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Maldita Parentela

França Júnior

CENA I

Damião Teixeira e Raimunda

Damião (Entrando por uma das portas da esquerda, a Raimunda, que entra pela direita) Onde está Marianinha? (Com alegria) As salas regorgitam de gente e neste momento acaba de entrar a família do Comendador Pestana.

Raimunda Marianinha está no toalete com as filhas do Conselheiro Neves.

Damião Que reunião luzida! São apenas nove horas e já tenho em casa dois desembargadores, três deputados, um conselheiro, um tenente-coronel...

Raimunda O pior é que chove a cântaros.

Damião Tanto melhor. Haverá à porta maior número de carros e o nosso baile, durante uma semana pelo menos, será o assunto das conversações na vizinhança.

Raimunda Você só pensa nos seus comendadores e barões e não se lembra do mano Basílio e das meninas da Prainha. Sabe Deus como elas virão por aí, coitadinhas, metidas num bonde, todas enlameadas e correndo o risco de uma constipação.

Damião Se é por esse motivo que a chuva a incomoda, então fique sabendo desde já que eu não duvidaria dar às almas o dobro do que gastei esta noite para ver desabar sobre a cidade um tremendo temporal, dez vezes maior que o de dez de outubro.

Raimunda Se a minha família o envergonha, porque casou comigo?

Damião Ora, Raimunda, falemos com franqueza, a tua parentela é um escândalo!

Raimunda Em que é que os seus parentes são melhores que os meus?

Damião Aqui para nós, que ninguém nos ouça. Tu achas que teu mano Basílio...

Raimunda Teu mano, não; seu cunhado.

Damião Vá lá; tu achas que meu cunhado Basílio e aquelas duas filhas; uma muito desengonçada e a dar gargalhadas a todo o momento e a outra de cara sempre amarrada a responder às amabilidades que lhe dizem com desaforos e muxoxos de crioula, estão no caso de entrar em um salão de gente que se trata?

Raimunda Quem te viu e quem te vê!

Damião Desde que me entendo, encontro-as em toda parte com uns célebres vestidos brancos, tão cheios de fofinhos, pregas e canudos que parecem estar vestidas de tripas. E o tal Senhor CassianoVilasboas? Não se me dá de apostar que ele vem por aí de casaca e calça branca.

Raimunda Pois olhe, o primo Vilasboas foi sempre um janota.

Damião Um janota da Ponta do Caju, que me tem quebrado, com os seus estouvamentos, quanta louça tenho em casa.

Raimunda Não é tanto assim.

Damião Eu daria parabéns a mim próprio, senhora, se a sua parentela tivesse a feliz lembrança de não pôr cá os pés. Sabe que este baile é dado especialmente ao Senhor Joaquim Guimarães, que é um homem às direitas, com quem desejo casar Marianinha. Já vê, que é preciso que nos meus salões se encontre a nata da sociedade fluminense.

Raimunda Não compreendo porque queres a nata da sociedade em tua casa quando pretendes casar tua filha com um lorpa, um sujeito sem educação, que vai fazer a sua infelicidade.

Damião Pois um homem que traz para o casal aquilo com que se compram os melões faz porventura a infelicidade de alguém?! Pelo amor de Deus, senhora, não diga disparates.

Raimunda Se reservavas esta sorte para a pobre menina, seria melhor que não a tivesses mandado educar com todo o esmero em um colégio francês.

Damião Pois saiba que é atendendo mesmo a essa educação que desejo casá-la com o tal lorpa, como a senhora o chama. Marianinha está acostumada ao luxo, à vida da alta sociedade e um marido dinheiroso é para ela hoje tão necessário como o ar que respira.

Raimunda Um marido que há de envergonhá-la em toda a parte.

Damião Não há de ser tanto assim. Concordo que a princípio ele cometa suas inconveniências e que dê mesmo algumas patadas bravias; mas depois há de ir se acostumando pouco a pouco à atmosfera dos salões e acabará finalmente por falar a linguagem do bom-tom e não dar um passo sem atender ao formulário da etiqueta.

Raimunda Veremos.

Damião Ora, minha amiga, tu queres medir todos pela bitola de tua família, que nasceu na Prainha, na Prainha foi educada e há de morrer na Prainha.

Raimunda Está bom, a minha família não está em discussão.

Damião Eu já sei o que a senhora quer. Vem com pés de lã advogar a causa do tal doutorzinho que me anda a namorar a pequena...

Raimunda Pois fique sabendo que Marianinha já me disse que, a não dar a mão ao Senhor Doutor Aurélio, não se casava com mais ninguém. E eu acho que ela faz muito bem.

Damião O quê?! Pensa porventura a Senhora Raimunda que eu vou casar minha filha com um valdevinos sem fortuna e sem família?...

Raimunda Mas...

Damião Sim, sem família. Dou um doce ao tal sujeitinho se ele for capaz de dizer quem seja seus pais.

CENA II

Os Mesmos e Três Convidados

Damião (A duas damas e a um velho que entram pelo fundo) Ó Senhor Visconde, pensei que não viesse. (Aperta a mão do Visconde) Raimunda, leva as capas das senhoras para o toalete. (Raimunda beija as duas moças, tira-lhes as capas e entra pela esquerda voltando logo. As moças sentam-se) Pode dispor desta casa como se fosse sua.

Raimunda (Para as moças) A Senhora Viscondessa por que não veio?

Damião (Para o velho) É verdade, por que não trouxe a Excelentíssima Senhora?

CENA III

Os Mesmos e mais Três Convidados

Damião (A um moço que entra com duas damas pelo fundo) Ó Excelentíssimo! Raimunda, o Senhor Doutor Chefe de Polícia. Minha mulher. (Raimunda cumprimenta o moço, beija as três moças, tira-lhes as capas e leva-as para o toalete, depois do quê, volta para a cena. As moças sentam-se)

CENA IV

Raimunda, Damião, Os Convidados, Basílio, Laurindinha, Cocota, Três Meninos, de 7 a 10 anos e Uma Menina de 8 anos

Raimunda Como está, mano Basílio? (Laurindinha, Cocota e os meninos tomam a bênção a Raimunda)

Damião (À parte) Jesus! Veio a família em peso!

Laurindinha (Rindo-se às gargalhadas) Estamos todas enlameadas! (Apertando a mão de todos que estão na sala, um por um) Como tem passado? (A outra) Eu estou boa, muito obrigada. (A outro) Boa noite. (A outro) Tem passado bem? (A outro) Como vai?

Damião (À parte) Que vergonha, meu Deus! Entram em um baile apertando a mão de todos, sem uma apresentação sequer!

Laurindinha (A outra) Viva!

Damião (Baixo a Raimunda) Senhora, pelo amor de Deus, toque estas sirigaitas daqui para fora. (O major Basílio, os três meninos, a menina e Cocota seguem também um atrás do outro apertando a mão de todos, que ocultam o riso com o lenço na boca)

Raimunda (Baixo a Damião) De que é que esta súcia se ri?

Damião (Baixo) A senhora ainda o pergunta?! Olhe para aqueles vestidinhos, cheios de fitas de todas as cores. Parece-me estar vendo o mastro do Castelo em dia de chegada de voluntários.

Basílio (Abraçando o Chefe de Polícia) Oh! Há quanto tempo não o vejo.

Damião (À parte) O que é aquilo, o que é aquilo?!

Basílio Não é o Senhor Tomé da rua do Alcântara, a quem tenho a honra de falar?

Damião (Pondo-se de permeio) Venha tirar par para uma quadrilha, Excelentíssimo.

Basílio Desculpe-me, estou sofrendo tanto da vista.

Laurindinha (Rindo-se) Ah! Ah! Ah! Titia, não imagina o reboliço que houve lá em casa por causa deste baile.

Damião (Com riso forçado) Nós imaginamos, nós imaginamos.

Laurindinha Ah! Ah! Ah! Eu e Cocota queríamos fazer uns vestidos novos para pôr poeira hoje aqui em tudo. O diabo do italiano que costuma levar fazendas lá na Prainha flauteou-nos e não tivemos remédio senão lançar mão destes vestidos que fizemos para a chegada do Conde D’Eu. Toca a mudar fitas. Ah! Ah! Ah! Papai estava furioso. Já não posso com tanta despesa, disse ele. Ah! Ah! Ah! Saímos de casa todas engomadas, principiava a fuzilar. Quando chegamos ao Largo da Imperatriz, desabou uma pancada d’água...Ah!Ah! Ah! Os bondes passavam...papai, sciu, sciu, sciu, pára! Qual! Iam todos atopetados. Ah! Ah! Ah!

Damião (Interrompendo) Vamos tirar pares, vamos tirar pares.

Laurindinha A mana está danada.

Cocota (Zangada) Me deixe.

Laurindinha Ah! Ah! Ah! Está com os sapatos todos encharcados, e a meia caiu-lhe pela perna abaixo.
Cocota (Zangada) Não é de sua conta; cuide de sua vida que não faz tão pouco.

Laurindinha Eu lá tenho a culpa que você viesse com os sapatos rotos?

Cocota Vá plantar batatas.

Damião (À parte) Que vergonha! (Alto) Vamos tirar pares, vamos tirar pares.

Cocota Se você me exaspera muito, olhe que eu faço uma das minhas, hein?

Basílio (Para Cocota e Laurindinha) Vocês não trouxeram aquela música a quatro mãos?

Cocota Eu não, não tinha eu mais que fazer.

Basílio Mas por que não trouxeste a música?

Cocota Porque não quis, está aí.

CENA V

Os Mesmos e Vilasboas

Vilasboas (Entra pelo fundo, traja casaca e calça branca; traz um cachê-nez ao pescoço, a bainha da calça dobrada, sapatos de borracha e um chapéu de chuva sobraçado com a ponta para o ar) Afinal, sempre cheguei.

Laurindinha (Batendo palmas) Iu...ó primo Vilasboas. Que pagode. Ah! Ah! Ah! (Vilasboas cumprimenta a todos com a ponta do guarda-chuva voltada para o ar)

Damião (À parte) Mais outro.

Basílio (A Vilasboas que o cumprimenta) Olhe que você fura-me um olho.

Vilasboas Estou molhado como um pinto. (Recuando para apertar a mão de Raimunda dá com o cabo do chapéu em um aparador e atira uma jarra ao chão)

Damião (À parte) Começa o diabo a quebrar-me tudo.

Vilasboas (Para Raimunda) Não se incomode, eu pago. Com licença. (Abre o chapéu de chuva e coloca-o no chão)

Damião O que é isto, senhor?

Vilasboas É para enxugar. (Damião fecha o chapéu e coloca-o a um canto. Vilasboas senta-se no sofá, tira os sapatos de borracha e atira-os para baixo, desenrola o cachê-nez e desdobra a bainha da calça)

Damião (Baixo a Raimunda) Estou com a cara mais larga que um tacho. (Alto) Vamos tirar pares, vamos tirar pares.

CENA VI

Vilasboas, Os Convidados, Os Meninos, Laurindinha, Cocota, Basílio, Damião, Raimunda, Hermenegilda e Miranda

Raimunda Entre, prima Hermenegilda.

Hermenegilda (Cumprimentando a todos) Pensei que não nos apropinquássemos mais às avenidas deste palácio, todo por dentro e por fora iluminado, como diz Alexandre Herculano no Otelo.

Damião (Á parte) Faltava mais este casal para coroar a obra.

Vilasboas (Para Laurindinha) A mana Hermenegilda fala que se pode ouvir.

Hermenegilda Deixamos a poética Praia do Caju envolvida nos vapores fosforescentes do cair das sombras que abandonavam a terra.

Damião (Á parte) Quanta asneira, meu Deus!

Hermenegilda A lua ocultava o perfil entre nuvens negras como diz o cantor do Jocelyn.

Damião (Interrompendo) Mas vamos tirar pares, vamos tirar pares.

Miranda (Para o Chefe de Polícia) Se não me engano, é o Senhor Doutor Chefe de Polícia da Corte? Há de permitir-me que apresente minha filha a Sua Excelentíssima. (Apresentando Hermenegilda) O Senhor Doutor Chefe de Polícia. Minha filha, Dona Hermenegilda Taquaruçu de Miranda.

Hermenegilda Creio que é inútil esta apresentação, porquanto já tive o prazer de enlaçar o meu braço no de Vossa Excelência no voluptuoso baile do Fragoso.

Vilasboas É verdade, como esteve voluptuoso aquele baile! Havia gente como terra. (A orquestra toca dentro uma quadrilha)

Damião A orquestra dá o sinal para a segunda quadrilha. Não há tempo a perder, meus senhores.

Miranda (Para o Chefe de Polícia) Se Vossa Excelência não tem par, tomo a liberdade de oferecer-lhe minha filha. (O Chefe de Polícia dá o braço a Hermenegilda)

Hermenegilda Eu amo a dança, como o saltitante colibri, pulando de várzea em várzea ora aqui, ora ali, ama as pétalas de flores, onde a borboleta vai colher o delicioso mel. (Saem ambos)

Laurindinha (Para Vilasboas) Primo, você dança comigo; nós cá quando nos ajuntemos, pintemos. Ah! Ah! Ah! (Sai de braço com Vilasboas)

Basílio (Para a menina) Eu vou ver um par para ti, Isabelinha. (Dirigindo-se a um dos convidados) Se ainda não tem dama peço-lhe que dance com esta menina. (A menina sai de braço com o convidado) Vocês (Para as meninas) vejam lá como se portam, vão para a sala, fiquem bem sossegadinhas num canto e sobretudo não me metam a mão nas bandejas. (Saem as meninas, os outros convidados tiram pares e saem também)

Damião (Para Cocota) Você não vai dançar, menina?

Cocota Estou muito bem sentada.

Damião Se veio cá para fazer papel de jarra, seria melhor ter ficado em casa.

Cocota Jarra será ele, veja lá se está falando com seus negros. Se pensa que faço muito empenho em vir aos seus bailes, fique sabendo que vim cá somente para fazer a vontade a papai. Depois que apanhou umas patacas ficou tão cheio de impostúrias e de sobêrbias que parece que tem o rei na barriga. Eu não faço caso de dinheiro.

Basílio Menina, respeite seu tio, que é mais velho; vá dançar.

Cocota Não vou, não vou e não vou. (Sai para a toalete levando consigo uma moça)

Basílio (Dando o braço a duas damas e saindo) É muito bem criada, mas quando teima, ninguém pode com ela.

CENA VII

Damião e Miranda

Miranda Na realidade, invejo a posição em que te achas.

Damião (Com ar pretensioso) Ora, meu amigo, mudemos de conversa.

Miranda Infelizmente não posso fazer outro tanto, apesar de ter um elemento com quem podia figurar mais do que tu.

Damião Qual é?

Miranda Uma filha inteligente e interessante.

Damião Não te compreendo.

Miranda Desconheces porventura a importância da mulher na sociedade? Não sabes que de um momento para outro ela pode arremessar-nos ao abismo com a mesma facilidade com que eleva-nos às mais altas posições? Hermenegilda tem todos os dotes para fazer-me subir e, no entanto, ainda nada consegui até hoje.

Damião Ora Miranda...

Miranda Ela, por sua parte, coitada, faz todo o possível. Não a viste, há pouco, com o Chefe de Polícia? Um homem solteiro, em boa posição...um corte de marido, às direitas. Parece-me que o caiporismo vem de mim.

CENA VIII

Os Mesmos e Joaquim Guimarães

Guimarães (Entrando pelo fundo) Há um quarto de hora que ando pelas salas a sua procura. Irra!...Estou suando como um burro.

Damião Ó Senhor Guimarães, a sua ausência já me era muito sensível!

Miranda (Baixo a Damião) Este homem não é aquele sujeito muito apatacado de que me falaste uma vez ?

Guimarães Não pude vir mais cedo. Mandei ver umas botas para o seu bródio, encomendo ao diabo do caixeiro que me procurasse quarenta e oito, três, que é o número que calço, e o ladrão traz-me estas botinas. Estou com os pés intransitáveis.

Miranda (Baixo a Damião) Apresenta-me a este homem.

Guimarães Decididamente não me sei haver com isto. Quem me tira de um bom chinelo-de-tapete, tira-me de tudo.

Damião Já esteve na sala da frente?

Guimarães Acabo de sair de lá.

Damião Que tal?

Guimarães O mulherio é magnífico!

Miranda (À parte) É preciso que ele dance com Hermenegilda.

Guimarães Mas quer que lhe fale com franqueza? Eu não gosto de bailes de cerimônia. Se algum dia der reuniões em minha casa, não hei de fazer convites. Encontrando algum conhecido na rua, chamo-o e digo-lhe: Vem cá, fulano, vai tomar hoje uma xícara de água suja lá em casa; podes ir assim mesmo que lá não vai ninguém de bem. Não me entendo com negócios cá de casaca e gravata ao pescoço, está a gente fora de seus hábitos.

Miranda O senhor é como eu.

Guimarães Quem é o senhor?

Miranda Chamo-me Desidério José de Miranda, moro na Ponta do Caju e sou pai de uma menina que é um anjo.

Guimarães Onde está ela?

Damião (Interrompendo com vivacidade) Vamos para a outra sala; minha filha espera-o com ansiedade...

Miranda Venha, eu vou apresentá-la.

Damião Oh! Aí vem Marianinha.

CENA IX

Marianinha, Aurélio, Damião, Miranda e Guimarães

Guimarães (A Marianinha) Ora muito boas noites, minha senhora. Então, como vai a Sé velha? (Apertando-lhe a mão)

Damião (A Aurélio) Desejava falar-lhe, Senhor Doutor.

Aurélio (À parte) Compreendo.

Miranda (À parte) O patife quer me empatar as vasas.

Damião (Saindo com Aurélio) Vamos também, Miranda, quero comunicar-te um negócio de muita importância. (Saem os três. Aurélio lança, ao sair, um olhar furtivo para Marianinha)

CENA X

Marianinha e Guimarães

Guimarães (À parte) Que diabo lhe hei de eu dizer? (Alto) O dia de hoje tem me corrido muito bem, minha senhora.

Marianinha Deveras?

Guimarães É verdade.

Marianinha Então, pelo quê?

Guimarães Vendi de manhã no meu armazém três barricas de paios avariados e tenho agora o prazer de estar ao seu lado.

Marianinha Que amabilidade!

Guimarães Ah! eu não sou homem de etiquetas, digo o que sinto. Fiz um bom negócio e desabafo com a menina, que é uma pessoa a quem amo com todas aquelas. Também se não gostasse da senhora, dizia-lhe logo nas ventas; eu para isso sou bom.

Marianinha O senhor gosta de franqueza?

Guimarães É a alma do negócio

Marianinha (Com ironia) O Senhor Guimarães é um espírito altamente poético; o negócio jamais lhe sai da cabeça, mesmo ao lado da mulher a quem ama.

Guimarães Se eu não pensar no negócio ao pé da senhora, quando é que hei de pensar então? Além disso o casamento é um verdadeiro negócio.

Marianinha Ah?!

Guimarães Sim, senhora; é uma sociedade sujeita a perdas e lucros e que tem por capital o amor. Quando o capital se esgota, dissolve-se a firma social, e cada um trata de procurar o seu rumo.

Marianinha Pois já que o senhor gosta de franqueza, há de permitir-me que lhe diga que a nossa firma social é impossível.

Guimarães Impossível?! Por quê?

Marianinha Já dei o meu capital a outra sociedade.

Guimarães Já deu o seu capital?! Não é isto o que seu pai tem me dito!

Marianinha Mas é o que lhe digo agora.

Guimarães Ora, a menina está caçoando. E se o Senhor Damião a obrigar?

Marianinha Casar-me-ei com o senhor, mas o meu coração nunca lhe pertencerá. (Aurélio aparece ao fundo. Marianinha vai retirar-se)

Guimarães Venha cá.

Marianinha (Para Aurélio) Dê-me o seu braço, Senhor Aurélio. (Sai com Aurélio)

Guimarães (Pensando) Nada. (Pausa) Não me serve.

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