Conheci outrora uma família que morava em São Clemente.
Havia em sua casa agradáveis reuniões de que fazia os encantos uma filha, bonita moça de dezoito anos, corada como a aurora e loura como o sol.
Amália seduzia especialmente pela graça radiante e pela viçosa e ingênua alegria que manava nos lábios vermelhos como dos olhos de topázio, e lhe rorejava a lúcida beleza.
Sua risada argentina era a mais cintilante das volatas que ressoavam entre os rumores festivos da casa, onde à noite o piano trinava sob os dedos ágeis da melhor discípula do Amaud.
Acontecia-lhe chorar algumas vezes por causa de um vestido que a modista não lhe fizera a gosto, ou de um baile muito desejado que se transferia; mas essas lágrimas efêmeras que saltavam em bagas dos grandes olhos luminosos, iam nas covinhas da boca transformar-se em cascatas de risos frescos e melodiosos.
Tinha razão de folgar.
Era o carinho dos pais e a predileta de quantos a conheciam. Muitos dos mais distintos moços da corte a adoravam.
Ela, porém, preferia a isenção de menina, e não pensava em escolher um dentre tantos apaixonados que a cercavam.
Os pais, que desejavam muito vê-la casada e feliz, sentiam quando ela recusava algum partido vantajoso.
Mas reconheciam ao mesmo tempo que formosa, rica e prendada como era, a filha tinha o direito de ser exigente; e confiavam no futuro.
Outra e bem diversa era a causa da indiferença da moça.
Amália não acreditava no amor. A paixão para ela só existia no romance.
Os enlevos de duas almas a viverem uma da outra não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real.
Tinha sobre o casamento idéias mui positivas.
Considerava o estado conjugal uma simples partilha de vida, de bens, de prazeres e trabalhos.
Estes, não os queria; os mais, ela os possuia e gozava, mesmo solteira, no seio de sua família.
Era feliz; não compreendia, portanto, a vantagem de ligar-se para sempre a um estranho, no qual podia encontrar um insípido companheiro, se não fosse um tirano doméstico.
Estes pensamentos, Amália não os enunciava, nem os erigia em opiniões. Eram apenas os impulsos íntimos de sua vontade; obedecendo a eles, não tinha a menor pretensão à excentricidade.
Ao contrário, como sabia do desejo dos pais, aceitava de boa mente a corte de seus admiradores. Mas estes bem percebiam que para a travessa e risonha vestal dos salões, o amor não era mais do que um divertimento de sociedade semelhante à dança ou à música.
Conservando a sua independência de filha querida e moça da moda, Amália não nutria prejuízos contra o casamento, que aliás aceitava como uma solução natural para o outono da mulher.
Ela bem sabia, que depois de haver gozado da mocidade, no fim de sua esplêndida primavera, teria de pagar o tributo à sociedade, e como as outras escolher um marido, fazer-se dona de casa, e rever nos filhos a sua beleza desvanecida.
Até lá, porém, era e queria ser flor. Das suas lições de botânica lhe ficara bem viva esta recordação, que o fruto só desponta quando as pétalas começam a fanar-se; se vem antes disso eiva.
Esta moça pertencia a uma variedade de mulher, que se pode bem classificar como o gênero rosa. São elegâncias que só florescem bem no clima ardente do baile, ao sol do gás. A luz é a alma de sua formosura. Na sombra desfalecem e murcham.
Amália vivia no salão; só o deixava para repousar. Seu dia era a noite com os lustres por astros. Quando em toda a cidade não havia divertimento algum que a atraísse, ela passava a noite em casa; mas com o seu piano, o seu contentamento e a sua graça improvisava uma festa.
A volubilidade desse gênio não era, como alguns supunha, efeito de uma alma fria, indiferente e egoísta. Enganavam-se aqueles que viam na filha do Sr.Veiga uma dessas moças embotadas pela vida precoce da sala.
Ao contrário, ou pela severa educação que recebera, ou por tardio desenvolvimento, Amália conservara-se criança além do período natural da infância. Aos dezessete anos ainda se lembrava de suas lindas bonecas, bem guardadas em uma cômoda, onde as conservava como recordação da meninice; e mais de uma vez aconteceu-lhe no dia seguinte a um baile representar ao vivo com essas figuras de cera e cetim as quadrilhas que dançara.
Quando o coração menino dessa moça elegante e espirituosa pulsou pela primeira vez, já tinha ouvido tantas vezes declarações e protestos ardentes, que não passavam para ela de uma linguagem polida e lisonjeira, adotada na sociedade.
Gabar-lhe a beleza, ou elogiar-lhe o vestido, era a mesma fineza. Quando um dos seus apaixonados animou-se o primeiro a dizer-lhe com a voz trêmula que a amava, ela o ouviu calma, sem a menor emoção, como se lhe falassem de música ou de pintura. O que lhe causou alguma surpresa foi o esforço e turbação do cavalheiro ao proferir aquelas palavras.
Entretanto, quem observasse a vida íntima dessa moca conheceria o fundo de sensibilidade e temera que havia sob aquela aparência frívola e risonha. Não só tinha amor extremoso à família e dedicação pelos amigos, mas em certos momentos, como se a afogasse uma exuberância do coração, cobria a mãe de carinhos.
Alguma vez, nas horas de repouso, quando a imaginação vagueia pelo azul, ela fazia também como todas as moças o seu romance; com a diferença, porém, que o das outras era esperança de futuro ardente aspiração d'alma; enquanto o seu não passava de sonho fugace, ou simples devaneio do espírito.
Um traço singular destas cismas é que elas faziam contraste ao modo habitual da moca, ao seu gênio. Essa natureza alegre e expansiva, esse coração incrédulo e desdenhoso, quando fantasiava os seus idílios, reservava sempre para si a melancolia, a abnegação e o obscuro martírio de uma paixão infeliz.
Seria um pressentimento? Creio eu que não era senão uma antítese natural da imaginação com o espírito. E muito freqüente encontrarem-se caracteres joviais que têm o sentimento elegíaco, e, ao contrário, misantropos com uma veia cômica inexaurível.
Na chácara contígua à do Sr. Veiga, pelo lado esquerdo, morava um desses homens que o povo designa com o nome de esquisitos.
Os amigos o chamavam Carlos; os estranhos tratavam-no por Sr. Hermano; ele, porém, costumava assinar-se H. de Aguiar.
Para merecer do vulgo a qualificação de esquisito, basta às vezes sair da trilha batida; mas o Sr. Hermano tinha com efeito hábitos e ações que excitavam o reparo e lhe davam certo cunho de originalidade.
Não se lhe conhecia profissão; sabia-se entretanto que era abastado, pois além da chácara de sua residência, possuía apólices e prédios na cidade.
Sua casa vivia constantemente fechada na frente, e tinha o aspecto de uma morada em vacância pela ausência do dono. Quem olhava pela grade do portão, sempre trancado, não descobria outro indicio de habitação a não ser o fumo da chaminé.
Todavia nas raras vezes em que soava a grossa campa da entrada, aparecia logo um velho criado, todo vestido de preto, que introduzia a visita com uma cortesia respeitosa mas fria e taciturna.
O dono da casa costumava ir à cidade três vezes na semana, para tratar de seus negócios, ou talvez para não se isolar totalmente do mundo de que já vivia tão apartado. Também saia de passeio, a pé ou a cavalo pelos arrabaldes.
Certas ocasiões mostrava-se afável, polido, atencioso e expansivo, retribuindo os cumprimentos que recebia, e dirigindo-os as pessoas de seu conhecimento. Era então um modelo do homem de boa sociedade e fina educação.
Outros dias estava de tal modo concentrado que passava pelas ruas como um incógnito; não falava a ninguém; não fazia caso das pessoas de maior consideração e a quem acatava. Se algum amigo vinha-lhe ao encontro, recebia-o sem parar com a mascara muda e impassível da abstração, e logo o despachava com um aperto de mão automático.
Estas alternativas sucediam-se por fases; duravam semanas e meses. A fisionomia denunciava logo a conjunção desse espírito com o mundo. Havia nele, como em todos nós, dois homens, o íntimo e o social; a diferença é que nele as duas faces revezavam-se, enquanto que nos outros elas de ordinário são fixas e formam o direito e o avesso do indivíduo.
Ainda mesmo nos seus dias de misantropia o semblante do Sr. Hermano era tão modesto e sereno que ninguém via na sua desatenção orgulho ou falta de civilidade.
Atribuíam estas desigualdades de caráter ao gênio e não se ofendiam com elas. Em geral os vizinhos e conhecidos o saudavam sempre cordialmente, embora ele passasse sem olhá-los.
Do que poucos sabiam, e só alguns amigos se lembravam, era da primeira mocidade de Hermano, quando ele passava por um dos mais brilhantes cavalheiros dos salões fluminenses. Sua graça natural, o primor de suas maneiras, e as seduções do seu espírito, o distinguiam entre todos como um tipo de elegância.
Eram os arrebóis dessa esplêndida mocidade que ele ainda mostrava nos seus momentos de expansão, quando desprendia-se da constante preocupação.
Um dia, no meio de seus triunfos, quando a sua estrela mais brilhava, correu a noticia de que Hermano estava para casar-se, o que não devia surpreender em sua idade. Foi, porém, geral a admiração quando se soube que D. Julieta, a moça por quem se apaixonara a ponto de sacrificar-lhe a liberdade, não era rica nem bonita.
Ninguém esperava que ele, nas condições de pretender as filhas dos primeiros capitalistas e de escolher entre as mais aristocráticas belezas da corte, fizesse um casamento tão desvantajoso.
D. Julieta não freqüentava a alta sociedade; mas algumas pessoas da creme' a tinham encontrado por vezes em partidas familiares; e essas compreenderam a repentina que ela tinha inspirado ao noivo.
Como estátua a moça era um esboço imperfeito, ainda mesmo com as correções que aplica o molde de um traje elegante, ou a feliz disposição dos enfeites.
Imagine-se que um cinzel inspirado idealizava esse esboço e dava às linhas do perfil a harmonia que lhes negara a natureza. Tal seria, não o retrato de Julieta, mas o tipo que sua pessoa refletia na imaginação do artista a quem servisse de modelo.
Havia em seu olhar, em sua voz, em seus movimentos, inflexões maviosas, mas de tão vivo relevo que se esculpiam como se tomassem corpo. Depois de apagar-se o gesto, sentia-se ainda a sua doce impressão no vulto a que animara.
O espírito fino, meigo e gentil de Julieta não tinha expansões brilhantes. Era modesto, e às vezes tímido. Entretanto o que ela dela por mais simples que fosse, trazia o calor de uma emoção intima. Sua palavra exalava os perfumes de uma alma em flor.
Ao seu lado e conversando com ela, um homem de rigor estético poderia esquivar-se ao enlevo que infundia a suprema distinção dessa moça, e notar em suas feições e em seu talhe a ausência da beleza plástica.
Mas apartando-se dela e perdendo-a de vista, raro era o que não levava na fantasia um ideal suave e gracioso, que ofuscava a imagem das mais radiantes formosuras de salão.
O primeiro encontro de Hermano com a noiva explica bem a influência que ela devia exercer em sua vida.
Ao sair do teatro lembrou-se do convite que recebera para uma partida em casa de pessoa de sua amizade, a quem devia atenções. Dirigiu-se para lá, com a intenção apenas de fazer ato de presença.
Quando entrou no saguão, cantava uma senhora a ária da Lúcia de Lammemor. A voz, que não era extensa, comoveu-o. Parou para escutar; e viu desenhar-se em seu espírito a imagem esbelta e vaporosa da virgem que o amor enlouquecera.
Terminado o canto, subiu. Havia na sala muitas senhoras algumas de seu conhecimento, outras que via pela primeira vez. Notou entre estas uma moça alva, de cabelos negros; era Julieta. Sem que lho dissessem, por uma rápida intuição adivinhou que fora ela a intérprete inspirada da música de Donizetti.
Teve pois uma decepção. Ele imaginara sempre uma Lúcia loura como a filha das nevoentas montanhas da Escócia; e vinha achar a sua cópia em um tipo tão oposto.
Hermano demorou-se mais do que tencionara; ficou até o fim da partida. Por mais de uma vez aproximou-se de Julieta e conversou com ela. Quando se recolheu, cantava mentalmente o Bell'anima, que ouvira executado por Mirati; e pensava que talvez Lúcia apesar de escocesa, tivesse cabelos pretos como a Maria Stuart de Walter Scott .
Julieta era filha de um coronel reformado de nosso exercito, que servira por algum tempo em Goiás. Na sua primeira expedição para aquela província acompanhou-o a mulher apesar de estar mui próxima a dar à luz. A menina nascera em viagem.
Uma escrava que o oficial trazia, fatigada das jornadas, mal podia acudir à senhora.
Foi pois o furriel Abreu que serviu de ama-seca a menina, e tal amizade tomou-lhe que não quis mais separar-se dela. Completando o tempo de serviço obteve baixa e ficou em companhia do oficial agregado
Hermano freqüentou a casa do coronel Soares. Pouco mais de mês depois do seu primeiro encontro com Julieta manifestou-lhe os seus sentimentos, que aliás já eram conhecidos da moça, e pediu-lhe um consentimento, que tinha razão de esperar.
Ela ficou um momento pensativa; depois disse com o tom grave de uma convicção profunda:
- O casamento é uma fatalidade.
Como Hermano interrogava-lhe o semblante para conhecer o sentido de suas palavras, ela acrescentou:
- Meu marido há de pertencer-me de corpo e alma, como eu a ele, e para sempre. É assim que entendo o casamento.
- Penso da mesma maneira.
- Para sempre é eternamente.
- Compreendi todo o seu pensamento, Julieta. e não imagina o meu júbilo por encontrar tão perfeita identidade de sentimentos na mulher a quem amo. Sempre acreditei que o casamento não deve ser uma simples união social, mas a formação da alma criadora e mãe, da alma perfeita, de que nós não somos senão as parcelas esparsas. Essa alma uma vez formada, só Deus a pode dividir e mutilar.
O casamento realizou-se pouco tempo depois; e os noivos foram morar na casa de São Clemente, a qual tinha sido preparada com esmero para recebê-los.
Abreu acompanhou sua filha de criação. Ele a tinha recebido em seus braços ao nascer, e contava não deixá-la senão quando Deus o chamasse.
Aquela casa de São Clemente foi para os noivos o ninho do amor e da felicidade; mas o ninho perene, sem estações, sem primavera, sem lua-de-mel.
Essa ardente efusão de duas existências durava desde o primeiro instante, não tinha lapsos nem desmaios.
Hermano aproximava-se dos trinta anos, e vivera muito nesse tempo. Julieta aos vinte anos não conhecia o mundo; e seu coração virgem era um manancial de ternura.
Que diálogo inefável entre aquela inteligência pródiga e essa inocência ávida de saber, rica de afeto?
O passado de Hermano, desde a primeira infância até o casamento, Julieta queria vivê-lo, dia por dia, hora por hora, se fosse possível, para amar seu mando em cada um desses momentos anteriores a ela.
O presente não lhe bastava. nem o futuro. Carecia de remontar-se à origem dessa existência que lhe pertencia, para soldá-la ainda mais intimamente a si, de modo que não lhe fosse possível marcar a época de sua união. Então o casamento teria sido apenas a consagração social do vínculo de duas almas gêmeas.
Por seu lado Hermano sentia também a necessidade de vazar no coração ingênuo e casto da esposa, como em um crisol, os seus pensamentos, as idéias de que a sociedade o imbuíra, e assim apurar sua consciência naquela chama celeste.
Sua individualidade, escoriando-se da liga mundana, apagando os traços de uma mocidade fácil, identificava-se de mais em mais com o espírito puro e imaculado da moça e embebia-se nele como o raio do sol que se infunde na seiva da árvore e gera a flor.
Hermano e sua mulher freqüentavam a sociedade onde os chamavam. Iam, porém, aos divertimentos unicamente para se desobrigarem de um dever de cortesia e posição; ou talvez para certificarem-se de que nada faltava à sua felicidade.
Depois de uma ou duas horas passadas no teatro ou nos salões, recolhiam-se pressurosos à sua casa e ao seu amor.
Duas vezes por mês reuniam as famílias de sua amizade. Essas longas noites, em que se deviam a seus convidados, eram uma ausência, uma separação para eles. Tinham o mundo entre si.
Que saudades não sentiam um do outro nesses momentos; e com que anelos encontravam-se de novo na sua querida solidão?
Amália era então uma criança de nove anos. No dia do casamento tinha vindo do colégio passar o domingo com a família. À noite vira a chácara vizinha iluminada e os noivos que chegavam com grande acompanhamento de carros.
Reparando na elegância e garbo do par que subia as escadas de pedra alcatifadas de fino tapete, a menina pensou no dia de seu casamento; e desejou que seu noivo fosse tão lindo como aquele.
Nos outros domingos que passava em casa, quando chegava à janela, via os noivos sempre juntos passeando no jardim, ou sentados em um banco à sombra dos bambus.
Um dia ardeu-lhe a curiosidade de espiar os aposentos da noiva. O fundo da chácara dava para a montanha; e o declive fora cortado em socalco com terraços que se sucediam em degraus.
De uma dessas elevações dominava-se a casa vizinha especialmente a asa do edifício, que ficava fronteira, a duas braças apenas de distância.
Foi daí que Amália, aproveitando uma ocasião em que as janelas estavam abertas, viu o quarto de dormir e o toucador da noiva, ambos preparados com luxo e primor.
No toucador, sentada junto a uma mesa de charão Julieta procurava numa caixinha de jóias uns botões para os seus punhos de cambraia. O mando entrou. Em pé, por detrás da cadeira, colheu nas mãos o rosto da moça e cobriu-o de beijos.
A travessa que os espiava, disparou a rir, Julieta corou e quis afastar-se; porém Hermano a reteve e beijou-a de novo tranqüilamente, como para afrontar a malícia da menina com a castidade de sua carícia.
Pouco tempo depois desta cena, o Sr. Veiga mudou-se para o Andaraí, por causa da perda de sua sogra, e alugou a casa de São Clemente, para onde D. Felícia não quis voltar depois do golpe que ali sofrera.
A existência dos dois noivos continuou sem alteração; sua felicidade tornou-se com o tempo mais serena e por isso mesmo mais intensa.
Afinal apareceu uma ligeira nuvem naquele céu aberto. Estavam casados havia mais de três anos, e não tinham filho. Começavam a sentir essa falta; era o primeiro desejo não satisfeito.
Engolfados no misticismo do amor, tão grato às imaginações vivas, eles consolavam-se com uma teoria psicológica um tanto abstrata, mas original e encantadora.
Hermano dissera uma vez à mulher:
- Um filho é uma porção de nós que se destaca para formar outro eu. Nós, Julieta, nos queremos exclusivamente, e nos possuímos com tanta ânsia, que nenhum quer perder do outro a menor parcela, ainda mesmo reproduzir o nosso ser.
A mulher aplaudia esta explicação que ela primeiro balbuciara sem poder exprimi-la; e o egoísmo cheio de enlevos desse amor inexaurível substituía para o feliz casal o outro penhor que a sorte lhes negara.
Todo esse encanto, a asa negra do infortúnio o apagou em um momento. Hermano perdeu a mulher; e a perdeu justamente quando sua união ia ser abençoada com um filho.
Um aborto levou Julieta. Suas últimas ao foram estas que ela proferiu antes de perder o conhecimento:
- Minha alma não podia separar-se da tua Hermano.
Desde esse momento o marido caiu em um letargo profundo que o conservou alheio ao que se passava. Esse estado que se assemelhava à idiotia, durou por muito tempo.
O Dr. Teixeira, amigo de infância de Hermano, partindo para a Europa a fim de praticar nos hospitais de Paris levou consigo o infeliz viúvo, na esperança de que a viagem o arrancasse àquela estupefação em que o deixara a perda da mulher.
Antes de seis meses Hermano voltou da Europa com Abreu que o acompanhara; foi morar na casa de São Clemente, onde tomou-se o homem que era, quando o encontramos cinco anos mais tarde.
Dias depois de sua chegada deu-se um incidente que não escapou à curiosidade dos ociosos da vizinhança. Pararam no portão duas carroças conduzindo caixotes de tamanho descomunal . O que, porém mais intrigou os espíritos foi a circunstância de arrombar-se uma parede para introduzir os volumes no interior da casa.
Em cada bairro há um ou mais parlatórios, que são uns moinhos onde se tritura a matéria-prima para o fabrico da opinião pública. Outrora era especialidade das boticas; hoje serve uma loja qualquer. Para ai, para esses pontos, afluem todos os mexericos que os escravos levam às tabernas, e todos os boatos e murmurações que os noveleiros se incumbem de propagar.
Muito se falou dos tais enormes caixões. Na opinião de alguns tinham eles desembarcado na Copacabana e entrado por contrabando na cidade. Outros, admitindo o contrabando, afirmavam que passara pela própria Alfândega. Finalmente, choviam as suposições acerca do arrombamento da parede e da carga misteriosa que se ocultara até dos criados da casa, com exceção do velho Abreu.
O Sr. Veiga voltou a ocupar sua antiga casa. Amália teve muitas ocasiões de ver na alameda da chácara contígua passar o vulto, ainda elegante, mas grave de Hermano.
Não lhe causava, porém, o aspecto daquele homem a menor impressão. A moça, se guardara as recordações da menina não as tinha presentes ao espírito. Olhando a casa outrora tão brilhante e admirada por ela, revendo o feliz noivo agora solitário e abatido, nem sequer notava a diferença dos primeiros tempos.
Sua alegria ainda era um esplendor sem crepúsculos.
Era noite de partida em casa do Sr. Veiga.
Amália ainda não tinha perdido a sua jovialidade, e continuava a ser uma das mais gentis princesas da moda.
Nesse dia vestira-se mais cedo para ensaiar com uma amiga o dueto que tinham de cantar logo mais. Deixava ela o piano, quando entraram na safa ainda erma duas pessoas.
Uma, o Sr. Borges, era íntimo da casa e aparentado com a família. A outra, que Amália não conhecia, foi lhe apresentada em termos de anúncio:
- O Dr. Henrique Teixeira. médico muito distinto. ultimamente chegado da Europa; urna notabilidade oftalmológica.
Borges encontrara o companheiro no portão de Hermano:
- Por aqui doutor?
- Vim jantar com um amigo, e estou à espera de meu tílburi, que mandei voltar às sete horas. Receio que o cocheiro me logre.
- Ah! é amigo do Sr. Hermano?
- Amigo de infância.
Borges convidou o doutor para a partida do parente; e tais e tão repetidas foram as instâncias, que o outro acedeu por fim.
Diversos motivos influíram para aquele convite reiterado. Além do desejo de obsequiar o médico e de arranjar mais um cavalheiro para a dança, Borges fora movido sobretudo pela curiosidade de saber particularidades acerca do excêntrico viúvo.
Depois dos cumprimentos e de algumas ligeiras observações relativas à Europa, Borges dirigiu a conversa para o assunto que mais lhe interessava.
- É verdade que o Hermano está sofrendo da cabeça, doutor?
- Não é exato! acudiu Henrique Teixeira com vivacidade. Tem a razão tão firme e tão lúcida como nunca; e o senhor deve saber que ele mostrou sempre muito tino e bom senso. A prova é que deixando-lhe o pai a livre disposição de sua fortuna, quando não tinha mais de dezessete anos, não só a conservou, como soube aumentá-la, apesar de sua vida elegante.
- Sei perfeitamente; mas tinham-me dito que ele não regula desde que ficou viúvo.
- Com efeito, Carlos sofreu um abalo terrível com esse golpe. A morte de D. Julieta, que ele ainda não esqueceu, nem esquecera, causou-!he uma espécie de paralisia moral. Durante dois meses não pronunciou uma palavra; vivia mecanicamente; era um autômato movido por um velho criado, o Abreu, cuja dedicação por ele é a de um pau extremoso.
- Tenho visto este criado; se não me engano é quem governa a casa.
- Estava eu resolvido a passar algum tempo em Paris para dedicar-me aos estudos de minha profissão. Apressei a partida para levar Carlos comigo e distraí-lo . Nem a viagem , nem o turbilhão da vida parisiense produziram o resultado que eu esperei Continuava indiferente a tudo: nada o interessava; nada prendia-lhe a atenção.
- Então, doutor, sempre houve alguma coisa?
- Sem dúvida, mas não demência. O estado de Carlos era simplesmente uma insensível causa, doutor, disse Amália a sorrir.
- A crítica é espirituosa, minha senhora, e eu já a tinha lido em seus lábios antes que eles a preferissem. Mas eu quero a este amigo, como a um irmão; e dói-me profundamente essa suspeita de loucura, que alguns malévolos se incumbiram de espalhar. Felizmente Carlos restabeleceu-se; aquela impassibilidade que me assustava dissipou-se como por encanto.
- Em Paris? perguntou Borges com ar de dúvida, apenas de leve dissimulado pela cortesia
- Em Paris, numa visita que fizemos ao Louvre Carlos sempre teve gosto e inclinação para as artes; lembrei-me um dia de mostrar-lhe o museu de pintura e escultura. Deixei-o um instante para falar a alguém que encontrara na sala; quando o procurei fui achá-lo diante de um quadro, creio que a Ester ou a Suzana do Veroneso. Voltou-se; já não era o homem absorto e sombrio que ali entrara: tinha no semblante e em toda a sua pessoa, a expressão afável dos mais belos dias de sua vida. Vi em seu olhar uma interrogação e pensando que ela se referia à tela, improvisei admiração, que não sentia, pois, surpreso e contente daquela transfiguração, eu nenhuma atenção prestava ao quadro. Não obstante prodigalizei elogios ao desenho, ao colorido, à criação do grande pintor. "Não; não é isto! disse-me ele. Mas tu não podes compreender a beleza que este quadro tem para mim". Eu percebi que ele achara nessa imagem uma reminiscência de sua Julieta.
- Ora, descobriu-se afinal a Fênix dos maridos! exclamou Amália com uma risada expansiva dirigindo-se à amiga. Nenhum poeta até hoje, que eu saída, animou-se a inventar um Penélope masculino. Estava reservada esta glória ao Dr. Teixeira.
- Antes de mim um poeta, e dos mais ilustres, criou esse no Frei Luís de Sousa, que a senhora talvez não conheça, porque é escrito em nossa língua.
- Até o vi representar, o que deve parecer-lhe ainda mais admirável, depois que os senhores fizeram do Rio de Janeiro um pequeno Paris de bulevar. Mas esse marido que voltou ao cabo de vinte anos de exílio, foi o amor da mulher que o trouxe, ou a lembrança da pátria, a saudade de seu velho Portugal?
- Não se lembra de seu desespero por encontrar a mulher unida a outro? É uma das cenas mais tocantes.
- Esse amor caduco e de cabelos brancos, pois tinha mais de vinte anos...
- Como o de Penélope, acrescentou Teixeira em nota.
- Esse fóssil conjugal é um monstro ideado por Garrett para complicar a situação das duas metades, que o aparecimento do primeiro marido veio separar. O drama está nessa separação realmente incômoda, para quem não gosta de sair de seus hábitos. Assim o romeiro bem longe de ser o herói, não passa de um pretexto, de um incidente de um motivo. Faz aí o mesmo oficio de pai cruel que não deixa a filha casar-se democraticamente com qualquer cidadão da rua.
A chegada de uma senhora a quem Amália foi receber, cortou a réplica do doutor, que ria da malícia da moça.
- Mas então o Hermano desde aquela visita do Louvre restabeleceu-se? perguntou o Borges, que via a conversa apartar-se do tema.
- Completamente. Daí em diante foi outro, ou antes, foi o mesmo homem que todos conheceram na época de seu casamento. Aquele painel tinha operado nele uma verdadeira ressurreição.
Amália que tomara o seu lugar, interrompeu de novo o médico para insinuar uma observação maliciosa.
- Foi o painel, ou alguma estátua?
- Nós estávamos na sala de pinturas, minha senhora.
- Pergunto se não seria alguma estátua viva que operou o milagre da ressurreição. Alguma Madalena que passava?
- Não o conhece!
- Ou talvez o seu amigo seja como certos escultores que compõem a sua estátua, tirando de cada modelo as belezas que ele possui e combinando-as entre si.
O doutor Henrique Teixeira fitou a moça com alguma surpresa. A candura do sorriso que brincava nos lábios faceiros convenceu-o de que Amália não compreendia o alcance das palavras que preferia.
O médico chegava da Europa onde se tinha demorado quatro anos; e não sabia que a invasão do romance realista que nos vem de Paris tem posto em moda certa gíria de cafés e bastidores que algumas senhoras vão repetindo como linguagem de bom-tom sem consciência das enormidades que às vezes escondem tais ditos espirituosos.
O Dr. Teixeira deixou passar a observação da Amália; e, para não acentuá-la com uma pausa, continuou a referir a Borges o episódio da viagem de Hermano:
- Pode acreditar no que lhe digo. Carlos não tem o menor sintoma de perturbação mental. Nesse mesmo dia da nossa visita ao Louvre emancipou-se da minha solicitude e viveu sobre si. Depois que voltou ao Rio de Janeiro entretivemos uma correspondência seguida; e nas suas cartas respirava certo contentamento intimo e sereno, que eu vim encontrar na sua vida habitual.
- Então é feliz o seu amigo? perguntou Amália
- Acredito que sim.
- E o senhor afirmou que ele não tinha esquecido a mulher e nem a esqueceria nunca?
- Afirmei, e posso prová-lo, acudiu Henrique Teixeira picado pelo remoque da moça.
- Há de ser difícil.
- Promete-me guardar reserva sobre o que lhe contar?
- Mais do que reserva. Prometo-lhe não acreditar nem uma palavra do seu romance, o que não me impedirá de aplaudi-lo, se for interessante como espero.
Nesse momento a sala enchia-se de convidados; e o piano dava o aviso da primeira quadrilha.
Amália tomando o braço de seu par, separou-se do doutor com esta palavra, confeita em um sorriso:
- Depois.
Em meio da partida, quando servia-se o chá, Amália com um aceno do leque indicou a Henrique Teixeira uma cadeira que vagara a seu lado.
- E o nosso folhetim?
- Refleti, D. Amália; o melhor é falarmos de outra coisa.
- Confessa, portanto, que seu amigo é como os outros; mais um exemplar desse compêndio já muito conhecido que se chama marido.
- Não, senhora, não confesso; calo-me. Não devo expor à sua zombaria a vida íntima do amigo que mais prezo.
- Esta reflexão, devia tê-la feito em princípio, doutor. Depois de haver-me aguçado a curiosidade, está na obrigação de satisfazê-la, e é o mais prudente, porque o seu silêncio compromete o seu amigo.
- Em quê?
- Dá-me o desejo de fazer acerca dele, e acerca dessa vida íntima que não pode ser profanada, as mais extravagantes suposições.
- Esta razão me decide.
- A outra devia ter a preferência, por fineza ao menos.
- Qual outra?
- A de duvidar da minha discrição.
- Perdão; eu a ofenderia se acreditasse nela. Seria suspeitar de seus dezoito anos, e fazer brancos ou grisalhos tão belos cabelos louros.
- Entretanto há pouco pedia reserva aos meus belos cabelos louros, observou Amália com um gesto encantador.
- Sem dúvida. A reserva que eu lhe pedia era a de contar a história tão enfeitada que já não fosse a mesma referida por mim.
- Terei esse cuidado; e até me incumbo de ilustrá-la com retratos. Mas antes de tudo preciso conhecê-la.
- Então quer ouvir?
- E dispenso o prólogo.
- Voltando da Europa, há três meses, passei os primeiros dias em casa de Carlos, que me esperava e foi buscar-me a bordo. Chegamos a São Clemente pela manhã; e depois do banho clássico, nos reunimos em uma sala, que fazia parte dos aposentos da mulher e onde esta mais assistia. Notei então que ele, algumas vezes, distraidamente, voltava-se para o sofá, permanecia por momentos com os olhos fitos na almofada de veludo a que habitualmente se recostada D. Julieta.
- E suspirava naturalmente ou enxugava a furto uma lágrima silenciosa que lhe queimava a face? perguntou Amália com seriedade picante.
- Não; ao contrário, soma-se.
- Deveras! O seu herói tem um cunho original. Estou me interessando por ele.
- A sala em que nos achávamos, e a presença de Carlos, a quem revia depois de anos de ausência, remontavam o meu pensamento aos primeiros tempos de seu casamento, em que tantas vezes nos reunia-mos ali em família, ele, sua mulher e eu. Parecia-me ver ainda o talhe elegante de D. Julieta, que nos escutava, atenta, enlevada na voz do marido, e dando-nos de vez em quando, com uma observação espirituosa, o tema da conversação. E essa evocação entristeceu-me. Entretanto Carlos estava contente; e no seu semblante respirava a satisfação d'alma. Supus que era o prazer da minha volta; mas não podia conciliá-lo com as recordações vivas que se estavam traindo nos seus gestos.
- Essas recordações eram puramente cacoetes de viúvo.
- Vai ver. Pouco depois o Abreu chamou-nos para o almoço. Carlos tomou o seu lugar de costume; eu sentei-me defronte e notei logo que havia um talher em frente à cadeira de honra, outrora ocupada pela dona da casa. Tínhamos pois uma terceira pessoa; talvez alguma velha parenta de Carlos.
- E por que não seria alguma prima moça e bonita, que viesse tentar aquele modelo de constância? Aposto que adivinhei.
- Não adivinhamos, nem a senhora, nem eu. O Abreu serviu-nos e eu a convite do dono da casa almocei com apetite de viajante. Uma coisa me causou reparo. Quando Carlos incumbia-se de trinchar depois de fazer o prato para mim, fazia outro que passava ao Abreu. Este em vez de advertir o amo da sua distração colocava o prato na cabeceira, sobre o terceiro talher intacto, e o meu amigo tirava para si nova porção; depois o criado mudava todos os três talheres.
- Ah, percebo um eclipse matinal da estrela.
- Ao jantar reproduziram-se todas estas circunstâncias que referi. A cadeira continuou vazia, sem a menor observação do dono da casa, e o talher de estada foi ainda servido duas ou três vezes. Cresceu porem a minha surpresa, quando na ocasião de tomarmos café, Carlos continuando a conversa, preferiu o nome da mulher, mas de modo que parecia indicar a sua presença.
Amália deu uma risada.
- Não é romance, então. É um conto fantástico!...
- Estou referindo fatos de vida real. A senhora dar-lhes-á o título que for mais do seu agrado.
- Bem; vamos ao resto. Eu gosto mais deste gênero. Tem sua novidade.
- Como lhe disse passei algum tempo na companhia de Carlos; e do que observei depois, assim de umas revelações a custo obtidas do Abreu, compreendi o que a princípio me pareceu estranho.
- Ou por outra, compreendeu o incompreensível.
- Para aquele marido a mulher que ele amou estremecidamente ainda habita a casa, que ela enchia de sua graça e de sua ternura. Ele já sente perto de si, a seu lado, nas horas em que trocavam suas mútuas expansões, e nos lugares que ela preferia.
- É poético e sublime não poder negar.
- Os aposentos particulares de D. Julieta estão da mesma forma como ela os deixou. Não há ali a menor mudança; os mesmos trastes os mesmos objetos, e cada um como ela os colocara. Ninguém aí penetra senão Carlos e o Abreu. Esse criado velho adorava a menina, que ele trouxe nos braços desde o dia de seu nascimento. Também para ele, a dona da casa ainda vive, e governa o interior.
- Temos, pois, aqui na vizinhança um hospital de doidos! atalhou Amália.
- Não me entendeu.
- Ora, seriamente, doutor, o Sr. comprometeu-se a si e ao seu sexo. Obrigou-se a apresentar um modelo de fidelidade conjugal e só o pode encontrar como enfermidade. Confesse: a constância de seu amigo é apenas uma mania, e o Sr. não foi sincero quando, há pouco, pretendeu convencer ao Borges.
- Tão sincero como agora. Carlos não tem o menor eclipse na sua razão calma e forte.
- Mas como se chama essa alucinação?
- É uma superstição a que estão sujeitos todos os que vivem pelo espírito.
- Não sabia.
- Só não as têm os materialistas, aqueles para quem Deus é um absurdo, a pátria e a família uma comandita; gente que reduz a inteligência a um pouco de fósforo, e a virtude a uma convenção. Esses vivem fisicamente; são corpos que se transformam. Nós, porém, que nos remontamos à nossa origem divina, todos temos nossas abusões.
- Eu não as tenho.
- Tem, afirmo-lhe. Mas as suas abusões são risonhas e brilhantes; chamam-se esperanças. As suas orações também... Quantas vezes não acreditou a senhora, que Deus, o criador do infinito, comovido por sua prece, alterava as leis do universo para enxugar-lhe uma lágrima, ou dar-lhe um sorriso? O que é isto senão uma superstição?
- Bem diversa da que tem seu amigo.
- A senhora nunca perdeu uma pessoa a quem amasse. Aqueles que já sofreram esse golpe, quando visitam o túmulo que encerra as cinzas do ente querido, acreditaram que ali está alguma coisa deles, a sua sombra, a sua alma quando ali não há senão pó . P o mesmo que acontece a Carlos, com uma diferença: nos outros são os vestígios materiais, é o despojo mortal, que produz aquele efeito; nele é o espírito unicamente. O que ele sente, o que vê, é a alma da mulher.
- Chega a vê-la? disse Amália cuja ironia nada perdoava.
- Com os olhos d'alma. O como nada é e nada era para ele.
- Desde o momento em que D. Julieta morreu, ele a abandonou como um objeto indiferente, e não teve o menor desejo de vê-la. Isto observei eu.
- Em todo caso, doutor, para fazer-lhe a vontade, convenho em que seu amigo será um homem de muito juízo, mas não aqui neste mundo; no da lua talvez.
- Devo dizer-lhe que a princípio também inquietou-me aquele estado; busquei um pretexto para tocar nesse ponto delicado. Carlos compreendeu-me logo e respondeu com franqueza: "É verdade, há ocasiões em que sinto Julieta perto de mim, e em que vivo com ela como outrora. E a sua alma que me acompanha ou é a minha lembrança que a tem sempre viva e presente ao meu espírito? Seja o que for, isso me consola e me restitui a felicidade que perdi. Que necessidade tenho eu de investigar este mistério ou dissipar esta ilusão? Não há maior mistério e maior ilusão do que a vida; e nós vivemos sem conhecer, nem a nossa origem, nem a realidade de nossa existência". Eis as palavras que ele me disse, e com a maior simplicidade e placidez de ânimo. A razão e a ciência não teriam outra linguagem; e quer a senhora que eu qualifique de