Meus males de quem procedem?
Não é de vós? claro é isso:
Que eu não faço mal a nada
por ser terra e mato arisco.
Isto sois, minha Bahia,
Isto passa em vosso burgo
Se souberas falar também falarás também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetaras.
Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,
por quem de mim não tem mágoa?
Verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
Permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso
Mas amo por amar, que é liberdade.
DESCREVE O QUE ERA REALMENTE NAQUELLE TEMPO A CIDADE DA BAHIA DE MAIS ENREDADA POR MENOS CONFUSA.
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
À CIDADE E ALGUNS PICAROS, QUE HAVIÃO NELLA.
Quem cá quiser viver, seja um Gatão,
Infeste toda a terra, invada os mares,
Seja um Chegai, ou um Gaspar Soares,
E por si terá toda a Relação.
Sobejar-lhe-á na mesa vinho, e pão,
E siga, os que Ihe dou, por exemplares,
Que a vida passará sem ter pesares,
Assim como os não tem Pedro de Unhão
Quem cá se quer meter a ser sisudo
Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,
E é mais aperreado que um cornudo.
Furte, coma, beba, e tenha amiga,
Porque o nome d'EI-Rei dá para tudo
A todos, que El-Rei trazem na barriga.
FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS DA CIDADE,
ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS MORADORES,
SIGNALANDOLHES OS VICIOS, EM QUE ALGUNS
DELLES SE DEPRAVAVÃO
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
Cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça,
algum saia a justiçar,
não me poderão negar,
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei.
0 Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz, que antes o que furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra,
de que Ihe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se Iho sabe a vizinha,
e Iho ouve a clerezia
dão com ela na enxovia,
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A casada com adorno
e o Marido mal vestido,
crede, que este mal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno,
que se sofre a Fr. Tomás,
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de Réu, o Autor
comem de ambos os carrilhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes,
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando, que eu vejo,
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a Sentença Revogada
por saber, que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
0 Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba, que em Lisboa
se Ihe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz, que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo, que à casa vão
manter honra da casa,
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda EL-Rei.
0 Adônis da manhã,
o Cupido em todo o dia,
que anda correndo a Coxia
com recadinhos da Irmã:
e se Ihe cortam a lã,
diz, que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas Ihe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não Ihe chameis Religioso,
chamai-lhe embora de Frade:
e se o tal Paternidade
rouba as rendas do Convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
DEFINE A SUA CIDADE
MOTE
De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem Digesto, e Colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer, que esta terra
De dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de preverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.
Provo a conjetura já
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.
QUEYXA-SE A BAHIA POR SEU BASTANTE PROCURADOR,
CONFESSANDO, QUE AS CULPAS, QUE LHE INCREPÃO, NÃO
SÃO SUAS, MAS SIM DOS VICIOSOS MORADORES,
QUE EM Sl ALVERGA.
Já que me põem a tormento
murmuradores nocivos,
carregando sobre mim
suas culpas, e delitos:
Por crédito de meu nome,
e não por temer castigo
confessar quero os pecados,
que faço, e que patrocino.
E se alguém tiver a mal
descobrir este sigilo,
não me infame, que eu serei
pedra em poço, ou seixo em rio.
Sabei, céu, sabei, estrelas,
escutai, flores, e lírios,
montes, serras, peixes, aves
luz, sol, mortos, e vivos:
Que não há, nem pode haver
desde o Sul ao Norte frio
cidade com mais maldades,
nem província com mais vícios:
Do que sou eu, porque em mim
recopilados, e unidos
estão juntos, quantos têm
mundos, e reinos distintos.
Tenho Turcos, tenho Persas
homens de nação Impios
Magores, Armênios, Gregos,
infiéis, e outros gentios.
Tenho ousados Mermidônios,
tenho Judeus, tenho Assírios,
e de quantas castas há,
muito tenho, e muito abrigo.
E se não digam aqueles
prezados de vingativos,
que santidade têm mais,
que um Turco, e um Moabito?
Digam Idólatras falsos,
que estou vendo de contino,
adorarem ao dinheiro,
gula, ambição, e amoricos.
Quantos com capa cristã
professam o judaísmo,
mostrando hipocritamente
devoção à Lei de Cristo!
Quantos com pele de ovelha
são lobos enfurecidos,
ladrões, falsos, e aleivosos,
embusteiros, e assassinos!
Estes por seu mau viver
sempre péssimo, e nocivo
são, os que me acusam de danos,
e põem labéus inauditos.
Mas o que mais me atormenta,
é ver, que os contemplativos,
sabendo a minha inocência,
dão a seu mentir ouvidos.
Até os mesmos culpados
têm tomado por capricho,
para mais me difamarem,
porem pela praça escritos.
Onde escrevem sem vergonha
não só brancos, mas mestiços,
que para os bons sou inferno,
e para os maus paraíso.
Ó velhacos insolentes,
ingratos, mal procedidos,
se eu sou essa, que dizeis,
porque não largais meu sítio?
Por que habitais em tal terra,
podendo em melhor abrigo?
eu pego em vós? eu vos rogo?
respondei! dizei, malditos!
Mandei acaso chamar-vos
ou por carta, ou por aviso?
não viestes para aqui
por vosso livre alvedrio?
A todos não dei entrada,
tratando-vos como a filhos?
que razão tendes agora
de difamar-me atrevidos?
Meus males, de quem procedem?
não é de vós? claro é isso:
que eu não faço mal a nada
por ser terra, e mato arisco.
Se me lançais má semente,
como quereis fruito limpo?
lançai-a boa, e vereis,
se vos dou cachos opimos.
Eu me lembro, que algum tempo
(isto foi no meu princípio)
a semente, que me davam,
era boa, e de bom trigo.
Por cuja causa meus campos
produziam pomos lindos,
de que ainda se conservam
alguns remotos indícios.
Mas depois que vós viestes
carregados como ouriços
de sementes invejosas,
e legumes de maus vícios:
Logo declinei convosco,
e tal volta tenho tido,
que, o que produzia rosas,
hoje só produz espinhos.
Mas para que se conheça
se falo verdade, ou minto,
e quanto os vossos enganos
têm difamado o meu brio:
confessar quero de plano,
o que encubro por servir-vos
e saiba, quem me moteja,
os prêmios, que ganho nisso.
Já que fui tão pouco atenta,
que a luz da razão, e o siso
não só quis cegar por gosto,
mas ser do mundo ludíbrio.
Vós me ensinastes a ser
das inconstâncias arquivo,
pois nem as pedras, que gero,
guardam fé aos edifícios.
Por vosso respeito dei
campo franco, e grande auxílio
para que se quebrantassem
os mandamentos divinos.
Cada um por suas obras
conhecerá, que meu xingo,
sem andar excogitando,
para quem se aponta o tiro.
PRECEITO 1
Que de quilombos que tenho
com mestres superlativos,
nos quais se ensinam de noite
os calundus, e feitiços.
Com devoção os freqüentam
mil sujeitos femininos,
e também muitos barbados,
que se presam de narcisos.
Ventura dizem, que buscam;
não se viu maior delírio!
eu, que os ouço, vejo, e calo
por não poder diverti-los.
O que sei, é, que em tais danças
Satanás anda metido,
e que só tal padre-mestre
pode ensinar tais delírios.
Não há mulher desprezada,
galã desfavorecido,
que deixe de ir ao quilombo
dançar o seu bocadinho.
E gastam pelas patacas
com os mestres do cachimbo,
que são todos jubilados
em depenar tais patinhos.
E quando vão confessar-se,
encobrem aos Padres isto,
porque o têm por passatempo,
por costume, ou por estilo.
Em cumprir as penitências
rebeldes são, e remissos,
e muito pior se as tais
são de jejuns, e cilícios.
A muitos ouço gemer
com pesar muito excessivo,
não pelo horror do pecado,
mas sim por não consegui-lo.
PRECEITO 2
No que toca aos juramentos,
de mim para mim me admiro
por ver a facilidade,
com que os vão dar juízo.
Ou porque ganham dinheiro,
por vingança, ou pelo amigo,
e sempre juram conformes,
sem discreparem do artigo.
Dizem, que falam verdade,
mas eu pelo que imagino,
nenhum, creio, que a conhece,
nem sabe seus aforismos.
Até nos confessionários
se justificam mentindo
com pretextos enganosos,
e com rodeios fingidos.
Também aqueles, a quem
dão cargos, e dão ofícios,
suponho, que juram falso
por conseqüências, que hei visto.
Prometem guardar direito,
mas nenhum segue este fio,
e por seus rodeios tortos
são confusos labirintos.
Honras, vidas, e fazendas
vejo perder de contino,
por terem como em viveiro
estes falsários metidos.
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