Quando escrevo para todos
que não falo em cultos modos,
mas em frase corriqueira
Os doutos estão nos cantos
os ignorantes na Praça
Eu não me quero emendar,
pois faço versos em rimas,
e às unhadas os sujeito
de quem os corta, e belisca.
1 - ÂNGELA
Pertende o Poeta casar-se com esta Senhora, e por se
achar alcançado em annos, e abatido em bens, Intro-
duzio amizade com seo Irmão o Capitão Francisco
Moniz de Souza fazendo especial menção delle na festa
das virgens e depois com hum soneto, e varias obras
pertendendo assim introduzir-se naquella casa. Posto
com effeyto nella, vio huma manhãa de Natal as tres
Irmãas, a cuyas vistas fez as seguintes décimas
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
que digo eu? este mundo inteiro
namorei eu tão primeiro,
que nisto de namorar
podeis vós comigo estar
a soldada de Escudeiro.
são feias, mas são mulheres
VIO HUMA MANHÃA DE NATAL AS TRES IRMÃAS, A CUJAS
VISTAS FEZ AS SEGUINTES DÉCIMAS
1 Numa manhã tão serena
como entre tanto arrebol
pode caber tanto sol
em esfera tão pequena?
quem aos pasmos me condena
da dúvida há de tirar-me,
e há de mais declarar-me,
como pode ser ao certo
estar eu hoje tão perto
de três sóis, e não queimar-me.
2 Onde eu vi duas Auroras
com tão claros arrebóis,
que muito visse dois sóis
nos raios de três Senhoras:
mas se as matutinas horas,
que Deus para aurora fez,
tinham passado esta vez,
como pode ser, que ali
duas auroras eu vi,
e os sóis eram mais de três?
3 Se lhes chamo estrelas belas,
mais cresce a dificuldade,
pois perante a majestade
do sol não luzem estrelas:
seguem-se-me outras seqüelas,
que dão mais força à questão,
com que eu nesta ocasião
peco à Luz, que me conquista,
que ou me desengane a vista,
ou me tire a confusão.
4 Ou eu sou cego em verdade
e a luz dos olhos perdi,
ou tem a luz, que ali vi,
mais questão, que a claridade:
cego de natividade
me pode o mundo chamar,
pois quando vim visitar
a Deus em seu nascimento,
me aconteceu num momento,
vendo a três luzes, cegar.
AO MESMO ASSUMPTO
Debuxo singular, bela pintura,
Adonde a Arte hoje imita a Natureza,
A quem emprestou cores a Beleza,
A quem infundiu alma a Formosura.
Esfera breve: aonde por ventura
O Amor, com assombro, e com fineza
Reduz incompreensível gentileza,
E em pouca sombra, muita luz apura.
Que encanto é este tal, que equivocada
Deixa toda a atenção mais advertida
Nessa cópia à Beleza consagrada?
Pois ou bem sem engano, ou bem fingida
No rigor da verdade estás pintada,
No rigor da aparência estás com vida.
AO MESMO ASSUMPTO
Vejo-me entre as incertezas
de três Irmãs, três Senhoras,
se não três sóis, três auroras,
três flores, ou três belezas:
para sóis têm mais lindezas
que aurora mais resplandor,
muita graça para flor,
e por final conclusão
três enigmas do Amor são,
mais que as três cidras do Amor.
PONDERA AGORA COM MAIS ATTENÇÃO A
FORMOSURA DE D. ANGELA.
Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.
Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.
Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.
RETRATA O POETA AS PERFEIÇÕES DE SUA SENHORA A
IMITAÇÃO DE OUTRO SONETO QUE FEZ FELIPPE IV À HUMA
DAMA SOMENTE COM TRADUZI-LO NA LINGUA PORTUGUEZA
Se há de ver-vos, quem há de retratar-vos,
E é forçoso cegar, quem chega a ver-vos,
Se agravar meus olhos, e ofender-vos,
Não há de ser possível copiar-vos.
Com neve, e rosas quis assemelhar-vos,
Mas fora honrar as flores, e abater-vos:
Dois zéfiros por olhos quis fazer-vos,
Mas quando sonham eles de imitar-vos?
Vendo, que a impossíveis me aparelho,
Desconfiei da minha tinta imprópria,
E a obra encomendei a vosso espelho.
Porque nele com Luz, e cor mais própria
Sereis (se não me engana o meu conselho)
Pintor, Pintura, Original, e Cópia.
NO DIA EM QUE FAZIA ANNOS ESTA DIVINA BELLEZA; ESTE PORTENTO DE FORMOSURA DONA ANGELA, POR QUEM O POETA SE CONSIDERAVA AMOROSAMENTE PERDIDO, E QUASI SEM REMEDIO PELA GRANDE IMPOSSIBILIDADE DE PODER LOGRAR SEUS AMORES: CELEBRA OBSEQUIOSA, E PRIMOROSAMENTE SUAS FLORENTES PRIMAVERAS COM ESTA LINDISSIMA CANÇÃO.
1 Pois os prados, as aves, as flores
ensinam amores,
carinhos, e afetos:
venham correndo
aos anos felizes,
que hoje festejo:
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem atentos
as aves canoras
as flores fragrantes
e os prados amenos.
2 Pois os dias, as horas, os anos
alegres, e ufanos
dilatam as eras;
Venham depressa
aos anos felizes,
que Amor festeja.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem deveras
os anos fecundos,
os dias alegres,
as horas serenas.
3 Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas
com Luzes tão belas
auspiciam as vidas,
venham luzidas
aos anos felizes
que Amor publica.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem um dia
a esfera imóvel,
os astros errantes,
e as estrelas fixas.
4 Pois o fogo, água, terra, e os ventos
são quatro elementos,
que alentam a idade,
venham achar-se
aos anos felizes
que hoje se aplaudem.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem constantes
a terra florida,
o fogo abrasado,
o mar furioso,
e as auras suaves.
ROMPE O POETA COM A PRIMEYRA IMPACIENCIA QUERENDO
DECLARAR-SE E TEMENDO PERDER POR OUZADO.
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
SEGUNDA IMPACIENCIA DO POETA.
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pertende alcançar, espera, e cala
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, peder toda esperança.
FALLA O POETA COM SUA ESPERANÇA.
Não te vás, esperança presumida,
A remontar a tão sublime esfera,
Que são as dilações dessa quimera
Remora para o passo desta vida.
Num desengano acaba reduzida
A larga propensão, do que se espera,
E se na vida o adquirir te altera,
Para penar na morte te convida.
Mas voa, inda que breve te discorres,
Pois se adoro um desdém, que é teu motivo,
Quando te precipitas, me discorres.
Que ne obriga meu fado mais esquivo,
Que se eu vivo da causa, de que morres,
Que morras tu da causa, de que vivo.
AUSENTE O POETA DAQUELLA CASA, FALLECEO D. THEREZA HUA
DAS IRMÃS, E COM ESTA NOTICIA SE ACHOU O POETA COM
VASCO DE SOUZA A PEZAMES, ONDE FEZ O PRESENTE SONETO.
Astro do prado, Estrela nacarada
Te viu nascer nas margens do Caípe
Apolo, e todo o coro de Aganipe,
Que hoje te chora rosa sepultada.
Por rainha das flores aclamada
Quis o prado, que o certo participe
Vida de flor, adonde se antecipe
Aos anos a gadanha coroada.
Morrer de flor é morte de formosa,
E sem junções de flor nasceras peca,
Que a pensão de acabar te fez pomposa.
Não peca em fama, quem na morte peca,
Nácar nasceste, e eras fresca rosa:
O vento te murchou, e és rosa seca.
EPITAFIO À MESMA BELLEZA SEPULTADA.
Vemos a luz (ó caminhante espera)
De todas, quantas brilham, mais pomposa,
Vemos a mais florida Primavera,
Vemos a madrugada mais formosa:
Vemos a gala da luzente esfera,
Vemos a flor das flores mais lustrosa
Em terra, em pó, em cinza reduzida:
Quem te teme, ou te estima, ó morte, olvida.
LIZONGEA O POETA A VASCO DE SOUZA FAZENDO
EM SEU NOME ESTA LACRIMIMOSA NENIA.
Morreste, Ninfa bela,
na florescente idade:
nasceste para flor,
como flor acabaste.
Viu-te a Alva no berço,
a Véspora no jaspe,
mimo foste da Aurora,
a lástima da tarde.
O nácar, e os alvores
da tua mocidade
foram, se não mantilhas,
mortalha a teus donaires.
Oh nunca flor nasceras,
Se imitando-as tão frágil,
no âmbar de tuas folhas
te ungiste, e te enterraste.
Morreste, e logo Amor
quebrou arco, e carcases;
que muito se lhe faltas,
que logo se desarme?
Ninguém há neste monte,
ninguém naquele vale,
o cortesão discreto,
o pastor ignorante:
Que teu fim não lamente,
dando aos quietos ares
já fúnebres endechas,
já trágicos romances.
O eco, que responde
a qualquer voz do vale,
já agora só repete
meus suspiros constantes.
A árvore mais forte,
que gemia aos combates
do vento, que a meneia
ou do raio, que a parte,
Hoje geme, hoje chora
com lamento mais grave
forças da tua estrela
mais que a força dos ares.
Os Ciprestes já negam
às aves hospedagem,
porque gemendo tristes,
andarn voando graves.
Tudo enfim se trocou,
montes, penhas, e vales,
o penedo insensível,
o tronco vegetável.
Só eu constante, e firme
choro o teu duro transe,
o mesmo triste sernpre
por toda a eternidade.
Ó alma generosa,
a quem o Céu triunfante
usurpou a meus olhos
para ser lá deidade.
Aqui onde o Caípe
já te erigiu altares
por Deusa destes montes,
e por flor destes vales:
Agrário o teu Pastor
não te forma de jaspes
sepulcro a tuas cinzas
túmulo a teu cadáver.
Mas em lágrimas tristes,
e suspiros constantes
de um mar tira dois rios,
de um rio faz dois mares.
LIZONGEA OS SENTIMENTOS DE DONA VICTORIA COM
ESTE SONETO FEYTO EM SEU NOME.
Alma ditosa, que na empírea corte
Pisando estrelas vais de sol vestida,
Alegres com te ver fomos na vida,
Tristes com te perder somos na morte.
Rosa encarnada, que por dura sorte
Sem tempo do rosal foste colhida,
Inda que melhoraste na partida,
Não sofre, quem te amou, pena tão forte.
Não sei, como tão cedo te partiste
Da triste Mãe, que tanto contentaste,
Pois partindo-te, a alma me partiste.
Oh que cruel comigo te mostraste!
Pois quando a maior glória te subiste,
Então na maior pena me deixaste.
LIZONGEA O SENTIMENTO DE FRANCISCO MONIZ DE SOUZA
SEU IRMÃO FAZENDO EM SEU NOME ESTE SONETO.
Flor em botão nascida, e já cortada,
Tiranamente murcha em flor nascida,
Que nos primeiros átomos da vida,
Quando apenas sois nada, não sois nada.
Quem vos despiu a púrpura corada?
Como assim da beleza estais despida?
Mas ah Parca cruel! Morte atrevida!
Por que cortaste a flor mais engraçada?
Porém que importa, bem que me desvela
Na flor o golpe, se maior ventura
Vos prometo no Céu, bela Teresa.
De flor ao Céu passais a ser estrela,
E não perde de flor a formosura,
Quem no Céu melhor flor logra a beleza.
PERTENDE O POETA CONSOLAR O EXCESSIVO SENTIMENTO DE
VASCO DE SOUZA COM ESTE SONETO
Sôbolos rios, sôbolas torrentes
De Babilônia o Povo ali oprimido
Cantava ausente, triste, e afligido
Memórias de Sião, que tem presentes.
Sôbolas do Caípe águas correntes
Um peito melancólico, e sentido
Um anjo chora em cinzas reduzido,
Que são bens reputados sobre ausentes.
Para que é mais idade, ou mais um ano,
Em quem por privilégio, e natureza
Nasceu flor, a quem um sol faz tanto dano?
Vossa prudência pois em tal dureza
Não sinta a dor, e tome o desengano
Que um dia é eternidade da beleza.
A VISTA DO EXCESSO DE VASCO DE SOUZA PONDERA O POETA,
QUE O VERDADEYRO AMOR, AINDA TIRADA A CAUSA NÃO CESSA
NOS EFFEYTOS, CONTRA A REGRA DE ARISTOTELES.
Errada a conclusão hoje conheça
O Mestre, que mais douto na ciência
Nos deixou em prolóquio sem falência,
Que em a causa cessando, o efeito cessa.
Porque a dor de um Magoado nos confessa,
Que arrastou a Beleza com violência,
Que o que efeito causara uma assistência,
Apartado da causa então começa:
Apartada a Beleza inda lhe causa
Um efeito tão forte, que suspeito,
Que não tem inda a causa feito pausa.
Porque já em domínios de seu peito,
Se na vida a rendia como causa,
Hoje o vence na morte pelo efeito.
LINZONGEA FINALMENTE O POETA COM ESTAS MORALIDADES TRISTES
DE HUMA VIDA FLORECENTE PELAS FRIAS VOCES DAQUELLA SEPULTADA BELLEZA SUA FORMOSAS IRMÃAS, AVIVANDOLHE OS MOTIVOS DA DOR.
MOTE
Ya que flor, mis Flores, fui
Vuestro exemplo aora soy,
pues de flor a sol subi,
y oy de mi aun sombras doy.
1 En flor, mis Flores, se muere,
quien en la vida fué flor,
que es la muerte com rigor
de las Flores Malmequiere:
quien de vosotras se huviere
desconocido haste aqui,
su triste flor veya en mi
como en un puro cristal,
que espejo soy de su mal,
ya que flor, mis Flores, fui.
2 Triunfar, Flores, en effecto
ya me visteis de la suerte,
si mal me quiso la muerte,
siempre he sido Amor perfecto:
desengañada os prometto
de la ceniza, en que estoy,
pues al sepulchro me voy,
Flores, para que nasci,
que si Perpetua no fui,
Vuestro exemplo aora soy.
3 de aqueste jardin de Flora,
que flagra oloroso aliento,
ya fui gallardo elemento,
ya fui bellissima aurora:
pero, mis Flores, aora
nada soy, de lo que fui,
bien que los habitos di,
con que a los astros llegué,
y en el cielo me quedé,
Pues de flor e sol subi.
4 Alerta, Flores, que ayrada
la rnuerte uzurpa las flores,
en quien colores, y olores
son exemplos de la nada:
alerta pues que prostada
mis brios llorando estoy;
lo que va de ayer a oy
aprended de um muerto sol,
que ayer candido arrebol,
y oy de mi aun sombras doy.
DESTA VEZ SE DEIXOU O POETA ESQUECER NAQUELLA CASA, ESPERANDO OCCASIÃO DE DECLARAR SE, E SEMPRE SE ACOBARDOU A VISTA DA CAUSA, SEMPRE EM LUTAS COM O AMOR, E RESPEYTO.
MOTE
Muero por dizir mi mal,
Va-me la vida en callar.
1 Dos vezes muerto me hallo
de los arpones de Amor,
una al dizir mi dolor,
y otra vez quando lo callo.
No sé corno remediarllo,
pues su implicacion es tal,
que hazes mi dolor mortal,
y con peligro tan fiero,
que quando por callar muero,
Muero por dizir mi mal.
2 Aqui el contrario no es medio
de curar a su contrario,
porque el remedio ordinario
no es para mi mal remedio:
yo tengo un azar, um tedio
a todo, lo que es sanar,
porque todo es peligrar;
si callo, pierdo la vida,
y si digo, mi homicida,
Va-me la vida en callar.
12