Canta.)
Credo in Dio
Signor dellUniverso
...Não conheces este pedaço? É dos Mártires.
Feliciano Pelo que vejo não temos almoço?
Silveira Desconfio que sim. Vou deitar-me, dizem que o sono sustenta.
Feliciano Não haverá ao menos cobres em casa?
Félix Há a sublime instituição do crédito.
Silveira Desgraçado, tu ainda ousas falar em crédito, quando estamos desmoralizados e ninguém já nos fia um vinte!
Félix Não desesperem, colegas: o acaso é nosso Deus. Vou proceder a uma busca. (Vai ao cabide e tira um colete.)
Feliciano (Apalpando as algibeiras) Nem um cigarro!
Félix (Tirando do bolso do colete um papel.) Um papel!
Feliciano É uma nota de dez tostões.
Félix (Lendo.) Lágrimas de Sangue Poesias inéditas por uma vítima oferecida em holocausto à experiência.
Silveira Ainda poesias.
Félix Enganam-se: é uma conta de alfaiate! (Vendo a outra algibeira.) Agora não me engano: creio que é uma nota de dois mil réis. (Os dois aproximam-se.) É uma carta de namoro! (Lendo.) Meu querido...
Silveira Dispensamos a leitura.
Félix (Batendo na testa.) Ah! Eureka, Eureka! (Corre ao fundo e encontra-se com Teixeira que entra.)
Os mesmos e Teixeira
Teixeira O senhor Doutor Silveira.Silveira (Baixo a Feliciano.) Estou perdido! O Teixeira caolho, e estou do lado esquerdo! Que fatalidade!
Feliciano (Baixo a Silveira.) Passa para o lado direito.
Silveira (Indo para a direita encontra-se de frente com Teixeira que avança para a cena) Oh! Senhor Teixeira, como tem passado? Tenha bondade de sentar-se...sem cerimônia. Félix? Traz esta canastra para o Senhor Teixeira. (Félix arrasta a canastra: Teixeira fica em pé.) Esteja a gosto. (Teixeira senta-se.)
Teixeira (Com ar severo.) A minha demora é pequena.
Silveira Líamos, quando o senhor entrou, um dos mais belos pedaços de poesia clássica. Gosta de versos alexandrinos, Senhor Teixeira?
Teixeira (À parte.) Parece que estão caçoando comigo.
Feliciano O senhor pode ter a bondade de me dar um charuto?
Teixeira Não fumo, senhor.
Silveira Os clássicos falam mais à cabeça do que ao coração.
Teixeira Eu não quero saber de corações, senhor doutor, eu vim aqui tratar dos meus interesses.
Feliciano O Senhor Teixeira é acardíaco?
Teixeira Tudo, menos insultos: podemos brincar sem nos sujarmos. Vamos ao que me interessa. (Tirando um papel do bolso.) Aqui tem a sua...
Félix Creio que o Senhor Teixeira é mais apaixonado de música. Prefere a música italiana à música alemã? Ouve talvez uma melodia de Bellini, ou do inspirado Donizetti de preferência a uma fuga de Bach, a uma sinfonia de Beethoven, ou a um oratório de Haydn. A música italiana é a voz do coração; a música alemã, vaporosa como as Walkírias do norte, eleva-se em harmonias até o céu. É a metafísica da música, a música transcendental, como se inacessível na vasta esfera em que ele girava. Conheceu Mozart, Senhor Teixeira?
Teixeira eu já disse que não gosto de gracejos.
Silveira O Senhor Teixeira prefere a música italiana.
Félix Então ouça este pedaço.(Canta.)
Parigi o ó cara lascieremo
La vita uniti percorreremo...
É a mais sublime situação da ópera de Verdi!
Silveira Oh! a situação é admirável! Violeta está crivada de dívidas; Alfredo, para salvá-la das garras dos credores, suplica-lhe que abandone Paris. O credor, Senhor Teixeira, é o diabo. O senhor não pode fazer uma idéia do que é o credor.
Teixeira Basta, senhor: ao admito mais gaiatadas. Ou o senhor paga o que deve, ou então vou à polícia.
Silveira Mais devagar, meu caro: não se esquente.
Teixeira Eu vejo no seu procedimento para comigo uma verdadeira velhacaria.
Silveira O senhor não pode ver nada direito, porque tem só um olho.
Teixeira Não! Isto já não é gaiatada! Isto é desaforo! Vou processá-lo por crime de injúria.
Feliciano Faz mal, Senhor Teixeira: deve processá-lo por calúnia.
Teixeira Hei de arrastá-lo perante os tribunais. Antes ter um só olho do que, do que...Já me sobe a espuma à boca. Hei de lhe mostrar para quanto serve o Teixeira caolho. (Riem-se todos.)
Silveira Venha cá, Senhor Teixeira. (Teixeira sai.)
Feliciano, Silveira, Félix e depois Teixeira
Silveira Eis como deviam terminar as minhas relações com o Senhor Teixeira caolho: por um processo de injúria verbal.
Félix (Cantando.) Ah! Dellindegno rendere...
Silveira E tu cantas.
Félix Queres que chore?
Feliciano Afianço-lhes que o homem saiu como uma bomba!
Teixeira (Aparecendo no fundo.) Então paga ou não paga?
Silveira Ora ponha um olho de vidro, sô caolho.
Teixeira Antes ser caolho do que...do que...Vou estourar na polícia.
Os mesmos menos Teixeira
Feliciano (Batendo no ombro de Silveira.) Meu caro, não é processo de injúria que me aterra: o que me aterra é a fome. (Vendo as horas.) Quase meio-dia, e não há esperança de almoço!
Silveira Na nossa vida há momentos terríveis, colega. Mas a generosidade e a franqueza, esses dois sentimentos que são quase sempre a partilha dos vinte e dois anos, pulsam nesses trances em nossos corações. No grande mundo há homens que calçam luvas de pelica para ocultar as mãos manchadas no sangue do seu semelhante, há mulheres que nos embebem o punhal no peito com o sorriso nos lábios; há amigos que nos abandonam na hora do perigo; mas aqui, na vida do coração e das ilusões, sob o teto enegrecido de uma mansarda, é que se encontram os grandes sentimentos. Toma um cigarro. (Tira um cigarro e uma caixa de fósforos debaixo do travesseiro e dá-o a Feliciano.)
Feliciano Obrigado, colega.
Félix Isto tudo quer dizer que não há almoço.
Silveira Mas tu gritaste Eureka quando entrou o Teixeira.
Félix Gritei; mas não tive a felicidade do filósofo de Siracusa. Fui a um colete velho...
Feliciano E o que achaste?
Félix Um bilhete de gôndola.
Silveira Com os diabos! Isso não corre em São Paulo.
Félix O que querem? Devemos dizer como o cantor da Boêmia frágeis caniços, a fatalidade dá-nos as honras de uma tempestade (Batendo na testa.) Oh! que idéia! (Dança e cantarola.)
Félix e Silveira O quê?
Félix Está salva a pátria! Hoje não é dia 15? Fui convidado para um grande almoço em casa do Barão de Inhangabaú.
Silveira E nós?
Félix
Ah! Lamor, lamor ondardo,
Le favelli in mio favor.
Feliciano Esta tua alegria é um insulto.
Silveira Esse almoço repugna com os teus princípios políticos. O Barão é vermelho, e tu és amarelo. Não deves ir comer um pão molhado nas lágrimas do povo. Não deves ir.
Félix Silveira, quando fala a barriga, cessam os princípios. E demais, quantos não entram amarelos num jantar, e saem vermelhos? Vou quanto antes: não me esquecerei de vocês: a casa do Barão é perto e em menos de meia hora eu estarei aqui com o que puder trazer.
Silveira
E com que roupa pretendes lá te apresentar? Queres
fazer uma figura ridícula?
Feliciano
Queres salpicar de lama a ilustre corporação
a que pertences?
Félix E por causa de roupa hei de deixar de ir a um almoço esplêndido? Não: o homem não deve acobardar-se em face desses petits riens da vida. (Para Silveira.) Hás de me emprestar a tua casaca preta. Quanto ao mais que me falta, vou proceder a uma busca. Esta camisa está muito indecente...com um colarinho postiço, e casaca abotoada...
Silveira Colarinho é o menos. E os sapatos?
Feliciano (Apanhando um sapato.) Aqui está um sapato.
Félix Cá está outro. (Senta-se na cama e calça um.) Vai às mil maravilhas! (Calçando outro.) Ananke! São ambos do mesmo pé! Mas não se conhece.
Feliciano (Procurando.) Uma luva preta.
Silveira Olha: cá está outra.
Félix Dá-ma. (Reparando.) É branca.
Silveira Isso é o menos, pinta-se.
Félix Não tenho tempo a perder: já tenho o essencial: dispenso os objetos de luxo. Vou vestir-me. (Vai saindo pela direita.)
Feliciano Uma gravata a solferino.
Félix (Voltando.) Dá-ma. (Sai.)
Feliciano e Silveira
Feliciano Pela primeira vez em minha vida sinto a inveja.
Silveira (Bocejando.) Ai, ai, vou dormir.
Feliciano Ser convidado para um almoço esplêndido, enquanto que nós...
Silveira Enquanto que nós...
Feliciano Silveira: esta vida é cheia de espinhos. No lar doméstico aquecido ao seio da família eu nunca sentia fome.
Silveira Caímos no sentimentalismo.
Félix (De dentro cantando.) Ah! Che la morte ognora
È tarda nel venir...
Silveira Canta, patife!
Feliciano Ao menos resta-nos um consolo: não morreremos de indigestão.
Félix (Entrando.) Pronto. A casaca vai-me bem?
Feliciano Como uma luva!
Silveira Mas este colete está indecente: parece um fogo chinês! Isto faz mal até à vista. Não deves ir ao almoço. Tu podes indispor o Barão de Inhagabaú com este colete.
Félix Abotôo a casaca. Até logo, rapaziada. (Sai cantando.)
Madre infelice
Corro a salvar-te...
Feliciano e Silveira
Feliciano Já tenho suores frios,e a cabeça anda-me à roda.
Silveira Feliciano, creio que vou ter uma vertigem. (Ouvem-se fora gargalhadas de mulheres.) Hein?!
Feliciano O quê?
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