Julgo que ainda não me restabeleci completamente.
Das visões que me perseguiam naquelas noites compri- das umas sombras permanecem, sombras que se mis- turam à realidade e me produzem calafrios.
Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, apro- ximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.
Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com des gosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas. exibindo tftulos e preços nos rostos, ven- dendo-se. E uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Bas- baques escutam, saem. E os autores, resignados, mos- tram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da La.ma.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.
Impossivel trabalhar. Dão-me um oficio, um re- latório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daf em diante a cara balofa de Julião Tava- res aparece em cima do original, e os meus dedos en- Contram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, ca pricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida.
A noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos reme- xem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis roncam na rua.
Em duas horas escrevo uma palavra: Marina Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisa, absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando nâo consigo formar combinaçôes novas traço rabiscos que representam uma espada, uma lira uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso err indivíduos e em objetos que nâo têm relação com o: desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretá rio, políticos, sujeitos remediados que me desprezan porque sou um pobre-diabo.
Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando no cafés e preguiçando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como un rato assustado. Como um rato, exatamente. Fzjo do negociantes que soltam gargalhadas enormes, discuten política e putaria.
Não posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouvei aperta-me com bilhetes de cobrança. Bilhetes inútei: mas dr. Gouveia não compreende is.to. Há tambér o homem da luz, o Moisés das prestações, uma promi.
sória de quinhentos mil-réis, já reformulada. E coisa piores, muito piores.
O artigo que me pediram afasta-se do papel. ve: dade que tenho o cigarro e tenho o álcool, mas quand bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresc Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatemp estúpido.
Dr. Gouveia é um monstro. Compôs, no quint ano, duas colunas que publicou por dinheiro na secçã livre de um jornal ordinário. Meteu esse trabalhinh num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cim do bureau. Está cheio de erros e pastéis. Mas dr. Go veia não os sente. O espírito dele não tem ambiçôe Dr. Gouveia só se ocupa com o temporal: a renda da propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.
8 Não consigo escrever. Dinhefro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mortandade e ou- tras destruições, as duas colunas mal impressas, caixi- lho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, polfticos, diretor e secretário, tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara balofa de Julião Tavares mufto aumentada.
Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, mis- turando-se, formando um novelo confuso.
Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.
* * * Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estú pida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embria.guez, suicídio. . .
Peno no meu cadáver, magrfssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem cas- ca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e con- duzirão para o cemitërio, num caixão barato, a minha Carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de Carregar defunto pobre, procurarão saber quem será o meu substituto na Diretoria da Fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares.
Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento des- sas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato.
Tento distrair-me olhando a rua.
A medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que 9 viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lad esquerdo são as casas da gente rica, dos homens qu me amedrontam, das mulheres que usam peles de cor tos de réis, Diante delas, Marina é uma ratufna. D lado direito, navios. As vezes hâ diversos ancorado; Rolam bondes para a cidade, que está invisível, lá er cima, distante. Vida de sururu.
Hâ quinze anos era diferente. O barulho dos bonde nã,o deixava a gente ouvir o sino da igreja. O me quarto, no primeiro andar, era um inferno de calo Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam par a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Pa: seio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário d polfcia. Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurorf que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais. E faltar plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros m cambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quart ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás er insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudant e repórter, vinha despejar sobre a minha cama uI compêndio de anatomia e uma cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro misE rável, casas de paIha, crianças doentes. Barcos de pe; cadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às sei horas encostava-se ao guarda-roupa e rosnava, agitav os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedE que comiam demais e nos que estavam em atras Havia um rapaz de Minas, dispêptico, que ela adorav e queria casar com a neta. Enquanto os outros mast gavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre c discursos da Câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos do Ater iluminam o gramado murcho e a praia branca. C coqueiros empertígados ficam para trás. Penso nuxr ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navu também ficam para trás. A pensão, o meu quarto ab fado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos lundos do tesouro. E ali que trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estâo os grupos que me des- gostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, diríge-se ao interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu municipio sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direi- ta, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de Be- bedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apo- quentações que tenho experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura de meu avó, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, fIcava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Cczrtos Magno, sonhando com a vitó- ria do partido que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, enver- gavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amar ro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as línhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia deba,ixo das catingueiras sem folhas. Tinham amar- rado no pescoço da cachorra Maqueca um rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Mínha avó, sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não exis- tiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. As vezes subia à vila, des- composto, um camisão vermelho por cima da ceroula II de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercata e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestr Domingos, que havía sído escravo dele e agora possuf venda sortida, encontrava o antigo senhor escoraido m balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jo gando três-setes com os soldados. O preto era un sujeíto perfeítamente respeftável. Em horas de solen: dade usava sobrecasaca de chita, correntão de our atravessado de um bolso a outro do colete, chinelo de trança, por causa dos calos, que não agüentavan sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta úmída de suor, brilhava como um espelho. Pois, ape sar de tantas vantagens, mestre Domingos, quand vfa meu avô naquela desordem, dava-lhe o braço, leva va-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amonfacc Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomi tava na sobrecasaca de mestre Domingos e grítava: - Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro Quando o carro pára, essas sombras antigas desa parecem de supetão - e vejo coisas que não me exci tam nenhum interesse: os focos da iluminação públ: ca, espaçados, cochilando, píongos, tão píongos com luzes de cemitério; um palácio transformado em al bergue de vagabundos; escuridões, capoeiras, barrefra cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábric, de tecidos; e, de Ionge em longe, através de ramagen: pedaços de mangue, cinzentos. A medida que no aproximamos do fim da linha as paradas são meno freqüentes. Os postes cintados de branco passam cor rendo, o carro está quase vazio, as recordações da mi nha infâncía precipitam-se. E a decadência de Trajan Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-s também.
Estava pegando um século quando entrou a c: ducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-, todo, contava os dedos dos pés e caía na madorn; De repente acordava sobressaltado: - Sinha Germana! Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaquE ro, deixava a rede, impaciente: Que é que há? - Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher! - Morreu.
- Que está me dizendo? estranhava o velho arr galando os olhos quase cegos. Quando foi isso? Camilo Pereira da Silva amolava-se: - Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
- Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados. . .
- Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando: - Sinha Germana! Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre Do- mingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos morar na vila. Me- teram-me na escola de seu Antônio Justino, para desas- nar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e não conhe- cia a mão direita. Aprendi leitura, o catecismo, a con- jugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, espe- rando que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brïnquei só.
* * * Uma chuvinha renitente açoita as folhas da man- guefra que ensombra o fundo do meu quintal, a água empapa o chão, mole como terra de cemitério, qual- quer coisa desagradável persegue-me sem se fixar cla- ramente no meu espírito. Sinto-me aborrecido, aper- reado Debaixo da chuva azucrinante, espécie de neblina pegajosa, a mangueira do quintal e as roseiras da casa vizinha estão quase invisíveis.
Emendo um artigo que Pimentel me pediu, artigo feito contra vontade, só para não descontentar Pi- mentel. Felizmente a idéia do livro que me persegue às vezes dias e dias desapareceu.
Penso em mestre Domingos, no velho Trajano, em meu pai. Não sei porque mexi com eles, tão remotos, dilufdos em tantos anos de separação. Não têm ne- nhuma relação com as pessoas e as coisas que me cercam.
Releio com desgosto o artigo que vou dar a Pi- mentel.
Os defuntos antigos me importunam. Deve ser por causa da chuva. Nos meses compridos daqueles in- vernos de serra muítas vezes fiquei tardes inteiras sen- tado à porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia aebaixo de um lençol branco de água em pó. Os chuviscos entravam pela sala, os móveis e a roupa da gente pareciam cobrir-se de pontinhas de alfinetes. De tempos a tempos um vulto embuçado passava na calçada. O velho Acrísio, de cachimbo na boca, chegava à janela para conversar com meu pai.
Nâo entrava: dava umas notfcias, esfregando as mãos, agüentando aqueles pinguinhos que não molhavam, apenas lhe umedeciam o capote e o cachenê de lã ver- melha.
Agora a chuva é um pouco diferente, o nevoeira menos denso. De longe em longe a água bate no te lhado com força, depois continua a peneira que oculta o jardim da casa vizinna.
Se Marina tivesse a idéia de se banhar ali àquela hora da tarde, eu não lhe veria o corno. Talvez visse apenas uma sombra, como acontece nõ cinema quandc se apresentam mulheres nuas. Este pensamento esqui sito - Marina despida, arrepiada, coberta de caroci nhos - bole comigo durante alguns minutos.
Gostava de me lavar assim quando era menino A trovoada ainda roncava no céu, e iá me preparava As vezes a preparação durava três dias. O trovão rolavs por este mundo, os relâmpagos sucediam-se com fúria Quitéria encafuava-se, oferecia peles de fumo a Santf Clara, escondia a cabeça debaixo das cobertas e gri tava: - "Misericórdial "; meu pai largava o romance nervoso; Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e SilvF chamava sinha Germana, que tínha morrido. Quandc o aguaceiro chegava, o couro cru da cama do velhc Trajano virava mingau, tanta goteira havia; a redi suja de Camilo fedia a bode; os bichos da fazenda vinham abrigar-se no copiar; o chão de terra batida ficava todo coberto de excremento.
Eu tirava as alpercatas, arrancava do corpo a ca- misinha de algodão encardida, agarrava um cabo de vassoura, fazia dele um cavalo e saía pinoteando, pe- rerê, pererê, pererê, até o fim do pátio, onde havia três pés de juá. Repetia o exercicio, cheio de alegria doida, e gritava para os animais do curral, que se lava- ram como eu. Fatigado, saltava no lombo do cavalo ' de fábrica, velho e lazarento, galopava até o Ipanema e cafa no poço da Pedra. As cobras tomavam banho com a gente, mas dentro da água não mordiam.
O poço da Pedra era uma piscina enorme. Antes de entrar nela, o Ipanema tinha dois metros de lar- gura e arrastava-se debaixo dos garranchos de algu- mas quixabeiras sem folhas.
Quando eu ainda nã.o sabfa nadar, meu paf me levava para ali, segurava-me um braço e atirava-me num lugar fundo. Puxava-me para cima e deixava-me respirar um instante. Em seguida repetia a tortura.
Com o correr do tempo aprendi natação com os biehos e livrei-me disso. Mais tarde, na escola de mestre An- t8nfo Justino, lf a história de um pintor e de um cachorro que morria afogado. Pois para mim era no poço da Pedra que se dava o desastre. Sempre imagi nei o pintor com a cara de Camilo Pereira da Silva, e o cachorro parecia-se comigo.
Se eu pudesse fazer o mesmo com Marina, afogá-la devagar, trazendo-a para a superffcie quando ela estf- resse perdendo o fôlego, prolongar o suplicfo um dia inteiro . . .
Debaixo da chuva, a manguefra do quintal está toda branca. O papagaio na cozinha bate as asas, sa- cudindo os salpicos que vêm da biqueira. Afago o pêlo macio do meu gato mourisco, que dorme enroscado numa cadeira. As idéias ruins desaparecem. Marina desaparece.
Ponho-me a vagabundear em pensamento pela vila distante, entro na igreja, escuto os sermões e os desa- foros que padre Inácio pregava aos matutos: - Ar reda, povo, raça de cachorro com porco." Sento-me no paredão do açude, ouço a cantilena dos sapos. Vejo a figura sinistra de seu Evaristo enforcado e os ho- mens que iam para a cadeia amarrados de cordas.
Lembro-me de um fato, de outro fato anterior ou posterior ao primeiro, mas os doís vêm juntos. E os tipos que evoco não têm relevo. Tudo empastado, con fuso. Em seguida os dois acontecimentos se distanciam e entre eles nascem outros acontecimentos que vão crescendo até me darem sofrfvel nocão de realidade, As feições das pessoas ganham nitidez. De toda aquela vida havia no meu espírito vagos indïcios. Saíram da entorpecimento recordações que a imaginação com pletou.
A escola era triste. Mas, durante as lições, em pé; de braços cruzados, escutando as emboanças de mestre Antônio Justino, eu via, no outro lado da rua, uma casa que tinha sempre a porta escancarada mostrandc a sala, o corredor e o quintal cheio de roseiras. Mora vam ali três mulheres velhas que pareciam formigas.
Havia rosas em todo o canto. Os trastes cobriam-se de grandes manchas vermelhas. Enquanto uma das for migas, de mangas arregaçadas, remexia a terra do jar dím, podava, regava, as outras andavam atarefadas carregando braçadas de rosas.
Daqui também se véem algumas roseiras maltrata das no quintal da casa vizinha. Foi entre essas planta; que, no começo do ano passado, avistei Marina pelE primeira vez, suada, os cabelos pegando fogo.
Lá estão novamente gritando os meus desejos. Ca lam-se acovardados, tornam-se inofensivos, transfor mam-se, correm para a vila recomposta. Um arrepu atravessa-me a espinha, inteiriça-me os dedos sobre i papel. Naturalmente são os desejos que fazem isto, ma atribuo a coisa à chuva que bate no telhado e à recor dação daquela peneira ranzinza que descia do céu dia e dias.
Meu pai cochilava, encostado ao balcão. Na salet da nossa casa, por detrás da bodega, eu recordava a lições, entorpecido. Enfiando os olhos pela janela, vi na rua o meu vizinho Joaquim Sabiá, de cócoras, fazen do construções com areia molhada. Havia um grand silêncio, um silêncio incômodo. As vezes punha-me is tossir, para me convencer de que não tinha ficado surdo.
Era como se a gente houvesse deixado a Terra. De re- pente surgiam vozes estranhas. Que eram? Ainda hoje não sef. Vozes que iam crescendo, monótonas, e me cau- sa.vam medo. Um alarido, um queixume, clamor enor- me, sempre no mesmo tom. As ruas enchiam-se, s sa- leta enchia-se - e eu tinha a impressão de que o brado lastimoso saía das paredes, safa dos móveis. Fechava os ouvidos para não perceber aquilo: as vozes continua vam, cada vez mais fortes. Que seriam? Tentava desco- brir a causa do extraordinário lamento. Supunha que eram patos gritando, embora nunca tivesse ouvido a voz dos patos. Também me inclinava a admitir que fossem sapos. Mas os sapos do açude da Penha cantavam de outra forma. Não podiam ser sapos. A verdade é que muitas vezes perguntef a mim mesmo se realmente ouvia aquele barulho grande, diferente dos outros barulhos.
Perguntei naquele tempo ou perguntei depois? Não sei.
Tenho-me esforçado por tornar-me criança - e em con- seqüência misturo cofsas atuais a cofsas antigas.
* * * Penso na morte de meu pai. Quando voltef da es- cola, ele estava estirado num marquesão, coberto com um lençol branco que Ihe escondfa o corpo todo até a cabeça. Só ficavam expostos os pés, que iam além de uma das pontas do marquesão, pequeno para o defunto enorme. Muitas pessoas se tinham tornado donas da casa: Rosenda lavadeira, padre Inácio, cabo José da Luz, o velho Acrisio.
Fuf sentar-me numa prensa de farinha que havla no fundo do nosso quintal. Tentei chorar, mas não tinha vontade de chorar. Estava espantado, imaginando a vida que ia suportar, sozinho neste mundo. Sentia irfo e pena de mim mesmo. A casa era dos outros, o defunto era dos outros. Eu estava ali como um bichi- nho abandonado, encolhido na prensa que apodrecfa.
Ouvia o barulho de um descaroçador de algodão, pró- atmo, no Cavalo-Morto. E via o corredor da nossa casa por onde passavam a batina de padre Inácio, a fardá 1 de cabo José da Luz, o vestido vermelho de R.osenda e o capote do velho Acrfsio.
Que ia ser de mim, solto no mundo? Pensava nos pés de Camilo Pereira da Silva, sujos, com tendões da grossura de um dedo, cheios de nós, as unhas roxas, Eram magros, ossudos, enormes. O resto do corpo es tava debaixo do lençol branco, que fazia um vincc entre as pernas compridas. Eu não podfa ter saudade daqueles pés horríveis, cheios de calos e joanetes. Pra curava chorar - lembrava-me dos mergulhos no poçc da Pedra, das primeiras lições do alfabeto, que me ren diam cocorotes e bolos. Desejava em vão sentir a morte de meu pai. Tudo aquilo era desagradável. - "Istc é um cavalo ae dez anos e nã,o conhece a mão di reita." Agora eu tinha catorze, conhecfa a mão direit2 e os verbos Voltei à sala9 nas pontas dos pés. Ninguém mi viu. Camilo Pereira da Silva continuava escondido de baixo do pano branco, que apresentava no lugar da cara uma nódoa vermelha coberta de moscas. Rosendf queimava alfazema num caco de telha. Seu Acrfsio nã servia para nada. Era impossfvel saber onde se fixavf 0 olho de padre Inácio, duro, de vidro, imóvel na órbi ta escura. Ninguém me vfu. Fiquei num canto, roendi as unhas, olhando os pés do finado, compridos, chatos amarelos.
Sempre abafando os passos, dirigf-me novament ao fundo do quintal, com medo daquela gente que nen me havfa mandado buscar à escola para assistir morte de meu paf. Até a preta Quitéria se esquecer de mim. Ao passar pela cozinha, encontrei-a mexend nas panelas e lastimando-se. Sentei-me na prensa, can sado, o estômago doendo. Que iria fazer por af à toa miúdo, tão miúdo que ninguém me via? Encostei-m ao muro, escorreguei por cima da madeira bichad a.dormecf pensando nos mergulhos do poço da Pedrs nos bolos e nos pés de Camilo Pereira da Silva. E, en quanto dormia, ouvfa a cantiga dos sapos no açud da Penha, o burburinho dos intrusos que se acavala vam no corredor, o barulho do descaroçador de algc dão no Cavalo-Morto. Vozes chegavam-me, confusas, eu não conseguia apreender o sentido delas. Visões tam- bém. Via a casa da fazenda, arruinada, os bichos defi- nhando na morrinha, o chiqueiro bodejando, relâm- pagos cortando o céu. A chuva caía, eu andava pelo pátio, nu, montado num cabo de vassoura. Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia uma xícara de café.
- Muito obrigado, Rosenda.
E comecei a soluçar como um desgraçado.
Desde esse dia tenho recebido muito coice. Tam- bém me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me sensi- bilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me despertava.
- Obrigado, Rosenda.
Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva.
Corri para a sala, chorando. Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui en- ganar-me e evitei remorsos.
Na casa escura, cheia das lamentações de Quitéria, não encontrei sossego. Adormeci pela madrugada.
No dia seguinte os credores passaram os gada- nhos no que acharam. Tipos desconhecidos entravam na loja, mediam peças de pano. Chegavam de chapéu na cabeça, cigarro no bico, invadiam os quartos, pra- guejavam. Enterrar os mortos, obra de misericórdia.
0 morto estava enterrado. Padre Inácio e os outros sumiram-se. E os homens batiam os pés com força, levavam ,as mercadorias, levavam os móveis, nem me olhavam, nem olhavam Quitéria, que se encolhia ge- mendo "Misericórdia! ", como quando o trovão rolava no céu e os bichos iam abrigar-se no copiar da fazenda.
Passei a noite a um canto da sala de jantar, numa ede encardida, a cabeça debaixo do cobertor, com medo da alma de Camilo Pereira da Silva. Pensava na rede armada no copiar, no poço da Pedra, no pátio branco onde se arrastavam cascavéis e jararacas. Aqui- lo agora tinha outro dono. O cupim continuava a roer os mourões do curral e os caibros da casa, o carro de bois apodrecia sob as catingueiras, os bichos bodeja- vam no chiqueiro. Mas a sombra do velho Trajano não brincava com os dedos dos pés, Amaro vaqueiro não cortava mandacaru para o gado, a cachorra Moquec tinha morrido, Camilo Pereira da 8ilva não foiheav o romance.
Que estaria fazendo a alma de Camilo Pereïra d Silva? Provavelmente rondava a casa, entrava pela portas fechadas, olhava as prateleiras vazias. As outra almas mais antigas, Trajano, seu Evaristo, sinh Cle mana, nã,o me atemorizavam; mas aquela, tão próx ma, ainda agarrada ao corpo, dava-me tremuras. iJ suo corria-me pelo rosto. Como estariam os pés de (amil Pereira da Silva? Certamente estavam inchados, ve des, com pedaços ficando pretos.
* * * Seu Ivo, silencioso e faminto, vem visitar-rrde. Fs agrados ao gato e ao papagaio, entende-se com Vitór; e arranja um osso na cozinha. Não quero vê-lo, baiz os olhos para não vê-lo.
Fico de pé, encostado à mesa da sala de y anta olhando a janela, a porta aberta, os degraus de cime to que dão para o quintal. tgua estagnada, lixo, o ca teiro de alfaces amarelas, a sombra da manguei.;a. Pi cima do muro baixo ao fundo vêem-se pipas, nont de cisco e cacos de vidro, um homem triste que encl dornas sob um telheiro, uma mulher magra que la garrafas.
Seu Ivo está invisivel. Ouço a voz áspera de Vitór e isto me desagrada. Entro no quarto, procuro u refúgio no passado. Mas não me posso esconder intt ramente nele. Não sou o que era naquele temp Falta-me tranqüilidade, falta-me inocência, estou fei um molambo que a cidade puiu demais e sujou.
Fumo. Assisto a uma discussão do barbeira And Laerte com o negociante Filipe Benigno. As palavr me chegam quase apagadas, destituidas de senso. E pr vável que não digam nada. Filipe Benigno é u n pom nebuloso : só percebo dele claramente as barbas bra cas e os olhos miúdos. Mas a figura de André Laer tem bastante nitidez. Parece um gato: anda er i red do outro como se estivesse preparando um salo pa agarrá-lo. Tem um avental manchado de sang;ze, u bigodinho ralo e faz "Pfu!" Seu Batista, vestído em robe-de-chambre, passeia na calçada, com as mãos atrás das costas. D. Conceição, mulher de Teotoninho Sabiá, prepara milho para o xerém. Carcará solta gargalha- das que se ouvem na outra extremidade da rua. O dou- tor juiz de direito conta ao vigário histórias de onças e jacarés do Amazonas. Cabo José da Luz, à porta do quartel, espalha tristezas: Assentei praça Na polícia eu vivo Por ser amigo da distinta farda...
O sino da igrejinha bate a primeira pancada das ave-marias.
Não, não é o sino da igreja, é o relógio da sala de jantar. Oito e meia. Preciso vestir-me depressaw chegar à repartição às nove horas. Apronto-me, calço as meias pelo avesso e saio correndo. Paro sobressaltado, tenho a impressão de que me faltam peças do vestuário.
Assaltam-me dúvidas idíotas. Estarei à porta de casa ou já terei chegado à repartição? Em que ponto do trajeto me acho? Não tenho conscíêncía dos movímen- tos, sinto-me leve. Ignoro quanto tempo fíco assim.
Provavelmente um segundo, mas um segundo que pa- rece eternidade. Está claro que todo o desarranjo é interior. Por fora devo ser um cidadão como os outros, um diminuto cidadão que vai para o trabalho maçador, um Luís da Silva qualquer. Mexo-me, atravesso a rua a grandes pernadas.
Tenho contudo a impressão de que os transeuntes me olham espantados por eu estar ímóvel.
Tmóvel. Camilo Pereira da Silva também estava imóvel, debaixo da terra. D. Conceição vinha ofere- cer-me comida. As meninas dela, d. Maria e Teresa, tentavam consolar-me. Retraía-me como um animal acuado, fechava os ouvidos às consolações, cerrava os olhos, apalpava a cabeça e sentia a dureza de ossos, dava estalos com os dedos e ouvia o som de ossos.
- Obrigado, muito obrigado.
Nâo precisava de nada. Os ossos de Camilo Pereira da Silva desconjuntavam-se na podrïdão da cova, e a alma já nã,o me fazia medo. Era uma alma que envelhecia e estava fora da terra, provavelmente no purga tório. Quitéria rezava alto na cozinha: - Ofereço este padre-nosso e esta ave-maria às almas do purgatório.
Era lá que devia estacionar uma parte de meu pai, curando uns restos de pecados. Leves pecados. Apenas muita preguiça. Por isso eu agüentava fome e ouvia &Q lamentações de Quitéria.
Para que banda ficaria o purgatório? Seu Antônio Justino não sabia. Nem eu. Sabia onde ficavam o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, lugares que me atrafam, que atraem a minha raça vagabunda e queimada pela seca. Resolvi desertar para uma dessas terras distantes.
Abandonei a vila, com uma trouxa debaixo do braço e os livros da escola. - "Adeus, d. Conceição. Muito obrigado pela comida com que me matou a fome.
Adeus, Joaquim Sabiá, d. Maria, Teresa. Adeus, Quité- ria, Rosenda, cabo José da Luz." E comecei a andar lenta.mente pelo caminho estreito, afastando-me da vila adormecida.
Começo a andar depressa, receando encontrar o ponto encerrado. Tolice. Provavelmente tudo aquilo se passou num segundo. Tenho a impressão de que uma objetiva me pegou, num instantâneo. Ficarei assim , com a perna erguida, a pasta debaixo do braço, o cha- péu embicado.
Lufs da Silva, a caminho da repartição, lesando.
pensando em defuntos.
i ; Este mês ffz um sacriffcio: def uns dinheiros ao Moisés das prestações para amortizar a minha conta.
Dr. Gouveia há de ter paciência: espera mais uns dias.
Deixarei de andar pela Rua do Sol para não encon- trá-lo. O que não posso é continuar a esconder-me de Moisés. Escondo-me, estive algumas semanas sem ir ao café, com receio de ver o judeu. E gosto do café, passo lá uma hora por dia, olhando as caras.
Há o grupo dos médicos, o dos advogados, o dos comerciantes, o dos funcionários públicos, o dos litera- tos. Certos indivfduos pertencem a mais de um grupo, outros circulam, procurando familfaridades provefto sas. Naquele espaço de dez metros formam-se vária; sociedades com caracteres perfeitamente definidos, mui to distanciadas. A mesa a que me sento fica ao pé da vitrina dos cigarros. É um lugar incômodo: as pessoa; que entram e as que saem empurram-me as pernas Contudo não poderia sentar-me dois passos adiante porque às seis horas da tarde estão lá os desembar gadores. E agradável observar aquela gente. Com uma despesa de doís tostões, passo alí uma hora, encolhídc junto à porta, distraindò-me.
Pois-ultimamente precisef renuncfar ao café, po causa de Moisés. Ele também se esquivava. Iiá dia; deu de cara comigo ao dobrar uma esquina e empalf deceu, balbuciou na sua lingua avariada: - Olá! Como vai? Estou com muita pressa.
É um péssimo cobrador. Dei-lhe este mês cem mil réis para pôr termo a esses vexames, Mas ainda devc muito, nem sei quanto. A culpa é minha. Quando m vendeu as fazendas, Moisés foi franco: - Isto é caro como o diabo. Você faz melhor ne gócio comprando a dinheiro noutra loja.
Mas eu estava na pindaïba e precisava adquirir o; trapos para Marina. Desde entâo venho suando parf reduzir o débito. Quando me atraso, Moisés foge d mim. Agora, depois de receber o cobre, declarou-mi que as mercadorias já tinham sido pagas. Infelizment não me podia dar quitação, porque os troços que vendi são do tio, judeu verdadeiro.
- Está muito bem.
E o constrangimento desapareceu. As sefs hora estamos de novo sentados junto à vitrina dos cigarro Moisés fala com abundância, desforrando-se do silên cio em que estivemos ultimamente. Procura a expre, são, coça a testa, franze os beiços numa careta qu lhe mostra os dentes largos e diz: - Está percebendo? Sim, percebo, embora ele tenha sintaxe medonh e pronúncia incrfvel. Faz rodeios fatigantes, deturpa sentido das palavras e usa esdrúxulas de maneira ir sensata. Escuto-o. Os ouvídos são para ele, os olhc para as figuras habituais do café. Os olhos estão qua invisfveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insigni- ficante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.
Perto um capitalista fala muito alto, e os cotov los sobre o mármore dão-lhe na sala estreita espaço excessivo. No grupo da justiça as palavras tombam medidas, pesadas, e os gestos são lentos. Além, dois políticos cochicham e olham para os lados.
Moisés comenta o jornal. Nunca vi ninguém ler com tanta rapidez. Percorre as colunas com o dedo e pára no ponto que lhe interessa. Engrola, saltando linhas, a.quela prosa em lfngua estranha, relaciona o conteúdo com leituras anteriores e passa adiante. E um dedo inteligente o do Moisés. O resto do corpo tem pouca importância; os ombros estreitos, a corcunda, os dertes que se mostram num sorriso parado. O que a gente nota é o dedo. O dedo e a voz sibilada, des- contente, sempre a anunciar desgraças. Moisés é uma coruja. Acha que tudo vai acabar, tudo, a começar pelo tio, que esfola os fregueses. E eu acredito em Moisés, que não escora as suas opiniões com a palavra do Senhor, como os antigos: cita livros, argumenta.
Prega a revolução, baixinho, e tem os bolsos cheios de folhetos incendiários.
De repente cala-se: foi o doutor chefe de policia que apareceu e começou a cochichar com os polfticos.
0 dedo de Moisés some-se entre as folhas do jornal, o revolucionário esconde-se por detrás do sorriso inex- pressivo. Covardia. Mas afasto este pensamento severo.
Moisés não tem jeito de herói: é apenas um sujeito bom e inteligente. Por isso fiz o sacrificio de lhe dar oem mil-réis, que me vão transtornar o orçamento.
Estava tão abandonado neste deserto. . . Só se diri- giam a mim para dar ordens: - Seu Luís, é bom modificar esta informaçã,o.
Corrija isto, seu Luís.
Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que mP pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam, atenciosos: - Perdão, perdão. Faz favor de desculpar.
- Sem dúvida. Ora essa.
Ou então: - Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? - Perfeftamente, minha senhora. Vamos para lá É o meu caminho.
Agora estou defronte de um amigo, amigo que mf liga pouca importâ,ncia, é verdade, amigo todo entre gue aos telegramas estrangefros, mas que me custou cem mil-réis. Parece-me que até certo ponto Moisé: é propriedade minha. Os cem mil-réfs me vão faze muita falta.
Estremeço : dr. Cfouvefa entra na sala, marchs para a vitrina dos cigarros.
- Vamos dar o fora, Moisés? Dois minutos depois estamos sentados num bancc da Praça Montepio. Aqui há sossego, não vêm cá cer tos indivfduos impertinentes. O que me desgosta é ve de relance, nos bancos do centro, que a folhagem dis farça mal, pessoas atracadas. Sinto furores de mora tista. Cães! Amando-se em público, descaradamentel Cães! Tremo de indignação. Depois esmoreço: julguei distinguir entre as folhas dos crótons o vulto de Ma rina. Foi ilusão, mas a imagem permanece. Cachor rada! Moisés fala em polfticos reacionárfos. Encho-me de ferocidade: - Malandros! Ladrões! Agora Moisés está contando as perseguições ao: judeus, na Europa. Lembro-me do tío dele e digo co- migo que provavelmente a narração é exagerada. SE Moisés não fosse inteligente, com certeza muitos da queles fatos não existlriam. Sofrlmentos. Iniqüidades - Aqui há tanto dísso! Mas somos fatalistas, es tamos habituados e não temos imaginação como vocês Entro a falar sobre a minha vida de cigano, d fazenda em fazenda, transformado em mestre de me ninos. Quando ensinava tudo que seu Antônio Justim me ensinara, passava a outra escola. Tinha o sustentc Depois era a caserna. Todas as manhãs nos exercl cios. - "Meia-volta! Ordinário!" As peças do fuzil marchas na lama, a bandeira nacional, o hino, a tarimbas sujas, os desaforos do sargento Em seguid vinha a banca de revisão: seis hora,s de trabalho por noite, os olhos queimando junto a um foco de cem velas, cinco mil-réis de salário, multas, suspensões.
E coisas piores, que me envergonham e não conto a Moisés. Empregos vasqueiros, a bainha das calças rofda, o estômago roído, noites passadas num banco, importunado pelo guarda. Farejava o provinciano de longe, conhecia o nordestino pela roupa, pela cor des ; botada, pela pronúncia. E assaltava-o: - Um filho do nordeste, perseguido pela adversi dade, apela para a generosidade de v. exa.
! Valorizava a esmola: - Trago um romance entre os meus papéis. Com- pus um livro de versos, um livro de contos. Sou obri- gado a recorrer aos meus conterrâneos. Até que me srranje, até que possa editar as minhas obras.
lecebia, com um sorriso, o níquel e o gesto de desprezo. O frege-moscas fedia a vinho podre, e o ga- lego, de tamancos, coberto de nódoas, era asqueroso.
Mais tarde, já aqui em Maceió, gastando sola pelas repartições, indignidades, curvaturas, mentiras, na caça I ao pistolo.
- Escrevi muito atacando a república velha, dou tor; sacrifiquei-me, endividei-me, estive preso por causa da ideologia, doutor.
Afinal, para se livrarem de mim, atiraram-me este ! osso que vou roendo com ódio.
- Chegue mais cedo amanhã, seu Luis.
E eu chego.
- Informe lá, seu Luís.
E eu informo. Como sou diferente de meu av8! Um dia um cabra de Cabo Preto apareceu na fa- zenda com uma carta do chefe. Deixou o clavinote encostado a um dos juazeiros do fim do pátio, e de longe ia varrendo o chd,o com a aba do chapéu de couro. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva 8oletrou o papel que o homem lhe deu e mandou Ama- ro laçar uma novilha. O cabra jantou, recebeu uma nota de vinte mil-réis, que naquele tempo era muito dinheiro, e atravessou o Ipanema, tangendo o bicho.
Dia de Natal meu avó foi à vila, com a mulher, e en- controu no caminho o grupo de Cabo Preto, que se meteu na capueira para não assustar a dona, .inr Germana, de saias arregaçadas, escanchada na sel um mosquetão na maçaneta, não viu nada, mas me avô fez um gesto de agradecimento aos angicos e ac mandacarus que marginavam a estrada. Quando a p Iftica de padre Inâcio caiu, o delegado prendeu u cangaceiro de Cabo Preto. O velho Trajano suiu vila e pediu ao doutor juiz de direito a soltu:~a c criminoso. Impossível. Andou, virou, mexeu, yastc dinheiro com habeas-corpus - e o doutor duro com chifre.
- Está direito, exclamou Trajano plantando o s pato de couro cru na palha da cadeira do juz. E vou soltar o rapaz.
No sábado reuniu o povo da feira, nomens :: mi lheres, moços e velhos, mandou desmanchar o eFrca do vigário, armou todos com estacas e foi derrt:bar cadeia.
Está af uma histórfa que narro com satisfação Moisés. Ouve-me desatento. O que Ihe intere: sa r minha terra é o sofrimento da multidão, a tragéd: periódíca das secas. Procuro recordar-me dos verõ sertanejos, que duram anos. A lembrança chega mi turada com episódios agarrados aqui e alf, em roma ces. D'ficilmente poderia distinguir a realidade à ficção. De resto a dor dos flagelados naquele tem nã.o me fazia mossa. Penso em coisas percebias v gamente: o gado, escuro de carrapatos, roendo a ma deira do curral; o cavalo de fábrica, lazarerto e co esparavões; bodes defínhando na morrinha; o carro c bois apodrecendo; na catinga parda, mancha: bra cas de ossadas e vôo negro dos urubus. Tento len brar-me de uma dor humana. As leituras auxiliar-m atiçam-me o sentimento. Mas a verdade é que o pe soal da nossa casa sofria pouco. Trajano Per:ira i Aquino Cavalcante e Silva caáucava; meu ps.i viv preocupado com os doze pares de França; sinha th mana tinha morrído; Quitéria, coitada, era bruta c mais e por isso insensfvel. Os outros moradores fazenda, as criaturas que viviam em ranchos d pal construídos nas ribanceiras do Ipanema, não :e qu xavam. José Bafa falava baixo e ria sempre Sin: Terta rezava novenas e fazia partos pela vizinhança.
Amaro vaqueiro alimentava-se, nas secas, com sementes de mucunã lavadas em sete águas, raiz de imbu, miolo de xique-xique, e de tempos a tempos furtava uma cabra no chiqueiro e atirava a culpa à suçuarana.
Dores só as minhas, mas estas vieram depois.
* * * A minha criada Vitória anda em cinqüenta anos, é meio surda e possui um papagaio inteframente mudo, que pretende educar assim : Currupaco, lcagaco, A mulher do rnacczco Ela fia, ela cose, Ela toma tabaco Torrado no ca,oo.
O papagaio prega na velha o olho redondo. Em seguida cerra as pálpebras e baixa a cabeça. As vezes se aborrece da gaiola e bate as asas. A dona corre para o quintal e espia a folhagem da mangueira: - Meu louro, meu louro! Currupaco, papaco. Meu Meu louro! Onde andará o sem-vergonha desse pa pagaio? Só se acomoda depois de percorrer a vizinhança e encontrar o fugitivo. Pega então a parolar com ele, que não diz nada. Quando se cansa, agarra o jornal e lê com atenção os nomes dos navios que chegam e dos que saem. Nunca embarcou, sempre viveu em Ma- ceió, mas tem o espfrito cheio de barcos. Dá-me fre- qüentemente notícias deste gênero: - O Pedro II chega amanhã. O Aratimbó vem m atraso. Terá havido desastre? Não sei como se pode capacitar de que a comu- nicação me interessa. Há três anos, quando a conheci, a mania dela me espantava. Agora estou habituado.
heio o jornal e deixo-o em cima da mesa, dobrado na página em que se publica o movimento do porto. Vitó- rIa toma a folha e vai para a cozinha ler ao papagaio a lista dos viajantes.
No princípio do mês, quando se aproxima o rece bimento do ordenado, excita-se e não larga o Diâric Oficíal.
- Faltam dois dias, falta um dia, é hoje.
E faz cálculos que não acabam, cálculos inúteis porque não gasta nada: usa os meus sapatos velho: e traz um xale preto amarelento que deve ter dez anos Recolhe a mensa.lidade e mete-se no fundo do quintal põe-se a esgaravatar a terra como se plantasse quat quer coisa. Esquece os navios e as lições ao papagaio Volta a tratar das ocupações domésticas, mas dE quando em quando lá vai rondar a mangueira e aco corar-se junto ao canteiro das alfaces. Dá um saltc à cozinha, fala com o louro, tempera a bóia. Minuto: depois está novamente remexendo a terra.
Observo esses manejos. Sentindo-se observada, le vanta-se, deita água no caco das galinhas, vai ao ba nheiro, sai com uma braçada de roupa, que estendE no arame esticado entre a cerca e um dos ramos d mangueira. Entra em casa, abre o jornal e anuncia; - O delegado fiscal viajou ontem.
Nota, pela minha eara, que o delegado fiseai nãc me fnteressa e dá uma notícia importante: - O arcebispo chegou do Rio.
Escapole-se, vai consertar a cerca, tapar os bura cos por onde passam bichos que estragam a horta. D2 minha cadeira vejo-lhe o cocó grisalho, a cabeça curva atenta sobre a terra que escava, fingindo tratar do: canteiros ou fincar as estacas da cerca. No outro dia tirará as estacas, que, de tanto removidas, fizeram al uma espécie de porteira.
Nem à noite a pobre descansa: levanta-se pela madrugada e abre a porta do fundo, cautelosamente Cautela inútil. Como é meio surda, pensa que não fa barulho, mas arrasta os sapatões com força, e as per nas reumáticas atiram-na contra os móveis, às esçura: tropeçam nos degraus de címento quebrado. Ausenta-s uma hora. Depois a porta range de novo e as pisada reaparecem. Daí a pouco estâ a criatura resmungand fazendo contas intermináveis. Erra os números e recomeça. Esta agitação dura quatro, cinco dias por mês.
Sossega, volta às listas dos passageiros, à tagarelice com o papagaio : Currupaco, papczco, A muLher do macaco...
A voz é áspera e desdentada. E, acompanhando a cadência, tremem as pelancas do pescoço engelhado como um pescoço de peru, tremem os pêlos do buço e as duas verrugas escuras. É terrivelmente feia.
Logo que me entrou em casa, descobri nela uma particularidade alarmante. Sou um desleixado. Quando mudo a roupa, esqueço papéis nos bolsos. Deixo freqüen- temente níqueis e pratas sobre os móveis. Essas fra- ções de pecúnia somem-se, e certa vez desapareceu-me da carteira uma cédula de cinqüenta mil-réis. As fal- tas coincidem com uma grande excitação da velha.
Recomeçam as fugas para o quintal. Vendo-lhe o cocó bambeante entre as folhas de alface, sei perfeitamente que ela está enterrando o dinheiro. Descubro ao pé da cerca, junto à raiz da mangueira, covas frescas.
Assustei-me a princípio, depois me tranqüilizei.
A nota de cinqüenta mil-réis foi achada entre as pá- ginas de um livro. E as moedas voltam para os luga- res donde saíram. Finjo não prestar atenção a elas, para a mulher não se ofender, meto algumas no bolso, com indiferença. Só quando estou necessitado, digo por alto, escolhendo as palavras: - Vitória, hoje pela manhã deixei cair umas pra- tas no chão. Apanhei duas ou trës, mas parece que as outras rolaram para trás da cama. Você, varrendo o quarto, não terá encontrado algumas? Vitória estica-se, o pescoço encarquilhado incha, os olhos miúdos fuzilam, as verrugas tremem indig- nadas: - O senhor tem cada uma! Se não está satis- feito comigo, é dizer. Já vivi em muita casa de gente rica, seu Luís. Criei-me vendo dinheiro, seu Lufs. Se to está achando bom, é arriar a trouxa. Descon- fiança comigo, não.