CAVACO
O GARATUJA é a primeira de uma série de crônicas dos tempos coloniais, algumas já escritas, outras apenas esboçadas, em tempos idos, quando o pensamento, ainda não de todo enredado nas teias do mundo, tinha folga para vaguear pelo passado, e entreter-se com as pieguices e ingenuidades de nossos pais, a quem o mais simplório garoto de agora enfiaria, não pelo fundo de uma agulha, o que não fora nenhuma façanha, mas pela cabeça de um alfinete.
Todavia, se o leitor no folhear estas páginas, tiver tempo de pensar, e se deixe ir a cogitar na singularidade da revolução, que esteve para ensangüentar a heróica, mas pacata, cidade de São Sebastião, lembre-se da magna questão do martelinho, que por pouco não perturbou a paz maçônica, da mesma forma que outrora o hissope na igreja d'Elvas.
Então há de concordar comigo que o homem é sempre menino até morrer de velhice; e que depois das criançadas do pirralho, vêm as travessuras do rapazola, e por último as estrepolias dos barbaças, as quais são as piores, sobretudo quando começa-lhe a grisar o pêlo.
Quem duvidar do cunho histórico desta simples narrativa, poderá facilmente verificá-lo abrindo o 3º volume dos Anais do Rio de Janeiro, escritos pelo Dr. Baltasar da Silva Lisboa.
Naquele tempo o cidadão, porque servira o cargo de juiz de fora e presidente da Câmara, julgava-se obrigado a oferecer a seu país "o fruto dos conhecimentos adquiridos nas diligências do serviço público". Hoje em dia nem a juizes, nem a edis, sobra tempo para se ocuparem com tais nugas, pois todo se vai em subir e descer escadas, pôr e tirar o chapéu, dobrar e torcer a cerviz.
No referido tomo, à página 314, entre os parágrafos 35 e 39, apanhou o cronista fluminense pela rama os acontecimentos que puseram em tumulto a cidade. Aí se encontram até eruditas elucidações do caso jurídico, sobre o qual o Dr. Baltasar entendeu que devia emitir seu juízo.
Não é ele o único dos compiladores de notícias, que neste país se meteu a tralhão, recheando a história com os lardos de uma erudição rançosa. Outros o excederam de muito nessa mania enciclopédica.
Escaparam porém ao cronista muitas particularidades, que ele descurou e que eu pude, obter consultando um arquivo arqueológico, bem provido, e que tenho à minha disposição, para o estudar à vontade.
Meu arquivo arqueológico, por cautela vou prevenindo, não custou um ceitil aos cofres públicos, nem aspira à honra de ser comprado pelo governo do Sr. D. Pedro II, como está em voga desde a consciência até as leis, que tudo hoje em dia se vende, por atacado ou a varejo, em códigos ou empreitadas.
A minha preciosidade literária não custou nem mesmo o trabalho de andar cascavilhando papéis velhos em armários de secretarias; ou a canseira de trocar as pernas pela Europa, cosido em fardão agaloado a pretexto de representar o Brasil nas cortes estrangeiras. Que formidável "prosopopéia!".
Quero fazer ao leitor a confidência do meu achado.
Costumava outrora, como ainda hoje, ir pela manhã ao Passeio Público, onde há uma meia dúzia de árvores que o bom Deus ali conserva para refrigério dos emparedados da cidade. Tem esse jardim urna qualidade mui apreciável: é uma perfeita solidão, nio meio do burburinho, com o bonde à porta, e ao alcance do olhar protetor do ministro da Justiça; por conseguinte, facilidade de condução e segurança individual: duas importantes garantias da liberdade. Da verdadeira liberdade prática, e não dessa que anda nos cartazes políticos, para o efeito cênico.
Assim passeia-se ali na maior tranqüilidade de espírito. Às vezes descobre-se, é verdade, um urbano, mas estendido em um banco a dormir; o, que ainda mais serena-me o espirito. Quando a polícia dorme é sinal de que não há a menor partícula de crime na atmosfera; e assim podemos considerar-nos ao abrigo de um e de outra ao mesmo tempo: do crime e da polícia.
Era ali indefectível um velho seco e relho, o qual se me afigurava a metempsicose de algum poento in-fólio da Biblioteca Nacional, que porventura fugira pela janela; e se abrigara à sombra dos castanheiros para livrar-se da fúria arqueológica dos antiquários.
Cortejava-o eu com o respeito devi4o a um homem que vira dois séculos, talvez se preparava para o terceiro. A minha saudação respondia ele com em modo desconfiado, que eu não levava a mal, por compreender que o indivíduo logrado por três gerações tinha o direito de suspeitar até dos santos.
O meu velho não tomava rapé, nem fumava; aborrecia a política, e não lia gazetas; ajunte-se uma carranca sempre fechada, uma gravata, para não dizer rodilha, que embrulhava-lhe só a metade inferior do rosto, porque a outra lha disputava o chapéu à catimplora; e tudo isso, retocado por uma rabugem veneranda e quase secular.
Bem se vê que encouraçado de tal forma, era o sujeito inabordável por qualquer dos meios indiretos, que servem na sociedade para travar um conhecimento. Muito havia eu alcançado em inserir a minha cortesia naquela refolhada antigüidade.
Não desanimei todavia. Há uma fineza a que os velhos maiores de setenta nos não resistem: é tocar na sua longevidade, sobretudo orçando-lhes uns dez anos de menos.
Um dia, pois, tomei de escalada o velho, indo a ele, e dizendo-lhe sem preâmbulos:
- Seguramente o senhor anda rastejando pelos oitenta. Diluiu-se-lhe a carranca em um riso lavado.
- Os oitenta!... Onde vão eles, meu senhor? Então ainda eu me considerava rapaz: vinha a pé da Pavuna e voltava.
- E com quantos está agora?
- Ora, adivinhe!
- Oitenta e seis ou oitenta e sete.
- Oh! Oh!... Noventa.
- Não é possível!
- E três, meu senhor! Este Passeio Público que o senhor está vendo, ainda o Senhor Vice-Rei Luís de Vasconcelos não sonhava de mandar fazê-lo, nem de cá vir, que já eu estava nascido, e quando se abriu, que foi uma função para a cidade toda, também vim com minha mãe e a prima Engrácia, que já estava eu taludinho e com ponta de buço. Ora faça o senhor as contas!
- Não há dúvida; mas fique certo que ninguém acredita!...
Esta palavra pós o remate à conquista. Daí em diante o velho me pertenceu, eu pude folhear à vontade esse volume precioso de anedotas e casos antigos.
Quando tiver folgas, irei dando à estampa o que me confiou esse marco do século passado, por cima do qual vai passando, sem o aba lar nem submergir, o turbilhão do presente.
Rio, 1 de dezembro, 1872.
J. DE ALENCAR
TRÊS ANTIGOS LUZEIROS
ESCAPOS A POEIRA DOS TEMPOS
No dia 3 de novembro do ano que se contou 1659 da graça e nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estava em grande alvoroto.
Não era a então nascente capital, sossegada e pachorrenta, como a grande corte em que se transformou. Se não mente a crônica, tinha naqueles tempos afonsinhos o gênio trêfego, e um sestro de intrometer-se com as cousas da governança para não deixar que os oficiais d'El-Rei lhe tosquiassem muito cerce o pêlo e a bolsa.
Promovida a corte, lembrou-se no principio alguma vez da balda antiga; mas com a vida palaciana, breve esqueceu de todo os ardores da juventude, e aquelas desenvolturas de rapariga.
Agora dá-se a respeito. Já não é a carioca faceira e petulante, de saia de crivo e olhos brejeiros, estalando castanholas ao som do fadinho. Fez-se dama; traz anquinhas, e arrasta a cauda com donaires de matrona.
Sete horas acabavam de soar na torre do mosteiro, e apesar do muito cedo o povo enchia as poucas ruas que formavam naquele tempo o âmbito da cidade, ainda conchegada às abas do Outeiro de São Januário, que a protegia com seu castelo roqueiro.
Onde porém mais alvoriçava o arruído era no Rossio do Carmo, nome que tinha então nos livros da vereança o Largo do Paço, ao qual não obstante a arraia-miúda continuava a dar a alcunha popular de Terreiro da Polé.
Golpes de gente azoinada e assustadiça borbotavam uns após outros da Rua Direita e Beco dos Barbeiros, mas sobretudo das bandas da Misericórdia, Castelo e Ajuda, área onde mais se condensava o povoado.
Vários ajuntamentos se haviam formado aqui e ali no circuito da vasta praça, separados pelo refluxo dos mais alvoroçados, que não se podendo ter parados um instante, ferviam, à maneira das ondas em torno de abrolhos, e burburinhavam sôfregos de colher pormenores da grande nova.
Desafrontada do paço, que só muitos anos depois devia ser construído, a praça estendia-se até a Rua da Misericórdia, onde se erguera a nova Igreja de São josé3 cuja capela-mor, de recente fábrica, entrava pelo mar adentro.
Do lado oposto, desde o canto da Rua Direita alongava-se um renque de lojas e tercenas, esboço do opulento empório que derramando-se pela várzea, havia de cobrir antes de dois séculos a vasta marinha. No lugar onde mais tarde se edificaram as casas do Teles e o arco, famoso na crônica fluminense, via-se ainda a velha tenda do ferreiro, que dera nome ao lugar.
A face de terra era ocupada pela Capela de Nossa Senhora do Ó e pelos dormitórios dos Carmelitas cuja cerca terminava na Rua da Cadeia. Ainda não existia o templo que hoje serve de capela imperial, erguido um século mais tarde sobre as rumas daquele.
A face do mar descortinava o formoso panorama da baía. Junto à Ilha das Cobras balouçavam-se os galeões da frota próxima a partir para o reino.
Na praia, onde brincavam as ondas, ainda não rechaçadas por cais ou aterro, abicavam de instante a instante as canoas da outra banda e as barcas dos pescadores que tornavam do mar.
Dentro da praça, mas encostada à Igreja de São José, destacava-se a casa da Câmara, com o seu campanário, e as enxovias da cadeia, corridas de um e outro lado do pavimento térreo.
Em frente, a alguns passos de distância, no lugar onde fica atualmente a ucharia imperial, erguia-se o pelourinho, esse padrão do governo da cidade, ao qual o povo chamava cruamente - a polé.
Era justamente em torno da coluna da governança, que se apinhava a multidão, cujas vistas inquietas, desenganando-se de achar na picota qualquer edital da vereança acerca da grande novidade, voltavam-se para as janelas inda fechadas da Casa das Sessões.
Uma canoa de voga acabava de chegar à praia; e dela saltava nas costas do escravo remeiro um velho seco e alto, de rija têmpera, e cujos movimentos vivos e articulados davam-lhe ares de um grande grilo em posição vertical, vestido de garnacha preta, com os competentes calções e meias da mesma cor. Tinha de mais um casquete de abas reviradas, sapatos de cordovão com fivela de prata, e uma desmedida bengala, cujo castão de ouro, representando uma borla doutoral, lhe roçava o queixo adunco, quando a empunhava direita.
Era esse o licenciado João Alves de Figueiredo que aproveitara os dias feriados para refocilar em sua quinta de São Lourenço, à outra banda. Tornando à cidade, e surpreso do alvoroto em que a vinha encontrar, mal pisou em terra, barafustou à cata de novas.
Foi dar em uma pinha de gente, que imprensava-se para ouvir a narrativa do caso, feita por uma voz fanhosa e estrídula.
Pertencia essa fala de arrepiar os nervos, a um sujeito pequeno, rolho, já velhusco, vestido pelo mesmo teor e forma do licenciado, como oficial que era do mesmo ofício. O letrado acompanhava os esguichos nasais da palavra com um acionado consoante; seu gesto oratório mais valente era uma lançada que dava ex-abrupto na cara do auditório, com os dois dedos indicador e máximo, espetados à guisa de sovelão.
Havia seu perigo em escutar de perto um tão valente casuísta; nos momentos de calor seria capaz de vazar um olho, ou esbrugar um dente ao incauto para mostrar-lhe ao vivo a força da sua dialética.
Defronte do orador estava um frade, que pelo hábito negro, os cordões brancos e as alpertacas se conhecia ser dos mendicantes. Era também cheio do corpo, mas de uma obesidade balofa, que não sobressairia tanto, se não fosse a fradesca indolência com que ele se entulhava sobre si mesmo, metendo a cabeça pelos ombros e o ventre pelos quadris.
Com os olhos abotoados e a comer a boca do orador, por vezes tentara o frade tomar-lhe a palavra, e afinal decidiu-se a arrancá-la à viva força. Mas o guincho do letrado lhe retalhara como uma navalha a voz de baixo profundo, por modo que era impossível perceber-se uma sílaba.
Reconhecendo de longe nos dois émulos o Padre-Mestre Frei João de Lemos, da Ordem de São Francisco, e o Bacharel Dionisio Mendes Duro, que fazia profissão de letrado forense, o licenciado desconjuntou-se na guinada do costume, e fendida a mó de gente com um rasgo da enorme bengala, surdiu avante.
Os três sujeitos que ali estavam em trempe, no centro da pinha de gente, eram tidos e havidos pelo bom povo fluminense como as três grandes luminárias da época.
Ao frade, reputavam o primeiro pregador do século. Como o licenciado, não havia outro para decidir o mais intrincado caso in utroque jure. Quanto ao bacharel, esse levava as lampas a qualquer no manejo dos negócios, tanto na audiência como nas cousas da governança.
Tal era a nota e conceito das três respeitáveis cacholas, e tão firmada estava sua voga, que os únicos a discernir eram eles próprios, mas a respeito dos dois outros, porque em relação a si dignavam-se de concordar com o vulgo.
Fr. João de Lemos, além de primeiro pregador, guindava-se à honra de mestre em teologia, e grande sabedor nos cânones, o direito por excelência. Assim, nos dois letrados, via ele apenas uns leigos, com fumaças de doutores.
O licenciado João Alves, acreditando piamente ser um portento na jurisprudência e sem contestação a primeira cabeleira do mundo, tinha o frade e o bacharel na conta de dois rábulas, lardeados de sabença de orelha e latim de algibeira.
Por sua vez o Dionísio Duro apregoava que os seus êmulos não passavam de portadores de bulas falsas, alisadores dos bancos da escola, onde haviam encruado umas letras gordas. Ele, sim, que estudara na prática e era um poço de ciência, capaz de afogar em um espirro a tonsura do frade e a guedelha do licenciado.
Com a súbita chegada de João Alves, estacou o bacharel no meio de uma campanuda digressão.
- Então, qual é a novidade? perguntou o licenciado.
- Pois não sabe? acudiu o frade.
- Se agora ponho pé em terra! ...
- Foi o prelado, que lançou a excomunhão sobre o ouvidor, tornou o bacharel.
- Que me diz?
- Esta manhã, quando o Doutor Pedro de Mustre se ia embarcar para a capitania do Espírito Santo, intimou-lha o Padre Rafael Cardoso, da parte do vigário geral.
- Depois das três admoestações canônicas, concluiu o frade.
- É a praxe; observou os cânones.
- Como ordenam as decretais, corrigiu o licenciado, Mas o porquê do caso é que ainda estou por saber.
- Falam na devassa que tirou o Doutor Pedro de Mustre contra os familiares do prelado no negócio da assuada ao tabelião. Parece que se procedeu injuste et malitiose.
- A devassa foi este seu servo quem a requereu, Sr. Dionísio Duro, como patrono do Sebastião Freire, atalhou o licenciado; e na melhor forma e via de direito, ex vi juris et legis, ut. Ord. liv.. 5º, tít. 48: "Dos que fazem assuadas", etc.
- Que era o caso dela, non est disputandum, tornou o bacharel; mas se o julgador a tirou ab irato, eis o ponto da questão.
- Sem falar da exceção, inímico et suspecto judice, ponderou o padre-mestre, porque o estarem os minorenses de tonsura e hábito ín actu delictis, é de notoriedade pública.
- Suspectus et varicator judex, sr. padre-mestre, seria o ouvidor se não guardasse a ordenação, quando por ela requerido, ou mesmo que o não fosse, pois era o caso de proceder-se ex offício, sicut-Filipina no liv. 5º, tít. 45 § 3, "Mendes a Castro" - Praxe, Parte 1ª, livro 1º, cap. 2º, n. 38, e Senator Sardinha, alegação 96, n. 22, ubi refert judicatum.
O licenciado, erriçando a cabeleira com o castão da bengala, ameaçava despenhar sobre os dois êmulos uma cascata de citações atinentes ao caso, sem esquecer os comentários e castigações dos respectivos doutores. Infelizmente um rebuliço do povo atalhou aquela torrente de erudição forense.
As janelas da casa da Câmara se abriam; e a sineta do campanário anunciou que o Senado da leal cidade de São Sebastião ia entrar em vereação, para deliberar sobre os negócios da república.
Entre os de maior monta que naquele dia tinham de ocupar a atenção dos conselheiros do povo fluminense, avultava o caso gravíssimo da excomunhão do ouvidor.
Quem refletir na disciplina rigorosa que ainda naquela época exercia a Igreja sobre o poder temporal, embora já decaída do que fora em antigas eras, compreenderá quanto a pena severa fulminada contra o primeiro ministro da Justiça de El-Rei, por ele posto na capitania, devia abalar os povos sujeitos à sua jurisdição; e derramar na cidade o terror e a consternação.
Apesar de não ser então a população fluminense como atestam os documentos da época, das mais fervorosas no zelo católico e exemplares na prática do catecismo, todavia dominava na massa geral o respeito tradicional que infundia a religião de seus maiores, e aumentado pela superstição própria daqueles tempos de ignorância.
O conflito que o prelado levantava com a majestade secular, colocava os moradores da terra em colisão terrível, perplexos entre o acatamento que deviam como fiéis às censuras da Igreja,. e a obediência que tinham de guardar como súditos aos ministros da república.
Imagine-se pois a ansiedade com que esperavam todos a junta dos vereadores em Câmara para destrinçar com a parecer dos doutos caso tão abstruso e emaranhado, livrando os povos do perigo iminente de ficarem, ou excomungados ou rebeldes.
A MAIS AFIADA LÍNGUA ENTRE AS FAMOSAS QUE ENTÃO HAVIA NA LEAL CIDADE DE S. SEBASTIÃO
Em outro ponto do rossio, para o lado da Misericórdia, tinha-se formado novo motim de gente, que se apinhava para ouvir os pormenores do caso.
Quem falava era uma velha, de trunfa bem riçada em topete, com a mantilha trançada acima do ombro e repuxada por baixo do braço direito, o qual gesticulava de uma maneira desabrida.
Tinha a regateira uns olhos tão pequenos que pareciam dois caroços de feijão-preto embutidos na testa; as pestanas, as comera a sapiranga que lhe arroxeava as pálpebras. A boca, de bom tamanho, desdentada na frente, em falando, o que era o seu estado habitual, mostrava uma língua fina e ligeira, que espevitava os beiços delgados, como o ferrão de uma vespa devorando por dentro a casca de uma goiaba.
Essa linguinha afiada, que tinha fama de cortar como nenhuma outra na pele do próximo, pertencia à Sra. Pôncia da Encarnação, que fazia vida de regateira; mas não se ocupava de outra cousa senão de espreitar por detrás da rótula o que ia pela rua, para enredar os vizinhos e falar mal da vida alheia.
Fronteiro a ela, e seu atento ouvinte, aparecia o Belmiro, sujeito esgrouvinhado e macilento, com um corpo desengonçado sobre duas pernas de taquari.
As pastas de alvaiade que tinha pelo cabelo ruivo e assanhado, bem como as dedadas de oca e zarcão, apalpadas nas mangas e peitos do gibão de cor indescritível, estavam-lhe denunciando o ofício de pintor.
- Ninguém me tira de que tudo isto não passa de artes daquele capeta, Deus me perdoe, do Garatuja... Sabem? O cujo da Rosalina, que ela chama de enjeitado!... Nanja eu, que engula essa! Ai, a sujeita é matreira! Lá isso é, não tenham dúvida! Como ela arranjou o tal enjeitadinho tão a ponto, que foi mesmo um trás, zás; saiu por uma porta, entrou por outra, e manda El-Rei meu senhor que me conte novas. E o maganão do alferes, que ainda anda na corte requerendo licença para meter-se em matrimônio, e já o filho... Olhem que não sou eu quem diz, a cidade anda cheia... e já o filho quer passar-lhe a perna. Pois não verão frango com gogo? O peralvilho do enjeitado a se derrengar com a filha do tabelião, a Marta! ... Sonsa como ela só! É rapariguinha para dar sota e basto a um seminário inteiro de minoristas, e ainda sobra! De olho só, gentes, não estejam aí a maldar; só de piscar o olho e namorar de janela é que eu falo, que lá do mais não sei!... Enfim eu cá não meto minha mão no fogo por ninguém! Deus me defenda!... Tomara eu poder com os meus pecados, quanto mais ainda por cima carregar lá com a culpa do que os outros fazem!
Ao cabo desta lengalenga, que zunia como uma matraca tangida em ofício de trevas por garoto formigão, tomou a Pôncia respiração, mas para despedir-se em nova parlice.
- A tal rapariguinha... Não digam que foi a Pôncia quem contou. Menos essa, que não quero enredos comigo! A sonsa da Marta anda desinquietando os familiares do prelado. Os minoristas, já se sabe... isso de rapazes perto da cachopa, é como algodão que em lhe tocando fogo, fica logo em labareda!... Mas o Garatuja, como não lhe cheirasse a cousa, lá fez das suas trampolinas, e pregou algum mono à clerezia, a qual se engrilou com o Sebastião Ferreira, e então arrumou-lhe a assuada! Pudera não! Os formigões!... Escrevam, e verão se eu lhes engano. A tramóia toda foi arranjada pelo demônio do Garatuja... Cruzes, filho de Belzebu, engrimanço do porco sujo!... O tabelião e o prelado andam aí vendidos!... Sou capaz de jurar!... Agora se o Almada também está enfeitiçado pela rapariga, e teve algum bate-barba com o tabelião, pelo que assanhou a clerezia contra ele... pode bem ser; não digo que não; mas com certeza o Garatuja andou metido em toda essa embrulhada.
- Ele pode ser, disse o Sr. Belmiro. Aquele rapaz é das Arábias!... Dizem...
Levou o pintor a mão esquerda espalmada ao canto direito da boca, á guisa de empanada, e sombreando a voz concluiu:
- Dizem que tem partes com o demo!...
- E o senhor anda metido com ele, acudiu a Pôncia.
- Pela razão do ofício, que o diabo do rapaz tem jeito para a cousa.
- Vá-se fiando na Virgem e não corra. Um dia, quando estiver desprecatado, ele é capaz de embrulhá-lo nas barafundas do inferno, e pum!... Lá vai! Carrega-o direitinho para as caldeiras do Botelho!... Eu cá, gentes, como por mal de meus pecados moro defronte da arrenegada da mãe, vivo me benzendo! ... A rótula, todo o santo dia que Deus manda, não me fica sem um raminho d'arruda, que é para arredar o mofino, se lhe der na veneta de vir tentar-me!... Credo!... Que só de pensar nisto, estou tremelicando toda por dentro e por fora, que nem passarinha de carneiro!... e um pucarinho d'água benta com seu raminho de alecrim, que todos os domingos trago do colégio, que me dão os bons padres. Santos homens, agarradinhos, é verdade, que nem escorropichado sai daí um tostão!...
Ia continuar a Pôncia, tosando um tanto a pele aos jesuítas, com quem aliás tinha suas privanças; mas agitaram-se outra vez as turmas de gente que cercavam a casa da Câmara por não poderem penetrar no interior, e foi a beguina enrolada em um remoinho, produzido pelo retrocesso da multidão.
Dera causa a esse novo rebuliço a entrada no rossio de um ajuntamento de pessoas, que se encaminhavam em forma de cortejo para o senado fluminense. Traziam todas as roupas talares, de estofo preto, como então usava a gente de justiça; e se não eram rigorosamente conformes aos preceitos da pragmática, não davam escândalo, como acontecia na ocasião de festas e até mesmo em visitas do quotidiano.
O da frente era o ouvidor, e os outros, oficiais da justiça d'El-Rei, por ele postos naquela capitania, que vinham todos unidos em corpo protestar contra a violência inaudita que tinham recebido na pessoa de seu cabeça, o primeiro ministro togado, e presidente da comarca.
Ali ia também o tabelião Sebastião Ferreira Freire, a causa primeira da mitrada que desfechara o prelado sobre a toga do ouvidor, e que ameaçava de grandes calamidades a cidade de São Sebastião.
Enquanto os juizes, vereadores e homens bons assentam em conselho no melhor meio de salvar a república, remontemos nós o curso dos acontecimentos para conhecer as causas do imprevisto sucesso, que pôs em alvoroto a população fluminense.
UM TIPO QUE JÁ NÃO SE ENCONTRA NO TEMPO D'AGORA
A rua do Aleixo Manuel, que só um século depois veio a chamar-se do Ouvidor, quando aí se estabeleceu a residência efetiva do primeiro magistrado da capitania, naquele tempo nem indícios dava da brilhante galeria do luxo e da moda, que se começou a formar com a vinda de El-Rei D. João VI, em 1808.
Muito lhe faltava ainda para merecer o nome de rua, que nem toda a gente lhe dava, dizendo simplesmente: "Para as bandas do Aleixo Manuel". Teria então meia dúzia de casas; o mais eram cercas ou quintais.
Próximo à Travessa do Sucussara, via-se ainda a antiga loja do mercador que primeiro ali morara e donde lhe viera o nome; e fronteiras umas casas de taipa com dois lanços, e quatro janelas de rótulas, como eram quase todas naquele tempo.
O lanço que ficava à direita, para o lado da esquina, era ocupado na frente por um repartimento espaçoso, vestido de alto a baixo, com panos de prateleiras carregadas de autos. Como não bastassem as paredes para acomodar toda a papelada, saíam do meio delas outros renques de prateleiras atravessados, formando uns cubículos estreitos, onde viam-se bancas apinhadas de rimas de processos. Por detrás dessas muralhas de autos arrumadas à guisa de torre, ouvia-se ranger a pena no papel, sinal infalível de que aí estava a rabiscar um escrevente do cartório.
Em uma espécie de nicho que havia para o fundo do aposento, contra a parede interior assentava uma longa banca de pau-santo, sobre seis pés torneados, cada qual mais grosso do que a viga da casa. Como as outras, servia esta mesa de sapata a um castelo de papelório; mas aqui as ameias eram feitas não só com muralhas de autos, mas com baterias de formidáveis bacamartes encadernados em camurça vermelha.
No meio da banca, dentro da cava aberta para acomodar o corpo, surgia um busto de homem, coberto de tabaco e poeira, com um chinó tão escandalosamente ruivo, que já frisava com o vermelho.
Óculos de asas de estanho, trepados no respeitável cavalete, envidraçavam de verde uns olhinhos redondos, vivos, espertos, que pulavam das órbitas como a pupila do molusco. O queixo fino e agudo, à feição do gume de uma fouce revirada, bem como as faces chatas e batidas, pareciam chanfradas em carão de pau, coberto de velho pergaminho.
Constantemente sorvida, certo indício de concentração do espírito, a boca não passava de uma ligeira comissura, que seria imperceptível, se a conformação do rosto não indicasse naquele ponto o hiato da gula.
Às orelhas que não invejariam as de um perdigueiro, no tamanho e nas ouças, servia-lhes de ornato duas penas de ganso que lançando as longas ramas sobre as espáduas, espetavam-lhe na testa os bicos rombos e cobertos com espessa crosta de tinta.
Quando sucedia escarrapachar-se a que estava de serviço ia substituir uma tias duas de reserva nas cantoneiras, provavelmente a mais repousada; assim revezando-se, despejavam-se as três sobre o almaço por modo que as folhas e cadernos de papel desapareciam devorados pelo infatigável gregotim
A parte de mais nota era a mão, que poderia servir de bitola ao palmo craveiro, pois assentando o punho embaixo da página, alcançava-lhe o tope com os bicos da pena encravada nos três dedos, que a apertavam como os cientes de uma tenaz de aço. Encolhendo-se à medida que desciam as regras tia escrita, a tal mão de tarracha só levantava-se da banca para virar a folha com um piparote, enxumbrado da saliva, que o dedo mínimo furtava à boca, mas com a rapidez de um tiro de bodoque. Nestas ocasiões o beiço em constante sinalefa, desabrochava da cesura, graciosamente estofado, como a fava de um chichá.
Era este o dono do cartório, Sebastião Ferreira Freire, tabelião do público, judicial e notas, da cidade de São Sebastião, morador qualificado não só pela importância do cargo, como pelos mais predicados de sua pessoa.
Tudo ali revestia-se do aspecto poento e venerando daquele alfarrábio vivo, encadernado em pergaminho humano. As teias de aranha desciam do teto, formando pelas estantes festões e requififes, com recamos e debuxos de alto bolor. O tinteiro de chumbo, com bocal de vasta dimensão, já desaparecia por baixo do espesso coscorão da borra, que entornando pelo rebordo, lhe mudava a forma chata em funil, onde entrava o tubo da pena até ao meio. Cada penada destas era a conta de uma lauda com quarenta regras, segundo o regimento.
Terminada a página, se a boceta poedeira já não tinha areia, por havê-la consumido o monte de escrita que lá estava sob o calhamaço, não carecia o destemido rabiscador senão de sacudir a esguia cabeça, e caía-lhe da cabeleira pó bastante para matar o borrão.
Esse pó era um misto indescritível em cuja composição entrava, além da parte sutil da terra, os borrões de tinta que se desfaziam de secos, e o esturro da enorme boceta ali posta ao lado.
De instante a instante a mão esquerda descrevia uma espécie de rotação, com a regularidade do pêndulo de uma guíndia. Ressaltava do bordo da mesa onde calcava com um murro o papel; caía a prumo, fincando as costas da boceta na banca, e abrindo a tampa com a unha mestra do polegar, tirava uma pitada tabelioa, que é mais do que doutoral, pitada de três dedos.
Assim carregada com aquela dose formidável de esturro, a respeitável trempe subia direita ao nariz, para abarrotar as ventas que fungavam com estrepitoso ronco. Então, formando chave, os três dedos penteavam a trunfa do chinó, e beliscando rápidos a ponta da língua que o fungo nasal espremia na boquinha, esfregavam as pontas para arredondar a clássica bolota, que voava pelos ares com um piparote da unha mestra.
Em todo este tempo desde que a mão esquerda saía de sua posição habitual até de novo armar-se, em forma de soco, no bordo da mesa, a pena não cessava de esgrimir sobre o papel.
PORQUE O SEBASTIAO FREIRE NÃO FECHAVA MAIS OS OLHOS PARA FAZER O SINAL PÚBLICO
Cada dia que Deus dava, invariavelmente às oito horas de inverno e sete de verão, escanhoado, almoçado e tabaqueado, sentava-se o Sebastião Freire à carteira, e desunhava-se em borrar papel até meio-dia.
À última badalada das doze trocava a banca de escrita pelo bufete onde o esperava o jantar. Terminado este, deitava-se em um catre de couro de veado, que tinha na varanda, e aí fazia o quilo, dormindo a sua sesta.
Despertava da sonata com tal exatidão, que se o relógio da torre do Mosteiro de São Bento, o regulador do horário da cidade naquele tempo, se desconsertasse, não seria preciso tomar-se a meridiana; porque a cabeça pontuda do tabelião espirrava da almofada infalivelmente no momento em que a sombra do ponteiro caía sobre as duas.
Voltava então à banca, e esgrimia de pena até que se fizesse noite na casa do cartório, o que sucedia meia hora mais cedo do que na rua, por causa dos grandes armários que interceptavam a luz.
Concluída a tarefa do dia, com desencargo de consciência por estar cumprida a obrigação, dava o Sebastião Freire sua hora à devoção. Depois de rezar trindades, saía pela vizinhança a, desenferrujar a língua e as pernas, que lhe ficavam um tanto perras. Outras vezes acompanhava a dona e a filha, que iam de visita em casa d'alguma comadre; porém mais freqüentemente à casa da Sra. Romana, sogra do nosso tabelião, e uma das matronas respeitáveis da cidade de São Sebastião, que as tinha outrora de veneranda trunfa.
Esta faina diária somente se alterava nos dias de guarda, que o Sebastião Freire como bom católico reservava ao repouso depois da missa conventual; e nos dias de audiência, em que pela acumulação do judicial estava ele obrigado a assistir ao despacho do ouvidor. Afora estes dias era mais fácil desaparecer da baía o nariz do Corcovado, do que o nariz do tabelião de cima do livro das notas.
Estirando o gregotim pelo papel, não perdia o Sebastião de vista o cartório, e ora um, ora outro, dos olhinhos de azougue, enfrestava-se pela aberta das cangalhas à espreita dos escreventes, que trabalhavam na rasa, cada um em sua banca, atravancada de autos.
Era especialmente quando se preparava para pôr o sinal, que o tabelião aproveitava para a rápida pesquisa do cartório.
O sinal, historiado e vistoso, tinha seu quê de hieróglifo; e para o nosso homem era como um brasão de ofício ou timbre, de que ele se desvanecia. Se lhe coubesse também alguma vez a mercê de hábito, como a estavam dando os governadores por graça de El-Rei, sem dúvida que as armas da família haviam de ser a cópia do sinal público, que autenticava as escrituras lavradas nas notas.
Consistia o dito sinal em um esse gigante, que se enroscava de alto a baixo da página. No centro dessa maiúscula via-se um feixe de riscos sem forma com que o tabelião pretendia representar uma forja, emblema do sobrenome Ferreira. Da extremidade inferior do esse nascia uma letra, a qual depois de cingir a firma se enleava em iam labirinto de voltas, que figuravam as voltas de um escapulário, símbolo do Freire.
O Sebastião Ferreira Freire tinha por timbre fazer o sinal de olhos fechados, para mostrar quanto estava dele senhor, a ponto que mesmo dormindo, se lhe encaixassem a pena nos dedos, seria capaz de traçá-lo de um jacto.
Em chegando a ocasião, aprumava-se o nosso homem sobre o tamborete, esticava o pescoço para trás, e segurando a pena a meio, verticalmente fincava o bico no alto da página final. Nesse momento fechava os olhos, e começava a barafunda com a rapidez da aranha a urdir o fio da sua trama.
Depois de certo tempo, porém, uma novidade se introduzira nos hábitos regrados do tabelião, o que em homem tão pautado e sisudo era para admirar-se. Em vez de fechar de todo os olhos para fazer a cetraria, apenas fingia, e pelos cantos esguichava um olhar de punção para um ângulo do cartório, alvo de sua atenção suspicaz.
Na betesga ou escaninho que formavam ali dois panos de prateleiras, havia uma banca estreita, a única desafroatada das tulhas de autos e bacamartes, e sobre a qual escrevia um rapaz de vinte anos.
Pelos modos conhecia-se que era aprendiz do ofício e tratava de ajeitar-se para tornar-se algum dia um dos moços do tabelião, ou rato do cartório, como dizia pitorescamente o poviléu.
O rosto fresco e rosado que salpicavam as chispas de um sorriso zombeteiro, e a malícia não vesga ou rebuçada, mas louçã e garrida que lhe fervilhava nos olhos travessos, essa flor de uma mocidade isenta e viçosa, não a fanara ainda o bafio do cartório.
Ainda aquela atmosfera poenta não ressequira sua cútis, dando-lhe o tom desbotado do almaço; nem a fadiga da vista lhe tingira de bistre as grandes olheiras como sucedia com seus companheiros em cujo número os havia alias de pouca mais idade.
Era justamente a ausência absoluta dessa máscara de cera que tanto inquietava o tabelião e enchia-lhe o ânimo de suspeitas. Aquela massa não lhe parecia da espécie de que se fazem escreventes; muito curtida e sovada talvez não desse ainda assim para um mau carregador de autos
- Se me sai daqui um dos tais garotos, que vivem a estropiar a escrita pira fazer uns pedaços de regras, que lá eles lhes chamam versos?
Era esse o grande susto do tabelião, que tinha a trova em conta de heresia e estremecia de horror com a idéia de lhe estar dentro do cartório a trasladar-lhe autos e instrumentos, um desses endemoninhados
Uma beata de truz, em desobriga com um fradeco dengoso recendendo a pivete, não o olharia com tamanha desconfiança, receosa de ver surgir lhe debaixo do capuz a munheca do Tinhoso como o Sebastião Ferreira espreitava o rapaz.
Que este não lhe entrara em casa muito de seu agrado, era cousa que logo se percebia. Alguma razão maior houve sem dúvida que levou o tabelião a tomar para seu cartório aquele "filhote de cigano", como o chamava.
Não será demasia, já que estamos em cartório, tirar as inquirições do caso.
COMO SE AJEITAVA UM ENJEITADO NAQUELE SÉCULO PUDICO
A sogra do nosso tabelião, a Sr.a Romana Mência, era apontada entre as pessoas de maior devoção da cidade.
Além do terço que se rezava todas as semanas em sua casa, gostava a devota de fazer o presépio de Natal, e suas novenas pelo correr do ano.
Uma novena naquele tempo fazia as vezes da partida familiar em nossos dias. Emprazavam-se umas tantas famílias do trato e conversa íntima da Sra. Romana com o fim de festejar algum santo por tenção especial.
Armava-se o oratório, tirava-se para a frente a imagem do santo em cuja tenção era a novena, e durante oito dias, e à boca da noite, rezava-se a ladainha. Afinal chegava o dia da festa, em que havia luminárias e outras frandulagens.
Depois da reza, os velhos franceavam contando histórias do bom tempo que não volta, e recordando as rapazias que tinham feito. As devotas de respeito destrinçavam na vida alheia, mas sempre arrenegando dos mexericos dos noveleiros; as meninas fingindo escutar as mães, acompanhavam com o canto do olho os folguedos dos rapazes que saltavam no quintal, atacando foguetes ou fazendo sortes.
Afinal vinha a ceia, forte e suculenta, como precisavam para conciliar o sono os estômagos de nossos avoengos. Em vez do sorvete, chupava-se o excelente ananás e a laranja, e por volta das nove horas estavam todos recolhidos.
Uma das vizinhas da Sra. Romana Mência tinha um enjeitado, que era estudante. Chamava-se o rapaz Ivo do Val, e fora achado uma noite à porta da casa, onde morava então com sua família, como donzela recatada, a Sra. Rosalinda das Neves, que veio a servir-lhe de protetora e mãe de criação.
Boquejou-se, embuste de praguentos, que o enjeitado não era outro senão o fruto dos amores da donzela com um alferes do terço da infantaria, vindo do reino. O oficial prometera casamento; mas para desempenhar-se de sua palavra honrada, esperava a licença de El-Rei, da qual aliás não carecera para o mais que adiantara por conta da futura boda.
Assim não chegando a pedida vênia, impetrada para Lisboa, e avultando à Rosalinda umas esperanças, que já lhe não cabiam no justilho, enquanto lhe minguavam as outras, que dantes lhe enchiam de abundâncias o coração, tomou a mãe da moça as devidas cautelas para tapar a boca aos praguentos.
A moça adoeceu de ruim achaque; e ao cabo de umas tantas semanas, lá em certa noite apareceu na soleira da porta a resmelengar, uma trouxa que não se soube donde vinha. Disse a gente de casa que a trouxera um rebuçado embaixo do ferragoulo, e mal ali pousou, logo deitou a correr.
Quem isso afirmava era a velha, que estava passando o seu rosário bem descansada, quando ouvira um grunhido na porta; e abrindo a rótula depois dos indispensáveis exorcismos e benzimentos, logo pôs em alvoroço a vizinhança, gritando:
- Abrenuntio! Abrenuntio!... Cruzes! Te esconjuro!