São de outro tom os singelos contos que formam este segundo volume dos Alfarrábios.
Não convidam ao riso, que tão excelente especiaria é para um livro de entreter. Bem longe disso, talvez que espremam dos corações mais ternos e sentimentais uns fios de lagrimas.
Caso assim aconteça, será com bem pesar meu, pois sinceramente acho de mau-gosto lembrar-se alguém de produzir choros d'artifício à guisa de jogos de vista, quando não faltam motivos reais de tristeza e aflição.
Prometo porem desde já em expiação deste pecado literário, que o terceiro volume dos Alfarrábios irá mais brincalhão do que o primeiro
Rio de Janeiro, maio de 1873.
J. DE ALENCAR
AO CORSO
Caía a tarde.
A borrasca, tangida pelo nordeste, desdobrava sobre o oceano o manto bronzeado.
Com a sombra, que projetavam os negros castelos de nuvens, carregava-se o torvo aspecto da costa.
As ilhas que bordam esse vasto seio de mar, entre a Ponta dos Búzios e Cabo Frio, confundiam-se com a terra firme, e pareciam apenas saliências dos rochedos.
Nas águas da Ilha dos Papagaios balouçava-se um barco de borda rasa e um só mastro, tão cosido à terra, que o olhar do mais prático marinheiro não o distinguiria a meia milha de distância entre as fraguras do penedo e o farelhão dos abrolhos.
Pelas amuradas e convés do barco viam-se recostados ou estendidos de bruços, cerca de dez marujos, que passavam o tempo a galhofar, molhando a palavra em um garrafão de boa cachaça de São Gonçalo, cada um quando chegava a sua vez.
Na tilha sobre alva esteira de coco estava sentada uma linda morena, de olhos e cabelos negros, com uma boca cheia de sorrisos e feitiços.
Tinha ao colo a bela cabeça de um rapaz, deitado sobre a esteira; numa posição indolente, e com os olhos cerrados, como adormecido.
De momento a momento, a rapariga debruçava-se para pousar um beijo em cheio nos lábios do moço, que entreabria as pálpebras e recebia a carícia com um modo, que revelava quanto já se tinha saciado na ternura da meiga cachopa.
- Acorde, preguiçoso! dizia esta galanteando.
- Teus beijos embriagam, amor! Não o sabias? respondeu o moço fechando os olhos.
Nesse instante um homem, que descera a abrupta encosta do rochedo com extrema agilidade, atirou-se á ponta da verga, e travando de uma driça, deixou-se escorregar até o convés.
O desconhecido, que assim chegava de modo tão singular, era já bem entrado em anos, pois tinha a cabeça branca e o rosto cosido de rugas; mas conservara a elasticidade e nervo da idade viril.
Com a arfagem que o movimento do velho imprimiu ao navio, sobressaltou-se toda a maruja; e o moço que estava deitado na esteira, ergueu-se de golpe, como se o tocara oculta mola.
Nesse mancebo resoluto, de nobre e altivo parecer, que volvia em torno um olhar sobranceiro, ninguém por certo reconheceria o indolente rapaz que dormitava pouco antes no colo de uma mulher.
Na postura do moço não havia a menor sombra de temor nem de surpresa, mas somente a investigação rápida e o arrojo de uma natureza ardente, pronta a afrontar o perigo em toda a ocasião.
Do primeiro lanço viu o velho que para ele caminhava:
- Então, Bruno?
- Aí os temos, Senhor Aires de Lucena; é só fisgar-lhes os arpéus. Uma escuna de truz!
- Uma escuna!... Bravo, homem! E dize-me cá, são flamengos ou ingleses?
- Pelo jeito, tenho que são os malditos franceses.
- Melhor; os franceses passam por bravos, entre os mais, e cavalheiros! A termos de acabar, mais vale que seja a mãos honradas, meu velho.
A esse tempo já a maruja toda a postos esperava as ordens do capitão para manobrar.
Aires voltou-se para a rapariga:
- Adeus, amor; talvez nunca mais nos avistemos neste mundo. Fica certa porém que levo comigo duas horas de felicidade bebidas em teus olhos.
Cingindo o talhe da rapariga debulhada em lágrimas, deu-lhe um beijo, e despediu-a atando-lhe ao braço uma fina cadeia de ouro, sua derradeira jóia.
Instantes depois, uma canoinha de pescador afastava-se rapidamente em demanda da terra, impelida a remo pela rapariga.
De pé, no portaló, Aires de Lucena, fazendo à maruja um gesto imperioso, comandou a manobra.
Repetidas as vozes do comando pelo velho Bruno, colocado no castelo de proa, e executada a manobra, as velas desdobraram-se pelo mastro e vergas, e o barco singrou veloz por entre os parcéis.
O ano de 1608 em que se passam estas cenas, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha apenas trinta e três anos de existência.
Devia de ser pois uma pequena cidade, decorada com esse pomposo nome desde o primeiro dia de sua fundação, por uma traça política de Estácio de Sá, neste ponto imitado pelos governadores do Estado do Brasil.
Aos sagazes políticos pareceu da maior conveniência semear de cidades, e não de vilas, e menos de aldeias, o mapa de um vasto continente despovoado, que figurava como um dos três Estados da coroa de Sua Majestade Fidelíssima.
Com esse plano não é de admirar que um renque de palhoças ás faldas do Pão de Açúcar se chamasse desde logo cidade de São Sebastião, e fosse dotada com toda a governança devida a essa jerarquia.
Em 1608 ainda a cidade se encolhia n a crista e abas do Castelo; mas quem avaliasse da sua importância pela estreiteza da área ocupada, não andaria bem avisado.
Estas cidades coloniais, improvisadas em um momento, com uma população adventícia, e alimentadas pela metrópole no interesse da defesa das terras conquistadas, tinham uma vida toda artificial.
Assim, apesar de seus trinta e três anos, que são puerícia para uma vila, quanto mais para uma cidade, já ostentava o Rio de Janeiro o luxo e os vícios que somente se encontram nas velhas cidades, cortesãs eméritas.
Eram numerosas as casas de tavolagem; e nelas, como hoje em dia nos alcáçares, tripudiava a mocidade perdulária, que esbanjava o patrimônio da família ao correr dos dados, ou com festas e banquetes a que presidia a deusa de Citera.
Entre essa mocidade estouvada, primava pelas extravagâncias, como pela galhardia de cavalheiro, um mancebo de dezoito anos, Aires de Lucena.
Filho de um sargento-mor de batalha, de quem herdara dois anos antes abastados haveres, se atirara a vida de dissipação, dando de mão à profissão de marítimo, a que o destinara o pai e o adestrara desde criança em sua fragata.
Nos dous anos decorridos foi Aires o herói de todas as aventuras da cidade de São Sebastião.
Ao jogo os maiores páreos eram sempre os seus; e ganhava-os ou perdia-os com igual serenidade, para não dizer indiferença.
Amores, ninguém os tinha mais arrojados, mais ardentes, e também mais volúveis e inconstantes; dizia-se dele que não amava a mesma mulher três dias seguidos, embora viesse no decurso de muito tempo a amá-la aquele número de vezes.
Ao cabo dos dous anos achava-se o cavalheiro arruinado, na bolsa e na alma; tinha-as ambas vazias.- estava pobre e gasto.
Uma noite meteu na algibeira um punhado de jóias e pedrarias que lhe restavam de melhores tempos, e foi-se á casa de um usurário. Apenas escapou a cadeia de ouro, que tinha ao pescoço e de que não se apercebeu.
Com o dinheiro que obteve do judeu se dirigiu à tavolagem resolvido a decidir de seu destino. Ou ganharia para refazer a perdida abastança, ou empenharia na última cartada os destroços de um patrimônio e uma vida mal barateados.
Perdeu.
Toda a noite passara-a na febre do jogo; ao raiar da alvorada, saiu da espelunca e caminhando à-toa foi ter á Ribeira do Carmo.
Levava-o ali o desejo de beber a fresca viração do mar, e também a vaga esperança de encontrar um meio de acabar com a existência.
Naquele tempo não se usavam os estúpidos suicídios que estão hoje em voga: ninguém se matava com morfina ou massa de fósforo, nem descarregava em si um revólver.
Puxava-se um desafio ou entrava-se em alguma empresa arriscada, com o firme propósito de dar cabo de si; e morria-se combatendo, como era timbre de cavalheiro.
Embora expulsos das terras da Guanabara, e destruída a nascente colônia, não desistiram os franceses do intento de se assenhorearem de novo da magnífica baía, onde outrora campeara o Forte Coligny.
Esperando azo de tentar a empresa, continuavam no tráfego do pau-brasil, que vinham carregar em Cabo Frio, onde o trocavam com os índios por avelórios, utensis de ferro e mantas listradas.
Havia naquela paragem uma espécie de feitoria dos franceses, que facilitava esse contrabando e mantinha a antiga aliança dos Tamoios com os Guaraciabas, ou guerreiros de cabelos do sol.
A metrópole incomodava-se com a audácia desses corsários, que chegaram algumas vezes a penetrar pela baía adentro e bombardear o coração da cidade.
Bem longe porém de prover de um modo eficaz à defensão de suas colônias, tinha por sistema deixar-lhes esse encargo, apesar de estar constantemente a sugar-lhes o melhor da seiva em subsídios e fintas de toda a casta.
Baldos de meios para expurgarem a costa da cáfila de piratas, os governadores do Rio de Janeiro, de tempos em tempos, quando crescia a audácia dos pichelingues a ponto de ameaçarem os estabelecimentos portugueses, arranjavam com os minguados recursos da terra alguma expedição, que saía a desalojar os franceses.
Mas estes voltavam, trazidos pela cobiça, e após eles os flamengos e os ingleses, que também queriam seu quinhão e o tomavam sem a menor cerimônia, arrebatando a presa ao que não tinha forças para disputá-la.
Felizmente a necessidade da defesa e o incentivo do ganho tinham despertado também o gênio aventureiro dos colonos. Muitos marítimos armaram-se para o corso, e empregaram-se por conta própria no cruzeiro da costa.
Fazendo presa nos navios estrangeiros, sobretudo quando tornavam para Europa, os corsários portugueses lucravam não somente a carregação de pau-brasil, que vendiam no Rio de Janeiro ou Bahia, mas além disso vingavam os brios lusitanos, adquirindo renome pelas façanhas que obravam-
Precisamente ao tempo desta crônica, andavam os mares do Rio de Janeiro muito infestados pelos piratas; e havia na ribeira de São Sebastião a maior atividade em se armarem navios para o corso, e municiarem os que já estavam nesse mister.
Uma lembrança vaga desta circunstância flutuava no espírito de Aires, embotado pela noite de insônia.
Afagava-o a esperança de achar algum navio a sair mar em fora contra os piratas; e estava resolvido a embarcar-se nele para morrer dignamente, como filho que era de um sargento-mor de batalha.
Ao chegar à praia, avistou o cavalheiro um batel que ia atracar. Vinha dentro, além do marinheiro que remava, um mancebo derreado à popa, com a cabeça caída ao peito em uma postura que revelava desânimo. Teria ele vinte e dois anos, e era de nobre parecer.
Logo que abordou em terra o batel, ergueu-se rijo o mancebo e saltou na praia, afastando-se rápido e tão abstrato que abalroaria com Aires, se este não se desviasse pronto.
Vendo que o outro passava sem aperceber-se dele, Aires bateu-lhe no ombro:
- Donde vindes a esta hora, e tão pesaroso, Duarte de Morais?
- Aires!... disse o outro reconhecendo o amigo.
- Eu vos contava entre os felizes; mas vejo que também a aventura tem suas névoas.
- E suas noites. A minha creio que de todo escureceu.
- Que falas são estas, homem, que vos desconheço.
Travou Duarte do braço de Aires, e voltando-se para a praia mostrou-lhe um barco fundeado perto da Ilha das Cobras.
- Vedes aquele barco? Há três dias que ainda era uma formosa balandra. Nela empreguei todo meu haver para tentar a fortuna do mar. Eis o estado a que o reduziram os temporais e os piratas: é uma carcaça, nada mais.
Aires examinava com atenção a balandra, que estava em grande deterioração. Faltava-lhe o pavês de ré e ao longo dos bordos apareciam largos rombos.
- Esmoreceis com o primeiro revés!
- Que posso eu? Donde tirar o cabedal para os reparos? E devia eu tentar nova empresa, quando a primeira tão mal surtiu-me?
- Que contais então fazer do barco? Vendê-lo, sem dúvida?
- Só para lenha o comprariam no estado em que ficou. Nem vale a pena de pensar nisso; deixá-lo apodrecer aí, que não tardará muito.
- Neste caso tomo emprestada a balandra, e vou eu à aventura.
- Naquele casco aberto? Mas é uma temeridade, Aires!
- Ide-vos a casa sossegar vossa mulher que deve estar aflita; o resto me pertence. Levai este abraço; talvez não tenha tempo de dar-vos outro cá neste mundo.
Antes que Duarte o pudesse reter, saltou Aires no batel, que singrou para a balandra,
Saltando a bordo, foi Aires recebido ao portaló pela maruja um tanto surpresa da visita.
- Doravante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.
- Com o barco da maneira que está? observou o gajeiro.
Os outros resmungaram aprovando.
- Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fora ao encontro do primeiro pechelingue que passar-me por davante. O negócio há de estar quente, prometo-lhes.
- Isso era muito bom, se tivesse a gente navio; mas numa capoeira de galinhas como esta?...
- Ah! não temos navio?... Com a breca! Pois vamos procurá-lo onde se eles tomam!
Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada daquele desplante.
- Ora bem! continuou Aires. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Se lhe não toa a dança, pode-se ir à terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, avante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, se não mando carga ao mar.
Sem a mais leve sombra de hesitação, dum só e mesmo impulso magnânimo, os rudes marujos deram um passo á frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam á abordagem.
- Bravo, rapazes! Podeis contar que os pichelingues levarão desta feita uma famosa lição. Convido-vos a todos para bebermos à nossa vitória, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chantana.
- Viva o capitão!...
- Se lá não nos acharmos nessa noite, é que então estamos livres de uma vez desta praga de viver!...
- É mesmo! É uma canseira! acrescentou um marujo filósofo.
Passou Aires a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, contudo não demoveu-se por isso de seu propósito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres; e tão prontas e acertadas foram suas providências, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o aparelho consertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.
Era quanto dele exigia Aires, que o resto confiava à sorte.
Quando levantou-se a viração da tarde, a balandra cobriu-se com todo o pano e singrou barra fora.
Era meio-dia, e os sinos das torres repicavam alegremente. Lembrou-se Aires que estava a 14 de agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e encomendou-se à Virgem Santíssima.
Deste mundo não esperava mais cousa alguma para si, além de uma morte gloriosa, que legasse um triunfo à sua pátria. Mas o amigo de infância, Duarte de Morais, estava arruinado, e ele queria restituir-lhe o patrimônio, deixando-lhe em troca do chaveco desmantelado um bom navio.
Há momentos em que O espírito mais indiferente é repassado pela gravidade das circunstâncias. Colocado já no limiar da eternidade, olhando o mundo como uma terra a submergir-se no oceano pela popa de seu navio, Aires absorveu-se naquela cisma religiosa, que balbuciava uma prece, no meio da contrição da alma, crivada pelo pecado.
Uma vez chegou o mancebo a esclavinhar as mãos, e as ia erguendo no fervor de uma súplica; mas deu cobro de si, e disfarçou com enleio, receoso de que o tivesse percebido a maruja naquela atitude.
Dobrando o Pão d'Açúcar, com a proa para o norte, e o vento à bolina, sulcou a balandra ao longo da praia de Copacabana e Gávea. Conhecia Aires perfeitamente toda aquela costa com seus recantos, por tê-la freqüentemente percorrido no navio de seu pai, durante o cruzeiro que este fazia aos pichelingues.
Escolheu posição estratégica, em uma aba da Ilha dos Papagaios onde o encontramos, e colocou o velho gajeiro Bruno de atalaia no píncaro de um rochedo, para lhe dar aviso do primeiro navio que aparecesse.
Se o arrojado mancebo tinha desde o primeiro instante arrebatado a maruja pela sua intrepidez, a presteza e tino com que provera aos reparos da balandra, a segurança de sua manobra por entre os parcéis, e a sagacidade da posição que tomara, haviam inspirado a confiança absoluta, que torna a tripulação um instrumento cego e quase mecânico na mão do comandante.
Enquanto esperava, Aires vira do tombadilho passar uma canoinha de pescador, dirigida por uma formosa rapariga.
- Para aprender o meu novo ofício de corsário vou dar caça á canoa! exclamou o mancebo a rir. Olá, rapazes!
E saltou no bate!, acompanhado por quatro marujos que a um aceno esticaram os remos.
- Com certeza é espia dos calvinistas! Força, rapazes; carecemos de agarrá-la a todo o transe.
Facilmente foi a canoa alcançada, e trazida a bordo a rapariga, que ainda trêmula de medo, todavia já despregava dos lábios no meio dos requebros vergonhosos um sorriso brejeiro.
Vira ela e ouvira os chupões que lhe atirava à sorrelfa a boca de Aires apinhada à feição de beijo.
- Tocam a descansar, rapazes, e a refrescar. Eu cá vou tripular esta presa, enquanto não capturamos a outra.
Isto disse-o Aires a rir; e os marujos lhe responderam no mesmo tom.
Desabava a tempestade, que desde o transmontar do sol estava iminente sobre a costa.
Passaram algumas lufadas rijas e ardentes: eram as primeiras baforadas da procela. Pouco depois caiu a refega impetuosa e cavou o mar, levantando enormes vagalhões.
Aires até ali bordejava com os estais e a bujarrona, entre as Ilhas dos Papagaios e a do Breu, mascarando a balandra de modo a não ser vista da escuna, que passava ao largo com as gáveas nos rizes.
Ao cair da refega porém, mandou Aires soltar todo o pano; e meter a proa direita sobre o corsário.
- Cheguem à fala, rapazes, gritou o comandante.
Cercaram-no sem demora os marujos.
- Vamos sobre a escuna com a borrasca, desarvorados por ela, traquete roto e o mais pano a açoitar o mastro. Percebeis?.
- Se está claro como o sol!
- Olhai os arpéus, que não nos escape das garras o inimigo. Quanto às armas, aproveitai este aviso de um homem que ele só a dormir entendia mais do ofício, que todos os marítimos do mundo e bem acordados. Para a abordagem não há como a machadinha; apunhada por um homem destemido, não é arma, senão braço e mão de ferro, que decepa quanto se lhe opõe. Não se carece de mais; um cabide d'armas servirá para a defesa, mas para o ataque, não.
Proferidas estas palavras, tomou Aires a machadinha que lhe fora buscar um grumete e passou-a na cinta sobre a ilharga.
- Alerta, rapazes; que estamos com eles.
Nesse momento, com efeito, a balandra acabando de dobrar a ponta da ilha estava no horizonte da escuna e podia ser avistada a cada instante. A advertência do comandante, os marujos dispersaram-se pelo navio, correndo uns às vergas, outros às enxárcias e escotas de mezena e traquete.
No portaló Aires comandava uma manobra, que os marinheiros de sobreaviso executavam ás avessas; de modo que em poucos momentos farrapos de vela estortegavam como serpentes em fúria, enroscando-se ao mastro; levantava-se de bordo medonha celeuma; e a balandra corria em árvore seca arrebatada pela tempestade.
Da escuna, que singrava airosamente, capeando à refega, viram os franceses de repente cair-lhes sobre como um turbilhão, o barco desarvorado, e orçaram para evitar o abalroamento. Mas de seu lado a balandra carregara, de modo que foi inevitável o choque.
Antes que os franceses se recobrassem do abalo produzido pelo embate, arremessavam-se no tombadilho da escuna doze demônios que abateram quanto se interpunha à sua passagem. Assim varreram o convés de proa a popa.
Só aí encontraram séria resistência. Um mancebo, que pelo trajo e aspecto nobre, inculcava ser o comandante da escuna, acabava de subir ao convés, e precipitava-se contra os assaltantes, seguido por alguns marinheiros que se haviam refugiado naquele ponto.
Mal avistou o reforço, Aires que debalde buscava com os olhos o comandante francês, pressentiu-o na figura do mancebo, e arrojou-se avante, abrindo caminho com a machadinha.
Foi terrível e encarniçada a luta. Eram para se medirem os dois adversários, na coragem como na destreza. Mas Aires tinha por si a embriaguez do triunfo que obra prodígios, enquanto o francês sentia apagar-se a estrela de sua ventura, e já não combatia senão pela honra e pela vingança.
Recuando ante os golpes da machadinha de Aires, que relampeava como uma chuva de raios, o comandante da escuna, acossado na borda, atirou-se da popa abaixo, mas ainda no ar o alcançara o golpe que lhe decepou o braço direito.
Um grito de desespero estrugiu pelos ares. Soltara-o aquela mulher que lá se arroja para a popa do navio, com os cabelos desgrenhados, e uma linda criança constrangida ao seio num ímpeto de aflição.
Aires recuou tocado de compaixão e respeito.
Ela, que chegara à borda do pavês de ré precisamente quando o mar rasgava os abismos para submergir O esposo, tomou um impulso para arrojar-se após. Mas o pranto da filha a retraiu desse primeiro assomo.
Voltou-se para o navio, e viu Aires a contemplá-la mudo e sombrio; estendeu para ele a criança, e depondo-lha nos braços, desapareceu, tragada pelas ondas.
Os destroços da tripulação da escuna aproveitavam-se da ocasião para atacar á traição Aires, que eles supunham desprecatado; porém o mancebo apesar de comovido, percebeu-lhes o intento, e cingindo a criança ao peito com o braço esquerdo, marchou contra os corsários, que buscavam nas vagas, como seu comandante, a última e falaz esperança de salvação.
O dia seguinte, com a viração da manhã, entrava galhardamente a barra do Rio de Janeiro uma linda escuna, que rasava as ondas como uma gaivota.
Não fora sem razão que o armador francês ao lançar do estaleiro aquele casco bem talhado com o nome de Mouette, lhe pusera na popa a figura do alcíon dos mares, desfraldando as asas.
À popa, na driça da mezena, tremulavam as quinas portuguesas sobre a bandeira francesa arreada a meio e colhida como um troféu.
No seu posto de comando, Aires embora atento à manobra, não podia de todo arrancar-se aos pensamentos que de tropel lhe invadiam o espírito, e o disputavam com irresistível tirania.
Fizera o mancebo uma presa soberba. Além do carregamento de pau-brasil com que sempre contara, e de um excelente navio mui veleiro e de sólida construção, achara a bordo da escuna avultado cabedal em ouro, quinhão que ao capitão francês coubera na presa de um galeão espanhol procedente do México, e tomado em caminho por três corsários.
Achava-se pois Aires de Lucena outra vez rico, e porventura mais do que o fora; deduzida a parte de cada marujo e o preço da balandra, ainda lhe ficavam uns cinqüenta mil cruzados, com os quais podia continuar por muito tempo a existência dissipada que levara até então.
Com a riqueza, voltara-lhe o prazer de viver. Naquele momento respirava com delícia a frescura da manhã, e seu olhar afagava amorosamente a pequena cidade, derramada pelas encostas e faldas do Castelo.
Apenas fundeou a escuna, largou Aires de bordo, e ganhando a ribeira, dirigiu-se á casa de Duarte de Morais.
Encontrou-o a ele e a mulher à mesa do almoço; alguma tristeza que havia nessa refeição de família, a chegada de Aires a dissipou como por encanto. Era tal a efusão de seu nobre semblante, que do primeiro olhar derramou um doce contentamento nas duas almas desconsoladas.
- Boas-novas, Duarte!
- Não carecia que falásseis, Aires, pois já no-lo tinha dito vosso rosto prazenteiro. Não é, Úrsula?
- Pois não fora?... O Senhor Aires vem que é uma páscoa florida.
- E não lhe pareça, que foram páscoas para todos nós.
Referiu o mancebo em termos rápidos e sucintos o que havia feito nos dois últimos dias.
- Aqui está o preço da balandra e vosso quinhão da presa como dono, concluiu Aires deitando sobre a mesa duas bolsas cheias de ouro.
- Mas isto vos pertence, pois é o prêmio de vosso denodo. Eu nada arrisquei senão algumas tábuas velhas, que não valiam uma onça.
- Valiam mil, e a prova é que sem as tábuas velhas, continuaríeis a ser um pobretão, e eu teria a esta hora acabado com o meu fadário, pois já vos disse uma vez: a ampulheta de minha vida é uma bolsa; com a derradeira moeda cairá o último grão de areia.
- Porque vos habituastes à riqueza; mas a mim a pobreza, apesar de sua feia catadura, não me assusta.
- Assusta-me a mim, Duarte de Morais, que não sei que há de ser de nos quando se acabar o resto das economias! acudiu Úrsula.
- Bem vedes, amigo, que não deveis sujeitar a privações a companheira de vossa vida, por um escrúpulo que me ofende. Não quereis reconhecer que esta soma vos é devida, nem me concedeis o direito de obsequiar-vos com ela; pois sou eu quem vos quero dever.
- A mim, Aires?
- Faltou-me referir uma circunstância do combate. A mulher do corsário francês arrojou-se ao mar, após o marido, deixando-me nos braços sua filhinha de colo. Roubei a essa inocente criança pai e mãe; quero reparar a orfandade a que voluntariamente a condenei. Se eu não fosse o estragado e perdido que sou, lhe daria meu nome e a minha ternura!... Mas para um dia corar da vergonha de semelhante pai!... Não! Não pode ser!...
- Não exagereis vossos pecados, Aires; foram os ardores da juventude. Aposto eu que já vão arrefecendo, e quando essa criança tornar-se moça, também estareis de todo emendado! Não pensas como eu, Úrsula?
- Eu sei!... Na dúvida não me fiava, acudiu a linda carioca.
- O pai que eu destino a essa criança sois vós, Duarte de Morais, e vossa mulher lhe servirá de mãe. Ela deve ignorar sempre que teve outros, e que fui eu quem lhos roubei. Aceitem pois esta menina, e com ela a fortuna que lhe pertencia. Tereis ânimo de recusar-me este serviço, de que preciso para repouso de minha vida?
- Disponde de nós, Aires, e desta casa.
A um apito de Aires; apareceu o velho Bruno, carregando nos braços como uma ama-seca, a filha do corsário. Era um lindo anjinho louro, de cabelos anelados como os velos do cordeiro, com os olhos azuis e tão grandes, que lhe enchiam o rosto mimoso.
- Oh! que serafim! exclamou Úrsula tomando a criança das mãos rudes e calosas do gajeiro, e cobrindo-a de carícias.
Nessa mesma noite o velho Bruno por ordem do capitão regalava a maruja na taberna do Simão Chanfana, ao Beco da Fidalga.
Aires ai apareceu um momento para trincar uma saúde com os rapazes.
Domingo seguinte a bordo da escuna tudo era festa.
No rico altar armado á popa com os mais custosos brocados, via-se a figura de Nossa Senhora da Glória, obra de um entalhador de São Sebastião que a esculpira em madeira.
Embora fosse tosco o trabalho, saíra o vulto da Virgem com um aspecto nobre, sobretudo depois que o artífice tinha feito a encarnação e pintura da imagem.
Em frente ao altar achavam-se Aires de Lucena, Duarte de Morais e a mulher, além dos convidados da função. Úrsula tinha nos braços, envolta em alva toalha de crivo, a linda criancinha loura, que adotara por filha.
Mais longe, a maruja comovida com a cerimônia, fazia alas, esperando que o padre se paramentasse. Este não se demorou, com pouco apareceu no convés e subiu ao altar.
Começou então a cerimônia do benzimento da Virgem, que prolongou-se conforme o cerimonial da Igreja. Terminado o ato, todos até o último dos grumetes foram por sua vez beijar os pés da Virgem.
Em seguida se passou ao batismo da filha adotiva de Duarte de Morais. Foi madrinha Nossa Senhora da Glória, de quem recebeu a menina o nome que trouxe, pela razão de a ter Aires salvado no dia daquela invocação.
Esta razão porém calou-se; pois a criança foi batizada como filha de Duarte de Morais e Úrsula; e a explicação do nome deu-se com ter ela escapado de grave doença no dia 15 de agosto. Por igual devoção tomou-se a mesma Virgem Santíssima para padroeira da escuna, pois à sua divina e milagrosa intercessão se devia a vitória sobre os hereges e a captura do navio.
Depois da bênção e batismo da escuna, acompanharam todos em procissão o sacerdote que de imagem alçada dirigiu-se à proa onde tinham de antemão preparado um nicho.
Por volta do meio-dia terminou a cerimônia, e a linda escuna desfraldando as velas bordejou pela baía em sinal de regozijo pelo seu batismo, e veio deitar o ferro em uma sombria e formosa enseada que havia na praia do Catete, ainda naquele tempo coberta da floresta que deu nome ao lugar.
Essa praia tinha dois outeiros que lhe serviam como de atalaias, um olhando para a barra, o outro para a cidade. Era ao sopé deste último que ficava a abra, onde fundeou a escuna Maria da Glória, à sombra das grandes árvores e do outeiro, que mais tarde devia tomar-lhe o nome.
Aí serviu-se lauto banquete aos convivas, e levantaram-se muitos brindes ao herói da festa, Aires de Lucena, o intrépido corsário, cujos rasgos de valor eram celebrados com um entusiasmo sincero, mas decerto afervorado pelas iguarias que trascalavam.
É sempre assim; a gula foi e há de ser para certos homens a mais fecunda e inspirada de todas as musas conhecidas.
Ao toque de trindades, cuidou Aires de voltar à cidade, para desembarcar os convidados; mas com pasmo do comandante e de toda a maruja não houve meio de safar a âncora do fundo.
Certos sujeitos mais desabusados asseguravam que sendo a praia coberta de árvores, na raiz de alguma fisgara a âncora, e assim explicavam o acidente. O geral, porém, vendo nisso um milagre, o referiam mais ou menos por este teor.
Segundo a tradição, Nossa Senhora da Glória agastada por terem-na escolhido para padroeira de um navio corsário, tomado aos hereges, durante o banquete abandonara o seu nicho da proa e se refugiara no cimo do outeiro, onde à noite se via brilhar o seu resplendor por entre as árvores.
Sabendo o que, Aires de Lucena botou-se para a praia e foi subindo a encosta do morro em demanda da luz, que lhe parecia uma estrela. Chegado ao tope, avistou a imagem da Senhora da Glória em cima de um grande seixo, e ajoelhado defronte um ermitão a rezar.
- Quem te deu, barbudo, o atrevimento de roubares a padroeira de meu navio, gritou Aires irado.
Ergueu-se o ermitão com brandura e placidez.
- Foi a senhora da Glória quem mandou-me que a livrasse da fábrica dos hereges e a trouxesse aqui onde quer ter sua ermida.
- Há de tê-la e bem rica, mas depois de servir de padroeira à minha escuna.
Palavras não eram ditas, que a imagem abalou do seixo onde estava e foi sem tocar o chão descendo pela encosta da montanha. De bordo viram o resplendor brilhando por entre o arvoredo, até que chegado à praia deslizou rapidamente pela flor das ondas em demanda da proa do navio.
Eis o que ainda no século passado, quando se edificou a atual ermida de Nossa Senhora da Glória, contavam os velhos devotos, coevos de Aires de Lucena. Todavia não faltavam incrédulos que metessem o caso à bulha.
A crê-los, o ermitão não passava de um mateiro beato, que se aproveitara da confusão do banquete para furtar a imagem do nicho, e levá-la ao cimo do outeiro, onde não tardaria a inventar uma romagem, para especular com a devoção da Virgem.
Quanto ao resplendor era em linguagem vulgar um archote que o espertalhão levara de bordo, e que servira a Aires de Lucena para voltar ao navio conduzindo a imagem.
Dezesseis anos tinham decorrido.
Era sobre tarde.
Grande ajuntamento havia na esplanada do Largo de São Sebastião, ao alto do Castelo, para ver entrar a escuna Maria da Glória.
Os pescadores tinham anunciado a próxima chegada do navio, que bordejava fora da barra à espera de vento, e o povo concorria para saudar o valente corsário cujas surtidas ao mar eram sempre assinaladas por façanhas admiráveis.
Nunca ele tornava do cruzeiro sem trazer uma presa, quando não eram três, como nessa tarde em que estamos.
Tornara-se Aires com a experiência um consumado navegante, e o mais bravo e temível capitão de mar entre quantos sulcavam os dois oceanos. Era de recursos inesgotáveis; tinha ardis para lograr o mais esperto marítimo; e com o engenho e intrepidez multiplicava as forças de seu navio a ponto de animar-se a combater naus ou fragatas, e de resistir ás esquadras de pichelingues que se juntavam para dar cabo dele.
Todas estas gentilezas, a maruja bem como a gente do povo as lançava à conta da proteção da Virgem Santíssima, acreditando que a escuna era invencível, enquanto sua divina padroeira a não desamparasse.
Aires tinha continuado na mesma vida dissipada, com a diferença que a sua façanha da tomada da escuna lhe incutira o gosto pelas empresas arriscadas, que vinham assim distrai-lo da monotonia da cidade, além de lhe fornecer o ouro que ele semeava a mãos-cheias por seu caminho.
Em sentindo-se aborrido dos prazeres tão gozados, ou escasseando-lhe a moeda na bolsa, fazia-se ao mar em busca dos pichelingues que já o conheciam às léguas e fugiam dele como o diabo da cruz. Mas dava-lhes caça o valente corsário, e perseguia-os dias sobre dias até fisgar-lhes os arpéus.
Como o povo, também ele acreditava que à intercessão de Nossa Senhora da Glória devia a constante fortuna que uma só vez não o desajudara; e por isso tinha uma devoção fervorosa pela divina padroeira de seu navio, a quem não esquecia de encomendar-se nos transes mais arriscados.
Tornando de suas correrias marítimas, Aires, da parte que lhe ficava líquida depois de repartir a cada marujo o seu quinhão, separava metade para o dote de Maria da Glória e a entregava a Duarte de Morais.
A menina crescera, estava moça, e a mais prendada em formosura e virtude que havia então neste Rio de Janeiro. Queria-lhe Aires tanto bem como à sua irmã, se a tivesse; e ela pagava com usura esse afeto daquele que desde criança aprendera a estimar como o melhor amigo de seu pai.
O segredo do nascimento de Maria da Glória fora respeitado, conforme o desejo de Aires. Além do corsário e dos dois esposos, só o gajeiro Bruno, agora piloto da escuna; sabia quem realmente era a gentil menina; para ela como para os mais, seus verdadeiros pais foram Duarte de Morais e Úrsula.
Nas torres os sinos a repicarem trindades, e da escuna um batel a largar enquanto roda o cabrestante ao peso da âncora. Vinha no batel um cavalheiro de aspecto senhoril, cujas feições tostadas ao sol ou crestadas pela salsugem do mar respiravam a energia e a confiança. Se nos combates o nobre parecer, assombrando-se com a sanha guerreira, infundia terror no inimigo, fora, e ainda mais neste momento, a expansão jovial banhava-lhe o semblante de afável sorriso.
Era Aires de Lucena esse cavalheiro; não mais o gentil e petulante mancebo; porém o homem tal como o tinham feito as pelejas e trabalhos do mar.
Na ponta da ribeira, que atualmente ocupa o Arsenal de Guerra, Duarte de Morais com os seus, ansioso esperava o momento de abraçar o amigo, e seguia com a vista o batel.
De seu lado Aires também já os avistara do mar, e não tirava deles os olhos.
Úrsula estava à direita do marido, e á esquerda Maria da Glória. Esta falava a um mancebo que tinha junto de si, e com a mão lhe apontava o batel já próximo a abicar.
Apagou-se o sorriso nos lábios de Aires, sem que ele soubesse explicar o motivo. Sentira um aperto no coração, que se dilatava naquela abençoada hora da chegada com o prazer de volver á terra, e sobretudo á terra da pátria, que é sempre para o homem o grêmio materno.
Foi pois já sem efusão e com o passo moroso que saltou na praia, onde Duarte de Morais abria-lhe os braços. Depois de receber as boas-vindas de Úrsula, voltou-se Aires para Maria da Glória que desviou os olhos, retraindo o talhe talvez na intenção de esquivar-se ás carícias que sempre lhe fazia o corsário á chegada.
- Não me abraça, Maria da Glória? perguntou o comandante com um tom de mágoa.
Corou a menina, e correu a esconder o rosto no seio de Úrsula.
- Olhem só! Que vergonhas!... disse a dona a rir.
No entanto Duarte de Morais, pondo a mão na espádua do mancebo, dizia a Aires:
- Este é Antônio de Caminha, filho da mana Engrácia, o qual vai agora para três semanas nos chegou do reino, onde muito se fala de vossas proezas; nem são elas para menos.
Dito o que, voltou-se para o mancebo:
- Aqui tens tu, sobrinho, o nosso homem; e bem o vedes que foi talhado para as grandes cousas que tem obrado.
Saudou Aires cortesmente ao mancebo, mas sem aquela afabilidade que a todos dispensava. Esse casquilho de Lisboa, que de improviso e a titulo de primo se introduzira na intimidade de Maria da Glória, o corsário não o via de boa sombra.
Quando a noite se recolheu a casa, levou Aires a alma cheia da imagem da moça. Até aquele dia não vira nela mais do que a menina graciosa e gentil, com quem se habituara a folgar. Naquela tarde, em vez da menina, achou uma donzela de peregrina formosura, que ele contemplara enlevado nas breves horas passadas a seu lado.
Ia agora Aires de Lucena todos os dias á casa de Duarte de Morais, quando de outras vezes apenas lá aparecia de longe em longe.
Havia ai um encanto que o atraía, e este, pensava o corsário não ser outro senão o afeto de irmão que votava a Maria da Glória, e crescera agora com as graças e prendas da formosa menina.
Mui freqüente era encontrá-la Aires a folgar em companhia do primo Caminha, mas á sua chegada ficava ela toda confusa e atada, sem ânimo de erguer os olhos do chão ou proferir palavra.
Uma vez, em que mais notou essa mudança, não se pôde conter Aires que não observasse:
- Estou vendo, Maria da Glória, que lhe meto medo?
- A mim, Senhor Aires? balbuciou ai menina.
- A quem mais?
- Não me dirá por quê?
- Esta sempre alegre, mas é ver-me e fechar-se como agora nesse modo triste e...
- Eu sou sempre assim.
- Não; com os outros não é, tornou Aires fitando os olhos em Caminha.
Mas logo tomando um tom galhofeiro continuou:
- Sem dúvida lhe disseram que os corsários são uns demônios!...
- O que eles são, não sei, acudiu Antônio de Caminha; mas aqui estou eu, que no mar não lhes quero ver nem a sombra.
- No mar têm seu risco; mas em seco não fazem mal; são como os tubarões, replicou Aires.
Nesse dia, deixando a casa de Duarte de Morais, conheceu Aires de Lucena que amava a Maria da Glória e com amor que não era de irmão.
A dor que sentira pensando que ela pudesse querer a outrem. que não ele, e ele somente, lhe revelou a veemência dessa paixão que se tinha imbuído em seu coração e ai crescera até que de todo o absorveu.
Um mês não era passado, que apareceram franceses na costa e com tamanha audácia que por vezes investiram a barra, chegando até a ilhota da Laje, apesar do Forte de São João na Praia Vermelha.
Aires de Lucena, que em outra ocasião fora dos primeiros a sair contra o inimigo, desta vez mostrou-se tíbio e indiferente.
Enquanto outros navios se aprestavam para o combate, a escuna Maria da Glória se embalava tranqüilamente nas águas da baía, desamparada pelo comandante, que a maruja inquieta esperava debalde, desde o primeiro rebate.
Uma cadeia oculta prendia Aires à terra, mas sobretudo à casa onde morava Maria da Glória, a quem ele ia ver todos os dias, pesando-lhe que o não pudesse a cada instante.
Para calar a voz da pátria, que ás vezes bradava-lhe na consciência, consigo encarecia a necessidade de ficar para a defensão da cidade, no caso de algum assalto, sobretudo quando saía a perseguir os corsários, o melhor de sua gente de armas.