— Mais um bolo?
— Obrigada. Ouvimos o Chagas. Está famoso.
— Oh! Dando apenas as últimas alcunhas do Lírico...
— Aposto que não sabe...
— A do presidente ou a do cardeal?
A Sr.ª de Melo e Sousa parou, olhando a sala. Seria inconveniente perguntar a alcunha de alguma pessoa presente. A Sra. de Melo e Sousa era muito bem-educada desde criança.
— Por exemplo, a do Florimundo - atalhou a menina Laura Gomes, que não era bem-educada.
— Ah! essa é o puzzle - fez o Chagas olhando o sujeito ao fundo.
— Por quê?
— Ora! Porque esgota a paciência dos credores e é mudo como um peixe.
As senhoras fingiram rir. As primeiras alcunhas tinham sido mais felizes. Era, naquele inverno, a recepção inicial da Sra. Gomes Pedreira.
Mme. Gomes Pedreira, Malvina para os íntimos, com os seus cinqüenta anos discretos posto que adiposos, afadigava-se em recepções. Com dois filhos apenas, Jacques, cujo curso de Direito se completara dias antes, e Gastão, ainda num equiparado de padres, distante, era ela quem dirigia o serviço, preparava os bolos nas pratarias, revolucionava a pouca vontade evidente dos criados. Podia ter uma governante. Era, porém, uma questão de hábito. A força do hábito obrigava-a. Todos os anos invariavelmente em Petrópolis, decidia não abrir mais a sua sala do Rio em dias certos. Em seguida, continuava a fazer o que fizera no ano anterior. Continuar é ainda uma das ações mais fáceis deste mundo, que a calúnia chama hostil. Assim, Malvina descia de Petrópolis sempre numa linda manhã de abril, acompanhada por muitas malas e por duas criadas. A sua primeira frase era invariavelmente a mesma:
— Meu Deus! que calor faz cá!
Em seguida tomava um carro. Ao chegar a sua residência de Botafogo, vasto casarão apalacetado, presente de noivado que o marido já hipotecara, repetia também invariavelmente:
— Santo Deus! Em que estado puseram a minha casa!
E encetava uma arrumação geral. Aborreciam-se todos os criados, os patrões, ela principalmente, e, acabada a arrumação, a casa era cada vez mais a mesma coisa. Ao cabo de um mês, não tendo outro meio para se enfezar e enfezar os serviçais, marcava o dia da abertura semanal dos seus salões. Temperamento.
Naquele ano fora tal qual. A Sra. Gomes Pedreira passara quatro meses desesperados na cidade de verão. Como seu marido, o célebre advogado Gomes Pedreira, consultor de várias companhias inglesas, era um fino homem, muito relacionado, a esposa vivia numa roda-viva, sempre a aceitar e oferecer (oferecer mais, sempre), almoços, jantares, festas a ilustres conhecidos, quase desconhecidos e mesmo por conhecer. Gente bem cotada, eles! Isso irritava-a. Seria decerto pior entretanto se não tivesse tantas relações. Ao demais, os rapazes inquietavam-na. Gastão, em férias, alugara um cavalo e um automóvel (ambas as conduções ao mesmo tempo), e fizera por questões de recibos escândalo num certo campo de lawn tennis da melhor roda, em que os freqüentadores se dividiam em dois grupos: o das trouxas e o das assanhadas. Enquanto o último rebento agitava, de tal sorte o Piabanha, Jacques teimava em ficar no Rio, no calor do Rio! com o plano vulgar de cair na pândega. E fora ao exagero, levara ao próprio lar um bando de estróinas e de mulheres alegres, a que oferecera uma ceia naturalmente alegre. Nunca na sua vida a pobre senhora tivera emoção tão violenta como quando soube da cena...
— É um escândalo!
— Sabes lá se eram alegres? - dizia o esposo conciliante. - Depois, simples boatos!
— Não, desta vez parto.
Desceu quatro dias antes do que era costume, modificou a sua frase inicial da Prainha, porque ao chegar logo exclamou:
— Nunca senti tanto calor na minha vida.
E foi tudo. Em casa, como nada havia de anormal, não teve coragem para falar a Jacques, receosa de perder uma hipotética força moral, assim como não se resolvera a cortar em Petrópolis o cavalo, o automóvel (ambas as conduções ao mesmo tempo) e as insolências sociais do jovem Gastão. No fundo, muito boa senhora. Um mês depois, abria os salões. Era aborrecidíssimo, mas sentir-se-ia diminuída se o não fizesse. Que diria o mundo?
As recepções de Mme. Gomes Pedreira representavam de fato várias coisas solenes. Em primeiro lugar a tradição. Há dez anos, Malvina, em pleno outono sem fatuidade, tinha o seu dia, era das raras antes da Avenida. Além do mais a sua casa fazia-se uma espécie de campo de honra neutro-conservador. Lá se encontravam todos os capazes de ter vencido ou de vencer, e os capazes se davam o ar do melhor tom. O palacete, todo num pavimento assobradado, em meio do jardim parecia bem. Nesses dias de importância abriam ã sociedade que os visitava, o grande salão da frente, com janelas para a rua e muito pouco mobilado, como à espera sempre de um baile imprevisto, o pequeno salão com um piano de cauda e algumas tapeçarias autenticamente falsas e a casa de jantar, em estilo manuelino sobre embuia, presente de uma associação portuguesa ao advogado. Não era bem um five-o'clock. Nem uma sauterie. Nem uma recepção. Tinha dos três - era o dia de Mme. Pedreira. Não raro as senhorinhas e os rapazes faziam, isto é, acabavam por fazer umas valsas no grande, nu e encerado salão. Os sandwiches, os doces, os bolos, os licores e os vinhos da mesa da casa de jantar desapareciam infalivelmente. Mas na pequena sala aconchegada, servia-se o chá com um ar distinto. Nesse dia, Malvina estava intimamente satisfeita. Os doces estavam a ser muito gabados, o criado, um italiano novo, servia bem e havia na peça intermediária entre a dança e a comedoria a nata das suas relações. Era como se estivesse no Lírico, numa noite em que não se canta nenhum drama de Wagner.
Entre as senhoras de raça - é tão difícil fazer questão de raça! - havia a Viscondessa de Muripinim, encardida relíquia da monarquia, chegada de Cannes, onde acabava de assistir ao batizado do príncipe herdeiro, o primeiro rebento de D. Luis, que ela conhecera menino; a Sra. de Melo e Sousa, de uma estirpe de diplomatas, a mais inteligente dama da sociedade. E ao lado dessas senhoras, as três Praxedes, esposa e filhas do negociante Praxedes, a encantadora Eleonora Parckett e a baronesa sua mãe, a Viuvinha Ada Pereira, Graça Feijó, a mais parisiense das cariocas, mulher de um banqueiro e filha de um milionário, o casal Gomensoro, ele secretário de Legação, ela Etelvina, com o ar de Mme. Benhe Bady, nas peças de Bataille, cantando deliciosamente e tendo o cuidado de elevar o seu refinamento a ser falada nos jornais como Etelvina Gomensoro, née d'Ataide; a condessa do Papa Rosalina Gomes, perfeita de ingenuidade, uma verdadeira criança; a sempre modesta esposa do jornalista proprietário Altamiro, com um vestido que devia ter custado no Paquin muitos bilhetes azuis e; a fascinante Luísa Frias, um tânagra vivo, coberta de pérolas (dizem que muitas falsas), porque é moda em Paris a pérola, assim como Gina Malperle, a filha do eterno cônsul do Cobrado, com corais rosas e brilhantes para conservar o ar da 5.ª Avenida, o tom fufly, o aspecto americano; a bela Mme. Andrade (bela há vinte anos irrevogavelmente!), a bela Mme. Gouveia (bela há dez anos fixamente!), a bela Mme. Zurich (bela há cinco anos só felizmente), três irmãs irreconciliáveis no predomínio da beleza. Quanta gente! Mme. Pedreira consegue mesmo mostrar na sua sociedade a jovem esposa milionária do Deputado Arcanjo dos Santos, rio-grandense, filha de um estancieiro poderoso. Como tem um vestido acintosamente caro e os seus lindos olhos mostram uma gula desdenhosa pelo meio, Alice dos Santos só encontra cordialidade natural na Sr.ª de Melo e Sousa.
— Sou muito medrosa. Só estive em Buenos Aires.
— E em Paris?
— Vou agora, V. Exa. não imagina a vontade...
A Sra. de Melo sorri boamente.
— Não me dê excelência, por favor.
— A culpa é de meu marido, que é deputado. Em casa tudo é excelência.
— E que tal a recepção?
— Olhe, faz-me o efeito de um teatro.
— As recepções são sempre um primeiro ato de peças que principiam ou já acabaram quando elas começam...
Alice olha. Realmente. No salão de jantar, devorando sandwiches as Praxedes, a mãe e as duas filhas fazem o seu flirt com o impecável Bruno Sá e o lindo Dr. Suzel, lindo como um pajem de gravura dos contos de Boccaccio. A Condessa Rosalina come há vinte minutos a terça parte de um bolo, conversando com o ex-dom-juan Anselmo de Araújo, sempre petulante e juvenil. No salão, várias meninas e vários rapazes, to dos muito bem vestidos, com um ar de superioridade, desconfiado de que essa superioridade venha a desaparecer de um momento para outro, valsam. É uma valsa francesa, feita para os casinos de Nice e da Riviera, - valsa escrita decerto por maestros divorciados. Às janelas há nomes ilustres, e neste mesmo salão, onde Graça Feijó, Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde e o distinto Gomensoro fazem a um canto uma partida de bridge, para não perderem a linha parisiense, ela vê, rindo com Gina Malperle, um homem magro, bem vestido, e um velho alto de monóculo.
— Quem são?
— Não conhece? Godofredo de Alencar, homem de letras que se dá com políticos de importância. O outro é o Barão Belfort, tipo muito curioso, que posa para alarmar toda essa gente.
— Ricos?
— O primeiro de esperanças. O segundo solidamente, o que é raro por cá.
A valsa cessara. Quem tocara, tendo ao lado o Chagas a fingir que virava as páginas, fora a jovem Laura da Gama.
— Também quero eu um pouco!
— Estava tão bom.
— Tão bom o quê?
— A valsa.
— Olhe, venha cá, ainda não lhe disseram o seu apelido?
— Já.
— Aposto que não.
— Mas não admito que diga, porque digo o seu.
— Ora!
— Qual é? - interrogou Alice.
— Não indague, porque diz o seu. É um traidor!
Carlos Chagas, Charlot para todos, de idade e de profissão indefinidas, era um elemento mundano de primeira ordem. Como estava em moda darem-se uns aos outros alcunhas, deram-lhe o apelido de "Ganhou o macaco". Esse apelido tinha o dom de irritá-lo. Era também a única coisa que o irritava. Diante do olhar de Alice em que se anunciavam todas as possibilidades e todas as vontades, ao mesmo tempo que considerava a estancieira parlamentar pelo lado prazer, estava com o apetite de dizer ali a insolente alcunha de cada uma das três senhoras. Calou-se porém. O buffet renovara de apreciadores. O Dr. Justino Pedreira aparecia a conversar com dois cavalheiros que pareciam ricos e influentes. Charlot tinha um grande respeito por quem parecesse rico ou influente. E de um deles lera nos jornais da oposição que ficara com trezentos contos de uma tremenda roubalheira aos cofres do Estado. Era um homem digno de atenções. Não só dele. De toda gente. E de outro lado, enfim fatigada de fazer o bridge, Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde, surgia pelo braço de seu marido, rindo como se estivessem em casa ou fossem os dois os subprefeitos da "Sociedade onde a gente se aborrece".
— Estão alegres?...
— Não, imaginem vocês o Comendador Praxedes...
— O escafandro? - indagou logo Charlot.
— Ah! sim, o escafandro, que quer por força aprender o bridge com a Graça.
— Nunca aprenderá.
— Um jogo chic.
— Pois claro.
— E se nos desse o prazer de ouvi-la um pouco?
— A sua recepção está tão alegre.
— É preciso elevá-la. Nestes dias da Malvina tenho o receio de convidar muitos artistas para que as recepções não tenham urna importância que não devem ter e não passem o limite da intimidade. Mas quando no nosso meio há uma grande artista!...
— É o céu que a envia.
Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde, bebia a ambrosia do elogio como uma verdadeira artista e o jovem Gomensoro, escanhoado, com o aspecto simpático de um espanhol educado em Londres, irradiava esse mesmo prazer. Em torno, o Feijó e a linda esposa, Mme Gomes Pedreira com a sua pesada autoridade de dona de casa, a fascinante Luísa Frias pediam um trecho de música. Mesmo Mme. Rosalina, Condessa Gomes, dizia com a sua irredutível ingenuidade:
— Eu gosto tanto de música; é tão romântico!
E o Barão Belfort, o homem mais viajado do Brasil; e Alencar, Godofredo de Alencar, que escrevia crônicas mundanas de um sabor tão estrangeiro, pediam discretamente. Charlor bateu palmas.
Então, Etelvina, foi até o piano. Houve um silêncio. Ela ia cantar numa toada de sonho, os versos de Sully. E a sua frase surgiu como um bordado de ouro na renda da música:
Quand on est sous l'enchantement
D'une faveur d'amour nouvelle
On s'en défendrait vainement
Tout le révèle.
Neste momento, com um passo macio e seguro, a fronte lisa de moço, os cabelos negros tão passados de escova e concreto que pareciam de ônix, o frack de uma linha impecável, a gravata branca com uma pérola escura, surgiu à porta da sala de jantar um jovem. Mme de Melo e Sousa acenou-lhe com o leque. Ele adiantou-se devagar até o canapé em que a ilustre dama conversava com a admirada Alice dos Santos. As suas mãos largas e bem tratadas estenderam-se para ambas num gesto natural de força íntima. Depois sentou-se entre as duas.
— Já se conheciam? - indagou Mm' de Melo e Sousa.
— Desde anteontem.
— Foi no Lírico.
— Psiu, falem baixo...
A voz de Etelvina enchia a sala d'amor:
Comme fuit l'or entre les doigts
Le trop plem du bonheur qu'on sème
Par le regard, le pas, la voix
Crie: Elle m'aime.
A Melo e Sousa sussurrou:
— E eu que antegozava o prazer de apresentá-lo! Eis Jacques Pedreira, um menino de maus costumes!
Alice dos Santos sorria. A ave do paraíso que pousava nos seus cabelos, graças a uma modista inimiga dos horizontes, arfava. E Jacques sentado entre o outono e o verão, cumprimentava, com um alegre riso os seus amigos; o Barão Belfort, Alencar, que dera uma tão linda nota do curso que ele não fizera e a bela Mme. Gouveia, e a belíssima Mme. Andrade, e Graça, como que abstrata...
Nas recepções de Mme Pedreira, a senhora artista era um dos números certos. Todos os números eram mais ou menos certos. Havia a chegada, as conversas gerais de uma desoladora e importante insignificância, as conversas nos pequenos grupos em que seriamente as damas conversavam ou com os próprios flirts ou dos flirts alheios, algumas valsas, passeios aos bolos, um número de música e um número de literatura, em geral versos. O número de música dava ensejo a conversarem baixo d'outra cousa, negócios, mal do próximo. O literário era um sinal de partida. Etelvina Gomensoro, née d'Ataide, era deliciosa, porém.
La vie est bonne, on la bénit
On rend justice à la nature!
Uma prolongada salva de palmas. A cantora fez um cumprimento quase plongeon, como se estivesse em Rambouillet, diante do Imperador. Era admirável. Um movimento geral estabeleceu-se que parecia de partida em parte. Malvina Pedreira deu com seu filho.
— Até que enfim! onde esteve até agora?
— Dormindo, mamã.
— Vejam vocês. Um homem de dezoito anos dormindo até às cinco da tarde!
— Perdão, mamã, até às duas.
— É que entra pela manhã em casa. Um bacharel!
— Desde anteontem.
— Verdade é que o barão diz que não tens culpa alguma... Ah! minha querida, veja se me dá juízo ao Jacques...
E partiu solene. Alice dos Santos estava de pé. A ilustre Melo e Sousa sorriu.
— Esta Malvina acaba nomeando-me governante moral da casa... Jacques estava sério, com as mãos nos bolsos, sério e confidencial.
— A mãe, não tem nada. O velho é que é. Imaginem! Quer que eu vá trabalhar para o consultório! Eu! Já tem lá uma escrivaninha.
— Mas então, advogado...
— Não tenho culpa nenhuma... Então, D. Alice, como vai de cidade?
— Se nos levasse a beber um cálice do Porto?
— Enquanto é tempo.
Alice precipitou-se. Mme. de Melo e Sousa acompanhou-os a querer desvendar a significação da frase, porque ela tinha de fato, ou podia ter três significações. Enquanto é tempo porque a recepção ia acabar. Enquanto é tempo porque talvez não houvesse mais nem migalha. Enquanto é tempo de escapar aos versos do Dr. Inocêncio Guedes, rico político de Goiás, que ia decerto recitar o seu fatal Smart-Ball.
Smart-Ball, epíteto galante de uma sociedade...
Na sala de jantar parecia, de resto, ter passado a possibilidade de um batalhão argentino. Jacques que se olhara num dos espelhos, à exclamação pesarosa de Alice, não teve a menor contrariedade. Enfiou as mãos nos bolsos da calça e disse:
— Não tem nada, acompanhem-me; deve haver na outra sala.
Entraram na sala de jantar de todos os dias, modestíssima, dando para a copa e para um terraço, de onde se debruçavam também as cozinhas. Mme. de Melo e Sousa gozava aquele aplomb do seu querido Jacques. Alice parecia acanhada. E o querido Jacques bateu palmas, mandou vir o vinho, marmelada.
— Se tomassem um caldo? Só aturar uma recepção inteira da mamã! O Barão Belfort diz que o prepara para não sair do purgatório nunca mais. - Depois pegando a mão de Alice: - Bonitos esses brilhantes. São de cá?
— São.
— Jóias compram-se em Paris. Tomam o caldo?
Nenhuma quis o caldo. A milionária estancieira aproximou-se do terraço.
— Está a tarde bonita.
— Está - fez Jacques, que aborrecia a poesia.
— Que é aquilo?
— É um telheiro, que serve de garage. O Jesuíno...
— Que Jesuíno?
— O velho. Tem só um automóvel, aliás sempre em conserto. Mas é bonito. Quer vê-lo?
Era extravagante acabar aquela recepção no quintal. Mme. de Melo e Sousa estava seduzida. As duas damas desceram, erguendo muito os vestidos. Jacques, absolutamente sério, mostrou o telheiro e o automóvel, como um jovem lord inglês mostraria os seus domínios, parques e castelos. Em seguida continuou:
— A senhora é do Rio Grande. Não há árvores grandes por lá, pois não?
— Quem lhe disse?
— Mas não há uma jaqueira, uma grande mangueira...
— A jaqueira vejo eu - interrompeu a notável Melo e Sousa.
— É porque a mangueira fica ao fundo. Tem até um balouço.
— Para você?
— Não. Eu faço barra fixa, paralelas.
Realmente, ao fundo, havia uma vasta mangueira, com um balouço. Os três olharam para a árvore com poderosa admiração. Parecia que nenhum enfrentara assim de perto com uma espécie botânica tão grande. Depois, Alice soltou uma gargalhada.
— De que ri?
— Rio, porque gostaria de baloiçar-me. É uma idéia louca.
— Pois trepe.
— Perdoe V. Exa. como diz meu marido, mas já, seria inconveniente.
— Ora menina, por quê? É só imaginar que a recepção da Malvina é uma garden party.
— D. Argemira é capaz de imaginar o dia de mamã até um baile de máscaras.
— Jacques, por quem é, sou a melhor amiga de sua mãe.
— Por isso mesmo...
Com autoridade sentou Alice no baloiço, arrumou-lhe os vestidos, aliás inconvenientes para semelhante exercício e impulsionou o balanço. A rio-grandense ardente dava gritinhos, não de medo - uma rio-grandense nunca tem medo - mas de prazer. Argemira de Melo e Sousa colocara o seu face-à~main para admirar melhor os vôos do lindo pássaro. Jacques não parecia ter feito outra cousa na sua vida senão empurrar baloiços. Era magistral. E, de repente, diante deles, precedidos de um criado em mangas de camisa, cujo sorriso parecia o de um agente secreto, surgiram, Arcanjo, marido e deputado, e Mme. Pedreira, mãe e anfitriã.
D. Malvina tinha já o sorriso verde da máxima contrariedade:
— Com que então aqui?
— Os três!
— E nós a procurá-los. O Dr. Arcanjo estava assustadíssimo. Eu e seu pai também.
— Oh! - conciliou Mme. de Melo e Sousa - nem pensávamos que davam pela nossa falta. O Inocêncio ia recitar...
— Recitou, recitou todo o Smart-Ball.
— É a sexta vez que ouço aquele trabalho - atalhou Arcanjo. - Muito mimoso.
— Imensamente. E estamos a procurar D. Alice os dois, porque não há mais ninguém.
— Que me dizes! Acabado o dia? Então viva o dia!
— Valha-me Deus! Uma criança este meu filho. Que diz, doutor, não é da minha opinião?
Arcanjo, habituado ao Congresso, sem saber a opinião da venerável senhora, curvou-se:
— Sou da opinião de V. Exa..
Fazia como na Câmara. Argemira riu. O frio desapareceu.
— Mas não fiquemos aqui. Levemos D. Alice até à porta...
Jacques deu o braço a Alice. Viu que devia dar o outro a Argemira. Seguiu com as duas damas, pensando que seu pai o esperava para uma hora de ordens e conselhos. Até perdia o prazer de ser amável!... E enquanto pela aléia do jardim assim conduzia duas damas, sua mãe, atrás, falava seriamente com o Deputado Arcanjo.
— Cinco horas, doutor. Quase noite. Como fatigam as recepções! Ah! se pudesse ver-me livre desse trabalho!
— V. Exa. tem razão, realmente o convívio social instrui, mas estafa...
Jacques entrou nos aposentos do seu pai, um pouco aborrecido. O importante consultor de várias companhias estrangeiras, pelas contingências de uma vida de advocacia forçadamente administrativa, acostumara-se a dobrar o temperamento, a fingir, a representar. A vida é um palco, onde cada um representa o seu papel, disse Shakspeare. Depois do transformismo, moda passada em ciência e moda em voga em cena: a vida é um palco, onde cada um representa seus papéis. Justino representava alguns - nem sempre gloriosos, é de convir, mas com tal elegância, um brilho tão particular, que só merecia aplausos. Chamavam-no o "camaleão dos ministérios"; ninguém poderia afirmar numa questão de que lado estaria sempre advogado assim admirável. Mas, Justino fazia para ser de qualquer jeito de uma das partes e era de um cepticismo fatalista, absolutamente oriental, nas decisões graves da vida. O hábito de mascarar o temperamento, de mudar de cara várias vezes ao dia, apagara-lhe a energia de retomar o seu "eu" - que era no fundo bom, inteligente e conservador. O secreto e acovardado Justino íntimo tornara-se apenas o espectador de vários Justinos mundanos, e só raramente intervinha no drama, como os freqüentadores de circo para os palhaços em situações difíceis.
— Vamos a ver como te sais deste negócio!
— Queres apostar?
— Tens muita sorte.
Esses curtos diálogos entre o seu verdadeiro "eu" e os outros Justinos para uso externo, deixavam-no esperançado e arrasado nos graves momentos de protestos de letras e de agonienta falta de dinheiro. Enquanto não lhe faltasse a estima daquele espectador, seria amável e vencedor. E sorria. Quantos, como ele, por este mundo? Sorria e continuava a representar, mesmo em casa, para a família, mesmo só. Apenas, como tivera sempre a preocupação dos papéis simpáticos, e como não havia nem tempo para perder, nem muita confiança em inspirar terror, organizara um pai misto de peça romântica e de comédia moderna. Os seus aposentos eram de uma simplicidade monacal, o leito de ferro, onde repousava das vigílias estudiosas, mais desolador que um catre d'hospital; e nas paredes nuas só se via a litografia de Nossa Senhora da Conceição, em caminho do céu, atestando uma crença, tanto maior quanto não a possuía, senão para um efeito social, mundano e prático.
Quando Jacques entrou, o seu ilustre progenitor estava ainda com a sobrecasaca da recepção, sentado, a escrever. Nesse dia, por felicidade, fazia-se completamente pai comédia moderna.
— Boa tarde, caro colega e filho!
— O pai quer falar-me?
— Em teu interesse.
— E o escritório?
— O escritório e tudo mais. Senta-te. Fumas um cigarro?
Abriu a cigarreira, serviu-se, guardou a cigarreira, estirou-se na poltrona.
— Meu caro Jacques, vejo que estás aborrecido. Eu também. Nada mais fatigante do que estas cenas de conselhos entre pai e filho. Teu avô passava-me um carão, de oito em oito dias e nunca me falou senão zangado. Para consentir que eu fizesse a barba - o que para ele parecia um insulto aos seus direitos paternos, foi necessária uma verdadeira campanha diplomática. Mas isso era no tempo antigo. Hoje, os pais não precisam dar consentimento para fazer a barba, porque nunca vêem barba nos filhos.
— É um uso americano...
— Que acho, aliás, muito asseado. Entretanto, como ainda resta, por um velho preconceito, aos pais, a boa vontade de guiar os filhos, não pude deixar de escolher esta tarde para conversarmos um pouco.
Houve um silêncio. Justino, acariciando a barba grisalha, olhava o seu pequeno, com um secreto prazer de tê-lo feito tão bonito e talvez uma certa inveja daquela mocidade despreocupada ainda das necessidades da vida. Jacques continuava sério, em pé, brincando com a espátula de cortar papel.
— És uma criança, meu filho. Não podes ter queixa de mim. Não sei se estás educado, mas fiz o possível para te fazer bacharel, como toda gente. Absoluta liberdade, contas pagas, empenhos, professores em aulas particulares. Enfim, tudo. Mas nesta facilidade de vida, talvez nunca te afigurasse a triste verdade de que é preciso ganhá-la. Aqui estou eu, com cinqüenta anos, a esclerose fatal, obrigado a viver com desperdício, exatamente porque desse desperdício vem a possibilidade de negócios grandes. E sem vintém. Sim, meu caro Jacques, sem vintém. É preciso que te habitues a triste idéia de que, morrendo eu amanhã, estás com tua mãe e teu irmão, absolutamente sem recursos.
— O pai a fazer testamento!
— Não senhor, estou apenas a falar sério. De resto, a maioria dos teus companheiros está nas mesmas condições, em que estás. São raras as nossas grandes fortunas. São raras, até, as pequenas sólidas. Atravessamos um grande momento curioso, e vocês não imaginam como custa ser o maquinista, um dos maquinistas da mágica. É preciso trabalhar. Mesmo milionário, dar-te-ia este conselho. Não o sendo, acrescento que é imprescindível, desde já, para te habituares, antes de uma perda grave. Um homem não é homem, enquanto não ganha.
— Ganhar como? - fez Jacques sucumbido.
— De qualquer forma. A questão é ganhar. As sociedades fazem cada vez menos caso dos meios. Metade dos cavalheiros que estiveram cá, hoje, é dessa opinião... De resto, não seria mesmo bonito para um homem, ser sustentado por seu pai, toda vida.
— Ah! isso não.
— Já vês...
— Mas como, papá?
— Oh! ganha-se dinheiro, mesmo não fazendo cousa alguma. Tudo é dinheiro. A questão é preparar o espírito, é encaminhá-lo para o ponto prático, e o ponto prático para um rapaz de boa sociedade é pensar sempre que precisa conservar uma série de confortos, de aparência insignificantes quando os temos, mas enormes, quando lhes sentimos a falta. Vamos a saber: não queres advogar?
Jacques sorriu:
— O pai sabe bem que não sei. Foi você mesmo quem disse que eu de Direito sei menos que o Gastão.
— Sabe-se sempre o que nos vai ser útil.
— Depois, o escritório, a escrivaninha, o foro, com aquela poeira...
De novo a frieza inicial voltou. Justino tornou, um pouco seca a voz:
— Creio que te formaste para fazer alguma cousa.
— Não pai, não se zangue. Tenho, quer que lhe confesse? medo de começar.
— Pois esse medo passará. Guiar-te-ei. As pequenas causas - terei pequenas causas? - serão tuas. Depois a escrivaninha não é escrivaninha, E um lindo bureau-ministre.
— Então, pai, vou amanhã...
Justino ergueu-se, mostrando uma satisfação que talvez não tivesse.
— Nota que não te quero forçar a ser advogado. Com uma carta de bacharel, por enquanto, ainda é possível ser várias cousas neste país. Tens diante de ti, o mundo dos negócios, o funcionarismo, a jurisprudência, a política. O meu desejo é lançar-te na vida, não como o pequeno do Pedreira, mas como o filho formado do seu pai, agindo por conta própria e ainda com uma defesa não só de pai como de amigo prático. E preciso ser homem. Foste menino até hoje. Vamos a ver o que fazes, d'agora em diante. Até amanhã.
— Até amanhã.
— A uma da tarde, no escritório. Tu hoje acordaste mais tarde... - Depois, sorrindo, como Jacques já estivesse à porta: - olha, aqui tens vários convites com o teu nome, da recepção do Chili, do baile do presidente da República e do decantado baile que o Itamarati oferece aos oficiais portugueses. Tens mais um cartão permanente para o recinto da Câmara, dois cartões de cinematógrafos. Estas lembranças pessoais, deu-mas o Godofredo de Alencar, que é muito amigo dos governos. Sê também amigo dos governos.
Jacques recebeu os convites com uma certa emoção. Afinal, a conversa não fora tão aborrecida. Ele sentia-se bem um personagem, alguém... O pai tornou:
— Com estes trunfos que tens em mão, um homem esperto talvez não se decidisse por nenhuma profissão, mas decerto teria meios de arranjar uma fortuna. E basta de conversa. Caro colega e filho, até ao escritório.
Jacques saiu. Era só atravessar a sala de jantar e estava no seu quarto. Consultou o relógio e viu que eram seis e meia. Os criados punham a mesa modesta do jantar. Um sentimento complexo agitava-o, sentimento que era de alegria e era de um terrível e assustado desalento. Tinha vontade de chorar, como uma criança. Chegar tão cedo ao marco em que já se não é bem da família! Amanhã seria um homem, uma individualidade à parte, agindo por conta própria, com a gravíssima responsabilidade das suas ações a recair no dia seguinte. Estava farto de saber a situação financeira do seu pai. Era a de três quartas partes da sua sociedade, um triste bluff que se tornara norma angustiosa. E entretanto, vinha-lhe um medo louco de encarar a necessidade no dia seguinte.
Se Justino morresse? Sim, se morresse... Em que estado ficariam, em que estado ficaria ele? Era preciso atirar-se, trabalhar, ter uma profissão, que lhe desse a troco de um certo esforço quotidiano o pão do mês. Oh! era miserável, era humilhante. E era fatal! Tinha que fazer como toda gente. E vinham-lhe à memória vivas impressões de vários infelizes. O Dória, o rico Dória engenheiro, que, morrendo o pai, fora especulador da praça, zangão, dono de hotel quebrado e sempre a querer aproximar-se do meio, que, impiedoso, o afastara, era intendente de um milionário, ganhando comissões das cocottes e dos vendedores - só com a preguiça de seguir a sua profissão; o Aragão, que montara um club de jogo, com egoísmo e roubara no baccara,, o Adalberto... De um momento para outro podia ficar assim, e ele que se sentia tão fraco d'alma, tão incapaz de reagir!
Fechou-se por dentro, no quarto, acendeu a luz, olhou-se ao espelho. A tristeza tornava-lhe ainda mais bonito o lábio sensual, a boca de uma frescura úmida, a pele lisa e morena. Diante de um físico tão agradável, aproximou mais o rosto, a ver um sinal ao pescoço. E lembrou-se dos olhos de Alice dos Santos, dos lábios de Alice dos Santos, da proteção que Argemira parecia querer dar aos avanços da Alice dos Santos. Ainda não tivera uma amante senhora casada. Quanta coisa ainda não fizera na vida! Mas havia de fazer, tinha o desejo de fazer, desde que elas fossem agradáveis e pouco trabalhosas. Sorriu para o espelho um sorriso tentador. Afinal tinha sorte, sempre tivera sorte e havia de ter sorte. O Dória não fora feliz porque não tinha de ser. Também há mendigos que pegam caiporismo. No primeiro ano visitara com os colegas uma quiromante que lhe prognosticara muitos amores e muitas viagens. Como ter amores e fazer viagens sem dinheiro?
Começou a despir-se vagarosamente. Amores! A Alice talvez. Como? A Alice e outras muitas, a Malperle por exemplo, de quem se falava tanto, ou a mãe da Eleonora que fingia um desmaio sempre que se achava a sós com um rapaz? O apetite da vida voltava-lhe diante da própria imagem a mover-se no espelho. Sempre obtivera tudo sem esforço e a sorrir.
Havia de continuar. Acendeu um cigarro, soprou o fumo, assobiou um pouco uma copia de café-cantante. Deitou-se a fio comprido na cama. Ah! se soubesse o futuro! E para quê, de resto? Saber é uma necessidade muito relativa. É possível passar perfeitamente sem saber uma porção de coisas. Saber teatro, por exemplo. Para quê? De teatro, Jacques tinha a noção de que as companhias de línguas estrangeiras eram de primeira ordem e as mulheres das boas ou não. As peças de cujos autores ignorava os nomes, caceteavam-no assaz. Entretinha-se, durante o espetáculo, a comparar a elegância das atrizes com as das suas conhecidas e a verificar o mau alfaiate dos atores. M. Le Bargy foi-lhe uma dolorosa desilusão. E literatura? Jacques nunca na sua vida lera uma novela, um romance. Nem Paulo de Kock, nem o Conde de Monte-Cristo. Uma indiferença integral afastava-o dos jornais. Mesmo os versos imorais, as leituras ardentes que os meninos fazem sempre com o prazer de atiçar um incêndio em plena violência, não o tentaram. Ao demais, os profissionais do talento não lhe agradavam. Só admitiu desde criança inteligência nos que a sua roda permitia e decretava fossem inteligentes.
Este feitio não o obstou de ser precoce em tudo, por tudo lhe ter sido fácil. Aos oito anos, como nesse tempo sua mãe ainda tinha ilusões de reagir contra a gordura, foi para um colégio de padres. Aos dez, nas férias do Carnaval perdeu-se com o criado num baile de Carnaval da mais baixa classe. E como D. Malvina o recebesse em pranto disse:
— Não te assustes. Dancei com umas mulheres pintadas. Elas gostaram. Até pagaram cerveja para mim, que não era tolo para gastar o meu dinheiro.
No ano seguinte, os padres bem pagos e difíceis de expulsar os alunos, queixaram-se do seu mau comportamento. Fumava, arremedava os frades professores, não estudava. Jacques não voltou aos padres e fez um curso de preparatórios em externato, conseguindo o assombro, aliás comum, de ser aprovado numa série de matérias que ignorava.
Seu pai não tinha tempo de fiscalizar a educação, mas pagava sem hesitar os melhores professores e arranjava a valer cartas de empenho no fim do ano. Era mesmo a época do ano, em que senhor de posição tão importante dava para reconhecer velhos amigos de rapaziada, que a sorte fixara em simples examinadores. Jacques, com conta aberta no alfaiate, no camiseiro, no sapateiro, julgava os professores também fornecedores de atestados, mas não era sem um certo sangue-frio superior que colava provas escritas e dizia inconseqüências nas provas orais. Ficou célebre o seu exame de química em que não sabendo quem era Lavoisiert e ignorando a composição da água passou com simplesmente. Ninguém falou também do seu exame de francês. Aliás, Jacques sabia falar francês. Foi o único exame em que foi reprovado. Mas aproveitou a segunda época, e nunca disse obrigado aos examinadores como não dizia ao sapateiro. Quando passou para a escola de Direito a fazer o primeiro ano, uma carta que escrevesse devia ter alguns erros, mesmo na língua comum geralmente falada entre nós e que, por excesso de reconhecimento histórico, ainda denominamos português...
Os preparatórios deixaram-lhe uma sensação de igualdade inexplicável e que no fundo sempre lhe pareceu desagradável rebaixamento. Havia uma porção de rapazes de má roupa, sem vergonha pobres, e que se permitiam, entretanto, fazer versos, usar pince-nez e não lhe ligar a menor importância. Quando os professores falavam - (de modo geral sempre) - da desmoralização do ensino, da inferioridade da geração, esses rapazes tinham a impertinência de olhá-lo e ele não podia deixar de ficar contrariado, porque esses sujeitinhos é que lhe pareciam inferiores. Os últimos tempos passara-os mesmo a jogar football, jogo em moda que as senhorinhas aclamavam aos domingos em Paissandu. Foi sob essa brilhante vocação esportiva, que se matriculou para fazer o primeiro ano. O primeiro ano constava de duas matérias: Filosofia de Direito e Direito Romano. Oito dias antes dos exames, começou de ler umas apostilhas da segunda matéria, veneráveis apostilhas que representavam o saber desse monumento social em dez gerações de bacharéis. Em Filosofia copiou a prova escrita e na oral, diante de um lente grosso e sábio, assegurou:
— A Filosofia, esse verdadeiro pão do espírito...
O professor abriu numa gargalhada homérica. E ainda sacolejado de riso:
— Continue, muito bem... continue, menino...
Não continuou por ser susceptível ao ridículo. Mas fez o curso inteiro com a mesma profundez, cada vez menos culpado de ser bacharel. Não que não tivesse inteligência para aprender o que tanta gente sabe nem sempre para bom uso: mas porque era desnecessário. Para que cansar se o resultado seria o mesmo? Instintivamente economizava-se.
O seu tempo de acadêmico passara-o pois assim. Acordava, ia para o football ou fazia ginástica sueca no quarto. Em seguida iniciava a sua toilette com cuidado. A escolha do fato, da camisa e da gravata correspondente, punha-o muita vez perplexo. Estas coisas absorviam a sua atenção. Conhecia gravatas ao longe.
— Esta gravata não é daqui?
— Não.
— É do Doucet. Estavam em moda o ano passado.
Em fornecedores o seu conhecimento era doutoral. A menor alteração no corte dos fracks uma insignificante mudança d'aba nos chapéus de Londres ou da Itália tinham nele um fiel. As cores das roupas de baixo também. E a maneira de estar conforme manda a educação dos salões - educação e maneiras que variam todos os anos. Ultimamente usava camisetas irisadas de morticores imprevistas, abandonando nas gravatas os tons monocromos, e nunca sentara para jantar sem estar de smoking e ou de casaca. Um homem quando tem apetite, pode jantar até tendo apenas por fato a aliança do casamento. Ele, porém, achava aquilo necessidade imprescindível, e mesmo em Teresópolis, num matagal horrendo de cura, aparecia sempre, com espanto do hotel, de smoking e sapatos de verniz.
Apó5 a toilette, ia almoçar e saía. Às vezes passava pela escola. Raramente. Empregava o tempo em namoros e ftirts. Nunca desejara. Era desejado. Aos quatorze anos uma criada portuguesa virgem agarra-o com uma violência de Tântalo se encontrasse um jarro d'água fresca à mão. Depois era sempre solicitado e achava isso meio aborrecido. Saía à hora em que as ruas de Botafogo, principalmente as transversais deixam ver tanta coisa. Aos dezesseis anos, indo visitar o Barão Belfort, que por sinal viajava Pela Rússia, encetou através do muro um escandaloso namoro com a Ada Pais, a ponto de fazê-la pular a separação de pedra e vir ler romances na biblioteca do barão. Essa ligação semivirgem dera-lhe de resto a consideração de Belfort e do literato Godofredo de Alencar. O barão era um perverso, cuja amizade não deixava de ser corrosiva. Godofredo muito hábil sob aqueles ares fatigados, trabalhava no desejo de ser de uma roda, a que aspirava por uma multiforme e vaga ambição. Troçava de todos, elogiava a todos e principalmente o fraco de cada um. Para Jacques, como para outros rapazes tinha sempre dessas frases que ficam:
— Estavas ontem com uma linda bengala.
Aos demais dizia-se amigo dos políticos, o que aguçava sobremaneira o interesse dos homens de negócios, a maior ou talvez a única aristocracia do momento.
Jacques tinha pelo barão e pelo homem de letras prático uma sincera admiração. E no chá, um chá elegante, onde parava desde as quatro da tarde a ouvir o Dr. Suzel, o Belmiro Leão a cumprimentar as senhoras e a fazer sinais às cocottes não perdia ocasião de citá-los. As seis voltava a casa. Smoking, jantar. A noite, o music hall, em que aparecem como numa exposição as melhores mulheres de várias casas especialistas. A sua memória, mais virgem que a criada portuguesa e Ada Pais, gravou com facilidade as cançonetas e a algaravia desse pessoal pintado e abrilhantado. Passava, como a maior parte dos seus amigos por trás dos camarotes, onde as damas se pavoneavam. Nos intervalos tomava umas bebidas, convidado pelos endinheirados da semana. Porque, cada semana, havia nessa sociedade assaz misturada de mulheres, michés, jogadores, gigolos, um sujeito que aparecia com muito dinheiro. Godofredo e o barão apresentaram-lhe uma vez aí o jovem construtor Jorge de Araújo. A época era de resto do aparecimento de jovens construtores, jovens motoristas e velhas manicuras. Jorge de Araújo ficara rico num mundo de casas mandadas fazer pelo governo e tinha a dupla mania dos automóveis e das mulheres. Belfort fizera colocar num dos automóveis do construtor esta divisa heróica:
— Esmago todo mundo e ninguém me vê.
Jorge via tanto no barão como em Godofredo duas utilidades para a continuação dos seus negócios. Viu decerto em Jacques uma outra, posto que obscura. E Jacques, com a gula da mocidade pelo prazer, viu nele um meio de divertir-se sem pagar. Em pouco tempo era amigo inseparável, aproveitando os automóveis e a intimidade das mulheres. Datou daí, na função de menino bonito, a sua ligação com a Lina d'Ambre, italiana de cabelo oxigenado, terrivelmente ciumenta. Para ver se podia acompanhá-la a casa, Jacques ia a um dos mil e um clubs do jogo onde o baccara infernal sustenta um batalhão de patifes amáveis.
Para passar o tempo e ver se ganhava, jogou. A mesada era escassa. O pai dava-lhe roupas, mas não dinheiro. Para arranjar dinheiro, pediu aos fornecedores que forjassem fornecimentos falsos. Depois pediu a Jorge, ao barão. Godofredo, por precaução pedira-lhe antes do ataque uma pequena quantia. Enfim, uma noite a Lina d'Ambre, votada ao sacrifício romântico, exigiu que lhe fosse empenhar um dos anéis e ficasse com o dinheiro. Jacques hesitou, com frieza, e foi.
Dias depois, na mesa redonda da pension d'artistes, a Lina, num calão indizível, atirou-lhe o epíteto de explorador feminino. Como estavam na sopa, Jacques atirou-lhe com um prato, que felizmente só atingiu a cabeleira de um loiro não veneziano, mas inverossímil. A mulher teve um ataque, depois de retribuir a violência com idêntica remessa de sopa. Furioso, Jacques saiu com o smoking sujo, para nunca mais voltar. Lina mandou-lhe cartas perdidas de amor. A sopa reacendera-lhe a chama. E, como tal chama leva a excessos, Lina, depois de dizer a toda gente que fora explorada, apresentou-se no escritório de Justino a mostrar a cautela e pedir providências. O Dr. Justino, naquela conjuntura, foi de grande gentileza e calma. Pagou, deu à mulher uma gratificação generosa e teve com o filho esse primeiro e lamentável encontro em que entre pai e filho aparece a miséria sexual, o escândalo mulher, aliás tão apreciado por filhos, pais e mesmo avôs.
— O senhor envergonhou-me. Um homem na sua idade não paga o amor. Perfeitamente. Na sua idade nunca paguei. Reservei-me para depois. Há sempre tempo. Mas receber!
— Está enganado, pai. Pergunte a Jorge, pergunte ao barão. Vou quebrar a cara àquela tipa!
— O senhor não vai quebrar a cara a ninguém. O senhor vai é não fazer mais isso, porque está arriscado a perder o meu auxílio. E a propósito: descontarei na sua mesada a importância da cautela. Quem tem vícios não se fia nos outros.
Desde então, Jacques, a quem a inexorável D. Malvina fazia um sermão de moral semanalmente, para lhe dar dinheiro, foi acentuando esse afastamento progressivo da família em favor da rua, a que o eufemismo social denomina fazer-se homem. Jacques fazia-se homem a todo pano, vertiginosamente. Passava dias sem ver o pai. Chegava pela manhã. Não foi a Petrópolis, durante o verão e, segundo informações da vizinhança, dera uma ceia a damas alegres na própria residência da família. Mas, ainda assim, agindo com inteira liberdade, não se sentia senhor das próprias ações, era feliz e descontente exatamente por isso. Ao recordar a breve vida, estirado na cama, sentia que as palavras cordiais de seu pai tinham cortado as últimas amarras. Ia ensaiar a vida só, apenas comboiado durante algum tempo. No dia seguinte, à uma da tarde, estaria num escritório a ver autos, a folhear o código...
A idéia pareceu-lhe tão intolerável, que se ergueu de um pulo, olhou-se de novo ao espelho a ver se não teria mudado. E achou-se perfeitamente agradável.
Então, meticulosamente, vestiu-se. Uma semana com tanta coisa a tratar! O circuito de automóveis, um piquenique noturno na Gruta de Paulo e Virgínia com a esposa do ministro de Honduras, e três ou quatro senhoras com os respectivos responsáveis, a festa dos animais oferecida pelo barão! Trabalhar quando a vida é tão bonita! E ia jantar em casa, ia talvez ao teatro com a família, voltaria cedo, para no dia seguinte, à uma hora...
O criado veio chamá-lo. Era o jantar. Saiu. O pai de casaca e de pé lia um jornal. Já passava das oito...
— Então, pensaste?
— Não, vesti-me.
— A ocasião do presidente, do baile presidencial é excelente.
— Ora o baile do presidente? - fez Jacques, que sempre ouvira seu pai ridicularizar todas as autoridades constituídas deste país.
— Farás o que entenderes.
Nesse momento, com um vestido de rendas creme sobre fundo de liberty preto, decotada e irritada, Mme. Malvina entrou. Sempre que ia ao teatro - e era dia de assinatura do Lírico - retardava o jantar para preparar-se antes. Seria impossível depois com a sua crescente gordura. Mas assim o que se tornava superior às suas forças era jantar, apesar de um razoável apetite. Então, D. Malvina fazia ato de presença, de rosto fechado.
— Por que jantamos cada vez mais tarde?
— Porque é impossível jantarmos mais cedo.
— É o Lohengrine hoje?
— É.
— Com aquele dueto que não acaba mais. Você vai?
Jacques não teve tempo de responder. A campainha retinira. O criado chegara.
— O Dr. Jorge, de automóvel, que pergunta se o senhor esqueceu.
— Ah! é verdade. E eu que prometera jantar com o Jorge!
— Onde?
— No Leme. Está aí?
— Está à espera no automóvel...
— O papá dá licença?
D. Malvina carregou o sobrecenho. As roscas do seu pescoço tornaram-se vermelhas. Mas Justino sorria complacente. Era um pai comédia moderna, como a maioria dos pais modernos. Aquele filho formado e formoso, que parecia Perseu, agradava-lhe. Depois em Jorge o velho advogado farejava graves coisas futuras a defender.
Jacques precipitou-se para a varanda, correu no jardim. Nem já lembrava o dia seguinte. Jorge guiava. Ao lado, Godofredo estava de veston azul, e dentro do automóvel fechado havia quatro mulheres.
— Então isto faz-se?
— Estava tratando da vida.
— Tu?
Um estrepitoso riso rompeu. Jacques meteu-se entre as damas. O automóvel deslizou, fugiu pela Avenida, que era um esplendor de luzes.
E enquanto o filho seguia para o prazer, e a esposa arfava irritada por ter de ir ao Lírico, o Dr. Justino Pedreira, lendo o jornal e pensando noutra cousa, fez um gesto ao criado para que lhe desse de jantar.