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Os Homens Bons

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

Senhor, bem-vinda seja Vossa Senhoria

Eu sou aquele que os passados anos

Cantei na minha lira maldizente

Torpezas do Brasil, vícios e enganos

Que néscio que eu era então. 1 - PESSOAS MUITO PRINCIPAIS

... certa pessoa muito principal ...

Manuel Pereira Rabelo, licenciado
do Céu toda a Majestade
em tão pequeno distrito.

SALVE RAINHA A VIRGEM SANTÍSSIMA
Salve, Celeste Pombinha,

Salve, divina Beleza,

Salve, dos Anjos Princesa,

e dos céus, Salve Rainha.

 

Sois graça, luz, e concórdia

entre os maiores horrores,

sois guia de pecadores,

Madre de Misericórdia

Sois divina Formosura,

sois entre as sombras da morte

o mais favorável Norte,

e sois da vida Doçura

Sois a peregrina Ave,

pois minha fé vos alcança

sois pois ditosa esperança

Esperança nossa Salve

Vosso favor invocamos

como remédio mais raro,

não nos falte vosso amparo,

e vede, que a vós bradamos

Os da Pátria desterrados

viver na pátria desejam;

quereis vós, que dela sejam

deste mundo os degradados?

De Jesus tanto agrado leva

de com os homens viver,

nós somos, bem podeis ver,

os mesmos Filhos de Eva.

Humildes vos invocamos

com rogos enternecidos,

e desse amparo rendidos,

Senhora, a vós supiramos.

Se Deus nos perdoa, quando

a nossa culpa é chorada,

estamos por ser perdoada

aqui gemendo, e chorando.

Mas vós, por quem mais se vale,

Lírio do Vale, chorais,

e o vosso pranto val mais

neste de Lágrimas Vale

Já que tão piedosa sois

não tardeis com vosso rogo,

alcançai o perdão logo,

apressai-vos eia pois.

Porque desde agora possa

triunfar qualquer de nós

de inimigo tão atroz

pedi advogada nossa.

E enquanto nestes abrolhos

do mundo postos estamos,

de nós, que o caminho erramos

não tireis os vossos olhos.

Sejam sempre piedosos

para nos favorecer,

e para nos socorrer

sejam misericordiosos.

Favorecer-nos quereia,

de vossos olhos co'a guia,

gloriosa Virgem Maria

sempre eles a nós volvéi

Livrai-nos de todo erro

para que assim consigamos

graça enquanto aqui andamos

e depois deste desterro

Pois vosso Filho é a luz

e alumiar-nos quereis,

para que esta mostreis

nos amostrai a Jesus

E se como raio bruto

o fruto vemos vedado

noutro paraíso dado

veremos o bento Fruto

Em nossos corações entre

seu amor, pois é razão,

seja meu de coração,

o que foi do vosso ventre

De Jericó melhor Rosa,

puro, e cândido Jasmim,

quereis vós, que seja assim

ó clemente, ó piedosa.

Tenhamos esta alegria,

esta doçura tenhamos,

pois que tanta em vós achamos,

ó doce Virgem Maria

Pois quem mais pode, sois vós,

chegando a Deus a pedir

para melhor vos ouvir,

pedi, e rogai por nós.

Que então os favores seus

muito melhor seguramos,

pois que neles empenhamos

a Santa Madre de Deus.

Fazei-nos sempres benignos

entre deste mundo os sustos

para que sejamos justos

para que sejamos dignos

E se nos concedeis isto,

que vos pede o nosso rogo

mui dignos nos fareis logo

ser das promessas de Cristo

Seja pois, divina luz,

melhor Estrela, assim seja

para que por nós se veja

Vosso amparo. Amém Jesus

A N. SENHORA DA MADRE DE DEOS INDO LÁ O POETA

Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte

E reverente em vosso altar sagrado,

Vendo o Menino em berço argenteado

O sol vejo nascer desse Horizonte.

Oh quanto o verdadeiro Faetonte

Lusbel, e seu exército danado

Se irrita, de que um braço limitado

Exceda na soltura a Alcidemonte.

Quem vossa devoção não enriquece?

A virtude, Senhora. é muito rica,

E a virtude sem vós tudo empobrece.

Não me espanto, que quem vos sacrifica

Essa hóstia do altar, que vos ofrece,

Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.

AO MENINO JESUS DE N. SENHORA DAS MARAVILHAS,
A QUEM INFIÉIS DESPEDAÇARAM ACHANDO-SE A PARTE DO PEYTO.

Entre as partes do todo a melhor parte

Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo

Se na parte do peito o quis pôr todo

O peito foi foi do todo a melhor parte.

Parta-se pois de Deus o corpo em parte,

Que a parte, em que Deus ficou o amor todo

Por mais partes, que façam deste todo

De todo fica intacta essa só parte.

O peito já foi parte entre as do todo,

Que tudo mais rasgaram parte a parte;

Hoje partem-se as partes deste todo

Sem que do peito todo rasguem parte,

Que lá quis dar por partes o amor todo,

E agora o quis dar todo nesta parte.


AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS QUANDO APPARECEO.

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo

Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,

Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.

AO MENINO JESUS DO COADJUTOR DE S. ANTÔNIO QUE
SENDO ANTIGO HE MUYTO BELLO.



Oh, quanta divindade, oh quanra graça,

Menino, em vosso vulto sacro, e belo

Infunde a mão de tal gentil modelo,

Inspira o Autor de tão divina traça!

Se o tempo aos mais vultos desengraça

Na vossa Imagem não deslustra um pêlo:

Reverente o tratou com tal desvelo,

Que o que eleva menino, velho embaça.

Quanto a idade usurpa de beleza

Nos que somos mortais, paga em respeito,

Venerações, que atrai a antiguidade.

Mas de vossa escultura a gentileza

Tem trocado do tempo o edaz efeito

Venera-se a beleza, ama-se a idade.



A N. SENHOR JESUS CHRISTO COM ACTOS DE ARREPENDIDO
E SUSPIROS DE AMOR.


Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,

É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,

Delinqüido vos tenho, e ofendido,

Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,

Vaidade, que todo me há vencido;

Vencido quero ver-me, e arrependido,

Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,

De coração vos busco, dai-me os braços,

Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,

A salvação pertendo em tais abraços,

Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.


A CHRISTO S. N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA
ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,

Em cuja lei protesto viver,

Em cuja santa lei hei de morrer

Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,

Pois vejo a minh vida anoitecer,

É, meu Jesus, a hora de se ver

A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,

Porém pode ter fim todo o pecar,

E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,

Que por mais que pequei, neste conflito

Espero em vosso amor de me salvar.


AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

Da vossa piedade me despido,

Porque quanto mais tenho delinqüido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,

A abrandar-nos sobeja um só gemido,

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada

Glória tal, e prazer tão repentino

vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada

Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.


AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR.

Tremendo chego, meu Deus

Ante vossa divindade,

que a fé é muito animosa,

mas a culpa mui cobarde.

À vossa mesa divina

como poderei chegar-me,

se é triaga da virtude

e veneno da maldade?

Como comerei de um pão,

que me dais, porque me salve?

um pão, que a todos dá vida,

e a mim temo, que me mate.

Como não hei de ter medo

de um pão, que tão formidável

vendo, que estais todo em tudo,

e estais todo em qualquer parte?

Quanto a que o sangue vos beba,

isso não, e perdoai-me:

como quem tanto vos ama,

há de beber-vos o sangue?

Beber o sangue do amigo

é sinal de inimizade;

pois como quereis, que o beba,

para confirmarmos pazes?

Senhor, eu não vos entendo;

vossos preceitos são graves,

vossos juízos são fundos,

vossa idéia inescrutável.

Eu confuso neste caso

entre tais perplexidades

de salvar-me, ou de perder-me,

só sei, que importa salvar-me.

Oh se me déreis tal graça,

que tenho culpas a mares,

me virá salvar na tábua

de auxílios tão eficazes!

E pois já à mesa cheguei,

onde é força alimentar-me

deste manjar, de que os Anjos

fazem seus prórios manjares:

Os Anjos, meu Deus, vos louvem,

que os vossos arcanos sabem,

e os Santos todos da glória,

que, o que vos devem, vos paguem.

Louve-vos minha rudeza,

por mais que sois inefável,

porque se os brutos vos louvam,

será a rudeza bastante.

Todos os brutos vos louvam,

troncos, penhas, montes, vales,

e pois vos louva o sensível,

louve-vos o vegetável.


ACTO DE CONTRIÇÃO O QUE FÊZ DEPOIS DE SE CONFESSAR.

Meu amado Redentor,

Jesu Cristo soberano

Divino Homem, Deus Humano,

da terra, Deus criador:

por seres, quem sois, Senhor,

e porque muito vos quero,

me pesa com rigor fero

de vos haver ofendido,

do que agora arrependido,

meu Deus, o perdão espero.

Bem sei, meu Pai soberano,

que na obstinação sobejo

corri sem temor, nem pejo

pelos caminhos do engano:

bem sei também, que o meu dano

muito vos tem agravado,

porém venho confiado

em vossa graça, e amor,

que também sei, é maior,

Senhor, do que meu pecado.

Bem não vos amo, confesso,

várias juras cometi,

missa inteira nunca ouvi,

a meus Pais não obedeço:

matar alguns apeteço,

luxurioso pequei,

bens do próximo furtei,

falsos levantei às claras,

desejei mulheres raras,

cousas de outrem cobicei.

Para lavar culpas tantas,

e ofensas, Senhor,tão feias

são fortes de graça cheias

essas chagas sacrossantas:

sobre mim venham as santas

correntes do vosso lado;

para que fique lavado,

e limpo nessas correntes,

comunica-me as enchentes

da graça, meu Deus amado.

Assim, meu Pai, há de ser,

e proponho, meu Senhor,

com vossa graça, e amor

nunca mais vos ofender:

prometo permanecer

em vosso amor firmemente,

para que mais nunca intente

ofensas contra meu Deus,

a quem os sentidos meus

ofereço humildemente.

Humilhado desta sorte,

meu Deus do meu coração,

vos peço ansioso o perdão

por vossa paixão, e morte:

à minha alma em ânsia forte

perdão vossas chagas dêem,

e com o perdão também

espero o prêmio dos Céus,

não pelos méritos meus,

mas do vosso sangue: amém.

A HUMAS CANTIGAS, QUE COSTUMAVAM CANTAR OS CHULOS
NAQUELLE TEMPO:'BANGUÉ, QUE SERÁ DE TI?" E OUTROS
MAIS PIEDOSOS CANTAVÃO: "MEU DEOS, QUE SERÁ DE MIM?"
O QUE O POETA GLOZOU ENTRE A ALMA CHRISTÃ RESISTlNDO
ÀS TENTAÇÕES DIABOLICAS.


MOTE


Meu Deus, que será de mim?
Bangüê, que será de ti?

Alma Se o descuido do futuro,
e a lembrança do presente

é em mim tão continente,

como do mundo murmuro?

Será, porque não procuro

temer do princípio o fim?

Será, porque sigo assim

cegamente o meu pecado?

mas se me vir condenado,

Meu Deus, que será de mim?

Demônio Se não segues meus enganos,

e meus deleites não segues,

temo, que nunca sossegues

no florido dos teus anos:

vê, como vivem ufanos

os descuidados de si;

canta, baila, folga, e ri,

pois os que não se alegraram.

dous infernos militaram.

Bangüê, que será de ti?

Alma Se para o céu me criastes,

Meu Deus, à imagem vossa,

como é possível, que possa

fugir-vos, pois me buscastes:

e se para mim tratastes

o melhor remédio, e fim,

eu como ingrato Caim

deste bem tão esquecido

tenho-vos tão ofendido:

Meu Deus, que será de mim?

Demônio Todo o cantar alivia,

e todo o folgar alegra

toda a branca, parda e negra

tem sua hora de folia:

só tu na melancolia

tens alívio? canta aqui,

e torna a cantar ali,

que desse modo o praticam,

os que alegres pronosticam,

Bangüê, que será de ti?

Alma Eu para vós ofensor,

vós para mim ofendido?

eu já de vós esquecido,

e vós de mim redentor?

ai como sinto, Senhor,

de tão mau princípio o fim:

se não me valeis assim,

como àquele, que na cruz

feristes com vossa luz,

Meu Deus, que será de mim?

Demônio Como assim na flor dos anos

colhes o fruto amargoso?

não vês, que todo o penoso

é causa de muitos danos?

deixa, deixa desenganos,

segue os deleites, que aqui

te ofereço: porque ali

os mais, que cantando vão,

dizem na triste canção,

Bangüê que será de ti?

Alma Quem vos ofendeu, Senhor?

Uma criatura vossa?

como é possível, que eu possa

ofender meu Criador?

triste de mim pecador,

se a glória, que dais sem fim

perdida num serafim

se perder em mim também!

Se eu perder tamanho bem,

Meu Deus, que será de mim?

Demônio Se a tua culpa merece

do teu Deus a esquivança

a folga no mundo, e descansa,

que o arrepender aborrece:

se o pecado te entristece,

como já em outros vi,

te prometo desde aqui,

que os mais da tua facção,

e tu no inferno dirão,

Bangüê, que será de ti?


AO MISTERIOSO EPÍLOGFOLOGO DOS INSTRUUMENTOS DA PAYXAO
RECOPILADO NA FLOR DO MARACUJÁ.



Divina flor, se en essa pompa vana

Los martirios ostentas reverente,

Corona con los clavos a tu frente,

Pues brillas con las llagas tan losana.

Venera essa corona altiva, y ufana,

Y en tus garbos te ostenta floreciente:

Los clavos enarbola eternamente,

Pues Dios com sus heridas se te hermana.

Si flor nasciste para mas pomposa

Desvanecer floridos crescimientos

Ya, flor, te reconocen mas dichosa.

Que el cielo te ha gravado en dos tormentos

En clavos la corona mas gloriosa,

Y en llagas sublimados luzimientos.


RENDE-SE A PESSOA DE BERNARDO VIEYRA RAVASCO?
NESTE SONETO, PELOS MESMOS CONSOANTES DE OUTRO FEITO À FLOR
DO MARACUJÁ PARA CONSTAR DO DITO QUE ERAM ESTAS
RESPOSTAS DO NOSSO POETA.



Ya rendida, y prostrada mas que vana

A vuestros pies mi Musa reverente

Por coronar com ellos a su frente

Del suelo sube al cielo mas losana.

Por convencido ostenta gloria ufana,

Que tiene por corona floreciente

El quedar-se rendida eternamente,

Porque humilhada al triumpho se germana.

Rendimiento fiel haze pomposa,

Que en beber los castalios crescimientos

Se adquire la ventura mas dichosa.

A que Phenix nos causa mil tormentos

Ver, que triumpha humilhada, y tan gloriosa

Por ser rendida a vuestro luzimiento.


AFIRMA QUE A FORTUNA, E O FADO NÃO É OUTRA
COUSA MAIS QUE A PROVIDENCIA DIVINA.

Isto, que ouço chamar por todo o mundo

Fortuna, de uns cruel, d'outros impia,

É no rigor da boa teologia

Providência de Deus alto, e profundo.

Vai-se com temporal a Nau ao fundo

carregada de rica mercancia,

Queixa-se da Fortuna, que a envia,

E eu sei, que a submergiu Deus iracundo.

Mas se faz tudo a alta Providência

De Deus, como reparte justamente

À culpa bens, e males à inocência?

Não sou tão perspicaz, nem tão ciente,

Que explique arcanos d'alta Inteligência,

Só vos lembro, que é Deus o providente.

NO SERMÃO QUE PREGOU NA MADRE DE DEOS D. JOÃO FRANCO
DE OLIVEYRA PONDERA O POETA A FRAGILIDADE HUMANA.
Na oração, que desaterra....................................................aterra

Quer Deus, que, a quem está o cuidado...............................dado

Pregue, que a vida é emprestado.........................................estado

Mistérios mil, que desenterra...............................................enterra.

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