Leitor!
Entendamo-nos desde já:
É possível (o autor ignora-o), que haja coletânea semelhante, anterior, nacional; se existe, para melhor bem, que supere a atual no conteúdo e na forma!
Em assunto de populdrio (folk-lore diz-se, elegantemente, nas altas letras...), o registro comporta o pueril do conto, o esborcinado do dizer e a ingenuidade do ouvinte.
O merecimento deste livro subsiste na paciência com que foi ele coligido; falta-lhe relevância artística, é certo; fora porém crueza destroçá-lo por esse pecado.
Destinado à leitura entre golpes de cousas sérias, aos homens graves entediará; pois - e lhes não advirá mal, por isso-, demo-lo então aos frívolos e, destes, aos mais elevados: às crianças.
Patranhas por patranhas... que se não diga que até nisso falta-nos prata em casa!... Fica entendido, pois não?
Certa hora de pleno dezembro, por véspera do Natal, estava eu desassossegadamente abanando os mosquitos, quando, por mão de alto e grave sujeito, chegou-me um pacote, atado em cruz por cadarço listado; farta placa de lacre fechava a laçada do atilho, nem endereço nem sinete.
— Mandam-lhe!
Assim disse e logo saiu o imperturbado bípede.
Fiz - há! - solertemente e estendi a mão, tomando o volume, trégua foi para os mosquitos, que apertaram as evoluções e o zumbir.
Mas logo, mirado o pacote e o seu anonimato, despontou a dúvida, o receio, a inconveniência de um engano, uma troca...
Verificar, lógico, o verificar impunha-se.
— Oh! senhor?!... clamei.
O senhor sumira-se; nem sombra dele nem rastro; dobrara a esquina..., sumira-se, era o certo.
Pois...
Se fora a desfiar ponderações sobre a interrogante - e muda - expectativa, não bastaria a hora, aquela, de pleno dezembro, por véspera do Natal, etc. etc.
Fui-me ao laçarote: o lacre o impediu de correr, quebrei o lacre e ainda o laçarote não correu...
Cortei-o!
Sublime lance! Recordei o de Alexandre, o magno, perante o nó górdio...
Enquanto isso, os mosquitos revigoraram o ataque. Olhei-os com furor, à nuvem oscilante com ódio! E abanei, abanei-os em acelerado, com o próprio sobredito pacote. Súbito, passei de irado para pacífico; estaquei, e, num sorriso arguto, soprei ao ignoto:
— E - isto - se é uma broma?...
E sopesei o... problema: leve.
Apalpei-o: brando.
Olfatei-o: inodoro. Inodoro, bem, não. algo de lacre e de cadarço novo...
Apus-lhe o ouvido: mudo. Figura geométrica: ladrilho. Comentário de estética: papel de embrulho, amarelo, pingentes de cadarço; escamas de cera com breu e ocre.
Lamentável!
Âmbito de conjetura: tudo.
Ímpeto de curiosidade: abre!
Conselho de prudência: vê lá!
O livre arbítrio: ora!...
E sem mais tardança esventrei o calhamaço. Era um robusto caderno salpintado de muito porém legibilíssimo bastardinho da mão inteligente de um Padre vigário, arquivista alegre nas horas vagas, e que na primeira página, com sutil e perita malícia, tracejara o título:
CASOS DO ROMUALDO
Subsídios para as suas esperadas memórias póstumas, caso nestas esqueça aqueles.
Ora, aqui tem o leitor o primeiro da série dos que vão, talvez fazê-lo dizer:
— Apre!...
Eu, de mim, ignoro quem foi Romualdo. Contados os seus casos na prosa chata que se vai ler, muito perdem do sabor e graça originais; guarde porém o leitor a essência da historieta e repita-a, - por sua vez: recorte-a, enfeite-a com o brilho do gesto e da dicção, acrescente um ponto a cada conto.., e terá presente, imaginoso, criador, inesgotável.., serás tu próprio, leitor, o Romualdo, redivivo...
Verifique o mais incrédulo: em roda de palestra há dois temas que fornecem - sempre - matéria para assunto; histórias de cobras e de jóias perdidas.
Quando a conversação amodorrar, quando nela forem caindo retalhos de silêncio,
pausas longas, frases dispersas... experimente, amigo: fale de cobras e de jóias perdidas; e, daqui por diante... nos casos do Romualdo!
É no geral sestroso e dado a pôr em dúvida o que com outrem se passa o indivíduo mal-andado por este mundo de Deus.
Que pode saber do que vai - além - o homem que nunca - daqui — moveu-se, mesmo a passo de cágado?
Por isso sou mirado, eu, Romualdo, por esses tais, com um olhar parado, dentro do qual as dúvidas galopam...
É admissível, afinal, e eu perdôo-lhes: pois se eles - nunca — viram nada! Cada um viveu como um toco plantado no terreiro... como soleira de porta... como parafuso de dobradiça!
Bastará já que tivesse vivido como galo de torre de igreja, como coleira de cachorro ou como sanguessuga de barbeiro... e já muito mais cousas teria visto, cem novidades saberia, mil sucessos poderia referir. E, melhor ainda, se vivera como realejo de minhas aventuras?... Nada, pois que nada -nunca! - viram.
Entre os segundos o negócio muda um tanto de figura: falo, mas pouco, e pouco porque ainda não seria bem compreendido. Agora, quando sou centro dos terceiros, ah! então, sim, ouvidos haja, porque língua tenho e acontecimentos sobram!
Abro o saco e conto o muitíssimo que tenho visto, as aventuras em que fui parte.
Dos meus verdadeiros - casos, posso citar inúmeras testemunhas... infelizmente quase todas mortas e as restantes morando longe; há mesmo algumas cujos nomes esqueci, mas cujas fisionomias guardo nos escaninhos da memória.
Como neste assunto não sou obrigado a reger-me pelo Código do Comércio, que exige os lançamentos por ordem de datas, irei consignando os meus depoimentos, conforme se me forem eles apresentados.
E se, apesar das minhas afirmativas, pretender alguém pôr em dúvida os meus casos, peço a esse alguém que suspenda o seu juízo. Suspenda-o e consulte-me.
De corporal, sou baixinho e gordo, ruivo e imberbe; de moral, sou calado e tagarela, violento e calmo; em tudo, homem para as ocasiões.
Compre chácara quem quiser; eu, por mim, estou farto, e jurei nunca mais!...
Cansado de viagens e de caçadas, e desejando repousar, comprei uma bonita quinta, com muito arvoredo frutífero, boas águas, casa cômoda. Uma pechincha!
Pra não estar debalde, resolvi fazer uma plantação de abóboras, para vender as pevides, que, informaram-me, é remédio infalível para a solitária.
Cada abóbora produz mais de cento e cinqüenta pevides; e bastam três destas para expelir uma solitária; cada uma destas a cinco mil-réis, eram duzentos e cinqüenta mil-réis que eu apurava, só em solitárias, afora a massa das abóboras... de que eu faria goiabada.
Era ou não era negócio?...
Ora bem:
Comprei - não me lembro bem - se sete ou quinze sacos de semente, da melhor; virei as terras, encanteirei-as e semeei as minhas solitárias, digo, as minhas abóboras, numa lua nova, para grelarem com força.
Pois, passado um mês... a lavoura era pura barba-de-bode!... Dura, empenachada, parecia uma plantação de vassouras de piaçava, verdes!....
Briguei, e forte, com o vendedor das sementes, que desculpou-se dizendo ter havido troca de volumes: a semente de barba-de-bode era para um armazeneiro, que vendia-a - e caro - como tempêro estrangeiro, de luxo; que o homem tinha-se dado ao diabo, quando pelo engano tinha recebido as pevides de abóbora, mas que afinal agradou-se e havia já pedido segunda remessa, para jorrar e misturar ao café, para dar-lhe mais gosto de café.
Não achei graça nenhuma à esfarrapada explicação; o que era certo é que estava com a minha lavoura perdida, inçada daquela praga.
Ensinaram-me então que para destruir barba-de-bode, para nunca mais nascer, o único remédio era... a preá.
Comecei pois a comprar preás a torto e a direito; mandei peães a todos os rumos, escrevi a amigos e conhecidos, encomendando preás.
Foi então unia chuva dos tais bichinhos, recebia-os em sacos, em gongás, em caixões, e até tocados por diante, como tropa.
Contava, pagava e soliava, logo, na lavoura.
Realmente:uma maravilha!
Ao cabo de duas semanas não havia mais um fio de barba-de-bode.
E eu, satisfeitissimo!
Mas logo em seguida, as preás, acossadas pela fome, deram na roça do milho e do feijão; foram-me as hortaliças, aos alegretes do jardim; treparam às laranjeiras, tudo devoraram - menos marmelos.
Uma devastação!
Refleti um momento; e para extinguir as preás, resolvi meter... gatos.
Nova trabalheira; vieram-me gatos de todos os tamanhos e sexos e idades, gatos mimosos - roubados - e gatos ladrões - escorraçados - e rabões, pelados e peludos, e desorelhados, queimados, gordos, sarnentos.
Foi um jorro, uma inundação de gatos, sobre a minha quinta.
Contava, pagava e soltava-os, logo, às preás.
Efetivamente, um assombro!
Em menos duma semana não havia mais uma preá, para remédio. Liquidadas. E eu, esfregando as mãos. Mas - nem tudo lembra! - os bichanos, já sem pitança, miavam que era um desespero... e quando menos eu sonhava...
Olha a gatalhada no galinheiro E não me ficou viva uma só ave, desde os pintos até os galos de rinha!
Uma calamidade!
Nem por isso dei parte de fraco; pensei, e para acabar com os gatos, resolvi soltar-lhes... cachorros!
E vá! Na estrada!
A peonada andava numa contradança, trazendo cachorros e logo voltando a buscar mais; pelas estradas só se via passarem andantes conduzindo matilhas, e trelas de até vinte cachorros. Apareceram-me perdigueiros, veadeiros, paqueiros, onceiros, rateiros, tatuzeiros; e galgos, d'água, terras-novas, crespinhos; e grandes e pequenos, brigadores, ranhentos.
Eram centos e centos de cachorros!
Contava, pagava e soltava-os logo, aos gatos!
Indiscutivelmente: um sucesso.
Em poucos dias não se acharia nem mais um único gato, um só que fosse, para salvar um condenado da forca!
E eu, assobiando, satisfeito.
Mas - é que andei precipitado... - a cachorrada sem mais gatos... gania de jeito, que só a chumbo! E como eu não tivesse mais gatos. -. os cães, uma bela noite, atiraram-se às ovelhas, e com tal gana, que nem as maçarocas ficaram!
Um cataclismo!
Aí, meio que desanimei; mas depois de coçar-me forte, durante uns minutos largos pensei, e para acabar com os cachorros, resolvi contratar gringos, tocadores de realejo!...
Custou-me um pouco a organizar o batalhão: mas a notícia de que a paga era boa correu, e começaram a aparecer-me gringos, vindos até de onde o diabo perdeu as botas!...
Cachorro tem um terror doudo pelo realejo; é tocar-se um desses moinhos de música e o cão, mesmo preso na corrente, uiva, chora, apavora-se..., e não bá nada que o detenha na fuga; nem água fervendo, nem tição de fogo, nem comida, nem pau... só outro realejo, que o faça mudar de rumo!
Quando botei a gringalhada a manobrar os realejos, toda ao mesmo tempo, marchas, polcas, funerais, o miserere, o caranguejo, a Esteia confidente, o bitu, valsas, o solo Inglês... o maxixe quando tudo isso estrondeou nos ares... Oh! Deus do céu!...
Senhor S. Pedro!... Meu anjo da Guarda!... cachorro houve, que tão desnorteado de horror ficou, que até sobre os próprios gringos atirou-se... atirou-se..., e caiu, estrebuchando, espumando, rilhando os dentes, como danado! ...
O cachorrio pegou numa uivaçada tão espantosa que chegou a abafar o barulho dos realejos: mas logo desatou a disparar... a disparar... a disparar... e foram-se, campo fora, para os lados da rosa-dos-ventos, como assombrados!
Inegavelmente: soberbo!
E eu, cheguei a fazer uns passos de gavota, rejubilando-me; sim, senhor! Mas - e aqui tive um baque no coração.. - os gringos, sem mais cachorros para espantar, pediam comida. E eu, que não contava com a rapidez do negócio, havia-os contratado por três dias, calculando que com três dias de realejo não haveria cachorro - nem morto! - capaz de resistir...
E errei feio, porque os próprios buldogues não chegaram a agüentar nem uma hora...
E eles a pedirem comida!
E a chegarem mais gringos, que pelas estradas tinham tido notícias do meu anúncio; outros que eram ainda mandados expressamente pelos meus amigos e conhecidos e comissionados!
E cada desgraçado que chegava, como saudação, tocava-me uma peça de realejo; e quando foi de noite, todos eles, de combinação - eram cento e cinqüenta e três - resolveram fazer-me uma surpresa, e todos a um tempo, como um furacão que desaba, manobraram uma serenata sem fôlego, que durou da uma às três horas da madrugada.
Comecei a deitar sangue pelo nariz, pelos ouvidos, pelas gengivas, e desmaiei.
Ao clarear do dia recobrei os sentidos; chamei os capatazes, a peonada, uns hóspedes que tinha, e armei-os de revólveres, de davinas, de pistolas, de bacamartes; meti em quadrado os gringos, com os realejos; todos nós, armas engatilhadas, facas reluzindo, prontos a matar, tocamo-los porteira fora, aos gritos imperiosos de - silêncio! silêncio! silêncio!
Passei então um dia delicioso; sesteei regaladamente!
Mas - sempre aparece cada uma! - logo começaram a aparecer-me em casa advogados, escrivães, meirinhos, autoridades.
Ora dá-se! Um homem quieto na sua quinta, sem se preocupar da vida alheia e a vida alheia atrapalhando a sua! ...
Eram os vizinhos, queixosos, que me processavam, pediam indenizações, reclamavam contra prejuízos de que eu era causante!
Estes, porque as preás que conseguiram escapar-se haviam-se-lhes entocado nas plantações; aqueles, porque, gatos danados - dos meus - tinham-lhes mordido as criações; outros, porque os cachorros corridos comiam-lhes os rebanhos.., e até um violento protesto do cônsul, acusando-me de tentativa de morte sobre trezentos e sete gringos e meio!...
E eram citações, requerimentos, autos, contrafes, termos, inquirições.., um inferno!
Chamei advogados para a minha defesa, estes pegaram-se a discutir com os contrários: então é que a complicação complicou-se mesmo!
Os peães despediram-se medrosos os capatazes foram saindo, por causa das dúvidas...
Fiquei sozinho, na quinta solitária.
Então adoeci.
Veio um doutor para salvar-me. Mostrei-lhe a língua, tateou o pulso, rufou-me na barriga e... chamou um colega. Depois os dois chamaram um terceiro, os três, um outro; os quatro, um quinto... Já era uma dúzia deles; vieram mais ainda: cheguei a contar um quarteirão!
Desde a nuca até a sola dos pés, o meu corpo era um mapa geográfico de manchas e vergões; estava todo sanado e empolado de ventosas, inflamado dos sinapismos, lambuzado dos ungüentos, queimado dos vesicatórios, encorrilhado das embrocações, cruzado das pinceladas...
Na casca consenti tudo: no miolo, nada. Engolir, isso sim, isso é que nem à mão de Deus-Padre nenhum deles foi homem para me obrigar!
Certo dia, por doze votos fui considerado ainda vivo, e por treze dado por morto.
Venceu o um da maioria: passaram atestado de óbito e foram-se... e veio o defunteiro tomar as medidas do caixão... Que cena, esta, da tomada das medidas ... que cena!..
Dormi... até acordar-me; depois levantei-me, fiz um churrasquinho, chupei dois mates e pitei um cigarro de fumo crioulo. Sol alto montei a cavalo, para ir-me embora, de vez.
Tinha vencido sete pragas: bastava de combate.
Mas, ao sair a cancela do terreiro, vi o que nunca imaginei mais ver! ...
Vi a barba-de-bode renascendo na lavoura, algumas preás roendo ervas, três gatos em cima do telhado; dois cachorros coçando as pulgas; um gringo de realejo à sombra de um moirão, um meirinho que chegava a trote..., e um doutor que apeava-se da carriola!...
Amigo!
Cerrei pernas ao baio e só parei... quando vendi a quinta.
Pagas as contas, sobraram-me três patacas, em cobre: comprei as espoletas, pólvora e balas, e ganhei, outra vez, no sertão!
Tenha chácara quem quiser: eu, Romualdo, é que nunca mais!
Nem atado!
O reverendo Padre Bento de S. Bento - que o Senhor talvez conhecesse, não? - era um santo homem paciente - paciente! paciente! - como naquela época outro não houve.
Nos circos de burlantins muita cousa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarmos e burros que a dente pegam o palhaço pelo... atrás das pantalonas; mas a paciência para esse ensino não pode comparar-se, não pode-se, com a do reverendíssimo.
O Padre Bento, farto de aturar sacristães e não querendo estragar a sua paciência, que estava-lhe na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas... sozinho.
Preparava as galhetas, o missal, etc.; depois pachotrentameflte paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar; chegada, encaminhava-se para o altar, ë começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem.
Mas o filé, o bem bom era quando entrava a ladainha: ele cantava o nome do soneto e uma vozinha esquisita, porém, muito clara respondia logo:
— O-o-a por nob-s!
E os fiéis, em seguida, pela pequena nave atora, acudiam ao estribilho:
— Ora pro nobis!
Dessas ladainhas assisti eu a muitas, na capelinha de S. Romualdo, que era próxima a nossa casa, na Vila de...
Agora sabem quem cantava as ladainhas do Padre Bento?
Era o Lorota, um pagagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante...
Com ele diverti-me muitas vezes:
— Lorota, dá cá o pé!
E ele, ensinado pelo padre, respondia, amável!
Coitado! ... O padre morreu e o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu.
Passaram-se os anos.
Uma vez, estava eu na Serra, numa espera de onça, quando senti - confesso não medo mas um arrepio de... frio - quando ouvi, nas profundezas do mato virgem, uma ladainha religiosa!
E pausada, afinada, bem puxada em suma!
Seria um sonho? ... Estaria eu errado na tocaia das onças, e em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança de algum convento, de alguma capela, de alguma romaria?
E a ladainha, compassada e cheia, vinha se aproximando:
— Bento S. Bento!
— Ora pro nobis!
— Santo Atanásio!
— Ora pro nobis!
— S. Romualdo!
— Ora pro nobis!
Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente; nada!
Nisto, a ladainha pousou nas árvores, por cima de mim. Pousou, sim, é o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do Padre Bento, era o Lorota!
A paciência do bicho! ... Ensinar, direitinho, aos outros, a cantoria toda! ...
Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real, e perguntei para cima:
— Lorota? Dá cá o pé!
Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou-me com a antiga resposta que ele sempre dava:
— Romualdo é bonito! Bonito!
E como para obsequiar-me fez um - crrr! - como aviso de comando e recomeçou a ladainha:
— Bento S. Bento!
— Ora pro nobis!
— Santo...
Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso... o Lorota e seu bando bateu asas... e eu olhei em frente: a sete passas de distância estava agachada, de bocarra aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva, uma onça de braça e meia de comprido!
E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante:
— Or...a pro no.. .bis!
S... Ro...mual...do!
Ora... pro... nobis!...
Já em rapaz eu ouvira falar numa raça de tatus-rosqueira, porém, punha minhas dúvidas nessas históriasPassaram-se os anos caminhei muito, muito, aconteceu-me muito, mas de. tatu-rosqueira, nada!
Pois dessa feita, no Rincão das Tunas, vi; do outro lado do rio Camaquã, com estes, que a terra há de comer, vi... e se me fosse contado não acreditaria.
Periga a verdade, mas lá vai, e, demais, estavam presentes o capitão Felizardo, já falecido, o licenciado Silvinha (que perdi de vista), além dos peães, sem falar nos cachorros, por sinal bons tatuzeiros.
É sabido que as jararacas andam sempre em casal e que se alguém mata uma pode também matar a outra, no mesmo lugar, porque a viúva vem pelo rastro da companheira; se se carrega a primeira, por exemplo, para perto de casa, é contar que a outra aí vem dar; quer dizer, o bicho acompanha o seu defunto, ou seja pelo faro, ou pela dor da saudade, com os olhos da alma...
Sabe-se também - isso eu vi, vezes e vezes! - que o lagarto conduzido pela cauda, semimorto ou semivivo (há diferença entre estes estados de saúde), quando menos se espera, quebra o rabo e escapa-se.
A perdiz, finge de morta: fecha os olhos, afrouxa o pescoço, reina as asas e... zuct! de repente apruma-se e desfere o vôo.
O zorrilho...
Esta pequena divagação, que pode parecer maçante, é necessária e vem apenas provar que todo animal tem um instinto muito particular para certas aflições em que se encontra.
Era por uma bonita noite de luar. Estávamos mateando e pitando; conversa vai, conversa vem, quando o major Felizardo lembrou que podia divertir-nos proporcionando-nos uma caçadita aos tatus.
— E tatu-rosqueira, então, que é praga! ... concluiu o major.
A este dito, saltei.
— Pois há? ... inquiri.
—Xi! assim!...
E o major juntou em molho os dedos das duas mios, e assobiou comprido.
Aprestamo-nos e saímos rumo do rincão.
De chegada soltamos os cachorros, e daí a um quase-nada já lhes ouvíamos o ganiçado. Começamos a bater as toca. Aquilo foi rápido.
Havia mesmo muito tatu!
Cachorro farejava, cavava na entrada da toca, e nós já rente, de enxada, dá-le que dá-le!
Eu é que tive a sorte de descobrir o primeiro tatu; o primeiro tatu, não, o primeiro rabo de tatu. E no que o descobri, agarrei-o. Tironeei, tironeei, e nada, o bicho não vinha; já ia meter o dedo... sabem, bem?... quando o licenciado Silvinha gritou-me:
— Não faça isso, Romualdo... destorça a rosca do rabo!...
— Quê?
— Sim, e para a esquerda, a modo de parafuso inglês!
Sem ter consciência do que fazia, às mãos ambas dei umas quantas voltas para a esquerda, e qual não foi o meu espanto quando senti que efetivamente aquilo cedia, afrouxava, desatarraxava-se! ... E fiquei com o rabo na mão... sem o tatu!
Pelos outros lados os companheiros andavam na mesma faina. Algo desapontado, indaguei do licenciado:
— E agora?...
— Passe a outro. Guarde esse rabo aí no saco; daqui a pouco você verá o resto!
Aquilo era curioso, passei a outra cova, a mesma manobra: outro rabo, no saco; outra e outra, e assim porção delas.
A certa altura o tenente-coronel deu ordem de parar, pois não poderíamos transportar toda a caçada; o saco estava cheio a mais de meio.
Eu estava desconfiado e furioso, mas disfarçando, achava esquisito vir ao mato caçar tatus e só levar-lhes as caudas...
Mas o coronel Felizardo fez um sinal e logo nos arrolhamos em volta do saco; fez-se silêncio e daí a pouco começou a tatuzada a sair das tocas - desrabados todos - e vieram se chegando para o saco, focinhavam nele e ficavam quietos, como viúva velha chorando na cova de marido novo...
Ai então é que era pegar e sangrar tatu! ... Foi uma senhora matança! Fizemos umas quantas enfiadas e voltamos para casa vergando ao peso da caçada. Eu, por mim, confesso, estava atônito!
Em caminho é que o brigadeiro Felizardo me foi contando a cousa pelo miúdo
— Romualdo, você conhece o tatu peludo ou de rabo mole, o bola, o guaçu e outros; mas parece que este, nunca viu...
— De ouvido, sim!
— Ora! ouvir falar é uma cousa, ver é outra... Este tatu tem o rabo como uma rosca, por isso se chama rosqueira; caçá-lo é facílimo: descoberta a toca, basta poder agarrá-lo pela cauda e em vez de puxar destorcê-la e depois levá-la para um pouco distante naturalmente o rosqueira sente falta do peso do rabo e pelo faro vai em busca, acha-o e começa logo a cavar no chão um buraco estreito e fundo, entra então com o focinho a dar voltas e mais voltas à cauda solta, e tanto trabalha que fá-la cair de ponta para baixo no buraco que preparou: então, chega-lhe terra e vai-o enchendo, de forma que a cauda pode ficar fincada corno uma estaca, e quando ele sente que está firme, senta-se-lhe em cima e...
— E... parece incrível!
— E começa a andar à roda, à roda, sempre para a direita, até atarraxar-se de novo ao rabo. No que está pronto vai-se embora!
No dia seguinte fui ao mato, sozinho, para verificar o caso.
Descobri logo umas sete covas, portanto sete tatus; destorci sete rabos, pu-los no chão trepei a uma árvore topada e esperei vieram os tatus: vieram os tatus, fizeram os tais buracos, fincaram as caudas, sentaram-se em cima delas e começaram a rodar, a rodar, a rodar. Dentro em pouco um primeiro cessou o movimento e atirou-se para a frente, na sua posição natural, de quatro patas; e logo outro, enfim todos os sete, perfeitamente bons, enrabados, completos. Sem querer fiz um movimento, e os bichos fugiram rápidos como setas. Era a pino do meio-dia.
Para comer é que não são bons: têm a carne mui dura.
Morava na rua da tomba em um casarão acachapado, pintado de amarelo. Ao fundo o quintal, parecendo pequeno por ter ao centro uma colossal figueira.
Esta colossal figueira havia estendido grossos braços para todos os lados e copava e fechava de tal forma a ramaria e a folhagem, que a sombra era perpétua.
Não só através dela não filtrava um rastilho de sol, como também nem um pingo de chuva passava para baixo.
Não consegui manter uma galinha no quintal: quantas lá punha morriam de frio; e ali mesmo as enterrava, o cachorro, esse, tiritava como se estivesse em plena garua de agosto, batida de minuano.
Por estas e outras andava eu aborrecido com a figueira. Carregar, isso carregava que era uma temeridade.., mas nos últimos anos, menos, bastante menos.
Por outro lado, era debaixo da figueira que os meus pequenos e os da vizinhança brincavam; ai faziam as suas merendas, principalmente quando havia frutas; e com o andar do tempo a criançada chegou a fazer em volta dela um verdadeiro tapete de sementes diversas, de laranjas, marmelos, pêssegos, uvas, pêras, ameixas, de araçás, de butiás, de limas, melões, etc., enfim um calçamento de caroços e pevides.
Naturalmente cada ano as raízes da figueira cresciam e enterravam e afogavam essa caroçama que desaparecia.
Preciso dizer que a casa e o quintal e portanto a árvore pertenceram aos avós da minha sogra, esta aí nasceu e faleceu, com noventa e sete anos; e que há cinqüenta e três anos que os ditos bens pertenciam ao meu casal: basta isto para calcular-se a idade da figueira!
Ora muito bem.
Há de haver uns sete anos fez um inverno molhado e frio como nunca passei outro. Todo o mundo lembra-se desse ano. Em casa fomos todos, de ponta a ponta, atacados de tosses e catarreiras tão fortes, que julguei iríamos acabar héticos. Chiados de peito, roncos, assobios, fanhosidades, rouquidães... um barulho que até alarmava os andantes na rua!
O doutor que acudiu, como se tratasse de uma única doença, já receitava os lambedouros em dose para vir em frasco grande, dos de genebra.
Mas, qual! ... Cheguei a desanimar, e certa vez puxei o médico para uma sala dos fundos, para conversar à vontade. Conforme íamos andando, a casa ia ficando às escuras; o doutor estacou:
— Homessa! Estaremos à boca da noite às duas horas da tarde?...
— Não é nada, doutor: é a figueira!
— Que figueira, Romualdo?
— Ali, na escuridão.., não vê?
O doutor teve medo de seguir avante; eu, já se vê, prático velho, nem me abalei.
Mas tanto como rodou nos calcanhares, disse-me com franqueza:
— Romualdo, toda a doença da sua casa está ali; é a umidade, a escuridão, o abafamento que a figueira produz, derrube-a, Romualdo, derrube-a!
— O abafamento... a escuridão... a umidade...
— Sim, homem: meta-lhe o machado!
Compreendi: era tal e qual! Mas como todos estimávamos muito a figueira, resolvi derruba-la, não podá-la muito, sim.
Logo no dia seguinte começou a esgalhação; trabalhou-se uma semana, de fio a pavio, apenas parando para comer, veio carreta de bois para levantar as lenhas da poda.
Foi uma alegria, na casa. Sol, ar livre, por todas as portas e janelas; chio e paredes começaram a orear.
Ninguém mais tomou lambedouro.
Logo na primavera começou a brotação e vieram galhos novos, bonitos porém com um enfolhamento esquisito.
Esquisito, deveras. Folhas compridas e curtas, e largas e estreitas; recortadas umas, lisas outras; lustrosas, foscas; ... uma trapalhada! ... e até notei alguns pequenos espinhos.
Vi, vi bem: eram espinhos; pequenos, porém espinhos.
Até aí nada de espantar: curioso e tal, mas tem-se visto..
No ano seguinte porém, e nos outros, é que a figueira começou a encher-me de espanto, a num e ao vizindário e outras pessoas muitas. Sinto não lhes haver tomado os nomes, mas nem tudo lembra: se tenho tido essa precaução, hoje, com tais testemunhas, entupiria a muitos incrédulos malcriados a quem hei referido este caso. Mas quem mal não pensa, mal não cuida...
Pois esse ano a figueira deu figos e... marmelos; no seguinte, pêssegos e ameixas, de repente, só peras; no noutro ano, puramente laranjas, depois, apenas figos; em seguida, uvas.., e assim sucessivamente, melancias, cocos, limas, araçás, etc.., até que em certa temporada deu umas frutas esquisitas, compridinhas, ressequidas, sem gosto nenhum, nem sumo, e que, bem examinadas, eram quase como penas de aves.., até pelo cheiro ... de galinha, que conservavam...
Matutei muito, mas encontrei a explicação do fenômeno.
Simplíssimo: a figueira tinha absorvido o suco germinativo de todas as pevides e caroços e sementes que lhe alastravam o chão.., e também o das galinhas mortas que junto às suas raízes foram enterradas... Com a força do sol tudo aquilo grelou dentro da sua seiva. Como a árvore não pôde reagir contra a invasão, antes foi dominada, assim é que começou a dar frutos, na desordem que mencionei.
Em conclusão: a figueira já não sabia o que fazia; estava como uma pessoa muito velha, de miolo mole, que já não regula.
Pobre da minha figueira. Coitada!
Estava caduca!
Mais vale jeito que força.
O meu cavalinho, o Gemada, era um ótimo animal, de cômodo e rédea: marrequeiro fino e até farejador de perdizes, pelo hábito aprendido com a minha cachorra Tetéia, que foi uma maravilha.
Mas o Gemada tinha uma balda; a não ser comigo, não havia quem o obrigasse a passar um rio, em balsa.
Para cavalo era até uma burrice, isso; pois os próprios cavalos confessam - confessam pelo comportamento - que é muito mais agradável atravessar o rio na balsa, do que nadando: cansa menos e não é tão frio...
O Gemada, porém, era refratário a tais comodidades.
Fosse um peão ou qualquer outra pessoa fazê-lo entrar na balsa: gastaria horas, zangar-se-ia, cairia n'água e nada arranjava: o cavalo firmava-se, recuava, pulava, empacava-se, mas não entrava; a cacete, então era pior: empinava-se, couceava, mordia, mas não ia...
Ora, certa vez que, da barranca, eu assistia a uma dessas cenas, e tendo muita pressa e pouca paciência para fazê-lo passar a nado e encilbar do outro lado; enquanto o balseiro, já cansado de firmar a embarcação, praguejava, e o peão, já de mau humor, dava sofrenaços e tirões, e um outro auxiliar já estava rouco de tanto gritar com o cavalo, e embarreado e encharcado; enquanto essa luta durava, a mim fervia-me o sangue, e batia o queixo, enraivado, como que sacudido por febre de sezões...
Não me contive.
Desci da barranca, tomei o cavalo, apertei muito bem os arreios montei e mandei que os peães se afastassem, e que o balseiro, encostando bem a balsa à beira do rio, apenas a segurasse com a mão, de terra.
Isto feito, afastei-me como umas sete braças, firmei as rédeas e cravei as esporas na barriga do cavalo teimoso: ele gemeu com a dor, mosqueou, e saltou pra frente, como unia mola!
Daquele arranco vim à praia, e sempre tocado de espora e rebenque, de pulo, o Gemada atirou-se dentro da balsa, comigo em cima, olé!
O impulso para diante foi tão forte, que a balsa, como uma flecha, deslizou sobre a água e foi, certinha, abicar na outra margem!...
E conforme lá cheguei, tomei a cravar as esporas no Gemada, e ele, desesperado, arrancou, e, de pulo, atirou-se da balsa para terra...
O impulso para trás foi tão forte, que a balsa desandou sobre a água, e foi certinha, como uma flecha, abicar na margem donde havia saído...
Fora esse, exatamente, o cálculo que eu havia feito.
Dai por diante nunca mais inquietei-me. Havia rio para passar, em balsa? Ora!
Espora... pulo.., balsa pra lá!
Espora... pulo.., balsa pra cá!
Poucas, as pessoas cuja vida tenha deslizado serena sempre, como um dia de sol sem nuvens; raros, aqueles que Viveram sempre ao abrigo da luta pela existência; e se esses, assim postos ao abrigo, por uma circunstância toda especial da fortuna ganha pelos seus progenitores, se esses, digo, fossem de momento lançados àquela luta, provavelmente nela sucumbiriam, por entrarem na liça muito tarde, sem preparo algum nem o hábito da peleja e dos seus rigores nem da utilização das próprias faculdades.
A necessidade é uma grande mestra, e é sempre preferível que os homens moços aprendam com ela.
Houve um tempo em que eu cacei - não como amador, por simples recreio - mas por necessidade, para ganhar a vida, como negócio, em suma.
É claro que não ia perder as minhas horas a espera de preás nem tuto-tucos, nem tampouco a levantar bem-te-vis ou pica-paus. Nada: procurava caça redonda, de poder até fazer fortuna com da, pois já não podia atender às encomendas que de toda parte me chegavam.
Cada dia mais avultavam os pedidos: os compradores pagavam à vista e sem rega-tear, por vezes, para ver-me livre deles, pedia preços loucos.., nem assim!
É que eu tinha uma especialidade! -mas que especialidade! - só, somente vendia peles de onças, muito bem tiradas com rabo, cabeça e garras — tudo perfeito, sem um talho, sem um furo, sem um buraco!
Todos podem matar - e alguns, matam - onças a tiro, como eu; mas por melhor que seja esse atirador, ele estragara - sempre - o couro da presa, porque usa balas ou balins ou, pelo menos, chumbo grosso.
Eu, não: só empregava... Esperem um pouco.
Parece até que tomava a minha caça em urupuca, inteirinha, sem um arranhão, e esfolava-a tranqüilamente, como se depenasse um perdigão.
Era isso o que encantava os compradores dos meus couros... de onças.
Vários bisbilhoteiros acompanharam-me ao mato para verem o meu sistema; deixava-os ir, convidava-os mesmo, porém dispistava-os facilmente.
Como conhecia os paradouros das onças, encaminhava-me para lá.
Afoutamente.
Assobiando.
Mal os bichos pressentiam a aproximação de gente, principiavam a urrar, já assustados, mas para assustar'...
Eu, então, para fingir medo, punha-me em altos brados, a chamar pelos tais fulanos... e quanto maior a gritaria, mais urravam as onças e... mais fugiam os bisbilhoteiros! Então ficava só em campo, ou antes, no mato, muito a meu gosto.
Outros, invejosos, diziam que eu tinha um - breve - contra onça; outros, que rezava a oração de São Cogominho, que é muito forte contra os perigos do mato.
Diziam, porém tudo pura invenção.
O meu segredo era simplíssimo.
Como se sabe, é o homem o único animal capaz de respirar pela boca; todos os demais bichos respiram unicamente pelas ventas: quem lhas tapar, mata-os. Fiz centenas de verificações, por isso afirmo.
E mais, todo o bicho preso pelo focinho é bicho dominado. Veja-se o touro, por bravo que seja, uma vez tendo uma argola passada nas ventas, já está dominado, o potro, com um cachimbo bem passado, está entregue; e assim outros.
Foi partindo desta certeza que pus em prática o meu processe, mesmo porque naquela época eu não tinha ainda descoberto minha futura famosa essência - de cachorro - que tão notáveis vitórias granjeou-me. Quando ia para o mato levava duas espingardas - das marrequeiras — de carregar pela boca, e de munição de guerra apenas espoletas, pólvoras e buchas.
E em vez de ...... espere um pouco!
No que descobria a onça, fazia barulho, assanhava-a!
Ela pulava, encastelava-se numa forquilha de qualquer árvore, agitando a cauda lambendo as barbas, miando rouco, afiando as unhas...
Eu, parava-me bem em frente - que e a regra - porque se você dá costas, a onça pula-lhe em cima, e, adeus! era um dia...
Carregava a marrequeira com a sua espoleta, sua carga de pólvora e uma bucha, de sabugo de milho; depois então é que metia a... Espere um pouco!
Mas não despregava os olhos da fera. De tal forma a gente acostuma-se a estes perigos que chega a carregar a arma simplesmente pelo tato e pelo ouvido.
Quando estava preparado enfiava na mira a racha do fochinho da onça, e pum!
O bicho recebia a carga bem nas fuças; roncava, sufocado, e vinha ao chão, tonto, inconsciente, mortalmente batido, com as ventas entupidas e com o atilho pendurado no focinho.
Lestamente coma, por ele amarrava a fera a qualquer ramo e já carregava a segunda espingarda - pra dar à primeira o tempo de esfriar - e assim, ia-me à segunda. terceira, sétima onça, etc.
Caçado o número marcado, sangrava cada uma e tirava-lhe o couro, sem um talho, sem um furo, um buraco: perfeito, sem avaria!
Em lugar de balas eu comprava velas de sebo, já preparadas pelo calibre das armas em cada ponta do pavio ia preso um forte anzol.
Com o calor da póvora, no tiro o sebo saia derretido, e dando bem pela frente nas ventas da onça, entrava por elas a dentro, enchendo-as e entupindo-as; a fera mesmo espirrando não mais podia expelir aqueles batoques, que, endurecendo, asfixiavam-na.
O pavio também seguia o seu caminho: um dos anzóis fisgava certo, no focinho; o outro quase sempre pegava na língua, outra vez numa das beiçolas ou no céu da boca... e cravava-se fortemente. Assim, firmado pelas duas pontes, o pavio formava uma alça.
O..........
A..........
Nem é preciso explicar.
As cousas mais simples são sempre as que parecem mais difíceis.
Desvendado, o meu segredo é como o ovo de Colombo; agora todos dizem:
— Ora, que milagre!... Assim, Romualdo, assim, eu também faço!