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O Burgo

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

I - O BURGO

Meus males de quem procedem?
Não é de vós? claro é isso:

Que eu não faço mal a nada

por ser terra e mato arisco.


Isto sois, minha Bahia,

Isto passa em vosso burgo

E POIS CORONISTA SOU

Se souberas falar também falarás também satirizaras, se souberas,

e se foras poeta, poetaras.

Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,

quero das culteranias

hoje o hábito enforcar:

de que serve arrebentar,

por quem de mim não tem mágoa?

Verdades direi como água,

porque todos entendais

os ladinos, e os boçais

a Musa praguejadora.

Entendeis-me agora?


Permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso

de um Poeta tão perverso

se consagre a vosso pé,

pois rendido à vossa fé

sou já Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.

DESCREVE O QUE ERA REALMENTE NAQUELLE TEMPO A CIDADE DA BAHIA DE MAIS ENREDADA POR MENOS CONFUSA.

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,

Que a vida do vizinho, e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,

Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.

À CIDADE E ALGUNS PICAROS, QUE HAVIÃO NELLA.

Quem cá quiser viver, seja um Gatão,

Infeste toda a terra, invada os mares,

Seja um Chegai, ou um Gaspar Soares,

E por si terá toda a Relação.

Sobejar-lhe-á na mesa vinho, e pão,

E siga, os que Ihe dou, por exemplares,

Que a vida passará sem ter pesares,

Assim como os não tem Pedro de Unhão

Quem cá se quer meter a ser sisudo

Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,

E é mais aperreado que um cornudo.

Furte, coma, beba, e tenha amiga,

Porque o nome d'EI-Rei dá para tudo

A todos, que El-Rei trazem na barriga.



FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS DA CIDADE,
ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS MORADORES,
SIGNALANDOLHES OS VICIOS, EM QUE ALGUNS
DELLES SE DEPRAVAVÃO

Uma cidade tão nobre,

uma gente tão honrada

veja-se um dia louvada

desde o mais rico ao mais pobre:

Cada pessoa o seu cobre,

mas se o diabo me atiça,

que indo a fazer-lhe justiça,

algum saia a justiçar,

não me poderão negar,

que por direito, e por Lei

esta é a justiça, que manda El-Rei.

0 Fidalgo de solar

se dá por envergonhado

de um tostão pedir prestado

para o ventre sustentar:

diz, que antes o que furtar

por manter a negra honra,

que passar pela desonra,

de que Ihe neguem talvez;

mas se o virdes nas galés

com honras de Vice-Rei,

esta é a justiça, que manda El-Rei.

A Donzela embiocada

mal trajada, e mal comida,

antes quer na sua vida

ter saia, que ser honrada:

à pública amancebada

por manter a negra honrinha,

e se Iho sabe a vizinha,

e Iho ouve a clerezia

dão com ela na enxovia,

e paga a pena da lei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

A casada com adorno

e o Marido mal vestido,

crede, que este mal Marido

penteia monho de corno:

se disser pelo contorno,

que se sofre a Fr. Tomás,

por manter a honra o faz,

esperai pela pancada,

que com carocha pintada

de Angola há de ser Visrei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

Os Letrados Peralvilhos

citando o mesmo Doutor

a fazer de Réu, o Autor

comem de ambos os carrilhos:

se se diz pelos corrilhos

sua prevaricação,

a desculpa, que lhe dão,

é a honra de seus parentes

e entonces os requerentes,

fogem desta infame grei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

O Clérigo julgador,

que as causas julga sem pejo,

não reparando, que eu vejo,

que erra a Lei, e erra o Doutor:

quando vêem de Monsenhor

a Sentença Revogada

por saber, que foi comprada

pelo jimbo, ou pelo abraço,

responde o Juiz madraço,

minha honra é minha Lei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

0 Mercador avarento,

quando a sua compra estende,

no que compra, e no que vende,

tira duzentos por cento:

não é ele tão jumento,

que não saiba, que em Lisboa

se Ihe há de dar na gamboa;

mas comido já o dinheiro

diz, que a honra está primeiro,

e que honrado a toda Lei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

A viúva autorizada,

que não possui um vintém,

porque o Marido de bem

deixou a casa empenhada:

ali vai a fradalhada,

qual formiga em correição,

dizendo, que à casa vão

manter honra da casa,

se a virdes arder em brasa,

que ardeu a honra entendei:

esta é a justiça, que manda EL-Rei.

0 Adônis da manhã,

o Cupido em todo o dia,

que anda correndo a Coxia

com recadinhos da Irmã:

e se Ihe cortam a lã,

diz, que anda naquele andar

por a honra conservar

bem tratado, e bem vestido,

eu o verei tão despido,

que até as costas Ihe verei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

Se virdes um Dom Abade

sobre o púlpito cioso,

não Ihe chameis Religioso,

chamai-lhe embora de Frade:

e se o tal Paternidade

rouba as rendas do Convento

para acudir ao sustento

da puta, como da peita,

com que livra da suspeita

do Geral, do Viso-Rei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

DEFINE A SUA CIDADE MOTE

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver
um furtar, outro foder.


Recopilou-se o direito,

e quem o recopilou

com dous ff o explicou

por estar feito, e bem feito:

por bem Digesto, e Colheito

só com dous ff o expõe,

e assim quem os olhos põe

no trato, que aqui se encerra,

há de dizer, que esta terra

De dous ff se compõe.

Se de dous ff composta

está a nossa Bahia,

errada a ortografia

a grande dano está posta:

eu quero fazer aposta,

e quero um tostão perder,

que isso a há de preverter,

se o furtar e o foder bem

não são os ff que tem

Esta cidade a meu ver.

Provo a conjetura já

prontamente como um brinco:

Bahia tem letras cinco

que são B-A-H-I-A:

logo ninguém me dirá

que dous ff chega a ter,

pois nenhum contém sequer,

salvo se em boa verdade

são os ff da cidade

um furtar, outro foder.

QUEYXA-SE A BAHIA POR SEU BASTANTE PROCURADOR,
CONFESSANDO, QUE AS CULPAS, QUE LHE INCREPÃO, NÃO
SÃO SUAS, MAS SIM DOS VICIOSOS MORADORES,
QUE EM Sl ALVERGA.

Já que me põem a tormento

murmuradores nocivos,

carregando sobre mim

suas culpas, e delitos:

Por crédito de meu nome,

e não por temer castigo

confessar quero os pecados,

que faço, e que patrocino.

E se alguém tiver a mal

descobrir este sigilo,

não me infame, que eu serei

pedra em poço, ou seixo em rio.

Sabei, céu, sabei, estrelas,

escutai, flores, e lírios,

montes, serras, peixes, aves

luz, sol, mortos, e vivos:

Que não há, nem pode haver

desde o Sul ao Norte frio

cidade com mais maldades,

nem província com mais vícios:

Do que sou eu, porque em mim

recopilados, e unidos

estão juntos, quantos têm

mundos, e reinos distintos.

Tenho Turcos, tenho Persas

homens de nação Impios

Magores, Armênios, Gregos,

infiéis, e outros gentios.

Tenho ousados Mermidônios,

tenho Judeus, tenho Assírios,

e de quantas castas há,

muito tenho, e muito abrigo.

E se não digam aqueles

prezados de vingativos,

que santidade têm mais,

que um Turco, e um Moabito?

Digam Idólatras falsos,

que estou vendo de contino,

adorarem ao dinheiro,

gula, ambição, e amoricos.

Quantos com capa cristã

professam o judaísmo,

mostrando hipocritamente

devoção à Lei de Cristo!

Quantos com pele de ovelha

são lobos enfurecidos,

ladrões, falsos, e aleivosos,

embusteiros, e assassinos!

Estes por seu mau viver

sempre péssimo, e nocivo

são, os que me acusam de danos,

e põem labéus inauditos.

Mas o que mais me atormenta,

é ver, que os contemplativos,

sabendo a minha inocência,

dão a seu mentir ouvidos.

Até os mesmos culpados

têm tomado por capricho,

para mais me difamarem,

porem pela praça escritos.

Onde escrevem sem vergonha

não só brancos, mas mestiços,

que para os bons sou inferno,

e para os maus paraíso.

Ó velhacos insolentes,

ingratos, mal procedidos,

se eu sou essa, que dizeis,

porque não largais meu sítio?

Por que habitais em tal terra,

podendo em melhor abrigo?

eu pego em vós? eu vos rogo?

respondei! dizei, malditos!

Mandei acaso chamar-vos

ou por carta, ou por aviso?

não viestes para aqui

por vosso livre alvedrio?

A todos não dei entrada,

tratando-vos como a filhos?

que razão tendes agora

de difamar-me atrevidos?

Meus males, de quem procedem?

não é de vós? claro é isso:

que eu não faço mal a nada

por ser terra, e mato arisco.

Se me lançais má semente,

como quereis fruito limpo?

lançai-a boa, e vereis,

se vos dou cachos opimos.

Eu me lembro, que algum tempo

(isto foi no meu princípio)

a semente, que me davam,

era boa, e de bom trigo.

Por cuja causa meus campos

produziam pomos lindos,

de que ainda se conservam

alguns remotos indícios.

Mas depois que vós viestes

carregados como ouriços

de sementes invejosas,

e legumes de maus vícios:

Logo declinei convosco,

e tal volta tenho tido,

que, o que produzia rosas,

hoje só produz espinhos.

Mas para que se conheça

se falo verdade, ou minto,

e quanto os vossos enganos

têm difamado o meu brio:

confessar quero de plano,

o que encubro por servir-vos

e saiba, quem me moteja,

os prêmios, que ganho nisso.

Já que fui tão pouco atenta,

que a luz da razão, e o siso

não só quis cegar por gosto,

mas ser do mundo ludíbrio.

Vós me ensinastes a ser

das inconstâncias arquivo,

pois nem as pedras, que gero,

guardam fé aos edifícios.

Por vosso respeito dei

campo franco, e grande auxílio

para que se quebrantassem

os mandamentos divinos.

Cada um por suas obras

conhecerá, que meu xingo,

sem andar excogitando,

para quem se aponta o tiro.

PRECEITO 1

Que de quilombos que tenho

com mestres superlativos,

nos quais se ensinam de noite

os calundus, e feitiços.

Com devoção os freqüentam

mil sujeitos femininos,

e também muitos barbados,

que se presam de narcisos.

Ventura dizem, que buscam;

não se viu maior delírio!

eu, que os ouço, vejo, e calo

por não poder diverti-los.

O que sei, é, que em tais danças

Satanás anda metido,

e que só tal padre-mestre

pode ensinar tais delírios.

Não há mulher desprezada,

galã desfavorecido,

que deixe de ir ao quilombo

dançar o seu bocadinho.

E gastam pelas patacas

com os mestres do cachimbo,

que são todos jubilados

em depenar tais patinhos.

E quando vão confessar-se,

encobrem aos Padres isto,

porque o têm por passatempo,

por costume, ou por estilo.

Em cumprir as penitências

rebeldes são, e remissos,

e muito pior se as tais

são de jejuns, e cilícios.

A muitos ouço gemer

com pesar muito excessivo,

não pelo horror do pecado,

mas sim por não consegui-lo.

PRECEITO 2

No que toca aos juramentos,

de mim para mim me admiro

por ver a facilidade,

com que os vão dar juízo.

Ou porque ganham dinheiro,

por vingança, ou pelo amigo,

e sempre juram conformes,

sem discreparem do artigo.

Dizem, que falam verdade,

mas eu pelo que imagino,

nenhum, creio, que a conhece,

nem sabe seus aforismos.

Até nos confessionários

se justificam mentindo

com pretextos enganosos,

e com rodeios fingidos.

Também aqueles, a quem

dão cargos, e dão ofícios,

suponho, que juram falso

por conseqüências, que hei visto.

Prometem guardar direito,

mas nenhum segue este fio,

e por seus rodeios tortos

são confusos labirintos.

Honras, vidas, e fazendas

vejo perder de contino,

por terem como em viveiro

estes falsários metidos.

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