Serafim Bemol, Sátiro Clemente e D. Salústio, em comandita literária, que pretendem celebrar, nos anais da pilhéria pelotense, escrevem uma novela, romance, narrativa ou cousa que melhor nome tenha, observando-se o seguinte programa:
A obra não tem fio nem pavio, os autores são obrigados a continuá-la, como entenderem, no ponto em que o associado anterior a tiver deixado.
Quando estiverem aborrecidos, ou o público começar a bocejar, matam-se os personagens todos e... assunto concluído.
A sorte designou Serafim Bemol para principiar o trabalho, dar-lhe o título e encaminhá-lo como entendesse. Seguir-se-ão com a palavra Sátiro Clemente e D. Salústio.
A Mandinga é o lôbrego título do folhetim, e começa hoje.
Arranjam-se os leitores e esperem pela volta todos os domingos e quintas-feiras em que lhes servirem este pratinho, destinado a amenizar os seus dissabores.
Temos tempo de sobra para chorar.
Poema em prosa, trágico-cômico-burlesco, que não se sabe bem como começou nem quando acabará — pela firma social S & S & S — como tudo se verá com o andar do tempo, se Deus quiser.
Não ride.
Existe — existe — abaixo de nós outros, que lemos jornais — discutimos política e tratamos de negócios — o mundo sombrio — rodeado de pouco caso — aparente — mas que é tratado com respeito, quando alguém carece do seu serviço — de ordem diversa — e que a geral hipocrisia social priva de procurar em plena luz.
O mundo que passa à nossa beira — durante o dia em que não atentamos — mas que espia o que fazemos — cospe no lugar onde pousamos o pé — e que traça no ar — sobre as nossas costas — grandes figuras fantásticas.
O tempo dos bruxedos — Não passou.
Apurai a memória e recordai-vos de mil frases soltas — sobre casos sucedidos com pessoas das vossas relações.
Recordai — recordai — atróz a dor de cabeça de um; a cólica súbita de outro; a congestão aqui, a febre acolá! Por que? Como? Por outro lado — os desgostos — as dissenções — a desconfiança — há cilada de todo o gênero.
Procurai — procurai.
São as misteriosas consultas provocadas pelo despeito — pelo ciúme — pela inveja e pela pequena ambição.
São as ignóbeis, beberagens; as representações barbaramente teatrais de cenas caóticas; as invocações — os gritos — os trejeitos — as contorções.
E o povo — por mais que ria — cá fora — lá dentro — no santuário — prosta-se.
Porque, apesar de tudo — ele não fala no feiticeiro — sem uma ponta — nem sempre oculta de um vago receio — como se o bruxo — estivesse — aqui — ouvindo e pronto a saltar sobre o imprudente e sufocá-lo com o laço invisível e todo poderoso da sua aliança com o DEMÔNIO.
No espesso nevoeiro daquela madrugada de junho — uma sexta-feira — muito enrolado na sua capa, de gola alta — chapéu mole desabado — e de sapatos de verniz — de laçarotes pretos — ia — rápido o Elesbão Soares e ao que parecia — único na rua solitária.
Amortecida na bruma — a luz dos lampiões formava uma como auréola — avermelhada tristonha e baça — o que acrescentava o isolamento do retardatário — que sem poder alongar o olhar — apenas tinha e vagamente o consolo de distinguir — sem lhes perceber as particularidades — alguns edifícios cuja arquitetura, cores, letreiros e até números conhecia.
E evidentemente o homem ia preocupado, porque resmungava — resmungava — sumido o rosto nas dobras da capa.
Quis fumar, puxou do bolso um cigarro; não encontrando fósforos — atirou-o — longe de mau humor — de encontro a uma parede.
Tomando a calçada da praça — contornou uma parte do gradil, e entrando por uma das ruas que descem para a Várzea, indo — indo perdeu-se de todo no nevoeiro e na escuridão — fazendo apenas ouvir — mais e mais enfraquecido — o bater compassado dos tacões dos seus sapatos de verniz de laçarotes pretos.
Havia já nos anos que o Elesbão Soares era viúvo. Morrera-lhe a mulher — de febre puerperal; a pobre filha — um entezinho raquítico e cheio de manchas — poucos dias resistiu as faixas em que a comprimiam, apesar dos chás e fomentações caseiras — finou-se — justamente depois que o padre — chamado a toda pressa — lhe impusera o nome de Agueda — a pedido da mãe, também Agueda — sendo madrinha — de ocasião — a dona Demitildes que já antes tinha lembrado o emprego da água de socorro como meio eficaz de salvação cristã.
Dona Agueda, que da cama, onde ainda a prendia o resguardo — percebera tudo — o pequeno caixão branco — o velório — os convidados — os cheiros de alfazema queimados e de água Labarraque — pôs-se tão desesperada, arrenego tanto de todos e de tudo — chorou — entorceu-se — alvorotou de tal forma o seu enfraquecido corpo — que em breve — acidentes diversos apareceram — complicaram-se e apesar dos cuidados empregados — morrem sem que o Elesbão — teimoso e embezerrado — aparecesse a consolar-lhe os últimos arrancos — como também já nem ao menos beijara a mirrada face morta da efêmera Agueda.
Alto, claro, de face chupada, grandes olhos azuis, casaram-se com a D. Agueda Juliana Vieira, que trouxe-lhe em dote, uma faceirice perigosa e um preto velho, o — Caboclo — grande conhecedor de ervas e raízes.
Por esse tempo, era seu caixeiro um tal Belmiro, um latagão robusto, e com o rosto cheio de espinhas nada castas e grande amador de modinhas e serenatas ao violão, e que depois de acompanhar a senhora algumas vezes nos seus passeios fora rispidamente despedido, sem procurar sequer acertar as suas contas e sem se saber bem porque, o que muito intrigou as vizinhas amigas da faceira da D. Agueda, que aliás foram unânimes em descobrir nisso, gato encerrado.
Meses depois sucedera a viuvez de Elesbão, que pôs em evidência a sua oculta, porém tenaz repugnância em acariciar as duas Aguedas — moribundas.
Depois de dar ao pesar — pelo tempo do estilo, as portas semi-cerradas — refletiu lá à seu modo no que lhe conviria fazer: tanto se vivia aqui, como além, e assim como assim — já agora — que estava livre e sem cuidados, que era apenas a sua pessoa — o verdadeiro era descansar durante algum tempo. Balanceou as suas mercadorias, conferiu os seus livros, verificou o que havia de lucros, procurou um comprador, encontro-o e passou-lhe todo o negócio, depois de regatear um pouco de parte a parte.
Depois de algum tempo de ausência, reaparecera, atirado a uma elegância pesada de dar nas vistas, ao longe, tantas as jóias, tanto o esplendor das gravatas, tanto o abuso dos perfumes.
Bem observado, era ainda aquela mesma antiga massa bruta, porém falquejada, aplainada, lixada.
Dado o período da satisfação à curiosidade de seus antigos amigos, foi resvalando para a modorra do meio, tornou-se o tipo vulgar um homem — um sujeito como os outros.
De uma feita — ao terminar uma grande festa na igreja matriz — o Elesbão Soares entrou em ala — sem saber bem como — em meio de uma porção de rapazes que esperavam na porta da sacristia — a saída das famílias e que quase todos contavam amigos -parentes ou conhecidos.
Ao enfrentar com ele — por mero acaso — caiu o leque a uma senhora que passava.
Curvou-se rápido — apanhou-o do chão — e um pouco turbado — entregou-o... não à dama — mas a um senhor, velho, grande e com cara de poucos amigos, que a acompanhava — e que nem sequer lhe disse — obrigado!...
Um dos rapazes não se conteve e disse-lhe por entre o borborinho da multidão que se atropelava:
— O senhor não devia dar o leque àquele tipo: é um grosseiro...
— Mas era o dono...
— História! Um urso! Ela, sim... um fazendão!
E deu-lhe as costas, indo na onda para fora da porta onde já estava um grupo de conhecidos seus.
Aquele simplíssimo, trivial incidente — lançou-o em busca de um antigo auxiliar — aquele quase deslembrado Caboclo cujo préstimo ele conhecia...
Eis porque — como se saisse de um baile, ia o Elesbão Soares — no denso nevoeiro daquela madrugada de junho — à Várzea — resmungando — resmungando sumido, o rosto nas dobras da capa.
Elesbão Soares, apesar de não ser criança, pois já contava os seus cinqüenta bem passados, era muito amigo de mulheres novas e de vinho velho.
Na suave e descuidade convivência destes dois elementos — mulher e vinho — se lhe foram melando as pequenas economias — que constituiam o seu cabedal.
A tristeza e a filosofia, que são a ciência do pobre, já começavam a torturá-lo.
Ora, realmente, nesse nosso planeta sublunar só é verdadeiramente ridículo o homem que não tem dinheiro. Para o alcançar com limpeza sujeita-se um triste mortal a toda sorte de trabalhos e sacrifícios, canseiras e privações. É um penar do corpo com a alma sempre esmagada por um pensamento único, constante.
O meio mais fácil de chegar a ter dinheiro sem trabalho é um casamento rico.
Muitos tem empregado esse processo com bom êxito. Os exemplos saltam como camarões em terra seca.
Não me lembre quem disse que o homem que deseja casar rico sempre consegue o seu intento.
A questão cifra-se apenas nos seguintes mandamentos:
Extirpar os escrúpulos da consciência, como quem extrai um dente cariado ou corta um calo que doi.
Procurar a mulher através de todas as torpezas, como a galinha de Esopo procurava pérolas nos monturos.
Suportar com paciência evangélica e cara alegre todas as desfeitas, como se tal coisa não acontecesse.
Insistir no mesmo sistema com preserverança e sempre com a mesma cara, bem escanhoada de toda a sombra de pundonor, até o dia do casório.
A falar a verdade, o nosso herói já trazia a sua ferrada, quando apanhou o leque à porta da sacristia, o tal velhote muito sério, com cara de poucos amigos, também já trazia a pedra no sapato.
O Elesbão não entregou o leque à senhora que o deixara cair, para não dar nas vistas daquela troça de marmanjos, que sempre acompanhavam, e que costumavam escolher a igreja para ostentar os primores de educação.
Mas que o nosso homem já sentia as vísceras engalfinhadas pelos atrativos daquela distinta dama, isso é que não padece dúvida.
Era a tal história da cobra e do sapo.
Elesbão Soares não era verdadeiramente um homem bonito, na singela expressão desta palavra.
Antes pelo contrário.
O nariz parecia um promontório de tão largo e de rugoso que era. A boca era tão rasgada que parecia querer devorar as orelhas.
Para disfarçar estes pequenos defeitos físicos e naturais o nosso homem não poupava despesas.
Ele era a bela cartola de pele de seda.
Ele era a fina camisa engomada a capricho, bem alva, sem nenhuma nódoa.
Ele era a linda gravata de várias matizes, muito sarapintada, com o seu laço artístico.
Ele era a bem esticada sobrecasaca, ornada na boutonniére de um raminho composto de catinga de mulata, amor perfeito e alecrim cheiroso.
Ele era a fresca luva Jouvin cor de telha ou verde garrafa.
Ele era a bem talhada calça de casemira francesa.
Ele era as boas botinas de verniz, número 48, que lhe requeimavam os calos e joanetes, nos dias de sol, daquelas toesas, a que ele, ingenuamente, chamava pés e que vistos de longe pareciam as duas torres da igreja Matriz deitadas no chão e cobertas de couro da Rússia.
O sapateiro que lhe fazia as botinas (só de encomenda) era o Taveira, um ermitão que viveu, in illo tempore, que calçava a Humanidade em virtude da sua profissão, e usava a língua calçada de aço para melhor cortar nas vidas alheias, como quem corta em roupa de francês.
Um belo dia, o Taveira vendeu aloja, bateu a bela plumagem, e se foi a outras plagas, onde não houvesse Elesbão. Tal qual como as andorinhas, com uma única diferença: — foi e não voltou.
E retirou-se a tempo, quando não entisicava.
Não era brincadeira, o ter de fazer botinas daquele calibre a dois pospontos.
Aquilo que era um gastar de cerol, fio e sovela.
Junte-se a isso o trabalhinho de dar a língua constantemente, e me digam se há bofes que resistam.
O nosso Elesbão era homem muito precavido no tamanho da vida.
Quando soube que o Taveira tencionava mudar de terra, e antevendo a dificuldade de conseguir outro igual, tratou logo de comprar a forma de suas botinas, a qual forma é um verdadeiro monumento, de que a nobre e muito distinta diretoria da nossa Biblioteca Pública deve fazer aquisição, ao seu tempo, como início de um museu anexo àquele utilíssimo estabelecimento.
Dissemos que o Elesbão não era bonito, mas também não era tão feio como alguns o queriam pintar.
Dizem que não há formosura sem senões e ele só tinha três: — o nariz, a boca e os pés.
Há outros bípedes que tem muito mais mas como andam saturados de muita petulância e pouca vergonha, ninguém faz o devido reparo.
Assim vai o mundo e o melhor é deixar correr o marfim.
O Caboclo...................................................................................................
O leitor, se és meu amigo, dispensa-me de te fazer o retrato do Caboclo.
Aquilo não era um preto velho; era um verdadeiro orangotango.
Parecia que tinha parte com o Belzebu.
Coçava-se, como um macaco, — e falava só, — como um desesperado.
Conhecia as virtudes de quase todas as ervase raízes, fazia benzeduras que encantavam muita gente boa e sabia de feitiços como um graúdo.
Era um portento, o raio do preto.
Ganhou fama e teve época.
Já contava com uma clientela bem regular, que lá o ia consultar e pedir-lhe remédios para vencer as dificuldades da vida.
E ele a todos acudia com proficiência de um bruto que sabia muito.
Era de ver-se, quando alguma senhora — que ainda há deste gosto — o ia consultar sobre a fidelidade do esposo, que andava arredio do lar doméstico.
O preto ouvia, ouvia as lamentações da pobre mulher, com o aprumo de um professor de ciências naturais, e com os ares de importância que o assunto exigia.
Depois de fingir-se bem compenetrado da gravidade do caso, lançava em um fogareiro com brasa três pedras de sal, três gotas de azeite, três folhas de arruda e três palhinhas em cruzes, como manda a liturgia, e todos estes movimentos acompanhados de tal engrolada de palavras sem nexo, em um idioma completamente desconhecido, o que não parecia linguagem de gente cristã.
Aquilo era com toda certeza a língua do inferno.
E aquela pobre senhora, queda e muda, toda entregue às suas dolorosas suspeitas e amargos pensamentos ali esperava — entre receiosa e crente — à profecia daquela Pitonisa de nova espécie.
Há quem não acredite em bruxedos e feitiços, nem as artimanhas do Boi-Tatá.
Pois que não acreditem, e fazem muito bem. Cada doido com a sua mania.
Nisto as crenças, gostos e cores, não há discussão possível.
Todos tem igual direito, ou as leis que nos regem são falsas, como Judas.
Se não houvesse mau gosto, não se gastava o amarelo.
O nosso Elesbão não era desses. Extremamente chato do intelecto, quando se tratava de ciências. Não via meia polegada adiante do nariz.
Lápara ele as profecias do Caboclo era um evangelho.
Dir-se-ia que o preto velho lhe fizera coisa má, que lhe enguiçara o juizo.
O Caboclo tivera a rara habilidade de comunicar-lhe ao cérebro, que era de cera virgem e bem dura, as mais diabólicas sugestões.
Dizem que é a isto que os teólogos chamam: — possessão demoníaca.
Depois que se encontrara, pela vez primeira, com aquela guapa mocetona da porta da sacristia, o mafarrico tomara conta daquela alma invadida de feitiços e visões.
Não tinha parança nem sossego.
O sono era-lhe sempre povoado de sonhos, umas vezes horrorosos como os fantasmas de Cagliostro; outras, alegres e divertidas, em que ele via a felicidade com todo o seu cortejo de ilusões e esperanças, amor e glória.
Naquela madrugada de junho, em que o deixamos caminho da Várzea, onde morava o Caboclo, um minuano frio cortava que doía — exatamente como as navalhas do meu barbeiro.
Ao dobrar uma esquina, Elesbão tropeçou num vulto que jazia alí, estendido no chão.
O nosso homem deu um pulo para trás, como se estivesse pisado numa serpente, e estacou estarrecido.
Os cabelos enriçavam-lhe, como as piaçavas de uma vassoura usada.
O promontório, — quero dizer, — o nariz tomou proporções desusadas e movimentos insólitos, como se fora abalado por um terremoto.
O sangue esteve — quase, quase, — vai, não vai, — a coalhar-se-lhe nas veias.
Sentiu um nó na garganta, como se o estivessem enforcando pela parte de dentro.
Os olhos esbugalhados saltados das órbitas, seus naturais esconderijos, pareciam querer fugir-lhe da cara e apitar pela polícia.
Causa medo do homem que tem medo!
Imaginou estar adiante de um corpo morto, e já se sentia engasgalhado pela justiça, por suspeita daquele crime.
Assim permaneceu o pobre diabo durante alguns momentos estáticos, com as idéias embrulhadas, sem tomar uma resolução.
Por fim, recobrando o ânimo, fazendo das fraquezas, forças, desceu cautelosamente à calçada, a fim de tomar o meio da rua não tirando os olhos daquele vulto e experimentando na firmeza das pernas, no caso de alguma necessidade imprevista. Quando, — já do meio da rua, — enfrentou com a causa do susto que tivera, o corpo que ele supinha inanimado, moveu-se e erguendo-se à custo dos cotovelos, e uma voz muito sua conhecida lhe disse:
— Ah! É você, amiguinho? Pelas alminhas, dê-me uns cobres para eu ir comer no Mercado, ainda hoje não comi nada, assim Deus me salve. Só bebi um copo d'água e um pouco de café.
Era o Mutuca, devoto sincero e incorrigível ao deus Baco, que ali acamara para ali cozinhar a mona mais pesada de que há memória, e ali jazia naquele engano d'alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito.
Certamente a caninha era de boa qualidade, pois o tornara impermeável à umidade e ao frio daquela agreste madrugada do mês de junho.
Mas, o que ia fazer Elesbão à casa do Caboclo aquela hora?
Quem era o velhote muito sério e com cara de poucos amigos?
Quem era aquela mocetona, airosa e bela, que deixara cair o leque, por quem o Elesbão se sentira avassalado de cruel paixão?
Mau, amigos leitores se começam com perguntas, estamos arranjados.
Tenham paciência, porque temos pano para mangas.
Ainda agora estamos no princípio, azeitando as asas para o grande vôo acrobático, cheio de muitas reviravoltas, que estamos ensaiando.
Isto vai ser um romance crônico, infindo, como a saudade daquele trovador da Judia de Tomaz Ribeiro.
E, destarte, o leitor fará de conta que é a tal hebréia linda a que se refere a poesia.
Se, tu, meu amigo, já estiveres dormindo, como aconteceu à linda hebréia, o escrivinhador destas linhas se julgará em demasia recompensado, porque elas serão de utilidade pública.
Nestes tempos calamitosos que estamos atravessando, quem pode dormir e cantar é muito feliz.
Quem dorme, esquece; — quem canta, seus males espanta.
O enredo desta peça mágica há de ser tão enredado que ninguém mais o desenredará, nem mesmo que baixe uma pastoral do bispo, aconselhando que se desfaça semelhante embrulhada.
Daqui por diante é provável que comecem a ferver surpresas de fazer arrepiar os cabelos.
Feitiços, bruxedos, incêndios, tempestades, furacões, raios, coriscos, maravilhas, maravilhas, tudo aqui será representado em notas alegres, saltitantes, petulantes, como a música de Offenbach.
De vez em quando, algumas cenas de horror, pintadas a roxo-terra e oca, para não ser tão triste.
A tinta preta só será empregada nos tipos de imprensa, e isto mesmo contra a nossa vontade.
Se pudéssemos, estes trincolhos literários seriam impressos em cores vivas e variadas, como uma iluminação veneziana.
Está hoje muito em moda filiar-se o que se escreve a certas escolas, tais como: realista, positivista, sentimentalista, etc., etc.
Este nosso modesto trabalho não pertence a nenhum destes sistemas. Filia-se simplesmente ao grupo folhetinista, de que ninguém se importa, por ser filho das ervas e do acaso.
Isto vai ser um quadro chinês, visto aos pedacinhos para não cansar.
Adorado leitor, tem resignação e espera, Roma não se fez num dia.
Destes pratinhos serve-se pouco de cada vez, exatamente como o paté de foie gras.
Lembra-te que és pó, e que nós somos três e que em pó te tornaremos a paciência, se tiveres a pachorra de nos acompanhar nesta via láctea de acontecimentos espaventosos, pois já deveis saber que a láctea e a sacra, são as duas maiores vias que se conhecem. Um trabalho de longo fôlego, como este, tem necessariamente de enveredar por um desses caminhos.
Nós somos três.
É um impossível que desta tripeça não saia obra fina e asseiada.
Livre e refeito do valente susto que o trambolho do Mutuca lhe causara, o Elesbão Soares estugou o passo, e, tomando uma rua escusa, na direção dos potreiros da Várzea, ia murmurando.
— Ah! se eu pudesse, se eu pudesse!... Mas como?
Por fim, procurou orientar-se.
Neblinava sempre, e de tal modo, que quase não se distinguiam os vultos a dois passos.
Em frente a um cercado de tábuas, dividido ao centro por um portão pintado de verde escuro, o Elesbão parou e, tateando, passando a mão espalmada, de cima para baixo e da direita para a esquerda, sobre as tábuas encharcadas, descobriu a aldabra como a qual bateu três vezes.
— Quem bate? Perguntou-lhe uma voz enrouquecida, denunciando o mau humor do locatário.
— Sou eu, o Elesbão da tia Maricota.
— Ahn! Está bom. Já aibro.
Seguiu-se o rumor de ferros a rangerem, de trancas retiradas, e o portão abriu.
— Já não esperava, seu Elesbão. Tão tarde, e com uma noite destas!
— Tive que fazer. Já começaram?
— Sim, senhor, há muito tempo.
— E tem muita gente?
— Pouquinha. Eh! Eh! polícia de seu João Afonso tem atrapalhado muito papai Caboclo.
Raio de jorná anda sempre falando. Parece que não tem mais que faze.
Enquanto falavam, o interlocutor de Elesbão, que não era outro que o velho Jerônimo, uma espécie de cérebro da caverna do Caboclo, tornou a fechar o portão, cautelosamente, e puseram-se ambos a caminho para o interior da morada.
Fizeram alguns passos, por um terreno de pântano visguento, úmido, que se pregava à sola das monumentais botinas do Elesbão, e dois minutos depois achavam-se diante de uma cortina da aniagem, tendo ao centro desenhada a carvão, uma grotesca cabeça de galo, e que os separava da sala das sessões do Caboclo. Um pandemônio a tal sala.
Imagine-se uma peça retangular, de três ou quatro metros de lado, um assoalho, sem forro, com as paredes afumaradas, cheia de retábulos esquisitos, figuras de monstros, nódoas de gorduras e cusparadas.
Tamboretes aqui e acolá carregadas de miçangas, cabeças de galos pretos, penas de aves, pedaços de ossos, caudas de boi, bonzos, relicários, corujas empalhadas, uma horrível miscelânea de objetos misteriosos, que punham um arrepio no fio de lombo dos iniciados de surpresas, nas tenebrosas práticas do Caboclo.
Ao fundo, uma mesa de pinho ensebada, mal tapada, com um jornal enxovalhado e, sobre ela, um figurão de três pés de altura representando o fetiche de que o Caboclo era, na terra, e fiel sacerdote. A beira, ao alcance da mão do sacerdos, que se acocorava a um lado, sobre um mocho, ajaezado com farrapos de cores faiscantes — uma cabeça de boi, seca, pelada, muito branca, denunciando meticuloso cuidado no seu tratamento.
O quadro era iluminado por uma lâmpada de lata. Onde se queimava azeite de peixe, presa a uma trave do teto. Três velas de cera de um amarelo escuro, quase brônzeo, disposta triangularmente na mesa do oráculo, de um modo que ao centro lhes ficava a cabeça de boi, completava esse sumaríssimo processo iluminativo, aliás muito adequado às circunstâncias e ao local.
O fumo que se desprendia da lâmpada e das velas tornava a atmosfera baça, pesada, opaca, úmida e de um tão acre cheiro de resinas, que nauseava.
Quando o Elesbão e o porteiro entraram na sala dos encantos, havia alí uns seis indivíduos, entre eles, o Maximiliano, doceiro afamado, de casaco curto e as calças muito esticadas, e um vulto de mulher completamente embuçado e de pé, à distância, como se lhe repugnasse a companhia de toda aquela gente tão hipoteticamente limpa, tão oposta à sua condição social...
Elesbão, ao levantar a cortina, piscou muitas vezes os olhos para habituá-los àquela luz de interior de mausoléo que cansava e, entre o receio, o enfado e o desejo, pondo um pé adiante e logo recuando, como quem quer mas não tem ânimo, aproximou-se da mesa.
Justamente, nesse momento, o Caboclo, resmungando palavras cabalísticas, passava e repassava nas mãos uma madeixa de cabelos, que algumas vezes, levava a altura de uma das velas.
Percebendo que se lhes aproximava um estranho, ergueu a cabeça e perguntou desabridamente:
— Que qué pecadô?
— Vim aqui, pai Caboclo, disse-lhe Elesbão, como te mandei prevenir para que faças uma consulta.
— Alguma pouca vergonha, não? remédio para paixão?
— Talvez.
— Pois, espere. Xererê está trabaiando noutra quiston.
E, sem cerimônia, entregou-se de novo à sua sobrenatural tarefa.
Elesbão conservou-se de pé, com as feições alteradas e já com muita vontade de se mandar mudar sem dizer ao que ali tinha ido.
Decorreu um quarto de hora ainda, e, por fim, o Caboclo, tendo terminado a consulta, virou-se para o Maximiliano, dizendo-lhe secamente:
— Moço há de vortá. Xererê diz.
O Maximiliano deu um suspiro de satisfação e esticou mais as calças.
Elesbão, após, contou o seu caso, narrando ao Caboclo as apreensões que o minavam sobre o amor que tão rapidamente o invadira pela rapariga da porta da igreja.
Fez-lhe o retrato da sua beleza, contou-lhe o incidente do leque, as disposições em que estava de descobri-lá e apanhá-la, fosse ela solteira, viúva ou casada.
O Caboclo, neste ponto atalhou logo, fazendo um gesto ao Elesbão que lhe chegasse o ouvido aos lábios e segredou-lhe, tão claramente como o se apreendido o Coruja.
— Se for casada, custa mais caro.
O Elesbão enfiou, vendo que o Caboclo, era um finório e se fazia passar por cassange, mas engoliu.
Enquanto o Elesbão fizera a narrativa ao Caboclo a mulher embuçada estremecera a miudo, abrira um pouco a manta para ouvir melhor, e não raras vezes, um fino sorriso misterioso lhe enflorara os lábios.
— Aquele é o senhor do leque, murmurou. O que ele virá aqui fazer, meu Deus?
— E eu que não posso sair agora!
O Caboclo, voltando ao seu papel de feiticeiro, engorolando as palavras, e entremeando-as de frases misteriosas, ouviu o Elesbão e disse-lhe:
— Precisa pecadô traze quarque cosa dessa muié para Xererê dize.
— Mas que coisa pai Caboclo?
Nesse momento, o Jerônimo levantando o reposteiro de aniagem, chamava:
— Nhan Pombinha! Carro está aí.
O Elesbão, naturalmente, voltou-se na direção ao gesto de Jerônimo e fosse pelo que fosse, tornou-se pálido.
A Pombinha não respondeu, nem se ergueu logo do lugar.
Esperou alguns instantes para que os olhares, que se tinham voltado todos para ela, se distraíssem.
Tinha um grande acanhamento em sair assim, diante de seis tipos que não conhecia, ela a Pombinha, tão festeja cá fora, na sociedade elegante.
De resto, podia estar sossegada. O esposo só poderia chegar no dia seguinte, pelo trem da tarde, e pelos seus cálculos, deviam ter apenas duas horas da manhã.
Está claro, e o leitor já percebeu que o que ela queria, sem a si mesmo o confessar, era ouvir o desenlace da consulta do Elesbão.
O Elesbão repetia a pergunta:
— Mas que coisa? Pai Caboclo.
— Lenço, camisa, meia, cabelo, coisa assim chegada ao corpo.
— Homem! chegada ao corpo? Isso há de ser-nos difícil arranjar.
— Pecadô não tem dinheiro?
— Sim, algunzinho.
— Pecadô dá dinheiro a papai Xererê (o Bonzo) e Caboclo arranja.
Pombinha, ao ouvir isto, levantou-se, não sabendo bem se devia indignar-se ou poupar ao Xererê o trabalho de fazer sugestões ao Caboclo, oferecendo ao Elesbão... não, isso não!
Mas, não era certo que ela também ali fora consultar o Caboclo sobre o seu encontro com o Elesbão? De que devia indignar-se ou de admirar-se? Ela, em suma, achava-se mais culpada, pois não se pertencia.
Agora, segredavam o Caboclo e o Elesbão, fazendo grandes gestos de entusiamos e calor. Que diriam eles? Inquiriu-se a Pombinha.
Em silêncio pesado, de subterrâneo, fez-se em seguida.
Desesperada, por não poder ouvir o que ciciavam Elesbão e o Caboclo, Pombinha foi dirigindo-se para o lugar da saída, atabafando-se ainda mais as mantas que a embuçavam. O Caboclo, interrompendo o colóquio com o Elesbão, voltou-se surrateiramente para o lado que passava a Pombinha.
— Já vai Nhanhã?
— Sim.
— Não esquece. Moço há de caí. Mande buscá chinelo pé esquerdo dele, prá trazê a Papai Caboclo.
— Está bem.
E pos a mão na cortina, rasgada secamente, com um gesto de nojo, para sair do antro.
Mas, nesse momento, um ruído estranho de vozes que altercavam em tom irritado, de golpes metálicos desferidos na madeira do cercado, de cães que acoavam ao longe, e cujos latidos acordavam os ecos, de apitos que trilhavam como um exército de grilhos monstruosos, um ruído confusamente feito de tudo isso chegou aos ouvidos da assembléia do Caboclo, que com os demais se pos de pé, estarrecido, pálido, de olhos esbugalhados.
Pombinha, gelada, deixou cair a cortina, que, naquele instante arregaçara...
O ruído crescia, avolumava-se, tornava-se, as vozes mais distintas, percebiam-se mesmo algumas frases, como Hei de acabar com esse canalha! Vai tudo para o buque! e outras, igualmente ameaçadoras.
Os fregueses do Caboclo parecaim fincados no chão como postes.
Por fim, uma massa informe de homens fardados e a paisana, alguns de chanfalhos em punho, trazendo pela frente o Jerônimo já muito amassado a soco, irrompeu na sala de sessões.
Só então o instinto de conservação, o desejo veemente de evitar a caçada da polícia inspiraram aos fregueses do Caboclo e a ele próprio a iniciativa de se porem a salvo.
Num abrir e fechar de olhos, os fregueses de Xererê — a Pombinha primeira de todos, procuraram as duas únicas janelas que deitavam para os fundos da casa, e de atropelo, embrulhados um com os outros, sem atinare mais com que faziam, galgaram os peitoris, e correram em direção aos casebres vazios que por ali havia.
Nem a escuridão plúmbea da noite, nem a neblina, nem a lama do terreno, os impediu de procurar um abrigo.
A esse tempo, os policiais desabavam na sala das sessões, esquadrinhando todos os cantos, apreendiam as miçangas, os enguiços, os bonzos, a madeixa de cabelo, tudo, entre os gritos de Jerônimo: Vovô Xererê me salve! Vovô Xererê me salve!
Não vendo ninguém na sala, os policiais se espalharam em várias direções, procurando os fugitivos, por toda a parte.
O Maximiliano e outro sujeito sem saberem como, encontraram-se entalados dentro de um quartinho ladrilhado de tijolo sem o menor resquício de mobília. E acantoaram-se no lugar mais esconso, acontoaram-se mesmo tanto, que Maximiliano exprobava o companheiro, fazendo sibilar muito os sss:
— Moço, não me amachuque asss calçasss. Meu Deus! Esteja quieto! Ah! Minha Nossa Senhora!
Por outro lado, a Pombinha e o Elesbão, sem se conhecerem ainda bem, como já mostramos, e azoinados pelo terror, atropelados pela perseguição que lhes fazia um policial mais afoito e mais conhecedor do terreno, meteram-se num grande caixão que servia para guardar milho, à cocheira contígua.
Dona Pombinha entrou primeiro, apanhando os vestidos e as mantas enrolando pudicamente com elas as pernas, Elesbão segui-a, encafuando-se como poude, mas, como tinha os pés muito grandes, deixara-os entalados entre a tampa e caixão de milho, bracejando lá dentro aos encontrões com dona Pombinha.
Por desgraça, quando ambos tinham já arranjado o melhor meio de se estirarem, o Elesbão tratava de puxar os pés das talas em que se pusera, o policial chegava, trepava sobre o caixão, esmagando as canelas do Elesbão, e batendo com os costados da espada sobre o móvel, bradava:
— Ah! Ah! sempre os apanhei!!