A MEDEIROS E ALBUQUERQUE
Permita v. que eu dedique ao jornalista raro, ao talento de escol e ao amigo bondoso este trabalho, que tanto lhe deve em conselhos e simpatia.
João do Rio
ANTES — O público quer uma nova curiosidade. As multidões meridionais são mais ou menos nervosas. A curiosidade, o apetite de saber, de estar informado, de ser conhecedor são os primeiros sintomas da agitação e da nevrose. Há da parte do público uma curiosidade malsã, quase excessiva. Não se quer conhecer as obras, prefere-se indagar a vida dos autores. Precisamos saber? Remontamos logo às origens, desventramos os ídolos, vivemos com eles. A curiosidade é hoje uma ânsia... Ora, o jornalismo é o pai dessa nevrose, porque transformou a crítica e fez a reportagem. Uma e outra fundiram-se: há neste momento a terrível reportagem experimental. Foram-se os tempos das variações eruditas sobre livros alheios e já vão caindo no silêncio das bibliotecas as teorias estéticas que às suas leis subordinavam obras alheias, esquecendo completamente os autores. Sainte-Beuve só é conhecido das gerações novas porque escreveu alguns versos e foi amante de Mme.
Vítor Hugo. Talvez apenas dele se recordem por ter essa senhora esquecido o gigante para amar o zoilo.
Quem vos fala hoje, a sério, de Schlegel, de Hegel, ou mesmo do pobre Hennequin? A crítica atual é a informação e a reportagem. Há alguns anos, Anatole France dizia: "A crítica é como a filosofia, e a história uma espécie de romance para uso dos espíritos avisados e curiosos. Ora, todo romance no fundo é uma autobiografia, e o bom crítico é aquele que conta as aventuras da própria alma entre as obras-primas." Atualmente, para o grande público, já não é isso. Se o romance, desde Balzac, outra coisa não foi senão a reportagem, genial ou não, da moral e dos costumes, a crítica é a reportagem dos autores. Só dominam hoje os que vão ao local, indagam, vêm e escrevem com o documento ao lado. A crítica passou a ser uma consulta experimental, como a fazem Brisson e Huret, e eu posso assegurar que tenho uma impressão muito mais justa e exata de Zola ou de Rostand, quando Brisson os narra numa das suas entrevistas, que lendo toda a panegírica e todos os insultos de que o Cyrano e a Terre tenham sido causa.
Foi-se o tempo, meu amigo, em que Diogo de Paiva, num estilo pelos puristas considerado perfeito, aconselhava as mulheres o não olhar para os homens moralizados. Hoje tanto olham as mulheres como os homens, e a reportagem, para que essa moralidade tenha o valor das verdades consagradas, acompanha os moralizados, vai-lhes a casa e com eles almoça. É o único meio do mundo acreditar na pureza.
Estas palavras, abundantemente difusas e paradoxais, dizia-mas, há cerca de mês, um homem muito sério e muito grave. Eu bati nervoso com as duas mãos nos braços da cadeira e indaguei: — Mas que quer o público? Qual é essa nova curiosidade? — A curiosidade do verão.
— Uma curiosidade que desaparecerá como os figos e as mangas? — Sim, não ria. Todo o povo razoavelmente constituído tem duas curiosidades intermitentes e de ordem extraprática: saber em que deuses crêem os seus profetas e o que realmente pensam e são os seus pensadores e os seus artistas. Estas curiosidades só aparecem quando a Câmara fecha. A imprensa, que fala de toda a gente, só não falou ainda dos literatos. Entretanto nós somos um país de poetas! Em cada esquina encontra-se uma escola de arte, em cada café corre desabrido esse processo epicamente nacional de sova literária, no interior das livrarias fervilham as novas escolas de arte. Como os homens variam e os livros não são lidos, oh! senhor Deus! ler todos esses volumes! Seria interessante fixar o que pensam ou o que não pensam os caros ídolos da nossa arte.
— Ídolos? — O homem que escreve é sempre um ídolo. Mesmo quando escreve mal, o que não é raro. Quando alguém se destina a ser julgado, pode ter a certeza de ser pelo menos o culto de uma alma.
O tom sentencioso do meu venerável amigo começava a irritar e a convencer.
Ele, porém, continuava animado.
— Não se pode imaginar a admiração e o culto que se devota aos homens de letras nossos.
Eu conheci um estudante que acompanhava o Coelho Neto de longe e estragou com um pince-nez grau 7 os seus olhos sãos, só porque o Neto usava grau 7. São inúmeras as pessoas que recusam a apresentação de Machado de Assis porque estão convencidas da impossibilidade de balbuciar uma palavra diante do Mestre, e muito homem fino conheço eu colecionando tudo quanto escreve Olavo Bilac...
Quer ver você a admiração? Vá a qualquer teatro onde esteja o Artur Azevedo. Basta que ele pare um momento para que em torno comece a crescer a onda dos espectadores no desejo de ouvir as palavras que, com o seu ar de Buda razoável, Artur murmura pachorrentamente. Imagine se cada uma dessas criaturas se resolver a contar, no silêncio do gabinete, as suas origens literárias, a sua formação, as preferências e principalmente o que julga do momento...
Seria o documento, a psicologia dos super-homens, o romanceiro da nossa vida de literatura, e nem por isso tão novo que assustasse. A França faz o mesmo todos os anos e a Inglaterra e a Itália têm no gênero dois livros capitais: Books which influenced me e I cento migliori libri italiani.
— Mas a admiração restringe-se a poucos. Os outros serão ouvidos, conhecidos talvez e, quem sabe? admirados. É sempre agradável ouvir a história de um homem, principalmente quando é curta. De resto, você vai fazer a história do momento literário. É preciso indagar a todos: parnasianos, líricos, decadentes, clássicos, naturalistas, sociólogos, ocultistas, anarquistas, impassíveis, humoristas, simbolistas, nefelibatas...
— Ainda há disso? — Há, há de tudo. Cada um desses homens dirá o que foi, o que é, o que pensa do futuro. Cada um desses homens julgará os outros, e, de súbito, mergulhado no círculo das variedades, ouvirá você os bons, os coléricos, os indiferentes, os irônicos, os altivos, os vagos, os místicos, debatendo-se no turbilhão das teorias d'arte.
Eu seguia fascinado o mistério visionador do conselho. O meu amigo parou.
— Talvez exagere. Em todo o caso há um resultado prático: o Brasil saberá enfim quais as tendências atuais da sua mentalidade e o público ouvirá a curiosa história das formações literárias, tão cheias sempre de nostalgia e de encantos.
— Qual! É impossível! Não tenho forças e tenho medo. Até agora convivi apenas com os crentes, que são simples e querem convencer. Os literatos, ao contrário, são cépticos e superiores. Que me dirão eles? Mefistofelicamente o meu amigo esticou o dedo: — Sei lá! Talvez alguns desaforos. Quando, entretanto, encontrares a má vontade na pele de um grande homem, corre ao mais novo dos novos e indaga a sua opinião. Ficas compensado e fica o Brasil com a idéia geral da classe pensante. Estava quase aconselhando a alternativa entre a Academia e os colégios equiparados.
Nesta mesma noite, os dois, no silêncio de sua alta biblioteca, resolvemos a maneira do inquérito: a resposta por carta para os que estão fora do Rio ou são muito reservados, e a entrevista para os outros. O meu venerável amigo, pegando a sua pena venerável, lançou no papel as seguintes perguntas do questionário, enquanto eu, humilde, ia lembrando nomes e endereços: Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram? — Das suas obras, qual a que prefere? Especificando mais ainda: quais, dentre os seus trabalhos, as cenas ou capítulos, quais os contos, quais as poesias que prefere? — Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (romance social, poesia de ação, etc.) ou há a luta entre antigas e modernas? Neste último caso, quais são elas? Quais os escritores contemporâneos que as representam? Qual a que julga destinada a predominar? — O desenvolvimento dos centros-literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte? — Vamos afinal ver o que somos! bradava ele, rindo da minha fisionomia agitada.
De repente, porém, parou.
— Falta alguma coisa ao questionário, falta a pergunta capital, em torno da qual toda a literatura gira, falta a pergunta isoladora das ironias diretas! — Qual? Não respondeu. Curvou-se, e numa letra miúda escreveu: O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária? No dia seguinte, logo pela manhã, mandava para o correio mais de cem cartas. Tinha mergulhado de todo na literatura...
aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor.
Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas.
— Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem outra alma, à luz dos bicos de gás.
Quando, porém, ia tocar o timbre de um velho bronze, o meu receio desapareceu.
Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.
— Pode-se importunar? — Ó ave madrugadora! Tu por aqui? Ergueu-se com a sua aristocrática distinção. Estava todo vestido de linho branco, a camisa alva com punhos e colarinhos duros.
— Aposto que vens ver os meus cartões postais? Eu olhava a sala onde há tanto tempo mora a Musa perfeita. As paredes desaparecem cheias de telas assinadas por grandes nomes, caquemonos de Japão, colchas de seda cor d'ouro velho. As janelas deixam ver o céu, a rua e as árvores entre cortinas cor de leite e sanefas de veludo cor de mosto. Do teto pende uma antiga tapeçaria francesa, a um canto um paravento de laca parece guardar mistérios no bric-à-brac do mobiliário — cadeiras de várias épocas, poltronas, estantes de rodízios, guéridons, divãs, dois vastos divãs turcos, largos como alcovas... Ao centro a mesa em que escreve o poeta, muito limpa e quase muito pequena, de canela preta, encimada por um ventilador. Os meus olhos repousam nos bibelots, nas jarras de porcelana cheias de flores frescas; a alma sente uma alegre impressão de confortável. O poeta faz-me sentar.
— Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
— Versos? — Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto.
Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo o entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável.
— Basta o entusiasmo pelo irrealizável para que um homem seja perfeito, já disse Barrès.
Bilac sorriu.
— Mas então não queres ler decididamente os pensamentos dos quarenta membros da Academia Francesa? — Eu venho para coisas muito mais graves.
— Tenho que há na vida coisas que se dizem mas não se escrevem, coisas que só se escrevem e outras que nem se escrevem nem se dizem mas apenas se pensam. Seria feliz se me viesses perguntar aquela, que sem me entristecer aos outros, pudesse ser pensada, falada e escrita. É entretanto difícil...
Eu ouvia-o embevecido. A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível.
Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes.
É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente." E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.
Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução.
Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. Eu o ia interromper na composição de um livro para perguntar a sua opinião sobre o estado da literatura brasileira e o papel do jornalismo para com essa mesma literatura. Ele falou-me com uma certa amargura, ligando as minhas perguntas ao seu ideal.
— Que queres tu, meu amigo? Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio. Há de resto explicações para o fato. Somos uma raça em formação, na qual lutam pela supremacia diversos elementos étnicos. Não pode haver uma literatura original, sem que a raça esteja formada, e já é prodigiosa a nossa inteligência, que consegue ser esse reflexo superior e se faz representativa do espírito latino na América. Ah! A nossa inteligência! É possível atacar, espezinhar, pulverizar de ridículo tudo o que constitui o Brasil, a sua civilização e o esforço dos seus filhos. Esses ataques são em geral feitos por brasileiros. Duas coisas porém ficam acima dos maus conceitos: a beleza da terra e o espírito que a habita, o encanto da natureza e a clara inteligência assimiladora dos homens.
Os comerciantes, os artistas em tournée, os humildes e os notáveis levam daqui a impressão imorredoura de que não há país mais aberto a todas as idéias generosas, mais espiritualmente irônico. Poderíamos acrescentar: nem mais indolente. Mas não basta haver talentos e belos livros para que haja uma literatura. Esta opinião talvez não seja uma grande novidade, mas é verdadeira. Nós nos regulamos pela França. A França não tem agora lutas de escola, nós também não; a França tem alguns moços extravagantes, nós também; há uma tendência mais forte, a tendência humanitária, nós começamos a fazer livros socialistas. Esta última corrente arrasta, no mundo, todos quantos se apercebem da angústia dos pobres e do sofrimento dos humildes. Um artista sente mais as dores terrenas que cem homens vulgares, os poetas são como o eco sonoro do verso de Hugo, entre o céu e a terra, para transmitir aos deuses os queixumes dos mortais...
A Arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro e marfim, em que os artistas se fechavam, ruíram desmoronadas. A Arte de hoje é aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela representação da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Somente um louco, — ou um egoísta monstruoso —, poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa, cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem, em que anseiam as ambições e choram os desesperos, em que se decidem os destinos dos povos e das raças...
Uma revista, que se fundasse, no Brasil, para exclusivamente cuidar de cousas de Arte, seria absurda. A Arte é a cúpula que coroa o edifício da civilização: e só pode ter arte o povo que já é "povo", que já saiu triunfante de todas as provações em que se apura e define o caráter das nacionalidades.
O que urge é compreender isso, e é aproveitar a lição dos fatos. Nós não temos unicamente, diante de nós, o problema do saneamento e do povoamento. Com o saneamento apenas, livrar-nos-emos das epidemias que os mosquitos, os ratos, os micróbios transmitem de corpo a corpo, mas deixaremos, intacta e tremenda, pairando sobre nós, a ameaça das epidemias morais, que depauperam o organismo social, e o conduzem à indisciplina, à inconsciência e à escravidão. Tratando apenas do povoamento, feito ao acaso das levas de imigração, sem fundar uma escola em cada novo núcleo de povoadores, conseguiremos somente aumentar e dilatar o império da ignorância e da irresponsabilidade.
O problema que tem de ser resolvido, juntamente com esses dois, é o da instrução. E o que dói, o que desespera, é que toda a gente culta do Brasil tem a consciência disto, e que, há mais de um século, esta verdade, anunciada, proclamada, escrita, em todas as tribunas, em todos os livros, em todos os jornais, ainda não achou governo que a servisse em terreno prático.
Houve um silêncio. O poeta falava como um filósofo e no seu lábio a verdade vibrava. Timidamente comecei uma frase, que não chegava a ser pergunta: — Os Estados procuram criar literaturas à parte. Ainda há pouco, logo após a publicação das minhas primeiras entrevistas sobre o momento literário, todos os Estados agitaram-se, S. Paulo, Rio Grande, Pernambuco...
— É dividir o que não se pode dividir. Não há talentos do Norte nem do Sul. Há talentos brasileiros.
Não posso compreender, para não citar senão um exemplo, em que os versos de Francisca Júlia possam ser paulistas. Quanto à separação da nossa futura literatura, ela se fará lentamente, como se vão formando a nossa raça e o nosso gosto, conforme as correntes mais ou menos fortes dos povos colonizadores. Talvez em 2500 existam literaturas diversas no vasto território que hoje forma o Brasil.
— E o jornalismo? Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, tão poeta que o seu nome é um alexandrino, limpou os vidros do binóculo e disse praticamente: — O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; os proprietários de jornal vêem limitada, pela falta de instrução, a tiragem das suas empresas. Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! Tenho estatísticas aterrorizadoras, fenomenais. Era natural que decrescesse a lista dos analfabetos à medida que a população aumentasse em número e civilização. Pois dá-se o contrário. Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler.
Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem.
Parou, foi até a janela, olhou o céu, que escurecera prenunciando chuva. Toda a sua figura transpirava simpatia harmoniosa. E, de entre as cortinas cor de leite, uma outra voz grave vibrou, cheia de melancolia: "Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!"
A primeira vez que falei a João Ribeiro da possibilidade de um inquérito a respeito do momento literário foi à porta do Garnier, às três da tarde, hora em que aparecem os literatos e os diplomatas, para a conversação de praxe.
João Ribeiro estava num dos seus dias de irritação.
Arriscaria dizer que me recebeu com três pedras na mão, se não tivesse a certeza de que era muito maior o número delas.
Mas eu tenho para a vida uma certa quantidade de máximas capazes de explicar e minorar os sofrimentos possíveis. Abri o saco e li uma das sentenças de Nietzsche: "Fazer planos e tomar resoluções, aí está o que nos dá uma porção de sentimentos agradáveis. Aquele que tiver a força de não ser toda a vida senão um forjador de planos será um homem feliz. Ser-lhe-á, porém, necessário de tempo em tempo executar um plano e então começarão as cóleras e as desilusões." Guardei-me de insistir. No dia seguinte o superior espírito estava mais calmo. Chamou-me para um canto, teve a bondade de achar interessante o inquérito e disse: — Vou responder. Aproveito a ocasião para acentuar umas idéias... Não prometo responder já, mas prometo ser sincero. Se for a Princesa Mangalona o livro que maior influência me tenha causado, pode ter a certeza que a ponho lá.
Quarta-feira de cinzas recebia eu esta deliciosa carta, em que a arte de escrever rivaliza com a fulgurância dos conceitos: 1. Para sua formação literária quais os autores que mais contribuíram? Em termos restritos, não posso e nem sei responder. Fui um grande ledor de folhetos, revistas e livros de todo o gênero: as minhas admirações eram sempre efêmeras e precárias e logo substituidas ou argumentadas de outras novas; pratiquei, pois, um politeísmo tão numeroso como o antigo; não sei dizer quem era o Zeuspiter desse Olimpo, mas posso dizer quem foi o Uranus primitivo.
Meu avô (à cuja sombra cedo recolhemos minha mãe e eu, órfãos de meu pai) tinha uma biblioteca de cousas portuguesas; meu avô era da geração dos cartistas e franco-maçons, embirrava com padres e frades e como neocatólico adorava o Herculano e o Saldanha Marinho. Nem então, nem depois, participei daquelas iras ou entusiasmos; da sua biblioteca o que me atraía era uma magnífica coleção do Panorama e a do Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro; se a estes ajuntar o Manual Enciclopédico de Emilio Aquiles Monteverde, que eu lia na escola, terá v. o gênesis de todas as minhas letras, ciências e artes daquela quadra.
Confesso que não aumentei de um ceitil todo aquele patrimônio, e em muitas coisas o dissipei e diminuí.
Todas as minhas horas de lazer consumiam-se em desenhar, copiando as gravuras do Panorama, em reler a mitologia e as verdades eternas do Manual Enciclopédico; por outro lado, o Almanaque de Lembranças ensinava-me a fazer charadas, e as charadas ensinaram-me a fazer versos. Não se espante de que aos doze ou treze anos eu começasse a fazer versos: eu ignorava ainda a arte, sem dúvida mais difícil, de os não fazer, arte que enfim, tarde e mal, aprendi. As minhas origens espirituais, pois, são, como a social, plebéias, rústicas e pobres, mas nunca pediram de saco e brado pelas ruas. As minhas expansões nunca fizeram explosão que pusesse em perigo o teto paterno: acomodaram-se no estreito ambiente doméstico e suportaram a pressão do silêncio externo. Resta, porém, indicar um fator singular e dos que se têm a conta de indiferentes, mas que, ao parecer, foi decisivo; sempre fui homem material, e, rudeza ou grosseria, sempre tudo submeti e subordinei à forma, não havendo para mim substância se não a externa, palpável e evidente. Sou capaz de afirmar e afirmo que me fiz poeta só e unicamente porque eu tinha então papel, esplêndido, como se diz hoje, para versos: eram umas aparas do Arquivo Econômico da Bahia, revista que meu avô assinava e cujas margens larguíssimas por supérfluas eram cortadas; do bico da tesoura eu recolhia aquelas fitas brancas e lisas, que na minha mão se enrolavam curvas como o aço dos relógios, esperando a desenvolução futura, nos momentos de furor e de estro.
Naquelas duas polegadas de papel a minha letra miúda poria destramente um alexandrino, mas nem de tanto havia mister, porque eu comecei pela oitava rima e pelo poema épico: a epopéia devia ser uma Brasileida ou Brasilíada (ou coisa que o valia, e agora me esquece) e era assunto a crônica de descobrimento do Brasil, que eu li no Panorama1 e onde se contavam os amores de Ipeca, índia tupinacuim, e de um português da frota de Cabral. Acabo aqui a história porque já vou excedendo, mal a meu grado, os limites da resposta; mas aqui tem v. mais ou menos os autores que mais contribuíram, na formação do meu primeiro e único poema: técnica — o papel aparado e o vezo da charada; ciência e mitologia — o Manual Enciclopédico; sujeito e desenvolvimento — o Panorama. O resto, atribua-o v. generosamente ao meu talento.
2. Das suas obras qual a que prefere? Obras literárias, além de um livro de versos, não as tenho; tudo quanto escrevi foram fragmentos, artigos de jornal, cousas esparsas e sem valia, das quais um colchete coordenador poderá talvez fazer um mísero opúsculo. Mas posso dizer à maneira de D. Francisco Manuel — "nunca me arrependi do que deixei de escrever".
Escrevi, sim, e v. bem o sabe, alguns livros úteis, ou com a intenção de úteis, e em realidade o foram ao menos para mim mesmo.
A Brasileida perdeu-se ou eu a rasguei, sem nenhum gesto de ira; os outros terão agonia mais lenta e hão de perder-se com mais demorados vagares.
Francamente, não prefiro nenhum, a não ser talvez um ou outro verso, dos que compus, menos pelo que vale e mais pelo que lembra na memória de outros tempos.
3. Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas( romance social, poesia de ação etc.) ou há a luta entre as antigas e as modernas? Neste último caso quais são elas? Quais os escritores contemporâneos que as representam? Qual a que julga destinada a predominar? — Acho difícil responder a tanta cousa por junto e mais do que difícil acho que seria odiosa a minha inútil franqueza. Vou ver se me conformo à verdade sem faltar às conveniências. A verdade, segundo a eu entendo, já se vê. Não gosto, absolutamente não gosto dos nossos últimos poetas; falo dos últimos, recentíssimos. Basta dizer que não os leio e que ainda que o quisesse não os podia ler. E digo com a máxima sinceridade que, em abrindo uma folha, prefiro ler um anúncio de leilão a um soneto. É a nossa poesia de hoje uma cousa pior que péssima, porque é sempre a mesma repetição eterna, descorada, longuíssima, das mesmas coisas, é a mesma ênfase chilra, destemperada, cansada como aquele chá do Tolentino...
Em bule chamado inglês Que já para pouco serve, Duas folhas lança ou três De cansado chá que ferve Com esta, a sétima vez.
Poder-se-ia ainda continuar: De fatias nem o cheiro Etc.
1 Creio que de F. A. Varnhagen; um romance histórico; estava então na baila W. Scott, entre os escritores portugueses Rebelo da Silva, Herculano, etc.
Ao menos versos destes podem ser repetidos e hão de o ser eternamente.
Está-se a ver por este excesso do meu juízo que o defeito é todo meu, falha e insuficiência da minha parte. Não é possível que eu tenha razão.
A verdade é que não sinto e não entendo, não alcanço o que querem os nossos poetas. Quer v. mais? Já transpus os limites da discrição, e numa sociedade primitiva e guerreira como esta, democracia pela força das cousas mas sem nenhuma educação liberal, e em que a regra é eliminar os discordantes, com o que disse já estou muito mal parado.
Peço-lhe, se se interessa pela minha paz de espírito, que acrescente aí numa entrelinha: há algumas exceções honrosas...
Não sucede, porém, a mesma cousa com os nossos prosadores; e ainda que eu conheça (só pela rama) umas três das grandes literaturas européias, acho que podemos falar de escritores nossos sem incontinência. Se tudo é relativo, há descomedimento a nosso favor, e a proporção que nos convém dá muito para envaidecernos.
Temos romancistas, críticos, jornalistas, oradores mais e melhor do que jamais tivemos.
Os nossos prosadores de hoje, no Rio, escrevem com gosto, clareza e não raro com perfeição de forma e outras excelências ainda há pouco tempo não sonhadas sequer; o mal estilo provinciano, condoreiro, asiático, sesquipedal, pedantesco, bombástico ou ridículo, aqui não acha quartel e cá se não vê mais no livro nem no jornal.
(Não falo de exceções para pior; nem a mesma Atenas de Péricles delas estaria isenta.) Dessa tendência concluo que o predomínio será no Brasil o do culto da linguagem clássica; temos a doença que é o dialeto e é natural que se não poupem sacrifícios pela saúde.
Faça-me justiça. Não quero dizer que nos desvelem as noites o Fr. Luís de Sousa ou o Sá de Miranda: para estes haverá obreiros modestos que lhes consagrem as insônias, trabalhadores incessantes e fragueiros. A tendência para a perfeição é um instinto ingênito de todos os artistas; nunca houve guerra aos clássicos senão depois que houve jornalismo. Os jornalistas com a sua técnica repentina não se podem prender por esses polimentos demorados, por essas limagens preguiçosas que não podem ir por máquina. Falam pro domo sua, quando invectivam as velharias de antanho. Mas se há mister, por que se não há de, até nisto, engenhar uma máquina? Não é talvez difícil e creio até que já está meio inventada.
Coloquemos a questão nos seus verdadeiros termos.
O estilo não é tanto correção, coisa trivial, mas é perfeição, isto é: a idéia precisa e exata na sua forma exata e precisa; é o bronze vazado no seu molde, a prata na sua rilheira. E qual é o artista de qualquer arte e de qualquer canto do mundo, que não busca, não pesquisa e não se deixa matar por um fim supremo? Não se trata pois de gramática nem de gramaticões impertinentes e molestos como os da minha espécie que registram e passam, e nem se oferecem como prospectos modelares à geração nova.
A escola clássica que é da perfeição de forma é eterna ou antes é a mesma eternidade da compleição humana; as outras têm e sempre tiveram direito à vida, mas são antes modas efêmeras, diárias, anuais, bisonhas, e quando muito ao cabo de três ou quatro anos são excelências que degeneraram em sensaborias, elegâncias que cada transatlântico desfaz ou recompõe... São enfim roupagens enquanto o clássico é o nu daquela nudez que o Eça queria mal velada por um manto diáfano, e outros o querem... por um capote...
###### Falta-me responder ainda a duas questões. Sobeja o assunto, mas falta o papel (como vai longe aquele bom tempo das aparas!) É também preceito ibseniano que tudo se não há de dizer de pancada e a boa regra é deixar um pouco à colaboração dos que lêem...
Das duas questões que resta responder, a uma delas — se haverá de futuro literaturas à parte nos Estados? — pode-se dizer sim ou não, conforme a distância em que se ponha aquele futuro: se é no infinito onde todas as antinomias se conciliam e as paralelas se encontram, naturalmente, matematicamente, sim é a verdadeira resposta, e não tenho dúvidas a este respeito.
Há de v., porém, permitir-me que do infinito eu não passe adiante." E depois de chegar ao infinito não tive coragem de lhe perguntar mais nada...
"Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los. Fechava-me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas...
De repente, um susto. Alguém batia à porta. E eu, com a voz embargada, dando volta à chave da secretária: já vai! já vai! A mim sempre me parecia que se viessem a saber desses versos em casa, viria o mundo abaixo. Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso, com descrições e diálogos, quando senti por trás de mim uma voz alegre: — Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava: — Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá! — Não mostres! — É que mostro! — Vai fazê-lo zangar comigo. Não sejas má! Ela ria, parecendo refletir. Depois deitou a correr pelo corredor. Segui-a comovidíssima. Na sala, o papá lia gravemente o Jornal do Comércio.
— Papá, a Júlia faz versos! — Não senhor, não lhe acredites nas falsidades! — Pois se eu os tenho aqui. Olha, toma, lê tu mesmo...
Meu pai, muito sério, descansou o Jornal. Ah! Deus do céu, que emoção a minha! Tinha uma grande vontade de chorar, de pedir perdão, de dizer que nunca mais faria essas coisas feias, e ao mesmo tempo um vago desejo que o pai sorrisse e achasse bom. Ele, entretanto, severamente lia. Na sua face calma não havia traço de cólera ou de aprovação. Leu, tornou a ler.
A folha branca crescia nas suas mãos, tomava proporções gigantescas, as proporções de um grande muro onde na minha vida acabara a alegria... Então, que achas? O pai entregou os versos, pegou de novo o Jornal, sem uma palavra, e a casa voltou à quietude normal. Fiquei esmagada. Que fazer para apagar aquele grande crime? No dia seguinte fomos ver a Gemma Cuniberti, lembra-se? Uma criança genial. Quando saímos do espetáculo, meu pai deu-me o seu braço. — Que achas da Gemma? — Um grande talento. — Imagina! O Castro pediu-me um artigo a respeito. Ando tão ocupado agora! Mas o homem insistiu, filha, insistiu tanto que não houve remédio. Disse-lhe: não faço eu, mas faz a Júlia...
Minha Nossa Senhora! Pus-me a tremer, a tremer muito. O pai, esse, estava impassível como se estivesse a dizer coisas naturais: — Estamos combinados, pois não? O prometido é devido. Fazes amanhã o artigo.
Sei lá o que respondi! O certo é que não dormi toda a noite, nervosa, imaginando frases, o começo do artigo. Pela madrugada julgava impossível escrevê-lo, tudo parecia banal ou extravagante. Mas depois do almoço, antes de sair, o pai lembrou-me como se lembra a um escritor: — Vê lá, Júlia, o artigo é para hoje.
Tenho que o levar à noite. Havia um jornal que exigia o meu trabalho. Era como se o mundo se transformasse.
Sentei-me. E escrevi assim o meu primeiro artigo... Só mais tarde, muito mais tarde, é que vim a saber a doce invenção de meu pai.
O Castro nunca exigira um artigo a respeito da Gemma..." Estávamos na casa de Filinto de Almeida, um cottage admirável, construído entre as árvores seculares da estrada de Santa Teresa. Eu descera do tramway sob uma forte carga de chuva e, enlameado, molhado, em baixo da branca escada de mármore, não sabia como explicar tão lamentável estado. Filinto, porém, com um ar levemente imperioso, o seu ar quando começa a simpatizar com alguém, tomara-me o chapéu e D. Júlia sorria, cheia de bondade.
— Entre. Ninguém vê, estamos combinados que ninguém reparará na má ação do temporal.
Fora assim que eu ousara entrar e já trinta minutos havia que ouvíamos deliciados a dona daquele lar.
A casa de Filinto fica a dez minutos da cidade e é como se estivesse perdida num afastado bairro. Não há vizinhos; não há trânsito pela estrada, a não ser o bonde de quarto em quarto d'hora. Uma grande paz parece descer das árvores. Todas as janelas estão abertas.
A sala, de um largo conforto inglês, tem uma biblioteca com os livros preferidos dos poetas, um vasto bureau cheio de papéis e revistas, e uma porção de quadros com assinaturas notáveis de Sousa Pinto, Amoedo, Parreiras... Um perpétuo cenário de apoteose divisa-se das janelas, — o cenário do Rio com o seu estrépito de sons e de cores, o tumulto das ruas estreitas, os montes escalavrados de casas, o perfume dos jardins e a enorme extensão da baía ao fundo.