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Hinos A Tempestade

Gonçalves Dias

I

De cor azul brilhante o espaço imenso
Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo
Do bosque a verde coma esmalta e doira,
E na corrente dardejando a prumo
Cintila e fulge em lâminas doiradas.
Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores!
Nos céus um ponto só negreja escuro!

Eis que das partes, onde o sol se esconde,
Brilha um clarão fugaz pálido e breve:
Outro vem após ele, inda outro, muitos;
Sucedem-se freqüentes, -- mais freqüentes,
Assumem cor mais viva, --inda mais viva,
E em breve espaço conquistando os ares
Os horizontes co’o fulgir roxeiam.

Qual manca d’óleo em tela acetinada,
Que os fios todos lhe repassa e embebe;
Ou qual abutre do palácio aéreo
Tombando acinte, -- no descer sem asas
Um ponto só, - até que em meia altura
Abrindo-as, paira majestoso e horrendo:
Assim o negro ponto avulta e cresce,
E a cúpula dos céus de cor medonha
Tinge, e os céus alastra, e o espaço ocupa.
A abóbada de trevas fabricada
Descansa em capitéis de fogo ardente!

De quando em quando o vento na floresta
Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe
Rouqueja, e brama, e cava-se empolado,
E aos píncaros da rocha enegrecida
De iroso e mal sofrido a espuma arroja!
Raivoso turbilhão consigo arrasta
O argueiro, a folha em vórtice espantoso;
No vale arranca a flor, sacode os troncos,
No mar os vagalhões incita e cruza.

II

Os sons da tempestade ao longe escuto!
Concentra a natureza os seus esforços
Primeiro que entre em luta; não lampeja
Ínvio fogo nos céus; não sopra o vento:
É tudo escuridão, silêncio e trevas!
Somente o mar de soluçar não cessa,
Nem de rugir as ramas buliçosas,
Nem de soar confuso borborinho,
Incompr’ensível, como que sem causa,
Imenso como o eco de mil vozes
No céu de extensa gruta repulsando.
Silêncio!perto vem a tempestade!
Grávidas nuvens de fatais coriscos,
Sem rumo, como nau em mar desfeito,
Eu muda escuridão negros fantasmas,
Indistintos, em forma, -- ondulam, jogam.
Logo poder oculto impele as nuvens,
Atraem-se os castelos tenebrosos,
Embatem-se nos ares, -- brilha o raio,
E o ronco do trovão após ribomba!

III

Ruge e brame, sublime tempestade!
Desprende as asas do tufão que enfreias,
Despega os elos do veloz corisco
E as nuvens rasga em rúbidas crateras.
Os fuzis da cadeia temerosa
Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens
Do teu açoite aos látegos bramindo,
Ocupem de pavor os céus e a terra,
Ruge, e o teu poder mostra rugindo;
Que assim por teus influxos me comoves,
Que todo me eletrizas e me arroubas!

Qual foi Mazeppa no veloz ginete
Por desertos, por sirtes arenosas
Jungido e preso e atônito levado;
Assim minha alma sobe e vai contigo,
E vinga os teus palácios mais subidos,
Contempla os teus horrores, e dos astros
No prazer, que lhe dás, toda embebida,
Mau trado teu horror, folga contigo!
Parece que ali tem a régia c’roa
Que o feliz condenado achou na Ucrânia.
Ruge, ruge embora, ó tempestade!

IV

Enfim descendo a chuva copiosa
Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem,
De pérolas a relva se matiza,
O céu de puro azul todo se arreia,
Sorri-se a natureza, e o sol rutila!

V

Assim, meu Deus, assim será no dia
Do final julgamento, quando o anjo
Soprar a trompa que desfez os muros
De Jericó soberba!

O mar sobrepujando os seus limites,
Com roncos temerosos, nunca ouvidos,
Virá para sorver, com fúria brava,
Ilhas e continentes.

O sol, perdendo o brilho e a natureza,
Não luz, mas puro fogo, há de acender-se,
Como o fogo sagrado, que se prende
Nas cortinas do templo.

Os orbes dos seus eixos desmontados,
No abismo hão de cair com grande estrondo,
E, redomas de vidro, hão-de partir-se
Em pedaços sem conto.

Do abismo as solidões hão-de acordar-se!
Flamívomos vapores condensados,
Te nós, e além de nós, hão de elevar-se
Em pavoroso incêndio.

O ar há de acender-se, a terra em fogo
Tornar-se, como o ferro ardendo em frágua,
Coalhar-se o mar e em áspera secura
Converterem-se as ondas.

E nesta confusão de fumo e chamas,
Neste caos, que a mente mal alcança,
Quando nada existir de quanto existe,
Será vencida a morte.

Logo, à um só dizer do Onipotente,
O pó segunda vez há de animar-se,
E os mortos, mal sofrendo a luz da vida,
Atônitos, pasmados;

Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos,
E como Adão, a tatear os membros,
Estranhos a existência já vivida,
Perguntarão: Quem somos?

Então, Senhor, então, -- tu o disseste—
Virás cheio de glória e majestade,
Em sólio de luzeiros resplendente,
E em celeste cortejo!

Virás, sol da justiça em fins do mundo
Acalmar a procela, e quando aos mortos
Disseres tu, quem és, -- lembrar-nos-emos,
Senhor, do que já fomos.

Feliz então quem só viveu contigo,
Quem n’âncora da fé prendeu sua alma,
Quem só em ti fundou sua esperança,
Pequeno e humilde!

Feliz então quem tua lei guardando,
Seus passos graduou nos teus caminhos;
Quem dia e noite revolveu consigo
Como aplacar-te.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br